Publicado por: Cássia Pires | Novembro 21, 2009

Para pensar

[...] Provocando um outro escândalo, o de dançar pela primeira vez com os pés nus, Isadora introduziu uma inovação cuja fecundidade a dança moderna iria mostrar: os pés, em vez de serem, como no balé clássico, o ponto pelo qual se foge do chão, da gravidade, da realidade, tornam-se, ao contrário, o ponto de contacto essencial com a terra carregada de vida.

Roger Garaudy, no livro Dançar a vida, p.69

Quem me indicou esse livro foi a querida Thaís, do Ponta Perfeita. É o tipo de leitura obrigatória para todas as bailarinas. Ainda não terminei de ler e, sem dúvida, voltarei a falar sobre ele.

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O ballet neste país deveria mostrar que, quando essa forma de arte veio através do Atlântico, foi transformada pela viagem – e ainda está se transformando.

Não seria fantástico se víssemos isso no palco? Se o cenário dos sonhos do Quebra-Nozes pudesse dar lugar à arte que olhamos e sentimos de verdade?

Washington Post, em Breaking Pointe, uma análise sobre as companhias profissionais de dança dos Estados Unidos e a “obrigação” em montar o Quebra-Nozes todos os anos.

Para ler, em inglês, aqui. Quem não souber inglês, o tradutor do Google ajuda a compreender.

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Alguém já parou para pensar sobre o real papel do ballet nos dias de hoje? Por que ele continua existindo? O que ele diz às pessoas de uma maneira geral, não apenas a nós, bailarinas? Qual a sua função artística no nosso tempo? O mais importante não é responder, mas pensar sobre o assunto.

Publicado por: Cássia Pires | Novembro 17, 2009

Duas bailarinas e uma fada açucarada

Para assistir várias vezes e entender as diferenças entre duas bailarinas, separadas por 50 anos, dançando a Variação da Fada Açucarada, do Quebra-Nozes.

Ekaterina Maximova, 1958

Maria Kochetkova, 2008

Antes era leveza e técnica; agora é capacidade física e técnica. Uma bailarina com a estrutura física exigida naquela época, provavelmente, não se sustentaria no mundo do ballet hoje.

Fonte: o excelente @theballetbag, do blog The Ballet Bag.

Publicado por: Cássia Pires | Novembro 16, 2009

O meu reencontro com O lago dos cisnes

O lago dos cisnes foi o primeiro ballet de repertório que assisti. Ainda nem pensava em fazer ballet, mas estava mudando de canal e resolvi parar no programa que acabara de começar. Era uma versão do Bolshoi, com a Svetlana Zakharova como protagonista.

Não sei o que aconteceu, mas peguei birra do ballet e da bailarina em questão. Talvez, ali tenha surgido em mim uma imensa frustração, ver tamanha beleza e não poder dançar. Quem diria…

Até que as coisas mudaram. Primeiro, uma foto da Odile, interpretada pela Uliana Lopatkina. Ela realmente parecia um cisne. No mesmo dia, encontrei um CD do Tchaikovsky, que ganhei há 14 anos, com partes do ballet. Era o momento de dar uma nova chance.

Ontem, assisti ao ballet inteiro novamente. Versão do Teatro Mariinsky (o Ballet Kirov). Adivinha com quem no duplo papel principal? A própria Uliana. Estou emocionada até agora.

Cena do 2º ato, O lago dos cisnes, Mariinsky Theatre (The Kirov Ballet)

A história é linda. Uma mulher-cisne que, para ser libertada de tal encanto, precisa ser amada de verdade. A música alterna entre o vigor e a doçura. Dividido em quatro atos – 1 e 3, coreografado por Marius Petipa, acontece no palácio do príncipe; 2 e 4, coreografado por Lev Ivanov, no lago dos cisnes –, o ballet consegue alternar os focos de ação da história, sem deixá-la enfadonha. Só quem já assistiu a La Bayadère e Giselle sabe como cansa aquela profusão de tutu branco por tanto tempo.

Além disso, nunca vi tantos pas de quatre juntos. E a inventividade e beleza das coreografias? A impressão para quem assiste é que todo mundo do elenco tem o seu momento. Quando a gente menos percebe, corpo de baile se transformou em pas de deux, que virou pas de trois, de repente é pas de six, depois aparece uma variação, mais outra, então o corpo de baile volta. Cisnes grandes, para alegria das bailarinas altas, cisnes pequenos, para alegria das baixinhas. Dança russa, dança espanhola, dança dos leques. Tutus brancos e vestidos lânguidos coloridos. O tutu preto mais lindo que existe. Um bobo da corte que rouba a cena do príncipe. Cisnes negros e cisnes brancos dançando juntos no 4º ato. É lindo demais.

Lamento dizer, mas La Bayadère e Dom Quixote perderam o posto de repertórios preferidos. Agora, o meu grande amor é O lago dos cisnes. Quando terminei de assistir, entendi porque decidi ser bailarina aos 28 anos de idade.

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O repertório completo, em MP3, no Música de Ballet. Para baixar, aqui.
Para assistir ao ballet completo, as 17 partes no YouTube: [1] [2] [3] [4] [5] [6] [7] [8] [9] [10] [11] [12] [13] [14] [15] [16] [17]
Para comprar o DVD, clique aqui.

Publicado por: Cássia Pires | Novembro 11, 2009

Nos dias de frio

Mesmo neste calor absurdo dos últimos dias em São Paulo, olho para a foto e só penso que queria ensaiar Giselle e me vestir assim.

Aurélie Dupont, perfil em Point de Vue

Publicado por: Cássia Pires | Novembro 6, 2009

A diferença entre a sala de aula e o palco

Eu vou completar dois anos e meio de ballet no fim do ano. Três professoras diferentes, três escolas diferentes. Mas acho que só agora eu entendi porque mudei tanto.

Nos últimos dias, ouvi uma porção de vezes os trechos que dançarei. A apresentação será daqui praticamente um mês. Pensando sobre isso, cheguei a uma conclusão que, por enquanto, é como eu me sinto.

Eu gosto mais de fazer aula do que de me apresentar.

Fonte: for the love of ballet

Por favor, sem tomates. Tampouco confisquem a minha carteirinha da associação das bailarinas.

Comigo acontece o seguinte: eu fico feliz nas aulas, até a apresentação. Quando ela acontece, eu não aproveito. Eu me sinto um peixe fora d’água.

Eu já me senti plena no palco: quando fazia teatro e quando me apresentei com dança do ventre e jazz. No ballet, não sei o que acontece, parece que estou no lugar errado e ninguém me avisou.

Já as aulas, eu adoro. Fiz aulas de manhã, à tarde e à noite, mas o meu horário preferido é cedinho. Inexplicavelmente, o horário em que mal funciono. Ano passado, tive aulas aos sábados das 8h às 9h30 por meses. Eu amava. Para mim, era todo um ritual acordar bem cedo, vestir meu uniforme, fazer meu coque, tomar meu café e ir para a aula. Quando terminava, eu sentia que o meu sábado seria muito mais bonito, não importa o que acontecesse no resto do dia. Uma vez, fui me sentindo muito mal, depois de chorar de dor nos ouvidos e na garganta. Dali fui ao médico e passei dois dias de cama. Mas fiz a minha aula.

Já nas apresentações, não sei. Parece que estou indo para a forca. Acho tudo lindo: a música, a coreografia, os figurinos, as coroas. Danço. Parece uma eternidade. Depois encontro mil defeitos e quando assisto ao vídeo tenho um surto interno silencioso. Tempo, ensaios, dinheiro gasto em teatro e figurino, a música tocando direto na cabeça, coreografia passada em qualquer brecha do dia. E cadê o encanto? Quando tudo passa, a sensação de inadequação continua. Talvez eu tenha mudado de escola mais de uma vez por isso, para essa sensação ruim desaparecer. Freud não explica.

Eu me sinto bailarina na aula.
Eu não me sinto bailarina no palco.

Espero que um dia isso passe.

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