Pés machucados para todo mundo ver

Vocês sabem o que é gastura? É uma sensação de mal-estar, náusea, aflição provocada por alguma coisa. É o que eu sinto ao ver fotos de pés machucados de bailarinas.

Há tempos quero escrever a respeito dessa ode ao sofrimento, dessa valorização do corpo maltratado em prol de uma técnica clássica impecável. Outro dia escreverei com calma, mas agora há dois pontos importantes: primeiro, isso não é privilégio de bailarina. O carteiro do meu bairro comentou comigo uma vez o que ele faz ao chegar em casa depois de um dia inteiro caminhando, porque os seus pés ficam estourados. Ele não faz ballet clássico. Segundo, alguém acha que as bailarinas serão mais valorizadas como artistas porque o pé está sangrando? Na minha primeira aula de ponta, realizada sem ponteira, uma parte do meu dedinho do pé direito praticamente saiu de mim. Isso significou que danço ballet? Não, eu mal sabia me equilibrar!

Pés machucados só querem dizer isso, que eles sofreram alguma pressão, atrito ou excesso de treino. Mais nada.

Antes, os pés machucados ficavam restritos às salas de aulas, aos camarins e às coxias. Já vi dedos quebrados,  band-aid tentando esconder pus, e muita gente se gabando por isso. Agora, em tempos de redes sociais, perdi as contas das bolhas estouradas, das gazes ensopadas, dos sangramentos que passaram pelos meus olhos sem que eu pedisse. Ontem mesmo vi uma foto que até agora não saiu da minha cabeça. E isso vem de todos os lados: bailarinas profissionais, estudantes de ballet, editoriais, existe até um livro de fotografias.

Será que não falta um mínimo de bom senso?

Cada qual carrega os seus troféus como quiser. Se há bailarinas que veem nas bolhas estouradas e nos pés sangrando uma vitória, é uma escolha. Mas eu não encaro assim quando é no meu corpo, tampouco gosto de ver isso no corpo alheio. Porém, em qualquer um dos casos, respeito vale para todos e não é necessário que esses troféus sejam esfregados na cara dos outros, especialmente de quem não pediu para vê-los.

Ao contrário do que parece, bolhas e sangramentos não são medidas para uma boa bailarina. Talento e técnica, sim.

Anúncios

Uma aula de ballet em “O corsário”

Agora sim, posso dizer que o ballet clássico voltou aos meus dias. Preciso escrever textos, eu sei, mas tudo bem se hoje eu compartilhar dois vídeos?

As duas coreografias já apareceram no blog, a primeira dançada pela Jurgita Dronina, na época no Het Nationale Ballet/Dutch National Ballet (hoje ela está no The National Ballet of Canada e também dança no English National Ballet) e a outra pela Nina Kaptsova, no Bolshoi Ballet. Hoje, as variações são dançadas em uma montagem do American Ballet Theatre, por duas de suas maiores bailarinas, hoje aposentadas da companhia: Julie Kent (diretora artística do The Washington Ballet) e Paloma Herrera (diretora artística do Balé Estável do Teatro Colón).

Não gosto de dois vídeos na sequência para não deixar a página “pesada”, mas compreendam, é um deleite assisti-los na sequência. Talento, domínio técnico, pernas mais baixas, presença de palco… Dá até um afago no peito, o ballet persiste.

Julie Kent, “Variação de Medora”, O corsário, American Ballet Theatre.
Para assistir com a Jurgita Dronina, aqui.

Paloma Herrera, “Variação de Gulnara”, O corsário, American Ballet Theatre.
Para assistir com a Nina Kaptsova, aqui.

Variação de Effie

Eu gosto de tudo nessa variação: o figurino, a música, a coreografia, a delicadeza. E esse trabalho de pontas? Quem não tem um pleno domínio das pontas, jamais conseguirá dançar bem essa coreografia.

Há algo muito mais importante do que um belo colo de pé: saber o que fazer com ele.

“Variação de Effie”, La sylphide, Ópera de Paris, Melanie Hurel, 2004.

Quem apareceu?

Não posso sequer falar nada, o blog está parado há mais de um mês. Existe um motivo? Sim, a minha falta de vontade.

Por favor, não fujam, continuem a ler. O ballet clássico e eu nos separamos por um período. Sabe quando a gente não se encontra em algo, tampouco se reconhece? Nem era uma coisa especificamente do ballet dos nossos tempos, mas dele como um todo. Enfim, sequer assistia a vídeos com frequência ou acompanhava informações. Fazer aula? Nem lembro mais. A minha barra? Ela em uma das paredes do meu quarto e eu aqui, só ficávamos frente a frente nos dias de limpeza.

Mas algo aconteceu e teremos de nos reencontrar na marra.

Para resumir, há meses sinto uma dor estranha do lado esquerdo do corpo, que inviabiliza meus movimentos de uma certa forma. No começo, pensei na minha postura, quase fui à fisioterapeuta, mas achei melhor passar primeiro em consulta médica. Meses de exames, análises e afins, fui parar no ortopedista. Nada demais, só uns desvios ali, uma vértebra presa acolá. “Vou te mandar para a fisioterapia.”

Fisiterapeuta conhecida, ela cuidou de mim anos atrás. Conversamos, ela viu os raios X e sentenciou: “Cássia, você terá de voltar para o ballet. Não é uma questão de querer ou não, mas pela sua saúde”.

Vaganova rindo de mim?
Petipa zoando com a minha cara?
Margot Fonteyn dizendo “Eu avisei”?

Talvez muitas de vocês nunca tenham passado por esse período de cansaço, de não querer o ballet por perto. Há amores que são constantes, outros são montanha-russa, como entre mim e o ballet clássico.

Enfim, teremos de nos entender. Ou eu volto ao ballet ou o meu corpo continuará se estranhando comigo.

Tentei fugir, mas não adiantou. A vida tem a sua maneira de nos fazer voltar ao caminho.

“A bailarina” na Netflix

Vocês lembram do filme A bailarina (Ballerina, 2016), que estreou no Brasil em janeiro? Pois ele acabou de entrar no catálogo da Netflix!

Foi-se o tempo em que esperávamos tanto entre a estreia nos cinemas, o lançamento em VHS nas locadoras (isso não é do tempo da maioria de vocês!) e  passar na televisão. Ainda bem!

As opções de dublagem são português, inglês e espanhol. Sou só eu ou alguém aí também queria em francês? (Não, eu não sou fluente em francês, mas queria mesmo assim.)

Divirtam-se!