O meu Cupido preferido

Em 2013, publiquei a “Variação do Cupido“, de Dom Quixote, na montagem da Ópera de Paris. A coreografia não varia muito entre as montagens das companhias, e geralmente o figurino lembra um querubim. Na Ópera, não, é um tutu dourado maravilhoso. É o meu figurino preferido, de longe!

Agora, imaginem quando vi esta foto da Dorothée Gilbert como Cupido!

Dorothée Gilbert, Cupido, Dom Quixote, Ópera de Paris. Foto: Svetlana Loboff.

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Mirlitons

Eu sou daquelas pessoas que adora Natal, mas só entra no clima dias depois de dezembro ter começado. Como faltam duas semanas para a data, agora sim estou toda natalina.

Uma das passagens mais conhecidas de O Quebra-Nozes é a “Dança dos mirlitons”. Vocês sabem o que é? As bailarinas sempre aparecem com um na mão, mas confesso, o nome sempre me remete a mirtilo (paciência!). Pois bem, mirliton é uma espécie de flauta, mas as pessoas mais atentas já haviam percebido graças à música.

Essa é uma versão da “Dança dos mirlitons” da montagem de O Quebra-Nozes do Semperoper Ballett. O cenário e o figurino não lembram doce?

“Mirlitons Divertissement”, O Quebra-Nozes, Semperoper Ballett.

 

A importância das meias tonalizadas

A meia-calça rosa é um dos ícones do ballet clássico, só perde para a sapatilha, igualmente rosa. Na pele branca, elas mantêm as linhas do corpo, um dos pontos-chave do ballet.

Um momento: manter as linhas para quem? Como as bailarinas negras ficam nessa história? A Cyndi, querida amiga do blog O meu repertório, escreveu este longo texto sobre as implicações dessa dupla rosa no corpo e na arte dessas bailarinas.

Aproveitem essa aula.

***

Meia-calça rosa…
Cyndi Oliveira, O meu repertório

Esse assunto tava me incomodando há muito tempo. Porque, de tanta coisa que o ballet não me acolhe (ballet não, as pessoas), meia-calça parece o mais simples de resolver.

Mas não é.

Eu não gosto de meia-calça rosa em mim. Não gosto. Ela deixa a linha do corpo dividida, fica numa cor estranha e não me é agradável de olhar. A meia rosa, depois de velha, fica mais puxada para o branco, o que aumenta mais o contraste entre a parte de cima e a de baixo. Dá pra perceber muito bem na Misty (a bailarina negra com mais destaque ultimamente). A meia rosa dá uma encurtada, fica dividida.

Misty Copeland e Jeffrey Cirio, Dom Quixote, American Ballet Theatre. Foto: Rosalie O’Connor. / Misty Copeland, O corsário, American Ballet Theatre. Foto: Rosalie O’Connor.

Meia tonalizada é um amor!

Nas bailarinas de pele mais escura, o contraste é ainda maior. Por exemplo, Michaela DePrince:

Michaela DePrince e Sam Wilson, “grand pas de deux do cisne negro” de O lago dos cisnes. Foto: Matthew Murphy. / Michaela DePrince, O quebra-nozes, Het Nationale Ballet/Dutch National Ballet.

Das pesquisas que fiz, entendi que a meia-calça foi inventada para facilitar os movimentos. Antigamente, lá nas origens e etc, as bailarinas usavam roupas muito pesadas, que gradativamente foram perdendo camadas e comprimento. Muito era usado para esconder o corpo mesmo (normal, né, costumes da época). Quem não conhece a peripécia de Marie Camargo? (muita gente, então tá aqui o link).

Meia-calça também é pra aquecer. E tenho cá pra mim que também é pra esconder os músculos da mulher. Pra permanecer com a aparência frágil e feminina.

Enfim. Das ilustrações que vejo, as meias-calças são brancas. Mas não dá pra saber direito quão fiéis à realidade são essas cores. Outra coisa: ballet é europeu, né, pessoas bem brancas. As mulheres (ricas, obviamente) se cuidavam para manter a pele muito branca. Nessa época, não se via bailarina de outra cor mesmo, então, acredito que a meia-calça era como na ilustração.

Nestes vídeos da Royal, numa série chamada “Ballet Evolved”, dá pra ver como eram os figurinos e roupas para aula. Também tem este aqui que amo. E este link que fala sobre a história da roupa de ballet (tá em inglês, mas dá pra jogar num tradutor maroto). E pra ver em vez de ler: roupas do século 18 e 19.

E hoje?

Aquecer? Sim. Esconder músculo? Não sei. Ser da cor da pele? Não. A menos que você seja branca.

Pessoas dirão: “Ah, mas meia-calça rosa não é da cor da pele de ninguém”. E eu direi: não aqui no Brasil, que é muito difícil ser branquinha com tanto sol e miscigenação, mas olha bailarinas do hemisfério norte. Ih, não tá exatamente da cor? Mas tá uns dois tons abaixo. E se não é rosa, tem a meia-calça salmão, que fica ainda mais perto da cor da pele – da pele branca.

Entendo que as meias foram sempre assim, porque praticamente só houve bailarinas brancas. Praticamente não, a imensa maioria. Esmagadora. Então, num mundo com três, quatro bailarinas negras, uma produção de meias marrons não teria lógica.

Porém, continuar assim é, digamos, “silenciador”.

Há bailarinas negras – poucas, sim – e há estudantes negras. O ballet (as pessoas) vai continuar negando essa existência? Ao produzir apenas meias e sapatilhas que são da cor da pele de apenas um grupo de pessoas, ele (as pessoas) diz que os outros não são importantes.

Isso é notável não só no ballet, mas na sociedade em geral.

Ah, e o argumento “ah, mas bailarina e corpo de baile tem que ser uniforme!” é racista. Você pode usar e não perceber que é racista, mas, analisando, você está dizendo que bailarinas têm que ser todas iguais, e, por consequência, brancas. Claro, né, sempre foram brancas. E dizer que a meia-calça de cor da pele negra vai se destacar demais, você também está dizendo que a cor da pele dos braços e da cabeça vai se destacar demais. Né non? Vamos refletir.

Mas não só de segregação vivem as meias. Algumas marcas vendem meias tonalizadas. Eu já usei a da Só Dança e acho maravilhosa! O tom é lindo. Não é exatamente do tom da minha pele, então ainda tô com cara de quem tá usando meia (se isso é uma reclamação de quem é contra). São seis cores que a Só Dança produz: rosa, salmão, salmão claro, bege claro, bege escuro e caramelo (a minha). A Capezio daqui não contempla, tem rosa, bege e salmão. Já a Capezio gringa tem mais cores: rosa, rosa claro, NUDE (tô vendo esse termo aí, Capezio), “bronzeado”, “bronzeado” claro e caramelo (não tô incluindo cores como preto, branco e coloridas, porque estamos falando de cores de pele).

Eu sei que o Dance Theatre of Harlem usa meias tonalizadas e tem vários tons, mas não sei a marca que eles usam. Dá uma olhadinha na variedade:

Ainda não achei esse tom mais escuro pra comprar! E outra: uma vez, perguntei ao DTH se eles compravam as sapatilhas em tons marrons ou se os bailarinos pintavam TODAS elas. E, adivinha?, pintam TODAS ELAS. Ainda.

Ah, e tem este textinho bem legal (em inglês) sobre a experiência de uma mãe negra comprando meia tonalizada pra filha estudante do DTH =)

Achar sapatilhas tonalizadas é difícil. Só pra ter uma ideia, pesquisando o termo (em inglês) no Google, você só vê sapatilha pra gente branca! Miga, não dá pra defender.

Pois. Na Só Dança, as sapatilhas de meia-ponta são rosa, salmão e bege. O que é estranho, já que eles produzem meias de mais tons. Tipo “Oh, legaaal, tem meia da minha cor! Mas não tem sapatilha que combina então ela é inútil”. A Capezio gringa faz sapatilhas em rosa claro, “bronzeado” claro e NUDE (tô de olho). Já a Bloch passará a produzir sapatilhas em tons marrons, uhuuuuu! (brigada pelo link, Cássia!). Como ela mesma disse, “cabô pancake!”.

Que é bem isso, né?! Não tem da sua cor e você quer/precisa, você pinta. Com pó, pancake, tinta de tecido, base de make, combustível de foguete etc. Na minha antiga escola, o pessoal falava pra comprar sapatilha branca e pintar com uma misturinha de nugget branco e base. Mas eu nunca fiz não.

E eu nunca achei sapatilha de ponta tonalizada pra comprar.

Mas, aí, bem legal, você meia tonalizadinha, pintou a sapatilinha (por enquanto, é isso) chega seu prof e diz: não pode usar, tem que ser o uniforme, tem que ser igual às outras, você vai destacar demais.

E aí? Senta e shora?

Bom, é melhor que levantemos nossas vozes. Como diz aquele meme, “Vamos acordar que as mudanças não se fazem sozinhas”. E não se fazem mesmo! Nós, bailarinos negros, que devemos fazer a mudança. Vamos conversar com donos de academias e professores de ballet, vamos expor nossos argumentos, vamos tocar na ferida, vamos fazer nos enxergarem, vamos compartilhar a linda frase da Michaela: “Nunca tenha medo de ser uma papoula num campo de narcisos”. Então toca aqui quem tá comigo o/

Claro que a vida não é bonita e fácil assim, então a gente vai precisar ter força, porque a gente vai encontrar muita resistência. Mas, um dia, uma bailarina negra não irá se destacar no corpo de baile, porque haverá várias delas. De meia e sapatilha tonalizadas.

E nem um tico da história do ballet se perderá por isso.

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Não, vocês não leram errado.

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“Cássia, eu não tenho Kindle, como posso comprar?”

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Coreografia gravada na memória

Há algumas coreografias de repertórios que ficam tão marcadas em nós, que não conseguimos dissociar música e passos. Ao ouvirmos a música, lembramos dos movimentos. Se virmos os movimentos sem áudio, a música já começa a tocar em nossa mente. Sendo assim, assistir a uma outra coreografia com a mesma música sempre causará estranhamento.

Geralmente, eu gosto de algumas inovações. Por exemplo, essa coregrafia para “O adágio da rosa”, de A Bela Adormecida, criada por Matthew Bourne. Mas hoje eu assisti a uma novidade que estranhei demais! Olhando friamente, gostei bastante, mas é impossível me desapegar da versão mais conhecida. É a coda do sonho de Dom Quixote. Em dado momento, já esperei os vários grand jetés da Dulcinea e da Rainha das Dríades, sem falar na ausência do Cupido.

A coreografia que a maioria conhece é esta. Essa outra é da nova montagem de Dom Quixote, do Semperoper Ballett, com coreografia de Aaron S. Watkin. Além disso, o nome mudou para “O reino de Doña Dulcinea”. É ou não é estranho de assistir?

“O reino de Doña Dulcinea” (The Kingdom of Doña Dulcinea), Dom Quixote, Semperoper Ballett.