Uma exceção

Eu não sou uma grande fã dos vários fouettés nas codas e escrevi sobre o assunto há bastante tempo em “A obsessão pelos 32 fouettés”. Isso não significa que eu não goste do passo em si, pelo contrário. No mesmo texto, falei como ele me encanta na “Variação de Lise”, de La fille mal gardèe.

Bem, mas nada como uma saia rodada para me fazer mudar de ideia, pelo menos por um instante.

O meu figurino preferido é saia rodada, gosto como ela dança com a bailarina e faz parte da coreografia. Sendo assim, na coda do grand pas de deux de Chamas de Paris, os meus olhos brilharam. A combinação de saias e fouettés conseguiu me prender.

Coda, grand pas de deux Chamas de Paris, Ekaterina Krysanova.

Entre o sonho e a dedicação

Geralmente, o primeiro texto do ano é um prenúncio dos caminhos do blog nos próximos meses. No começo do ano passado, eu escrevi sobre a alegria de dançar e assim levei as coisas: as publicações ficaram na superfície, nada de aprofundamento. Foi um “dançar na sala”, por assim dizer, um ano de diversão.

Neste ano, as coisas serão diferentes. Voltarei a questionar, a escrever sobre pontos importantes do ballet clássico, a enxergar o trabalho e a dedicação à dança como os pontos mais importantes de todo esse processo.

Fala-se muito no sonho de ser bailarina, mas nos esquecemos de um detalhe: para sonhar, não é preciso levantar da cama. É um eterno vir a ser. Além disso, a terra dos sonhos é um lugar aconchegante e acolhedor: não existem desilusões, dores, frustrações, repetição. Somos sempre a primeira-bailarina do Bolshoi e os aplausos são todos nossos. A realidade é bem diferente. Para a maioria, não existe papel principal, o palco raramente está presente, os aplausos são para todos, o movimento limpo e preciso acontece em dias de estado de graça. Nisso consiste ser bailarina amadora, a dedicação solitária em que ninguém nos vê.

Eu demorei quatro anos para fazer pirueta e sete anos para fazê-la de maneira limpa (Contei toda a história aqui e ensinei como fazê-la aqui). Até hoje, preciso pensar antes de girar, a pirueta não é um movimento que faz parte do meu corpo. Não adianta imaginar que as coisas cairão do céu, é preciso paciência e treino. Para algumas pessoas, muito treino.

Quem acompanha o blog há bastante tempo, talvez esteja dizendo: “Cássia, sabe quantas vezes você já disse isso?”. Muitas vezes, mas é preciso repetir. Sabe por quê? Ao longo desses quase oito anos escrevendo sobre ballet clássico, tenho notado que a impaciência e a preguiça estão cada vez mais presentes. Todas querem os resultados para ontem, e sem esforço. “Eu faço ballet há três meses e não danço nada? A minha perna alcança a minha cabeça, eu já sou bailarina.” Ballet é dedicação para a vida inteira, moça. Anote para não esquecer.

Uma pessoa pode nascer talentosa para a dança e habilidosa fisicamente, mas não existe uma única bailarina no mundo que assim se tornou sem estudo e dedicação. Pode vasculhar a história da dança nos últimos trezentos anos: não existe. Alguém acha que isso mudará?

Por outro lado, cada pessoa tem o seu caminho. Algumas conseguem resultados rápidos. Outras, nem ao longo de toda a vida. Algumas, depois de muito custo, sobem rapidamente, como é o caso da Léonore Baulac.

Léonore Baulac, sua nomeação para o posto de étoile, 31 de dezembro de 2016, Ópera de Paris. Foto: Svetlana Loboff/OnP.

Ela tentou entrar duas vezes na escola de dança da Ópera de Paris e foi reprovada. Finalmente, conseguiu aos 15 anos e ingressou nas turmas mais avançadas (não seria iniciante nessa idade). Ao se formar, entrou no corpo de baile da companhia. Durante anos, ficou lá na base. Nada de conseguir passar nos exames internos para subir na hierarquia, nem para o próximo posto do corpo de baile. Nada. Até que um dia conseguiu. Passou de novo. Mais uma vez. Depois de três anos, em 31 de dezembro de 2016, foi nomeada nada menos que étoile, ou seja, primeira-bailarina.

Talvez nem ela acredite como tudo aconteceu, mas aconteceu. Enquanto o momento não vinha, ela fez a parte dela e a vida se encarregou do restante. Sendo assim, vamos fazer a nossa parte? Talvez o nosso pote de ouro no fim do arco-íris não seja o posto mais alto de uma companhia, mas pode ser um movimento limpo, uma coreografia bem-feita, um maior conhecimento técnico, uma apresentação no palco. Tanto faz. Da minha parte, enquanto eu puder, as minhas sapatilhas e a minha barra fixa continuarão sendo as minhas companheiras de trabalho e estudo.

Bom 2017 para todas nós!

Quem deve brilhar no fim do ano: alunas ou professoras?

Dezembro é o mês por excelência dos espetáculos de dança. Nas redes sociais, há uma chuva de fotografias e vídeos das apresentações, o que eu acho muito bacana. A alegria e satisfação de quem dançou é evidente.

Eu me apresentei pela última vez em 2009 e contei a experiência em dois textos: “Sobre a minha apresentação de fim de ano” e “Quem é a nossa plateia?”. Eu mal dancei e foi tão desolador que nunca mais quis me apresentar com escolas de dança, mesmo sentindo uma imensa falta do palco. Quem sabe um dia isso mude, mas por enquanto…

Posto isso, vamos à questão: Professoras e professores devem se apresentar nos espetáculos de dança de fim de ano? A meu ver, sim, desde que não sejam protagonistas.

A apresentação de fim de ano é das alunas e dos alunos. Ponto. Isso sequer deveria entrar em discussão. Uns mais, outros menos, mas todos se dedicaram de alguma maneira à dança ao longo de vários meses. Muitas pessoas esperaram ansiosamente para pisar no palco e desembolsaram um alto valor para isso. Se não quiserem analisar o valor pelos seus próprios rendimentos ou da sua família ‒ porque isso é variável, o caro para um é barato para outro ‒ utilizem o salário mínimo como parâmetro, que nos valores atuais é R$ 880,00. Somem figurino, taxa de teatro, convites, outras despesas e analisem.

Agora, imagine gastar tanto dinheiro, convidar sua família e seus amigos, dançar uma coreografia de dois minutos no corpo de baile e ver a sua professora como protagonista. Eu passei por isso. Sabe quando passarei de novo pela mesma experiência? Nunca mais.

Pensei que havia sido um caso isolado, perdido tantos anos atrás, mas estava enganada. Professoras protagonistas nos espetáculos de fim de ano é algo mais comum do que eu imaginava.

Entendo o desejo daquelas que foram profissionais, ou desejaram ser, de serem estrelas em uma oportunidade tão próxima a elas, mas o desejo deve morrer ali, na sala de aula, por uma questão ética e profissional. Professora que deseja o principal holofote no seu rosto deve criar sua própria companhia ou trabalhar em companhias já existentes. No seu ofício educacional, a sua função é outra: ela conduz as alunas e os alunos ao palco, não o toma para si.

“Cássia, eu não me importo em ficar parada fazendo figuração enquanto minha professora dança o grand pas de deux.” Direito seu, mas não queira que todo mundo aceite passar por isso.

Por outro lado, para mim, o palco deve continuar fazendo parte da vida das professoras e dos professores de dança, mas, nesse caso, eles devem ser coadjuvantes. Uma ou duas coreografias estão de bom tamanho. Aliás, acho muito importante assistir à dança daqueles que nos ensinam a dançar.

Uma das melhores soluções que já vi aconteceu durante o primeiro espetáculo do qual participei. A escola de dança onde comecei ministra cursos de várias modalidades. Na última coreografia, todas as professoras e professores se apresentaram ao mesmo tempo. Eu estava na coxia e chorei, porque foi lindo de ver. Todos dançaram, cada qual teve o seu momento, ninguém brilhou mais que ninguém. Foi uma aula no palco de como a professora e a artista podem existir ao mesmo tempo.

Se não for possível ser assim, tudo bem. Só não vale roubar a cena. As alunas e os alunos merecem esse respeito.

Espetáculo “Preciosidades”, professores, Shiva Nataraj, 2007.

Os cinco repertórios obrigatórios

O espetáculo está prestes a começar. Enquanto isso, duas bailarinas conversam na coxia:
– Há um repertório pelo qual sou apaixonada, uma das cenas mais incríveis é quando Giselle…
– Giselle?

Essa cena realmente aconteceu. Sim, uma das bailarinas não sabia quem é Giselle. Não, ela não era profissional, era uma estudante de ballet, mas eu me pergunto: não deveria uma estudante conhecer minimamente o básico dos ballets de repertório?

Nesses anos de blog, reconheço o quanto insisto que bailarinas devem estudar. Isso é tão claro para mim que me admira quem diz o contrário. O ballet clássico não existe em si, há um propósito: dançar. Esse dançar vai além dos movimentos, ele carrega consigo toda uma bagagem técnica, histórica e artística. Não parece óbvio? Para as profissionais, sempre foi, para as amadoras, nem tanto. Tenho visto que ele se transformou em uma prática física com um pouco mais de glamour. É bonito posar de bailarina, quem não se sente linda?, mas ser bailarina é outra história.

Não serei a patrulheira, o ballet clássico não me pertence, cada qual faça dele o que quiser. Mas quem deseja ir além, vamos aos repertórios.

Há bastante tempo, expliquei o significado de repertório. Uma de suas acepções, de acordo com Vera Aragão, no curso Composição Coreográfica para Ballet, é:

“Em relação à dança, repertório é o conjunto de obras que, reunidas a partir de determinados critérios, continuam a ser encenadas, remontadas por diversas companhias ao redor do mundo e, mesmo décadas ou séculos após a morte de seus autores, continuam a gerar interesse do público que as assistem. Essas obras formam o acervo de uma companhia. Assim, repertório está ligado à permanência e à universalidade.”

Para mim, há cinco repertórios obrigatórios para quem estuda ballet clássico. Claro, é importante conhecer o maior número possível deles, mas esses devem fazer parte de nós como grandes amigos: conhecer a história, ter familiaridade com as músicas das passagens mais importantes, saber alguns passos das principais coreografias, reconhecer as personagens ao ouvir seu nome. Não precisa ser especialista, tampouco assistir a dezenas de montagens, mas compreender que os repertórios são tão importantes para o ballet quanto a técnica clássica.

Falarei brevemente os motivos pelos quais escolhi esses cinco e vou inserir links do Vídeos de Ballet Clássico, da querida Julimel. No seu blog, ela explica os repertórios, conta várias particularidades, além de publicar montagens de diversas companhias. Agora, não tem desculpa.

O lago dos cisnes

O repertório por excelência, O lago dos cisnes é sinônimo de ballet clássico: dificilmente alguma companhia não o montou pelo menos uma vez. Odette (cisne branco), Odile (cisne negro), Rothbart e Siegfried são as personagens principais, além da importância do conjunto de cisnes. Os primeiros acordes do prólogo nos fazem suspirar. É importante conhecer as sequências do entrance de Odette e Odile e suas respectivas variações, o pas d’action e a coda do segundo ato, o pas de quatre dos pequenos cisnes, o grand pas de deux do terceiro ato e outras tantas sequências. Quem sabe, escolher um cisne preferido, se identificar com um deles e chorar no final (não importa qual, pois eles diferem em algumas montagens). E, depois disso tudo, nunca mais olhar um cisne com os mesmos olhos.

Todos os posts do blog sobre O lago dos cisnes, aqui.
Para conhecer a história e assistir às montagens, aqui.

Giselle

Auge do período romântico, um marco na história da dança, esse repertório foi responsável por elevar bailarinas ao status de estrela. Várias delas têm nessa camponesa o seu grande papel. Giselle, Albrecht, Hilarion e Myrtha são personagens que devemos conhecer muito bem; sem falar nas variações de Giselle, do primeiro e do segundo ato, o “Peasant Pas de Deux”, a morte de Hilarion, o pas de deux do segundo ato, as wilis e seus arabesques alinhados e na mesma respiração, e o momento mais emocionante, o enfrentamento entre Giselle e Myrtha para proteger Albrecht. Por fim, o tutu romântico tem em Giselle sua perfeita definição.

Todos os posts do blog sobre Giselle, aqui.
Para conhecer a história e assistir às montagens, aqui.

A Bela Adormecida

Outro marco na história da dança, é o ponto máximo dos repertórios. Reza a lenda que Marius Petipa desenvolveu a coreografia quase ao mesmo tempo da criação musical de Tchaikovsky, foram feitas em conjunto, por isso tamanha sincronia. As mudanças coreográficas aconteceram em todos os repertórios ao longo do tempo, mas talvez  e isso é pura percepção  A Bela Adormecida tenha sido o repertório que sofreu menos modificações.

O conto de fadas veio da infância, mas só no ballet nós temos a alegria do entrance de Aurora, a beleza do “Adágio da rosa”, as fadas do nosso imaginário dançando juntas e sozinhas em suas variações, o grand pas de deux do terceiro ato que beira a perfeição, os coadjuvantes encantadores do “Grand pas de deux do Pássaro Azul”. É o ballet clássico em toda sua magnitude.

Todos os posts do blog sobre A Bela Adormecida, aqui.
Para conhecer a história e assistir a várias montagens, aqui.

O Quebra-Nozes

Não existe Natal para bailarinas e bailarinos sem ele. Montado em companhias ao redor do mundo durante as festividades de fim de ano, inclusive no Brasil, várias músicas são mais próximas de nós do que “Jingle Bells”. Os primeiros acordes da “Variação da Fada Açucarada” despertam nossa memória afetiva. A “Valsa das Flores” é praticamente o batismo de toda bailarina novata; assim como eu, aposto que várias de vocês também a dançaram. É o lado doce e encantador da infância traduzido pelo ballet clássico. A Clara somos nós quando crianças.

Todos os posts do blog sobre O Quebra-Nozes, aqui.
Para conhecer a história e assistir às montagens, aqui.

Dom Quixote

Ele não é sinônimo de ballet clássico. Ele não é um marco na história da dança. Ele não é o ponto máximo dos repertórios. Ele não é a personificação do Natal. Por que então conhecer Dom Quixote? Inspirado na obra de Miguel de Cervantes, é um dos ballets mais montados no mundo. Não falo apenas de companhias de dança, mas em escolas também. Quem nunca assistiu ao grand pas de deux do casamento? Quem não conhece a “Variação de Kitri”, em várias versões, ou o seu desafio? Sem falar na delicadeza da cena do sonho ou da “Variação do Cupido”. Longe daquela melancolia tão característica de O lago dos cisnes e Giselle, os dois repertórios mais conhecidos, Dom Quixote tem a alegria em sua essência.

Todos os posts do blog sobre Dom Quixote, aqui.
Para conhecer a história e assistir às montagens, aqui.

Passada a fase obrigatória, quem quiser conhecer mais repertórios: A filha do faraó, Coppélia, Esmeralda, La bayadère, La fille mal gardèe, La sylphide, O corsário, Paquita, Raymonda. Esqueci de algum repertório importante?

Se alguém discordar da minha lista, sinta-se à vontade para refazê-la e expor os seus motivos. É sempre bom trocar informações e opiniões.

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Observação: Bom seria eu inserir links em todas as menções dos repertórios, tanto das músicas quanto das coreografias, mas a coisa mais normal no YouTube é retirarem vídeos do ar. Várias vezes eu repus links em posts anteriores, mas não consigo atualizar como deveria. Sabendo disso, resolvi não inseri-los neste texto porque são vários, mas todas as menções são bem fáceis de serem encontradas em uma busca rápida pela internet afora.