Menção honrosa

Nos comentários do post “As bailarinas negras e o ballet clássico“, a Julimel me falou sobre a bailarina Marisa Lopez. Ela foi primeira-bailarina do Het Nationale Ballet/Dutch National Ballet e se aposentou em 2012, depois de 14 anos de carreira na companhia.

A Marisa Lopez deveria estar naquele texto, mas infelizmente eu não a conhecia. Não vou mexer no que está escrito, mas não deixarei passar. Assistam ao vídeo-tributo feito pela companhia. Fiquei arrepiada ao vê-la dançar. Linda é pouco!

Tributo a Marisa Lopez, Het Nationale Ballet/Dutch National Ballet, 2012.

Bolero, Ravel e Bolshoi

Estou em um momento vídeos antigos, volta e meia algumas preciosidades surgem na minha frente. Hoje foi esta gravação do Bolshoi Ballet dançando “Bolero”, de Ravel. Poderia ser flamenco, mas é dança caráter. Que coisa mais linda!

Ravel’s Bolero, Bolshoi Ballet, Sergei Radchenko, Elena Kholina, Alexander Lavreniuk, 1967.

Na pele

Ano passado eu expliquei como seriam os posts sobre as bailarinas negras e o ballet clássico. Ontem publiquei o meu texto, que pode ser lido aqui. Hoje será o texto da Cyndi Oliveira, do blog O meu repertório, contando as suas experiências.

* * *

Na pele, por Cyndi Oliveira

Comigo, o preconceito sempre foi mais disfarçado. Talvez por não ter traços negros tão fortes, ou por isso de o preconceito ser uma coisa totalmente errada e as pessoas disfarçam seu racismo ao máximo e tentam escondê-lo, mas ele ainda tá lá. Eu sinto racismo nos buracos desse disfarce.

Está num figurino “cor da pele, nude”, mas como a maioria é branca, vamos fazer o de todo mundo bege (ficou super cor da minha pele, valeu mesmo). Está na meia-calça rosa ou salmão, que mais se aproxima da cor de pele europeia do que a negra (aliás, divide as linhas da bailarina negra, tira a unidade do corpo). Está na alça do figurino que, de novo, é da cor da pele da maioria (vai me dizer que eu paguei por um figurino feito sob medida e a alça, que tem que ficar “invisível”, não vem personalizada também?) Está no “mas você vai dançar esse papel?” quando o papel é sempre feito por uma bailarina branca (a menos que você dance a parte árabe de Quebra-nozes, todos os papéis são basicamente por pessoas brancas). Está no argumento absurdo que corpo de baile tem que ser homogêneo, e uma bailarina negra vai se destacar demais e chamar atenção.

Bem, essas são minhas experiências, mas com certeza muitas bailarinas negras já passaram por alguns desses casos, até pior. Um racismo bem mais intenso mesmo.

Exemplos? Michaela DePrince, aos 8 anos, foi impedida alguns dias antes de dançar Clara, de Quebra-Nozes, porque a América não estava preparada para uma bailarina negra, ou as várias audições que ela fez, ficou nos tops e não recebeu propostas. Precious Adams e todo racismo enfrentado na escola do Bolshoi e castings. Misty Copeland e sua história de vida. Ou a de Aesha Ash. Bailarinas negras que vivem eternamente no corpo de baile, isso SE conseguem chegar lá, e são absurdamente menos escaladas que bailarinas brancas.

Quando eu vejo uma bailarina negra com destaque em uma companhia de ballet, eu grito, choro, fico emocionadíssima. O que deveria ser normal e rotineiro é motivo de festa, porque é muito raro. E isso principalmente com mulheres.

Como a mãe da Michaela bem disse, uma bailarina negra tem que ser 10 vezes melhor que uma branca pra ter ao menos uma chance.

Precisamos saber que nossos sonhos não são inalcançáveis. Precisamos de exemplos. Precisamos de mais diversidade no ballet.

As bailarinas negras e o ballet clássico

“Uma vez ela perguntou assim: ‘Qual é a chance de uma bailarina negra no Brasil pro Teatro Municipal do Rio de Janeiro?’. Eu falei: ‘Nenhuma, querida. Mas eu vou te ajudar pra você ir para uma companhia estrangeira’.”

Mariza Estrella, diretora do Centro de Dança Rio, no documentário “Only When I Dance”, sobre uma conversa com a bailarina brasileira Isabela Coracy.

Independentemente do talento, da vocação, das habilidades físicas, uma bailarina não pode sonhar com o mais alto posto da maior companhia de dança clássica do seu país por causa da cor da sua pele. Qual é o nome disso?

Muitas vezes camuflado por outras denominações, a ausência de bailarinas negras nos altos postos das grandes companhias de dança nada mais é do que racismo. Há pouco mais de um ano, fiz uma pesquisa sobre companhias dos cinco continentes (aqui e aqui). Não há uma única primeira-bailarina negra nas grandes companhias de dança ao redor do mundo. Nenhuma.

Por favor, guardem para si as justificativas, pois todas elas podem ser facilmente refutadas. Na dúvida, releiam o começo do texto. Não importa quantas barreiras serão transpostas para uma menina negra tornar-se bailarina clássica profissional. Mesmo que ela chegue lá no topo, alguém lhe dirá, ainda que indiretamente: “Sinto muito, aqui não é o seu lugar”.

Bailarinas em Ruanda. Fonte: This is Africa, Our Africa.

Durante quase dois anos, mantive uma página do blog no Facebook. Essa foto foi a mais curtida, compartilhada e comentada. Todo mundo se desmanchou de amor por essas pequenas bailarinas. Mas o que acontece quando elas crescem? O encanto acaba? Fazer ballet quando criança tudo bem, mas querer ser profissional já é demais? As princesas, as fadas, as camponesas não foram feitas para as mulheres negras? É isso o que o ballet vem dizendo há 300 anos.

Jenelle Figgins, em Gloria, Dance Theatre of Harlem. Foto: Matthew Murphy.

O racismo é estrutural, ele cresceu e criou raízes nas entranhas da sociedade. Alguém diz que não é racista, mas torce o nariz ao ver uma Giselle negra. Profere discursos sobre igualdade racial, mas em uma audição para escolher a mais nova bailarina da companhia, escolhe a branca em detrimento da negra, mesmo que as duas estejam em iguais condições artísticas. É professora de ballet e sorri docemente para todas as alunas, mas jamais coloca a melhor bailarina da turma no papel principal porque ela é negra. O sonho morre naquelas pequeninas da foto, que se sentem princesas quando meninas, mas adultas não poderão ser Aurora.

Mesmo com todos os nãos, estas são algumas bailarinas que ultrapassaram essa barreira e fizeram história.

Da esquerda para a direita: Janet Collins, Raven Wilkinson, Lauren Anderson, Aesha Ash.

Janet Collins foi a primeira bailarina negra a dançar no The Metropolitan Opera, em Nova York, mas antes havia passado na audição para o Ballet Russe de Monte Carlo. Não integrou a companhia, porque teria de pintar a pele de branco para se apresentar.

Raven Wilkinson foi uma das primeiras bailarinas negras dos Estados Unidos a integrar uma companhia, justamente, o Ballet Russe de Montecarlo. Acabou abandonando a carreira por causa dos constantes ataques que os bailarinos sofriam por causa de sua presença. Ela contou sua história no documentário “Ballets Russes”, de 2005.

Lauren Anderson foi a primeira bailarina negra a alcançar o topo de uma companhia, foi primeira-bailarina do Houston Ballet de 1990 a 2007. Depois da aposentadoria, continuou trabalhando no Houston Ballet e dá aulas como convidada em companhias ao redor do mundo.

Aesha Ash fez parte do New York City Ballet, mas acabou sendo praticamente convidada a se retirar da companhia e seguiu carreira no Béjart Ballet Lausanne e Alonzo King LINES Ballet.

Elas abriram caminhos para outras bailarinas que hoje conseguem uma notoriedade que suas antepassadas nem sempre conseguiram.

Da esquerda para a direita: Misty Copeland, Céline Gittens, Michaela DePrince, Precious Adams.

Misty Copeland, solista do American Ballet Theatre, é a mais influente. Além de ser uma grande artista, ela trabalha ativamente pelo espaço das bailarinas negras na dança profissional e é responsável pelo empoderamento de milhares de meninas. É raro alguém do meio não conhecê-la.

Céline Gittens é solista do Birmingham Royal Ballet. Em 2012, ela e Tyrone Singleton foram os primeiros bailarinos negros a dançarem juntos na Inglaterra os papéis principais de “O lago dos cisnes”. Esse repertório existe há quase 150 anos. Agora, façam as contas de quanto tempo demorou para isso acontecer.

Michaela DePrince participou do documentário “The First Position” e sua história ganhou o mundo. No começo, isso ofuscou o seu talento, mas depois de integrar a companhia júnior do Het Nationale Ballet/Dutch National Ballet, aos poucos trocaram a história da sua vida pela sua carreira artística. Ela já subiu um posto e está quase no corpo de baile da companhia.

Precious Adams estudou no The Bolshoi Ballet Academy, na Rússia, e ouviu de um professor para deixar a sala por ser negra. Também disseram para ela lavar a pele, para a cor sair. Em uma daquelas belas surpresas da vida, foi uma das vencedoras do Prix de Lausanne, ficou em segundo lugar, conseguiu uma bolsa de estudos e hoje faz parte do corpo de baile do English National Ballet. Talvez esse tenha sido um dos maiores avanços no mundo do ballet em relação ao racismo.

Precious Adams, “Variação de Aurora”, terceiro ato, Prix de Lausanne 2014.

Eu me concentrei nas bailarinas porque elas são o nosso espelho: escolhemos as nossas preferidas e queremos ser iguais a elas. Além do mais, as mulheres negras sofrem duplamente, pelo racismo e pelo machismo. Isso não significa que bailarinos negros não passem por uma série de percalços, mas encontrá-los no topo da hierarquia é mais fácil. Carlos Acosta é um deles.

Também é importante ressaltar o trabalho de algumas companhias formadas basicamente por bailarinas negras e bailarinos negros, como o Dance Theatre of Harlem e o Ballet Black. A Alonzo King LINES Ballet mantém um elenco misto, que deveria servir de modelo para todas as outras. A qualidade artística dessas companhias é de encher os olhos.

Por fim, e a Isabela Coracy? Depois de passar pela Companhia Brasileira de Ballet, São Paulo Companhia de Dança e Companhia de Dança Deborah Colker, ela é bailarina do Black Ballet.

Ainda há um longo caminho para o racismo acabar. Para isso, é necessário um trabalho conjunto, de educação e de reconhecimento de privilégios que não deveriam existir. O protagonismo dessa luta sempre será das pessoas negras, mas a responsabilidade é de todos. Para que nunca mais uma menina negra ouça que não pode ser primeira-bailarina do Teatro Municipal do Rio de Janeiro pelo simples fato de ser quem é.

Para mais informações:

Vídeos

“Blacks in Ballet”, vídeo em inglês, aqui.
“Being a Black Dancer”, Misty Copeland, vídeo em inglês, aqui.
“Black Woman in Classical Ballet”, mesa redonda com Virginia Johnson, Raven Wilkinson, Misty Copeland e Ashley Murphy, vídeo em inglês, aqui.

Matérias

“Where Are All the Black Swans”, matéria do The New York Times, em inglês, aqui.
“Where Are All the Black Swans”, matéria da Pointe Magazine, em inglês, aqui.

Entrevistas

Ashley Murphy, Ebony Williams e Misty Copeland para a Pointe Magazine, em inglês, aqui.
Misty Copeland para o The Huffington Post, em inglês, aqui.
Lauren Anderson para o Dances avec la plume, em francês, aqui.
Lauren Anderson para o Ballerina Guru, em inglês, aqui.
Raven Wilkinson para a Pointe Magazine, em inglês, aqui.

Texto

“Na pele”, texto de Cyndi Oliveira, aqui.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 529 outros seguidores