Basílio e as amigas de Kitri

Toda vez que assisto a esse pas de trois, eu só consigo prestar atenção numa pessoa: Mikhail Baryshnikov. Que homem, que bailarino, que artista!

“Basílio e as amigas de Kitri”, Dom Quixote, American Ballet Theatre, 1983.

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Observação: Aproveitando o ensejo, eu respondi todos os comentários feitos desde agosto de 2016. Desculpem a demora! Se alguém perguntou algo nesse período, corre lá para ler.

Entre o sonho e a dedicação

Geralmente, o primeiro texto do ano é um prenúncio dos caminhos do blog nos próximos meses. No começo do ano passado, eu escrevi sobre a alegria de dançar e assim levei as coisas: as publicações ficaram na superfície, nada de aprofundamento. Foi um “dançar na sala”, por assim dizer, um ano de diversão.

Neste ano, as coisas serão diferentes. Voltarei a questionar, a escrever sobre pontos importantes do ballet clássico, a enxergar o trabalho e a dedicação à dança como os pontos mais importantes de todo esse processo.

Fala-se muito no sonho de ser bailarina, mas nos esquecemos de um detalhe: para sonhar, não é preciso levantar da cama. É um eterno vir a ser. Além disso, a terra dos sonhos é um lugar aconchegante e acolhedor: não existem desilusões, dores, frustrações, repetição. Somos sempre a primeira-bailarina do Bolshoi e os aplausos são todos nossos. A realidade é bem diferente. Para a maioria, não existe papel principal, o palco raramente está presente, os aplausos são para todos, o movimento limpo e preciso acontece em dias de estado de graça. Nisso consiste ser bailarina amadora, a dedicação solitária em que ninguém nos vê.

Eu demorei quatro anos para fazer pirueta e sete anos para fazê-la de maneira limpa (Contei toda a história aqui e ensinei como fazê-la aqui). Até hoje, preciso pensar antes de girar, a pirueta não é um movimento que faz parte do meu corpo. Não adianta imaginar que as coisas cairão do céu, é preciso paciência e treino. Para algumas pessoas, muito treino.

Quem acompanha o blog há bastante tempo, talvez esteja dizendo: “Cássia, sabe quantas vezes você já disse isso?”. Muitas vezes, mas é preciso repetir. Sabe por quê? Ao longo desses quase oito anos escrevendo sobre ballet clássico, tenho notado que a impaciência e a preguiça estão cada vez mais presentes. Todas querem os resultados para ontem, e sem esforço. “Eu faço ballet há três meses e não danço nada? A minha perna alcança a minha cabeça, eu já sou bailarina.” Ballet é dedicação para a vida inteira, moça. Anote para não esquecer.

Uma pessoa pode nascer talentosa para a dança e habilidosa fisicamente, mas não existe uma única bailarina no mundo que assim se tornou sem estudo e dedicação. Pode vasculhar a história da dança nos últimos trezentos anos: não existe. Alguém acha que isso mudará?

Por outro lado, cada pessoa tem o seu caminho. Algumas conseguem resultados rápidos. Outras, nem ao longo de toda a vida. Algumas, depois de muito custo, sobem rapidamente, como é o caso da Léonore Baulac.

Léonore Baulac, sua nomeação para o posto de étoile, 31 de dezembro de 2016, Ópera de Paris. Foto: Svetlana Loboff/OnP.

Ela tentou entrar duas vezes na escola de dança da Ópera de Paris e foi reprovada. Finalmente, conseguiu aos 15 anos e ingressou nas turmas mais avançadas (não seria iniciante nessa idade). Ao se formar, entrou no corpo de baile da companhia. Durante anos, ficou lá na base. Nada de conseguir passar nos exames internos para subir na hierarquia, nem para o próximo posto do corpo de baile. Nada. Até que um dia conseguiu. Passou de novo. Mais uma vez. Depois de três anos, em 31 de dezembro de 2016, foi nomeada nada menos que étoile, ou seja, primeira-bailarina.

Talvez nem ela acredite como tudo aconteceu, mas aconteceu. Enquanto o momento não vinha, ela fez a parte dela e a vida se encarregou do restante. Sendo assim, vamos fazer a nossa parte? Talvez o nosso pote de ouro no fim do arco-íris não seja o posto mais alto de uma companhia, mas pode ser um movimento limpo, uma coreografia bem-feita, um maior conhecimento técnico, uma apresentação no palco. Tanto faz. Da minha parte, enquanto eu puder, as minhas sapatilhas e a minha barra fixa continuarão sendo as minhas companheiras de trabalho e estudo.

Bom 2017 para todas nós!

Para agradecer

Para o mundo, o ano de 2016 não pode ser resumido em uma palavra, mas como foi difícil! Para cada um de nós, nossas histórias nos levaram para caminhos bons, ruins ou nem tanto; há quem teve um ano lindo, há quem teve um ano triste, há quem não está nem lá nem cá, mas, no fim das contas, chegamos todos até aqui. Só por isso, vamos celebrar.

Assim, escolhi uma variação doce, alegre e encantadora simplesmente para agradecer.

Nos vemos logo ali, em 2017.

“Variação do Baile”, Cinderella, Het Nationale Ballet/Dutch National Ballet, Jurgita Dronina, 2014.

Quem deve brilhar no fim do ano: alunas ou professoras?

Dezembro é o mês por excelência dos espetáculos de dança. Nas redes sociais, há uma chuva de fotografias e vídeos das apresentações, o que eu acho muito bacana. A alegria e satisfação de quem dançou é evidente.

Eu me apresentei pela última vez em 2009 e contei a experiência em dois textos: “Sobre a minha apresentação de fim de ano” e “Quem é a nossa plateia?”. Eu mal dancei e foi tão desolador que nunca mais quis me apresentar com escolas de dança, mesmo sentindo uma imensa falta do palco. Quem sabe um dia isso mude, mas por enquanto…

Posto isso, vamos à questão: Professoras e professores devem se apresentar nos espetáculos de dança de fim de ano? A meu ver, sim, desde que não sejam protagonistas.

A apresentação de fim de ano é das alunas e dos alunos. Ponto. Isso sequer deveria entrar em discussão. Uns mais, outros menos, mas todos se dedicaram de alguma maneira à dança ao longo de vários meses. Muitas pessoas esperaram ansiosamente para pisar no palco e desembolsaram um alto valor para isso. Se não quiserem analisar o valor pelos seus próprios rendimentos ou da sua família ‒ porque isso é variável, o caro para um é barato para outro ‒ utilizem o salário mínimo como parâmetro, que nos valores atuais é R$ 880,00. Somem figurino, taxa de teatro, convites, outras despesas e analisem.

Agora, imagine gastar tanto dinheiro, convidar sua família e seus amigos, dançar uma coreografia de dois minutos no corpo de baile e ver a sua professora como protagonista. Eu passei por isso. Sabe quando passarei de novo pela mesma experiência? Nunca mais.

Pensei que havia sido um caso isolado, perdido tantos anos atrás, mas estava enganada. Professoras protagonistas nos espetáculos de fim de ano é algo mais comum do que eu imaginava.

Entendo o desejo daquelas que foram profissionais, ou desejaram ser, de serem estrelas em uma oportunidade tão próxima a elas, mas o desejo deve morrer ali, na sala de aula, por uma questão ética e profissional. Professora que deseja o principal holofote no seu rosto deve criar sua própria companhia ou trabalhar em companhias já existentes. No seu ofício educacional, a sua função é outra: ela conduz as alunas e os alunos ao palco, não o toma para si.

“Cássia, eu não me importo em ficar parada fazendo figuração enquanto minha professora dança o grand pas de deux.” Direito seu, mas não queira que todo mundo aceite passar por isso.

Por outro lado, para mim, o palco deve continuar fazendo parte da vida das professoras e dos professores de dança, mas, nesse caso, eles devem ser coadjuvantes. Uma ou duas coreografias estão de bom tamanho. Aliás, acho muito importante assistir à dança daqueles que nos ensinam a dançar.

Uma das melhores soluções que já vi aconteceu durante o primeiro espetáculo do qual participei. A escola de dança onde comecei ministra cursos de várias modalidades. Na última coreografia, todas as professoras e professores se apresentaram ao mesmo tempo. Eu estava na coxia e chorei, porque foi lindo de ver. Todos dançaram, cada qual teve o seu momento, ninguém brilhou mais que ninguém. Foi uma aula no palco de como a professora e a artista podem existir ao mesmo tempo.

Se não for possível ser assim, tudo bem. Só não vale roubar a cena. As alunas e os alunos merecem esse respeito.

Espetáculo “Preciosidades”, professores, Shiva Nataraj, 2007.