Palavra Cantada

A música “Balé”, da Palavra Cantada, é uma graça! A gente ouve uma vez e cantarola por dias seguidos.

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Pisar no chão com a ponta do pé
Tocar o céu com a palma da mão
Manter ereta a postura
Amolecer a cintura
Balé precisa de dedicação

O bê-a-bá é o pas de bourrée
Depois vem o pas de deux, dois plié
Nasci pra ser bailarina
É só por a sapatilha
Já sinto bater o meu coração

Papai um dia me deu um conselho
Treinar sozinha na frente do espelho
Às vezes sonho que estou dando um salto
E caio bem no meio de um palco

Tocar o céu com a ponta do pé
Pisar no chão com a palma da mão
Com longos alongamentos
O corpo é um instrumento
Balé precisa de dedicação

“Balé”, Pé com Pé, da Palavra Cantada.

Uma coisa em detrimento da outra

Há alguns anos, em uma aula de ballet, uma das alunas reclamou de dor porque havia ensaiado muitas horas no dia anterior. Eu olhei para ela e disse: “Quer moleza, faça meditação”. Todas riram, virou piada até o fim do ano.

Anos depois, eu li “Comer, rezar, amar”, de Elizabeth Gilbert. Não torçam o nariz, o livro é incrível. Ao contar sobre o seu período na Índia, a autora fala sobre as suas experiências na prática de meditação. Um dia, resolvi tentar. Não deu cinco minutos, o meu pensamento estava a léguas de distância.

Não aprendi a meditar, mas uma coisa eu aprendi: o tamanho da minha ignorância. Por que menosprezar a meditação para enaltecer o ballet clássico?

Em primeiro lugar, o ballet não é a mais difícil das práticas. Podem desfazer essa testa franzida. Alguém já viu uma pessoa talentosa em sala de aula? Já assisti a bailarinas iniciantes dando baile em alunas que estudavam há anos. A Tamara Rojo fez fouettés tranquilamente aos 8 anos de idade. Bailarinas e bailarinos profissionais fazem com facilidade o que muitos jamais conseguirão fazer. E, mesmo que não fosse assim, não é preciso diminuir qualquer outra atividade.

Quer facilidade faça ___________ (Insira o que quiser). Sério mesmo?

“Ah, mas canso de ouvir o inverso, ‘Quer facilidade faça ballet!'”. Só porque há pessoas estúpidas no mundo não significa que você precise ser mais uma.

Talvez alguém se lembre deste post em que falei para mostrarmos um vídeo a qualquer menção de que ballet é fácil. Sim, eu sei que não é. Não sou talentosa, preciso de anos para conseguir fazer um passo minimamente bem-feito, mas não sou especial por isso. Se um dia eu conseguir bater 32 fouettés, o mundo continuará como sempre foi.

Não acredito que um maior reconhecimento do ballet clássico passe pelo conhecimento de sua dificuldade e sua necessidade de uma vida inteira de dedicação. Ninguém paga ingresso para assistir a preciosismo técnico ou porque bailarinas e bailarinos passam anos treinando. Ao ver o Bolshoi ao vivo, mesmo sabendo disso tudo, em momento algum eu lembrei desses poréns. Eu chorei porque a dança estava plena a minha frente. Aposto um cacho do meu cabelo que as outras pessoas da plateia sentiram a mesma coisa.

Em vez de desmerecer os outros, vamos mostrar quão incrível é o ballet clássico. Ele não é único e pode existir lado a lado com todas as outras coisas interessantes da vida.

Variação da oração

No texto sobre o Bolshoi no Brasil, contei que a Anna Nikulina fez a personagem principal. Eu não a conhecia e me encantei! Quem quiser vê-la em Giselle, neste vídeo há trechos da sua apresentação de estreia no papel.

Para publicar no blog, escolhi a “Variação da oração”, de Coppélia. Além de dançar lindamente, quem me conhece entenderá mais um motivo para o meu encanto: Ela utiliza perna alta somente quando é necessário. Como não amá-la?

“Variação da oração”, Coppélia, Bolshoi Ballet, Anna Nikulina, 2011.

Bolshoi, Giselle e eu

O Bolshoi esteve no Brasil entre os dias 17 e 28 de junho apresentando duas obras do seu repertório, Spartacus e Giselle. Eu fui no último dia, em São Paulo, às 15h.

Por uma série de motivos, eu nunca havia assistido a um ballet de repertório ao vivo. Parece um absurdo, mas é verdade. A espera trouxe uma recompensa. Assistir ao Bolshoi apresentar Giselle foi um dos momentos mais bonitos da minha vida.

Agradecimentos ao final de Giselle, Bolshoi Ballet, Teatro Bradesco, 28 jun. 2015. Foto: Cássia Pires.

Os papéis principais foram feitos por Anna Nikulina (Giselle), Mikhail Lobukhin (Albrecht), Maria Allash (Myrtha) e Yuri Baranov (Hilarion). Mariana Gomes, Bruna Gaglianone e Erick Swolkin, brasileiros que fazem parte da companhia, também dançaram. Além deles, seis bailarinas da Escola Bolshoi participaram do segundo ato.

Há experiências na vida difíceis de serem contadas a alguém. Como explicar a emoção de ter assistido ao meu repertório mais querido se desenrolar na minha frente justamente com o Bolshoi?

Eu chorei no momento da “Variação de Giselle”, a minha variação preferida. Na cena da loucura, a Anna Nikulina não caiu no erro de ser afetada, ela foi sutil, o que tornou tudo mais emocionante. Chorei de novo. Já no segundo ato, meu rosto ficou úmido do começo ao fim.

O ballet clássico é para todos, mas a excelência técnica é para poucos. Por maior que seja a dedicação da maioria, nem todos chegarão a esse nível. Isso fica ainda mais evidente quando assistimos a grandes bailarinas e bailarinos dançando diante de nós. Não, em momento algum eu pensei: “Uau, eles são sobre-humanos”. Na verdade, eu me senti próxima a eles, mesmo com todas as minhas limitações. Mas a grandeza do ballet clássico estava ali na minha frente. As bailarinas e os bailarinos do Bolshoi não são excelentes apenas pela técnica impecável, mas também pelos detalhes. É um jeito de olhar, as linhas do corpo, a colocação das mãos durante um salto. O ballet clássico acontece mesmo quando eles estão parados no palco. Sabemos disso, assistimos a mil vídeos no YouTube, mas isso só fica claro em uma apresentação ao vivo. Infelizmente, assistir a uma grande companhia ainda é um privilégio que poucas pessoas conseguem ter.

Um terço do corpo de baile do segundo ato era formado por bailarinas brasileiras e foi impossível perceber a diferença entre elas e as bailarinas russas. Confesso, tentei encontrar um deslize, qualquer particularidade, algum momento em que eu pudesse distingui-las. Nada. No primeiro ato, a Mariana e a Bruna também dançaram, além do Erick, e não lembrei que eles estavam ali. Existiu alguma diferença? Nenhuma. Mérito do talento e dedicação desses artistas e mérito da Escola Bolshoi, responsável pela formação dos brasileiros. Se antes eu era chata em relação à qualidade das aulas de ballet, de agora em diante eu serei insuportável. Porque eu mesma vi como uma boa formação faz o talento florescer.

O meu único pesar nessa passagem do Bolshoi pelo Brasil é que não assisti à Maria Alexandrova. Sorte de quem a viu como Myrtha.

Assistir a uma grande companhia apresentar um repertório é um momento especial para qualquer pessoa, mas acredito ser um pouco mais encantador para uma bailarina. Por saber várias passagens de cor, era como se eu dançasse com eles. Os meus pés nem sempre conseguiram ficar parados ao longo da apresentação. E eu sei que os meus olhos brilharam o tempo todo, porque eu estava diante do amor que tardiamente eu encontrei na minha vida.

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ATUALIZAÇÃO: Eu não sabia quais bailarinos dançaram o Albrecht e o Hilarion, então deduzi pelos perfis na página do Bolshoi, mas me enganei. A Carolina, que assistiu a essa mesma sessão, me contou nos comentários. Já corrigi no texto. Muito obrigada, Carolina!