O novo e o antigo em Paris

Vamos assistir a um grand pas de deux completo de uma maneira diferente?

Pesquisando sobre o ballet Chamas de Paris, eu encontrei esses dois vídeos, de partes diferentes do mesmo grand pas de deux. Amei os dois. Como fazer? Assisti-los um depois do outro.

O entrance é com os dois grandes saltadores do ballet clássico mundial: Natalia Osipova e Ivan Vasiliev em uma montagem do Bolshoi de 2010. É a obra perfeita tanto para ela quanto para ele.

“Entrance”, Chamas de Paris of Paris, Bolshoi Ballet, Natalia Osipova e Ivan Vasiliev.

A variação masculina, a variação feminina e a coda são com Musa Gottlieb e Vakhtang Chaboukiani, em uma montagem feita pelo Bolshoi para a TV em 1953. Temos todo o clima da praça, especialmente por vermos tudo tão de perto!

“Variação masculina, variação feminina e coda”, Chamas de Paris, Bolshoi Ballet, Musa Gottlieb e Vakhtang Chaboukiani, 1953.

Gostei demais de assistir dessa maneira, farei esse exercício mais vezes (e o tratei para cá!).

 

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Dançando com Saúde

Talvez um dos temas que mais questionei neste blog nesses anos todos é: a saúde em primeiro lugar. Nunca achei justificável danos à saúde física, mental ou emocional em prol da dança. Se assim é, existe algo errado.

Durante bastante tempo, essa ideia era contrária ao senso comum do ballet clássico. Só valia se doesse, machucasse, sangrasse. Finalmente, nos últimos anos, isso tem mudado.

Avanços nas áreas de saúde voltadas específicamente ao esporte e à dança, profissionais e departamentos especializados em grandes companhias mundo afora. A mudança aconteceu por um motivo simples: corpo saudável dança melhor e por mais tempo.

Toda essa introdução para falar sobre o portal Dançando com Saúde. A equipe é constituída por um grupo de profissionais: médico, fisioterapeutas, psicóloga e nutricionista. Em cada texto, sabemos quem são os autores e, por isso, compreendemos como as áreas estão muitas vezes interligadas. Além disso, há um canal no YouTube com vídeos que complementam as informações de alguns temas tratados.

Eu li alguns textos, assisti a dois vídeos e senti um certo alívio: enfim, temos um lugar onde recorrer para nos informar com segurança.

Para demonstrar a vocês, escolhi o assunto campeão de dúvidas das bailarinas: quando começar o treinamento nas pontas. Além de ler o texto, assistam ao vídeo, é um teste para saber se uma estudante de ballet está apta para as pontas. O que tem de gente que não passaria nem no primeiro exercício…

Mas antes, acessem o site, a página no Facebook e o canal no YouTube. Além disso, espalhem para as colegas de turma, as professoras, as diretoras de escola. A nossa saúde agradece.

“Inicialização do exercício de ponta para bailarinos”, Dançando com Saúde, 2018. Para ler o texto, aqui.

As sapatilhas de ponta no meio do caminho

A última vez em que dancei no palco foi em dezembro de 2009. Eu estava com 30 anos de idade, fazia aulas na minha terceira escola e já havia iniciado o trabalho de pontas.

Começamos os ensaios na meia-ponta, até que a professora decidiu: dançaríamos nas pontas. Um passo ou outro apenas, coisa simples, nada muito difícil. Ali, a coreografia acabou para mim. Eu não me achava, sentia medo, a sapatilha não era adequada, muito dura e larga para o meu pé… Enfim, em vez de dançar, eu só me preocupava em não cair. Próximo ao dia da apresentação, a professora mudou de ideia, cada aluna poderia escolher se dançaria nas pontas ou na meia-ponta. Preciso dizer qual foi a minha escolha?

Foi libertador! Voltei a dançar a coreografia, mas não como gostaria, pois perdi muito tempo em ensaios inúteis. Se o tempo todo eu só tivesse usado a meia-ponta, o resultado seria outro, não tenho dúvidas.

Passaram-se quantos anos? Quase nove. Durante esse tempo, sempre questionei o assunto, mas hoje ele está bem mais claro para mim. É apenas um questionamento, tudo bem? O ballet clássico continuará como sempre foi, ninguém precisa ficar brava comigo. Mas, a meu ver, as sapatilhas de ponta são um entrave para as bailarinas. Todas.

Quem acompanha ballet clássico para além da técnica e dos repertórios, sabe que não é incomum encontrar bailarinos profissionais que começaram a dançar mais velhos. Não falo da carreira, falo de aulas mesmo: 16, 18, 20, 22 anos. Bailarinas? Daquelas que conheço, a mais velha é a Misty Copeland, ela começou a fazer aulas aos 13 anos. A Sylvie Guillem começou aos 11 anos e não duvido que disseram: “Começou velha!”. Uma criança estar velha para qualquer coisa é algo tão absurdo, mas no ballet clássico é visto como normal.

Por que existe essa diferença? A meu ver, por uma única razão: as sapatilhas de ponta.

Quem já usou pontas entenderá bem isso: as meninas têm dois começos no ballet clássico. O primeiro, quando começa a fazer aulas. O segundo, quando inicia o trabalho de pontas. Parece que nunca dançamos na vida. Tudo muda: o eixo, a intensidade de alguns movimentos, o atrito, a força. A técnica clássica está ali, mas apenas as meninas têm de dançá-la de duas maneiras, na ponta e na meia-ponta, e dominá-las igualmente. Isso demanda bastante tempo, muito treino, um pouco de choro e paciência.

Quanto tempo até encontrar a sapatilha ideal? Quanto tempo até ter estrutura física para suportar as pontas sem prejudicar o corpo? Como deixar a sapatilha bonita no pé? Há quem nunca encontre uma sapatilha para chamar de sua, há quem jamais consiga ter força suficiente do abdome até os pés, e poucas pessoas sabem que bailarinas profissionais quebram suas palmilhas na mão e se mantêm na ponta muito mais pela própria força do que pela dureza da sua sapatilha.

Agora, subtraiam esse tempo despedido com as pontas e somem a isso o treinamento sem elas. Onde estaria a sua técnica clássica?

“Cássia, mas é absolutamente possível treinar técnica clássica na meia-ponta e ter aulas de ponta, sempre foi assim.” Para quem estuda para ser profissional, sem dúvida. Para as amadoras, como eu, não é tão simples. No último ano em que tive aulas regulares de ballet, eu só fiz aulas na meia-ponta e era uma maravilha. Mas se eu quisesse aulas de ponta, azar o meu, porque eu não conseguiria fazer mais aulas do que as minhas duas por semana.

Sim, existe o encantamento das pontas, a beleza ao vê-las em ação, a história do ballet clássico não existe sem elas. Sei disso tudo. Mas a técnica clássica independe delas, a dança clássica também existiria sem elas. Os bailarinos não são incríveis sem sapatilhas de ponta? Por que as bailarinas também não poderiam ser?

Não, isso não é um manifesto para banir as pontas. Que elas continuem! Mas, confesso, amaria ver bailarinas clássicas dançando repertórios sem elas. Quem sabe um dia.

Dia da Bailarina

Eu não faço uma aula de ballet há tempos. Eu não me apresento no palco há anos. Dia desses, no corredor vazio do hospital onde sou voluntária, enquanto esperava a minha mãe para irmos embora, lá estava eu fazendo uns passos de ballet. Sem nem pensar, ou perceber, a bailarina sempre aparece, não importa onde eu esteja.

Isso é para lembrar a máxima que todas nós conhecemos, mas às vezes nos esquecemos: uma vez bailarina, sempre bailarina.

Feliz Dia da Bailarina para todas nós!

Para comemorar, uma variação bem curtinha, mas delicada que só.

“Variação do pas de six”, Napoli, Royal Danish Ballet, Susanne Grinder.