Quem apareceu?

Não posso sequer falar nada, o blog está parado há mais de um mês. Existe um motivo? Sim, a minha falta de vontade.

Por favor, não fujam, continuem a ler. O ballet clássico e eu nos separamos por um período. Sabe quando a gente não se encontra em algo, tampouco se reconhece? Nem era uma coisa especificamente do ballet dos nossos tempos, mas dele como um todo. Enfim, sequer assistia a vídeos com frequência ou acompanhava informações. Fazer aula? Nem lembro mais. A minha barra? Ela em uma das paredes do meu quarto e eu aqui, só ficávamos frente a frente nos dias de limpeza.

Mas algo aconteceu e teremos de nos reencontrar na marra.

Para resumir, há meses sinto uma dor estranha do lado esquerdo do corpo, que inviabiliza meus movimentos de uma certa forma. No começo, pensei na minha postura, quase fui à fisioterapeuta, mas achei melhor passar primeiro em consulta médica. Meses de exames, análises e afins, fui parar no ortopedista. Nada demais, só uns desvios ali, uma vértebra presa acolá. “Vou te mandar para a fisioterapia.”

Fisiterapeuta conhecida, ela cuidou de mim anos atrás. Conversamos, ela viu os raios X e sentenciou: “Cássia, você terá de voltar para o ballet. Não é uma questão de querer ou não, mas pela sua saúde”.

Vaganova rindo de mim?
Petipa zoando com a minha cara?
Margot Fonteyn dizendo “Eu avisei”?

Talvez muitas de vocês nunca tenham passado por esse período de cansaço, de não querer o ballet por perto. Há amores que são constantes, outros são montanha-russa, como entre mim e o ballet clássico.

Enfim, teremos de nos entender. Ou eu volto ao ballet ou o meu corpo continuará se estranhando comigo.

Tentei fugir, mas não adiantou. A vida tem a sua maneira de nos fazer voltar ao caminho.

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“A bailarina” na Netflix

Vocês lembram do filme A bailarina (Ballerina, 2016), que estreou no Brasil em janeiro? Pois ele acabou de entrar no catálogo da Netflix!

Foi-se o tempo em que esperávamos tanto entre a estreia nos cinemas, o lançamento em VHS nas locadoras (isso não é do tempo da maioria de vocês!) e  passar na televisão. Ainda bem!

As opções de dublagem são português, inglês e espanhol. Sou só eu ou alguém aí também queria em francês? (Não, eu não sou fluente em francês, mas queria mesmo assim.)

Divirtam-se!

Sobre a criação artística

Queridas leitoras e queridos leitores, sei o quanto estou em dívida com este espaço. Não publico o quanto deveria, tampouco questiono o que poderia. Enfim, não há desculpas, mas este espaço continua, sempre.

Há tempos quero compartilhar com vocês uma palestra da escritora Elizabeth Gilbert, mesmo não sendo especificamente sobre dança ou ballet clássico, mas porque suas palavras foram um divisor de águas para mim. Ela me abriu um largo horizonte, não apenas a respeito da minha escrita, mas da minha própria relação com a arte.

A base da palestra é a criação artística; o enfoque é a literatura, mas há uma belíssima passagem sobre a dança. Confiem em mim, vale cada palavra.

O vídeo está legendado em português. As legendas  que aparecem automaticamente são de Portugal, mas se elas não aparecerem, basta ativá-las no quadradinho do canto direito; para mudar para o português do Brasil, clique na florzinha e selecione o idioma em “legendas/CC”. Para assistir diretamente no TED, aqui.

Elizabeth Gilbert, Your elusive creative genius, TED, fev. 2009.

Quer saber o que significa domínio do trabalho de pontas? É isso!

No seu perfil no Instagram, o New York Times tem a série semanal “Speaking in Dance” em que divulga vídeos de bailarinas e bailarinos produzidos especialmente para esse fim. O mais recente foi com a bailarina Cassandra Trenary, solista do American Ballet Theatre. Talvez vocês a conheçam pelo perfil @cassiepearlt, as suas fotos são bem conhecidas pela internet afora.

Pois bem, mas por que ela veio parar aqui? Assistam a essa aula de domínio de pontas. Se alguma de vocês, em algum momento, tiver dúvidas a respeito do estágio em que se encontram no seu trabalho de pontas, assistam ao vídeo, depois novamente, e de novo, e mais uma vez.

Sabe o que é mais importante do que flexibilidade e colo de pé? É fazer isso aí.

No perfil do New York Times, aqui.
No site do New York Times, aqui.
No perfil da Cassandra Trenary, aqui.

Cassandra Trenary, “Speaking in Dance”, New York Times.

A aposentadoria da Ulyana e o fim de uma era

O posto mais alto de uma companhia pode receber vários nomes: primeira-bailarina, principal, étoile. Na Ópera de Paris, a hierarquia é rígida e subir de nível requer aprovação nos concursos internos. Porém, eles contemplam até o penúltimo nível, intitulado “première danseuse” (primeira-bailarina). O último degrau é conseguido apenas pela indicação do diretor ou da diretora de dança e recebe o nome de “étoile” (estrela). O motivo: para ser a bailarina-mor é necessário ter carisma, presença de palco, uma luz interior, algo diferente das outras, mas que não tem nome. Em outros termos, uma estrela. Sabemos quando estamos diante de uma étoile, ela consegue o que nenhuma outra consegue, não apenas pela sua técnica ou pelo seu talento. Ela simplesmente brilha, o palco é o seu lugar.

Ao longo dos trezentos anos de história do ballet clássico, quantas bailarinas conseguiram tal feito? Algumas dezenas. Das que conseguimos assistir graças ao material audiovisual existente, Anna Pavlova, Margot Fonteyn, Maya Plisetskaya, Galina Ulanova, Carla Fracci, Sylvie Guillem, Márcia Haydée, para citar algumas. Impossível não enxergar além da técnica e do talento. Elas são o ballet clássico.

Sob o meu ponto de vista, isso tem se perdido. O mundo mudou, as artes cênicas mudaram, a maneira como nos relacionamos com as artes e a cultura se transforma a cada dia. Dessa forma, o ballet clássico entrou nessa história. As bailarinas clássicas não são mais as artistas tocadas pela divindade, hoje acompanhamos o seu dia a dia no Instagram, as vemos reclamar no Twitter, comentamos em seus vídeos no YouTube, enchemos de coraçãozinho as postagens do Facebook. A Paloma Herrera criticou esse tipo de exposição nesta entrevista (leiam a resposta para a pergunta “What will you miss?”). “Você perde a magia”, ela disse, e eu concordo plenamente. Agora, as bailarinas são as nossas colegas de turma mais talentosas que tiveram a sorte de conseguir o que não conseguimos. Essa é a grande mudança? Não, apenas a consequência dessa nova relação entre público e artistas. Além disso, há outros aspectos a serem considerados, como disse a própria Paloma, como a relação entre as bailarinas e a arte da dança. Não é preciso ir muito longe, quem tiver contato com estudantes de ballet entende claramente o que isso significa.

Onde a Ulyana Lopaktina entra nisso tudo? O Mariinsky divulgou que ela irá se aposentar no fim da temporada, por causa de uma lesão, e não haverá espetáculo de despedida. A primeira vez em que assisti a um ballet de repertório do começo ao fim, quando sequer imaginava dançar, foi O lago dos cisnes dançado por ela. Para mim, Ulyana está no mesmo patamar de Pavlova, Fonteyn, Plisetskaya, Ulanova, Fracci, Guillem, Haydée. Ela é o ballet clássico. Ela figura entre as grandes divas da dança, as suas sapatilhas marcaram a história do ballet clássico.

Com a sua aposentadoria, uma era chegou ao fim. Ainda haverá bailarinas talentosas que continuarão com imensa dignidade essa bela história, mas algo se perdeu. A meu ver, bailarinas que são a própria essência do ballet clássico, nunca mais.

Ulyana Lopaktina, O lago dos cisnes. Foto: Anne Deniau.