Como se tornar uma bailarina ou um bailarino profissional

No Dia Internacional da Dança, geralmente eu faço publicações a respeito da dança para todos, mas agora há pouco assisti a um vídeo sobre um assunto tão pedido por vocês que mudarei o foco. Afinal, como se tornar uma bailarina ou um bailarino profissional?

Em um vídeo publicado pela Secretaria da Cultura de São Paulo, Beatriz Hack, Hiago Castro, Paula Alves e Otávio Portela, bailarinas e bailarinos da São Paulo Companhia de Dança, dão quatro dicas para se tornar profissional.

O vídeo foi publicado apenas no Facebook. Para assisti-lo, clique aqui ou na imagem abaixo.

Feliz Dia Internacional da Dança!

Dez danças

O tempo passou voando e em junho fará oito anos que comecei a dançar. Outro dia parei para pensar sobre as danças que estudei, experimentei e conheci, e me dei conta que nunca falei sobre isso no blog. Comentei algumas vezes,  escrevi no meu perfil, mas contar em apenas um texto como foram essas experiências, eu não contei.

Vou aproveitar o Dia Internacional da Dança e falarei brevemente sobre as dez danças que encontrei e me encontraram nesse período. Depois da introdução, elas estão na ordem em que apareceram na minha vida.

O meu caminho na dança

Comecei aos 27 anos de idade e passei por três estúdios de dança. No primeiro, estudei ballet clássico, dança do ventre, dança cigana e jazz, e fiz aulas experimentais de dança de rua, dança oriental contemporânea e dança clássica indiana. No segundo e no terceiro estúdio, estudei apenas ballet. Cursei metade de uma pós-graduação em dança e consciência corporal, onde tive dança contemporânea e danças circulares. Estou no quarto estúdio, há pouco tempo eu comecei a estudar flamenco.

1. Ballet clássico
Tempo de estudo: quatro anos e meio.

Seis anos falando dele, mas vou resumir. Em 2007, procurei por aulas de dança do ventre e escolhi uma escola onde havia ballet clássico para adultas. Resolvi fazer as duas. No meu primeiro dia, comecei pelo ballet e virou amor. Passei por três estúdios de dança e dancei quatro coreografias em três espetáculos diferentes. Somando o tempo de estudo em todos eles, foram quatro anos e meio, com uma pausa de um ano. Estou sem aulas de ballet em estúdio há três anos e pouco, mas treino em casa com uma certa regularidade para não perder o que aprendi. Quando parei, eu estava no nível intermediário.

Volta e meia tento voltar, mas não encontro um lugar, há sempre algum empecilho. Aliás, empecilho é a palavra. Se eu ainda estivesse no segundo estúdio, onde fiz o curso regular, e se tantas coisas não tivessem acontecido na minha vida nesse período, neste ano eu me formaria bailarina clássica. Talvez não fosse mesmo para ser.

  • Nesses anos escrevi diversos textos sobre minha experiência com o ballet clássico, e todos estão reunidos na categoria “Dos passos de uma bailarina adulta”, aqui.

2. Dança do ventre
Tempo de estudo: um ano.

Grande responsável pelo meu início na dança, nos primeiros seis meses as aulas de dança do ventre aconteciam em seguida às aulas de ballet, o meu começo está intimamente ligado às duas. Estudei sempre na mesma escola e, além dos vários movimentos de quadril, aprendi a dançar com snujs, pandeiro, bastão, taças, véu simples, véu duplo, véu wings e sete véus. Também tive noções de música árabe. A primeira vez que dancei no palco foi uma coreografia de dança do ventre. No segundo estúdio, também dancei uma coreografia de dança do ventre no espetáculo, convidada pela minha professora de ballet. Tive ótimas professoras, gostava das aulas e aprendi muito, mas parei porque não me identificava mais. Mesmo assim, até hoje respeito imensamente tanto a dança do ventre quanto as bailarinas tão dedicadas a ela.

  • Para ler o texto que escrevi sobre dança do ventre, aqui.

3. Dança cigana
Tempo de estudo: quatro meses.

Eu era aluna de ballet e dança do ventre, e havia visto a turma de dança cigana dançar no espetáculo de fim de ano. Que coisa mais linda! Comecei as aulas por puro encantamento. Tive apenas uma professora, que sempre ia além e nos explicava sobre cultura cigana. Nós nos sentíamos imersas naquele universo e as alunas sempre saíam da aula com um sorriso no rosto. Nunca ouvi uma repreensão ou vivi uma situação delicada, nada. Era realmente um momento de encontro. Parei as aulas porque saí da escola, senão teria continuado.

  • Para ler o texto que escrevi sobre dança cigana, aqui.

4. Jazz
Tempo de estudo: duas aulas.

Eu fazia ballet, dança do ventre e dança cigana. Bastava? Não, eu cismei que faria jazz e me matriculei. Paguei apenas um mês, fiz duas aulas e faltei nas outras duas. A professora era muito boa, mas eu me sentia deslocada, eu não conseguia “me achar” dançando. Olhava para os lados e me perguntava: “O que eu estou fazendo aqui?”. Mas foi algo pessoal, não teve qualquer relação com o jazz em si. Foi nesse momento que saí do primeiro estúdio, então parei todas praticamente ao mesmo tempo. Eu já estava no segundo estúdio fazendo o curso regular de ballet clássico e queria me dedicar a isso.

No segundo estúdio, a professora de jazz precisava de mais uma pessoa para dançar a coreografia de jazz musical no espetáculo de fim de ano. Eu não era sua aluna, mas amava a coreografia, assistia aos ensaios e sabia a música de cor. Ela deve ter lido isso na minha testa e me convidou para dançar. Um ator cantou a música ao vivo. Foi muito legal, me diverti dançando e entendi por que tantas pessoas amam musical. Às vezes, sinto saudade, mas não penso em fazer jazz novamente.

  • Para ler o texto que escrevi sobre jazz, aqui.

5. Dança de rua
Tempo de estudo: aula experimental.

Eu passava boa parte dos sábados no estúdio, surgiu a oportunidade e por que não fazer aula experimental de dança de rua? Eu acho demais, admiro quem dança, mas sabe quando algo não tem absolutamente nada a ver com você? Nem a música, nem a roupa, nem os movimentos. Pense numa pessoa desengonçada: eu. Resolvi deixar a dança de rua para quem entende do assunto e dança superbem.

  • Para assistir a um vídeo de dança de rua, aqui.

6. Dança oriental contemporânea
Tempo de estudo: aula experimental.

Se não me engano, essa modalidade foi desenvolvida pelas donas do estúdio onde comecei. É um misto de dança indiana, dança do ventre, ballet e jazz, ao som de música indiana moderna. O resultado é muito bonito, mas pensem numa pessoa absolutamente perdida. Todo mundo já tinha terminado a sequência e eu ainda estava no meio do caminho. Também não era para mim, sou melhor como espectadora.

  • Para assistir a um vídeo de dança oriental contemporânea, aqui.

7. Dança clássica indiana
Tempo de estudo: aula experimental.

Estavam pensando em incluir dança clássica indiana na programação da escola e ofereceram uma aula experimental de Bharatanatyam. (Há várias danças clássicas indianas e Bharatanatyam é uma delas.) Foi uma experiência muito bonita, pois há todo um ritual para que a aula aconteça. Ela começa com um pedido de permissão para a aula acontecer e termina com um agradecimento, praticamente com os mesmos dizeres. Os tempos são marcados pela professora com um determinado instrumento, cujo nome eu não me lembro. Quem pensa que difícil é ballet clássico, não conhece a dança indiana. Foi a única vez que vi várias pessoas sentadas nos cantos da sala desistindo da aula. É bem difícil, mas é de uma beleza singular. Eu não sou de desistir e fiz a aula até o fim. Isso aconteceu em 2008 e até hoje lembro da professora, do som do instrumento, de alguns passos, do que senti. A minha relação com a dança tem um pouco dos acontecimentos desse dia.

  • Para assistir a um vídeo da dança clássica indiana Bharatanatyam, aqui.

8. Dança contemporânea
Tempo de estudo: 20h na pós-graduação em dança.

Primeiro dia de pós-graduação e já começamos com dança contemporânea. Entrar em contato com uma dança ao longo de um fim de semana em um curso de especialização é bem diferente de uma aula experimental. Você estuda teoria e prática, termina de ler um texto, ouvir uma explicação e passa para os movimentos. É outra coisa! Parece que temos uma noção ampliada da modalidade, dançamos dentro de um contexto.

Eu não entendia nada de dança contemporânea e tinha a visão do senso comum: não vi, não dancei, não gostei. Depois dessas aulas, eu compreendi o seu propósito. Eu não me descobri uma apaixonada pela dança contemporânea, mas a minha maneira de olhar para essa dança mudou completamente e isso fez toda a diferença.

  • Para ler o texto que escrevi sobre dança contemporânea, aqui.

9. Danças circulares
Tempo de estudo: 20h na pós-graduação em dança.

Na pós-graduação, nós tínhamos aula um fim de semana por mês e não lembro se foi no quarto ou quinto mês que tivemos danças circulares. A professora era incrível, ela tinha uma visão da dança e da vida que deixou a turma meio atordoada. Além disso, imagine uma professora discorrer por uma hora sobre o impacto da dança na vida das pessoas e depois guiar os alunos para todos dançarem juntos. Impossível não ser tocado por isso.

As danças circulares têm um sentindo de comunhão, de partilha, de estar com o outro, algo raro na dança. Estamos muito acostumados a “olhar para dentro” quando dançamos e as danças circulares só existem se todos estão unidos na roda. Sem o outro você não dança. Sem você o outro não dança. Essa comunhão nos ampara.

Essa foi minha última grande aula de dança antes de um hiato de aulas na minha vida.

  • Para ler o texto que escrevi sobre danças circulares, aqui.

10. Flamenco
Tempo de estudo: comecei há três semanas.

Eu queria voltar ao ballet e procurei por meses, mas sempre havia um problema: o horário, o nível da turma, a formação da professora. O que fazer? Se eu não conseguia voltar ao ballet, faria uma outra dança.

Ao longo desses anos, eu sempre quis fazer flamenco, mas simplesmente não acontecia. Eu me limitava a ver outras alunas dançando, a ouvir o som da sala ao lado, mas nunca era eu. Nem aula experimental eu fiz. Agora, as coisas se encaixaram e deu certo. E sabe o mais interessante? Pela primeira vez, eu senti a diferença desses anos dedicados à dança. Ela já está em mim. O meu corpo é um corpo que dança. Pensei que jamais chegaria a esse estágio, e falo sério.

  • Para ler o texto que escrevi sobre flamenco antes de começar a dançá-lo, aqui.
  • Para ler o texto que escrevi para contar sobre o início das minhas aulas de flamenco, aqui.

O que aprendi com todas essas experiências? Conhecer várias danças amplia a nossa visão sobre a dança como um todo. O mundo não gira em torno da nossa modalidade preferida. Não, ninguém dançará bem todas elas. Bailarinas clássicas não dançam bem outras modalidades só porque fazem ballet clássico. Há pessoas que nunca fizeram ballet e dançam superbem outras danças. É uma visão equivocada que o ballet é a base de todas as danças, eu mesma presenciei e vivenciei isso.

A dança existe de várias maneiras. A dança é para todos. Vamos aproveitar essa data para reconhecer e celebrar isso.

Pelo direito de dançar

Todo ano é a mesma coisa: no dia 29 de abril, lá vamos nós celebrar a arte que nos move. Também faço parte dessa turma, e assim publiquei em 2010, 2011, 2012 e 2013.

Mas hoje não celebrarei nada. Não farei ode à dança. Não falarei de todos os seus aspectos na minha vida. Não vou dizer que ela é importante para todos nós. Nada disso.

Porque todo ano vejo sempre as mesmas coisas: uma celebração dos bailarinos, amadores, estudantes, professores, maestros, ensaiadores, coreógrafos. Hoje não é o dia de quem dança.

Para celebrar a dança é necessário reconhecer que ela é tão antiga quanto a humanidade. Ela nasce conosco, porque antes mesmo de andar e falar, nós nos movemos. O nosso corpo fala antes que possamos esboçar as palavras. Dançamos sem saber que é isso o que estamos fazendo.

Mas crescemos. E, em algum momento, tentam nos tirar esse direito. Porque existem as danças, os métodos, as formas, as técnicas, os dogmas, os preconceitos, os detentores do saber. Cada qual reivindicando para si o domínio sobre essa arte.

Não adianta fazer isso, meus caros. A arte é do ser humano. Ela é de todos nós. Ela é de cada um de nós.

É isso o que eu quero: que todos nós possamos dançar. Não apenas na sala de casa, no meio da rua, em pleno parque, mas escolher a dança que nos chama, nos dedicarmos a ela sem receio. E sem ninguém fazendo elucubrações, questionamentos ou, pior, cerceando quem quer seguir o caminho que lhe chama o coração.

Dançar é um direito.

Pelo menos no Dia Internacional da Dança, não nos esqueçamos disso.

Dia Internacional da Dança

Resumidamente, Matt é um americano que viaja pelo mundo para filmar a si mesmo dançando com outras pessoas nos mais diferentes lugares. A história toda vocês podem ler, em inglês, aqui.

Parece simples? E é. Há alguns anos, ele publica um resumo dos locais por onde ele passou. Este é o mais recente, de 2012. Já aviso de antemão: é lindo e emocionante de ver.

Hoje é o Dia Internacional da Dança e pensei que não havia  nada melhor para comemorar a data do que esse vídeo. Quando este blog começou, eu dizia: “Acredito que todos nós podemos dançar”. Eu mudei de ideia. Nós não podemos dançar. Nós dançamos.

Matt nos mostrou claramente que a dança faz parte de todos, no mundo inteiro. Nesse momento, em algum lugar, alguém está dançando, seja para comemorar, celebrar, compartilhar, se encontrar. Sabe no que hoje eu acredito? Somos todos bailarinos. Acredito mesmo, de todo coração e com toda convicção.

E vamos comemorar como fazemos todos os dias… Dançando!

*

Eu conheci o “Where the Hell is Matt?” graças a uma leitora, ela compartilhou comigo na antiga página do Facebook, mas não lembro quem foi. Querida pessoa, por favor, se pronuncie porque quero lhe agradecer novamente.

Qual o papel da dança na sua vida?

Provavelmente, a maioria de vocês conhece o maestro João Carlos Martins. Falei sobre ele em um post, aqui. Engraçado que eu divaguei sobre o fato dele ter escolhido outro caminho na música, porque aceitou que não poderia mais tocar.

Há poucos dias, ele passou por uma cirurgia para voltar a movimentar os braços. Não conseguiu “apenas” isso, ele voltou a abrir as mãos depois de dez anos. Ele é um pianista.

“[…] Mas, no momento em que minha mão abriu na operação, já comecei a sonhar: ‘Vou continuar a reger. E quem sabe volto a tocar piano também’. Porque, no fundo, eu não me conformo de não poder tocar. É uma dor. É como um cadáver enterrado lá dentro.”

Para ler a entrevista completa, concedida à jornalista Mônica Bergamo, aqui.

E no Dia Internacional da Dança, por que eu falo de um músico? Porque João Carlos Martins não é apenas um músico. Aos 71 anos, ele passou por cima do próprio medo para que a música não saísse de sua vida. Aliás, é o que ele tem feito: ir contra a maré para a música continuar.

E na dança? Há um excesso de lágrimas, paixão e reclamação. Em contrapartida, pouco estudo e dedicação. Afinal, o que é mais importante, ser vista como bailarina ou dançar?

Sim, há uma diferença. Falarei especificamente do ballet clássico: é algo que dá status. Você vira a bailarina da turma, da família, do bairro. As pessoas a reconhecem na rua por conta do porte e do coque. Você coloca fotos de si mesma no Facebook e as pessoas curtem. Você conta no Twitter que está indo para a aula de ballet. Você se comporta como a namorada apaixonada e diz que a dança é a sua vida. Além disso, se acha mais especial que os demais mortais, afinal, você é bailarina!

Agora, digamos que a vida lhe imponha uma condição: para continuar no ballet clássico, ninguém poderia saber disso. As pessoas só descobririam sentadas na plateia, no momento em que as cortinas se abrissem e você começasse a dançar. Terminado o espetáculo, elas não te reconheceriam lá fora. Você voltaria a ser como todas as outras pessoas que não dançam.

O que você faria?

Ficou em dúvida? Então talvez você precise repensar a dança na sua vida.

Voltando ao João Carlos Martins, hoje ele quer uma coisa: sentar novamente diante de um piano e voltar a tocar. Porque essa é a sua pulsão de vida. Ele é pianista na sua essência. Ele é famoso, criou uma orquestra, é reconhecido no mundo por toda a sua história. E qual é o seu sonho? Tocar novamente um piano.

Qual é o papel da dança na sua vida? Essa resposta é pessoal, íntima e reservada. Não importa qual seja. Só não vale ser incoerente. Porque o que define uma bailarina em qualquer lugar do mundo é uma única coisa: ela realmente se dedica a dançar. O resto é firula e divagação.