Coreografia gravada na memória

Há algumas coreografias de repertórios que ficam tão marcadas em nós, que não conseguimos dissociar música e passos. Ao ouvirmos a música, lembramos dos movimentos. Se virmos os movimentos sem áudio, a música já começa a tocar em nossa mente. Sendo assim, assistir a uma outra coreografia com a mesma música sempre causará estranhamento.

Geralmente, eu gosto de algumas inovações. Por exemplo, essa coregrafia para “O adágio da rosa”, de A Bela Adormecida, criada por Matthew Bourne. Mas hoje eu assisti a uma novidade que estranhei demais! Olhando friamente, gostei bastante, mas é impossível me desapegar da versão mais conhecida. É a coda do sonho de Dom Quixote. Em dado momento, já esperei os vários grand jetés da Dulcinea e da Rainha das Dríades, sem falar na ausência do Cupido.

A coreografia que a maioria conhece é esta. Essa outra é da nova montagem de Dom Quixote, do Semperoper Ballett, com coreografia de Aaron S. Watkin. Além disso, o nome mudou para “O reino de Doña Dulcinea”. É ou não é estranho de assistir?

“O reino de Doña Dulcinea” (The Kingdom of Doña Dulcinea), Dom Quixote, Semperoper Ballett.

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Uma exceção

Eu não sou uma grande fã dos vários fouettés nas codas e escrevi sobre o assunto há bastante tempo em “A obsessão pelos 32 fouettés”. Isso não significa que eu não goste do passo em si, pelo contrário. No mesmo texto, falei como ele me encanta na “Variação de Lise”, de La fille mal gardèe.

Bem, mas nada como uma saia rodada para me fazer mudar de ideia, pelo menos por um instante.

O meu figurino preferido é saia rodada, gosto como ela dança com a bailarina e faz parte da coreografia. Sendo assim, na coda do grand pas de deux de Chamas de Paris, os meus olhos brilharam. A combinação de saias e fouettés conseguiu me prender.

Coda, grand pas de deux Chamas de Paris, Ekaterina Krysanova.

A coda do Pássaro Azul

Há dias em que apenas a beleza nos salva dos períodos nublados da vida e a delicadeza do Pássaro Azul, de A Bela Adormecida, é perfeita para isso.

Neste vídeo, assistimos apenas à coda, bem diferente dos 32 fouettés bem comuns nessa parte. Além disso, que musicalidade da Yuhui Choe! Impossível não voltar a sorrir.

Coda do grand pas de deux Pássaro Azul, A Bela Adormecida, Yuhui Choe e Alexander Campbell, Royal Ballet 2011/2012.

Qual é a música?

Em uma tarde qualquer, uma música chega sem avisar e não sai da nossa cabeça. De repente, a coreografia também surge em nossa mente. Assim ficamos entre música e coreografia, coreografia e música, então reconhecemos a bailarina, a companhia, o figurino, dançamos em plena sala de casa e nada! Não conseguimos lembrar nem qual é a música, tampouco de qual repertório ela faz parte. Não sei vocês, mas sinto uma imensa agonia quando isso acontece.

Se eu não descubro sozinha, duas amigas bailarinas costumam me salvar, a Cyndi ou a Julimel. Hoje foi a vez da primeira.

A música e a coreografia em questão são da coda do terceiro ato de Raymonda. Nesse caso, era a Maria Alexandrova que não saía da minha cabeça nem por decreto, mas como não encontrei apenas esse trecho para publicar diretamente na página, vamos de Olesya Novikova com o Ballet do Teatro alla Scala.

Para mim, essa é uma das codas mais poderosas dos repertórios, só perde para a coda do segundo ato de O lago dos cisnes. A sequência de retirés é arrasadora!

Preciso dizer que ouvi essa música umas 20 vezes hoje?

“Coda do grand pas do terceiro ato”, Raymonda, Teatro alla Scala.

Au revoir, 2015!

Neste ano, aconteceram duas coisas pessoalmente importantes no ballet clássico: a minha bailarina preferida se aposentou na Ópera de Paris e eu assisti ao Bolshoi dançar o meu repertório mais querido.

A minha atenção saiu um pouco da França – por mais de oito anos a Ópera de Paris foi a minha companhia preferida, mas o novo diretor tem mudado as coisas por lá – e foi para a Rússia – passei a prestar mais atenção no Bolshoi. Também me cansei do que tenho visto no ballet clássico e meus olhos se voltaram ao passado.

Comecei a fazer flamenco, abandonei as aulas pouco tempo depois, mas ainda o estudo por conta própria, igual ao ballet. A minha barra fixa foi a minha companheira por muitas horas ao longo deste ano.

Reconheço, eu deixei o blog de lado, mas queria cuidar um pouco mais da minha vida. Quem sabe eu volte a compartilhar as minhas experiências, tal como eu fazia lá no começo. Aliás, o Dos passos da bailarina fará sete anos, nem eu imaginava que chegaria tão longe.

Enfim, poucos acontecimentos que mudaram o rumo de muitas coisas.

Vamos terminar com uma coda? Para fechar 2015 como deve ser.

Coda, grand pas de deux do terceiro ato, Dom Quixote, Mariinsky Ballet, Leonid Sarafanov e Olesya Novikova.