O despertar de Aurora

Esta foto de A Bela Adormecida do English National Ballet é tão incrivelmente bela que merece um post só para ela. Quem quiser vê-la maior, clique na imagem.

A Bela Adormecida, English National Ballet, Joseph Caley e Jurgita Dronina. Foto: Jason Bell.

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Um presente de fim de ano

Em 2017, fiquei distante do ballet clássico, nos reconciliamos, me distanciei novamente, voltamos. Foi um relacionamento vai e volta porque precisava ser assim.

Mas amor é aquela coisa, não é? O ballet que existe em mim está sempre ali, firme e forte. Ao assistir a este vídeo, eu senti um quentume no peito: é assim que o ballet me conquista quando quer.

Por isso, ele é um presente para eu me redimir por essa distância do blog: as seis fadas de A Bela Adormecida em uma montagem do Royal Ballet de 1978. Eu não era nascida, muitas de vocês também não, e o ballet clássico existia há muitos e muitos anos. Para nos lembrar que ele sempre estará além de nós, sempre.

Beijos e até ano que vem.

Variações das fadas de A Bela Adormecida, Royal Ballet, 1978.
Bailarinas: Vergie Derman, Wendy Ellis, Alfreda Thorogood, Leslie Collier, Laura Connor e Marguerite Porter.

Coreografia gravada na memória

Há algumas coreografias de repertórios que ficam tão marcadas em nós, que não conseguimos dissociar música e passos. Ao ouvirmos a música, lembramos dos movimentos. Se virmos os movimentos sem áudio, a música já começa a tocar em nossa mente. Sendo assim, assistir a uma outra coreografia com a mesma música sempre causará estranhamento.

Geralmente, eu gosto de algumas inovações. Por exemplo, essa coregrafia para “O adágio da rosa”, de A Bela Adormecida, criada por Matthew Bourne. Mas hoje eu assisti a uma novidade que estranhei demais! Olhando friamente, gostei bastante, mas é impossível me desapegar da versão mais conhecida. É a coda do sonho de Dom Quixote. Em dado momento, já esperei os vários grand jetés da Dulcinea e da Rainha das Dríades, sem falar na ausência do Cupido.

A coreografia que a maioria conhece é esta. Essa outra é da nova montagem de Dom Quixote, do Semperoper Ballett, com coreografia de Aaron S. Watkin. Além disso, o nome mudou para “O reino de Doña Dulcinea”. É ou não é estranho de assistir?

“O reino de Doña Dulcinea” (The Kingdom of Doña Dulcinea), Dom Quixote, Semperoper Ballett.

O oitavo aniversário

Era começo de 2009, eu tinha 29 anos, um ano e meio de ballet, estudava na minha segunda escola e continuava me sentindo da mesma maneira: um peixe fora d’água. Sempre o sentimento de inadequação, a sensação de que eu não estava no meu lugar. Eu já mantinha blogs desde 2003, por que não criar um sobre ballet? Lembro de fazer uma lista de nomes e cortar um por um. No fim das contas, sobrou este: “Dos passos da bailarina”.

Chegou o primeiro aniversário, em 2010, e os anos foram passando: 2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016… Oito anos escrevendo sobre ballet clássico, 857 posts, mais de dois milhões de visitas e um livro depois, cá estamos nós em 2017.

O retorno do meu trabalho teve momentos bem distintos. Nos primeiros anos, havia quem compartilhava comigo a própria história e havia quem me agredia. Os hoje tão conhecidos “haters” já existiam, mas aqui eles usavam tule e fitas de cetim. Foi por essa razão que a página e o grupo de discussão no Facebook foram apagados, porque algumas coisas eram bem pesadas e eu não sabia lidar com isso.

Depois do auge dos blogs e sua queda para dar lugar a outros meios, como as redes sociais e os canais no YouTube, isso acabou. Só recebo comentários bacanas, uma troca de histórias e informações, e as críticas são fundamentadas, ninguém me agride, xinga ou deprecia a minha história. Não acho que as coisas mudaram no mundo, porque o ódio está mais presente do que nunca, mas neste espaço as pessoas começaram a se desarmar. O motivo? Eu não sei, mas fico feliz que seja assim.

O foco dos textos e das publicações também mudou. Antes eu escrevia sobre o meu caminho no ballet clássico, hoje eu escrevo a minha visão sobre a dança clássica. Não uso mais o termo “bailarina adulta”, mas “bailarina amadora”, e não falo mais “ballet adulto”. Alguém já notou essa mudança? Qualquer dia eu conto o motivo. Além disso, publico muito mais informações sobre ballet e dança, talvez por ter aprendido os caminhos do estudo sobre esse assunto.

Reconheço, os tempos mudaram. Há trabalhos muito bons pela internet afora, vi vários deles surgirem e o “Dos passos da bailarina” se tornou aquela tia legal que as sobrinhas visitam de vez em quando para aprender um pouco mais. Por enquanto, não tenho vontade ou interesse de seguir esses novos rumos, nas redes sociais mantenho apenas meus perfis pessoais ‒ Twitter, Instagram, Facebook e Pinterest ‒ e só faço divulgação daquilo que gosto, sem ganhar nada por isso (seja brinde, pagamento ou algo semelhante). Não significa que é o melhor caminho, respeito imensamente quem trabalha de outra maneira, esse é apenas o meu jeito de preservar o que construí com tanto esmero.

Em resumo, o “Dos passos da bailarina” se tornou um casamento entre o ballet clássico, a palavra e o movimento. E enquanto houver bailarinas e bailarinos dançando por essas linhas, eu continuarei a escrever.

Obrigada pelos oitos anos, de coração.

* * *

Vocês achavam que a comemoração terminaria sem dança? Escolhi a “Variação de Aurora” do segundo ato de A Bela Adormecida, da linda montagem do Het Nationale Ballet/Dutch National Ballet. Como eu gosto dessa variação!

“Variação de Aurora”, segundo ato, A Bela Adormecida, Het Nationale Ballet/Dutch National Ballet, Megan Zimny Kaftira.

A coda do Pássaro Azul

Há dias em que apenas a beleza nos salva dos períodos nublados da vida e a delicadeza do Pássaro Azul, de A Bela Adormecida, é perfeita para isso.

Neste vídeo, assistimos apenas à coda, bem diferente dos 32 fouettés bem comuns nessa parte. Além disso, que musicalidade da Yuhui Choe! Impossível não voltar a sorrir.

Coda do grand pas de deux Pássaro Azul, A Bela Adormecida, Yuhui Choe e Alexander Campbell, Royal Ballet 2011/2012.