Coreografia gravada na memória

Há algumas coreografias de repertórios que ficam tão marcadas em nós, que não conseguimos dissociar música e passos. Ao ouvirmos a música, lembramos dos movimentos. Se virmos os movimentos sem áudio, a música já começa a tocar em nossa mente. Sendo assim, assistir a uma outra coreografia com a mesma música sempre causará estranhamento.

Geralmente, eu gosto de algumas inovações. Por exemplo, essa coregrafia para “O adágio da rosa”, de A Bela Adormecida, criada por Matthew Bourne. Mas hoje eu assisti a uma novidade que estranhei demais! Olhando friamente, gostei bastante, mas é impossível me desapegar da versão mais conhecida. É a coda do sonho de Dom Quixote. Em dado momento, já esperei os vários grand jetés da Dulcinea e da Rainha das Dríades, sem falar na ausência do Cupido.

A coreografia que a maioria conhece é esta. Essa outra é da nova montagem de Dom Quixote, do Semperoper Ballett, com coreografia de Aaron S. Watkin. Além disso, o nome mudou para “O reino de Doña Dulcinea”. É ou não é estranho de assistir?

“O reino de Doña Dulcinea” (The Kingdom of Doña Dulcinea), Dom Quixote, Semperoper Ballett.

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O oitavo aniversário

Era começo de 2009, eu tinha 29 anos, um ano e meio de ballet, estudava na minha segunda escola e continuava me sentindo da mesma maneira: um peixe fora d’água. Sempre o sentimento de inadequação, a sensação de que eu não estava no meu lugar. Eu já mantinha blogs desde 2003, por que não criar um sobre ballet? Lembro de fazer uma lista de nomes e cortar um por um. No fim das contas, sobrou este: “Dos passos da bailarina”.

Chegou o primeiro aniversário, em 2010, e os anos foram passando: 2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016… Oito anos escrevendo sobre ballet clássico, 857 posts, mais de dois milhões de visitas e um livro depois, cá estamos nós em 2017.

O retorno do meu trabalho teve momentos bem distintos. Nos primeiros anos, havia quem compartilhava comigo a própria história e havia quem me agredia. Os hoje tão conhecidos “haters” já existiam, mas aqui eles usavam tule e fitas de cetim. Foi por essa razão que a página e o grupo de discussão no Facebook foram apagados, porque algumas coisas eram bem pesadas e eu não sabia lidar com isso.

Depois do auge dos blogs e sua queda para dar lugar a outros meios, como as redes sociais e os canais no YouTube, isso acabou. Só recebo comentários bacanas, uma troca de histórias e informações, e as críticas são fundamentadas, ninguém me agride, xinga ou deprecia a minha história. Não acho que as coisas mudaram no mundo, porque o ódio está mais presente do que nunca, mas neste espaço as pessoas começaram a se desarmar. O motivo? Eu não sei, mas fico feliz que seja assim.

O foco dos textos e das publicações também mudou. Antes eu escrevia sobre o meu caminho no ballet clássico, hoje eu escrevo a minha visão sobre a dança clássica. Não uso mais o termo “bailarina adulta”, mas “bailarina amadora”, e não falo mais “ballet adulto”. Alguém já notou essa mudança? Qualquer dia eu conto o motivo. Além disso, publico muito mais informações sobre ballet e dança, talvez por ter aprendido os caminhos do estudo sobre esse assunto.

Reconheço, os tempos mudaram. Há trabalhos muito bons pela internet afora, vi vários deles surgirem e o “Dos passos da bailarina” se tornou aquela tia legal que as sobrinhas visitam de vez em quando para aprender um pouco mais. Por enquanto, não tenho vontade ou interesse de seguir esses novos rumos, nas redes sociais mantenho apenas meus perfis pessoais ‒ Twitter, Instagram, Facebook e Pinterest ‒ e só faço divulgação daquilo que gosto, sem ganhar nada por isso (seja brinde, pagamento ou algo semelhante). Não significa que é o melhor caminho, respeito imensamente quem trabalha de outra maneira, esse é apenas o meu jeito de preservar o que construí com tanto esmero.

Em resumo, o “Dos passos da bailarina” se tornou um casamento entre o ballet clássico, a palavra e o movimento. E enquanto houver bailarinas e bailarinos dançando por essas linhas, eu continuarei a escrever.

Obrigada pelos oitos anos, de coração.

* * *

Vocês achavam que a comemoração terminaria sem dança? Escolhi a “Variação de Aurora” do segundo ato de A Bela Adormecida, da linda montagem do Het Nationale Ballet/Dutch National Ballet. Como eu gosto dessa variação!

“Variação de Aurora”, segundo ato, A Bela Adormecida, Het Nationale Ballet/Dutch National Ballet, Megan Zimny Kaftira.

A coda do Pássaro Azul

Há dias em que apenas a beleza nos salva dos períodos nublados da vida e a delicadeza do Pássaro Azul, de A Bela Adormecida, é perfeita para isso.

Neste vídeo, assistimos apenas à coda, bem diferente dos 32 fouettés bem comuns nessa parte. Além disso, que musicalidade da Yuhui Choe! Impossível não voltar a sorrir.

Coda do grand pas de deux Pássaro Azul, A Bela Adormecida, Yuhui Choe e Alexander Campbell, Royal Ballet 2011/2012.

Os cinco repertórios obrigatórios

O espetáculo está prestes a começar. Enquanto isso, duas bailarinas conversam na coxia:
– Há um repertório pelo qual sou apaixonada, uma das cenas mais incríveis é quando Giselle…
– Giselle?

Essa cena realmente aconteceu. Sim, uma das bailarinas não sabia quem é Giselle. Não, ela não era profissional, era uma estudante de ballet, mas eu me pergunto: não deveria uma estudante conhecer minimamente o básico dos ballets de repertório?

Nesses anos de blog, reconheço o quanto insisto que bailarinas devem estudar. Isso é tão claro para mim que me admira quem diz o contrário. O ballet clássico não existe em si, há um propósito: dançar. Esse dançar vai além dos movimentos, ele carrega consigo toda uma bagagem técnica, histórica e artística. Não parece óbvio? Para as profissionais, sempre foi, para as amadoras, nem tanto. Tenho visto que ele se transformou em uma prática física com um pouco mais de glamour. É bonito posar de bailarina, quem não se sente linda?, mas ser bailarina é outra história.

Não serei a patrulheira, o ballet clássico não me pertence, cada qual faça dele o que quiser. Mas quem deseja ir além, vamos aos repertórios.

Há bastante tempo, expliquei o significado de repertório. Uma de suas acepções, de acordo com Vera Aragão, no curso Composição Coreográfica para Ballet, é:

“Em relação à dança, repertório é o conjunto de obras que, reunidas a partir de determinados critérios, continuam a ser encenadas, remontadas por diversas companhias ao redor do mundo e, mesmo décadas ou séculos após a morte de seus autores, continuam a gerar interesse do público que as assistem. Essas obras formam o acervo de uma companhia. Assim, repertório está ligado à permanência e à universalidade.”

Para mim, há cinco repertórios obrigatórios para quem estuda ballet clássico. Claro, é importante conhecer o maior número possível deles, mas esses devem fazer parte de nós como grandes amigos: conhecer a história, ter familiaridade com as músicas das passagens mais importantes, saber alguns passos das principais coreografias, reconhecer as personagens ao ouvir seu nome. Não precisa ser especialista, tampouco assistir a dezenas de montagens, mas compreender que os repertórios são tão importantes para o ballet quanto a técnica clássica.

Falarei brevemente os motivos pelos quais escolhi esses cinco e vou inserir links do Vídeos de Ballet Clássico, da querida Julimel. No seu blog, ela explica os repertórios, conta várias particularidades, além de publicar montagens de diversas companhias. Agora, não tem desculpa.

O lago dos cisnes

O repertório por excelência, O lago dos cisnes é sinônimo de ballet clássico: dificilmente alguma companhia não o montou pelo menos uma vez. Odette (cisne branco), Odile (cisne negro), Rothbart e Siegfried são as personagens principais, além da importância do conjunto de cisnes. Os primeiros acordes do prólogo nos fazem suspirar. É importante conhecer as sequências do entrance de Odette e Odile e suas respectivas variações, o pas d’action e a coda do segundo ato, o pas de quatre dos pequenos cisnes, o grand pas de deux do terceiro ato e outras tantas sequências. Quem sabe, escolher um cisne preferido, se identificar com um deles e chorar no final (não importa qual, pois eles diferem em algumas montagens). E, depois disso tudo, nunca mais olhar um cisne com os mesmos olhos.

Todos os posts do blog sobre O lago dos cisnes, aqui.
Para conhecer a história e assistir às montagens, aqui.

Giselle

Auge do período romântico, um marco na história da dança, esse repertório foi responsável por elevar bailarinas ao status de estrela. Várias delas têm nessa camponesa o seu grande papel. Giselle, Albrecht, Hilarion e Myrtha são personagens que devemos conhecer muito bem; sem falar nas variações de Giselle, do primeiro e do segundo ato, o “Peasant Pas de Deux”, a morte de Hilarion, o pas de deux do segundo ato, as wilis e seus arabesques alinhados e na mesma respiração, e o momento mais emocionante, o enfrentamento entre Giselle e Myrtha para proteger Albrecht. Por fim, o tutu romântico tem em Giselle sua perfeita definição.

Todos os posts do blog sobre Giselle, aqui.
Para conhecer a história e assistir às montagens, aqui.

A Bela Adormecida

Outro marco na história da dança, é o ponto máximo dos repertórios. Reza a lenda que Marius Petipa desenvolveu a coreografia quase ao mesmo tempo da criação musical de Tchaikovsky, foram feitas em conjunto, por isso tamanha sincronia. As mudanças coreográficas aconteceram em todos os repertórios ao longo do tempo, mas talvez  e isso é pura percepção  A Bela Adormecida tenha sido o repertório que sofreu menos modificações.

O conto de fadas veio da infância, mas só no ballet nós temos a alegria do entrance de Aurora, a beleza do “Adágio da rosa”, as fadas do nosso imaginário dançando juntas e sozinhas em suas variações, o grand pas de deux do terceiro ato que beira a perfeição, os coadjuvantes encantadores do “Grand pas de deux do Pássaro Azul”. É o ballet clássico em toda sua magnitude.

Todos os posts do blog sobre A Bela Adormecida, aqui.
Para conhecer a história e assistir a várias montagens, aqui.

O Quebra-Nozes

Não existe Natal para bailarinas e bailarinos sem ele. Montado em companhias ao redor do mundo durante as festividades de fim de ano, inclusive no Brasil, várias músicas são mais próximas de nós do que “Jingle Bells”. Os primeiros acordes da “Variação da Fada Açucarada” despertam nossa memória afetiva. A “Valsa das Flores” é praticamente o batismo de toda bailarina novata; assim como eu, aposto que várias de vocês também a dançaram. É o lado doce e encantador da infância traduzido pelo ballet clássico. A Clara somos nós quando crianças.

Todos os posts do blog sobre O Quebra-Nozes, aqui.
Para conhecer a história e assistir às montagens, aqui.

Dom Quixote

Ele não é sinônimo de ballet clássico. Ele não é um marco na história da dança. Ele não é o ponto máximo dos repertórios. Ele não é a personificação do Natal. Por que então conhecer Dom Quixote? Inspirado na obra de Miguel de Cervantes, é um dos ballets mais montados no mundo. Não falo apenas de companhias de dança, mas em escolas também. Quem nunca assistiu ao grand pas de deux do casamento? Quem não conhece a “Variação de Kitri”, em várias versões, ou o seu desafio? Sem falar na delicadeza da cena do sonho ou da “Variação do Cupido”. Longe daquela melancolia tão característica de O lago dos cisnes e Giselle, os dois repertórios mais conhecidos, Dom Quixote tem a alegria em sua essência.

Todos os posts do blog sobre Dom Quixote, aqui.
Para conhecer a história e assistir às montagens, aqui.

Passada a fase obrigatória, quem quiser conhecer mais repertórios: A filha do faraó, Coppélia, Esmeralda, La bayadère, La fille mal gardèe, La sylphide, O corsário, Paquita, Raymonda. Esqueci de algum repertório importante?

Se alguém discordar da minha lista, sinta-se à vontade para refazê-la e expor os seus motivos. É sempre bom trocar informações e opiniões.

***

Observação: Bom seria eu inserir links em todas as menções dos repertórios, tanto das músicas quanto das coreografias, mas a coisa mais normal no YouTube é retirarem vídeos do ar. Várias vezes eu repus links em posts anteriores, mas não consigo atualizar como deveria. Sabendo disso, resolvi não inseri-los neste texto porque são vários, mas todas as menções são bem fáceis de serem encontradas em uma busca rápida pela internet afora.

Variação do Diamante

Lembram quando publiquei sobre a reconstrução de O lago dos cisnes realizada pelo Alexei Ratmansky? Ele também reconstruiu A Bela Adormecida. Há tempos procuro “O adágio da rosa” e o “Pas de deux do Pássaro Azul” para trazer para cá, mas não os encontro como gostaria. Enquanto isso, vamos de variação?

Esta é a “Variação do Diamante”, na apresentação do American Ballet Theatre como companhia convidada da Ópera de Paris. É uma graça!

Bônus: Quem quiser assistir a um trecho da sequência do sonho de A Bela Adormecida, na mesma apresentação, aqui.

“Variação do Diamante”, A Bela Adormecida, American Ballet Theatre.