Pela alegria de dançar

O ballet clássico é uma ode ao sofrimento. Horas e horas de aulas e ensaios. Dores pelo corpo todo. Pés machucados, com direito a unhas roxas prestes a cair. Lágrimas dia sim, outro também. Obsessão pelo movimento perfeito. Angústia desmedida por nunca atingir o apogeu. As tragédias gregas são mais tranquilas que a vida de uma bailarina.

É assim mesmo ou nós exageramos um pouco? Convenhamos, a menos que uma pessoa seja masoquista em um nível patológico, ninguém conseguiria viver assim. Mesmo para as bailarinas e os bailarinos profissionais, há um limite para o sofrimento. Ballet é difícil? Muito, como tantas outras coisas na vida.

Mas existe a alegria de dançar, a satisfação em ver o resultado de tanta dedicação, a plenitude de sentir-se finalmente uma bailarina. Por que isso não faz tanto sucesso? Porque o sofrimento é visto como sinônimo de luta: se sentimos dor, então nos dedicamos arduamente por alguma coisa.

A dor vale mais do que a alegria? Eu danço porque dançar me faz feliz. Há um punhado de tristezas? Sim, mas são poucas. O dia em que o ballet me fizer chorar encolhida na cama, eu procurarei outro amor na vida.

Por isso, em 2016, eu quero uma ode à alegria. É esse sorriso no rosto do Carlos Acosta e da Marianela Nuñez que desejarei a nós neste novo ano. E um pouco dessa doçura e delicadeza de La fille mal gardée não fará mal a ninguém.

Pas de ruban, La fille mal gardée, Royal Ballet. Carlos Acosta e Marianela Nuñez.

Au revoir, 2015!

Neste ano, aconteceram duas coisas pessoalmente importantes no ballet clássico: a minha bailarina preferida se aposentou na Ópera de Paris e eu assisti ao Bolshoi dançar o meu repertório mais querido.

A minha atenção saiu um pouco da França – por mais de oito anos a Ópera de Paris foi a minha companhia preferida, mas o novo diretor tem mudado as coisas por lá – e foi para a Rússia – passei a prestar mais atenção no Bolshoi. Também me cansei do que tenho visto no ballet clássico e meus olhos se voltaram ao passado.

Comecei a fazer flamenco, abandonei as aulas pouco tempo depois, mas ainda o estudo por conta própria, igual ao ballet. A minha barra fixa foi a minha companheira por muitas horas ao longo deste ano.

Reconheço, eu deixei o blog de lado, mas queria cuidar um pouco mais da minha vida. Quem sabe eu volte a compartilhar as minhas experiências, tal como eu fazia lá no começo. Aliás, o Dos passos da bailarina fará sete anos, nem eu imaginava que chegaria tão longe.

Enfim, poucos acontecimentos que mudaram o rumo de muitas coisas.

Vamos terminar com uma coda? Para fechar 2015 como deve ser.

Coda, grand pas de deux do terceiro ato, Dom Quixote, Mariinsky Ballet, Leonid Sarafanov e Olesya Novikova.

As flores

No Natal, as flores das bailarinas e dos bailarinos são aquelas do Quebra-Nozes.

Uma noite linda e um dia encantador para todos nós. Feliz Natal!

Corpo de baile na coxia, “Valsa das Flores”, Quebra-Nozes, Pacific Northwest Ballet.

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Quem quiser assistir a essas flores em ação, aqui.

Vida de Bailarino

Apresentada e produzida pela Carla Zacarelli, “Vida de Bailarino” é uma série sobre as particularidades de quem se dedica ao ballet clássico.

O tema do primeiro episódio resume-se bem nesta frase da fisioterapeuta e bailarina Talmai Fernandes Terra: “Qualquer dor mostra que tem alguma coisa errada no seu corpo”. Sabe essa ideia de que tudo bem sentir dor? Não é assim.

“Vida de Bailarino”, episódio 1: Sacrifícios.

O segundo episódio será realizado ano que vem. Você tem alguma sugestão de tema para os próximos episódios? É só contar nos comentários.

Em três atos

Dirigido por Lucia Murat, o filme Em três atos passeia entre a ficção e a não ficção, entre a dança e os textos de Simone de Beauvoir. Além das atrizes Andréa Beltrão e Nathalia Timberg, há a participação das bailarinas Maria Alice Poppe e (a grandiosa) Angel Vianna.

O trailer é de uma imensa delicadeza. Talvez o filme atinja mais profundamente as almas antigas, porque fala do envelhecimento e do passar do tempo.

Em três atos está em cartaz nos cinemas brasileiros.

Trailer do filme Em três atos, de Lucia Murat.