As bailarinas negras e o ballet clássico

“Uma vez ela perguntou assim: ‘Qual é a chance de uma bailarina negra no Brasil pro Teatro Municipal do Rio de Janeiro?’. Eu falei: ‘Nenhuma, querida. Mas eu vou te ajudar pra você ir para uma companhia estrangeira’.”

Mariza Estrella, diretora do Centro de Dança Rio, no documentário “Only When I Dance”, sobre uma conversa com a bailarina brasileira Isabela Coracy.

Independentemente do talento, da vocação, das habilidades físicas, uma bailarina não pode sonhar com o mais alto posto da maior companhia de dança clássica do seu país por causa da cor da sua pele. Qual é o nome disso?

Muitas vezes camuflado por outras denominações, a ausência de bailarinas negras nos altos postos das grandes companhias de dança nada mais é do que racismo. Há pouco mais de um ano, fiz uma pesquisa sobre companhias dos cinco continentes (aqui e aqui). Não há uma única primeira-bailarina negra nas grandes companhias de dança ao redor do mundo. Nenhuma.

Por favor, guardem para si as justificativas, pois todas elas podem ser facilmente refutadas. Na dúvida, releiam o começo do texto. Não importa quantas barreiras serão transpostas para uma menina negra tornar-se bailarina clássica profissional. Mesmo que ela chegue lá no topo, alguém lhe dirá, ainda que indiretamente: “Sinto muito, aqui não é o seu lugar”.

Bailarinas em Ruanda. Fonte: This is Africa, Our Africa.

Durante quase dois anos, mantive uma página do blog no Facebook. Essa foto foi a mais curtida, compartilhada e comentada. Todo mundo se desmanchou de amor por essas pequenas bailarinas. Mas o que acontece quando elas crescem? O encanto acaba? Fazer ballet quando criança tudo bem, mas querer ser profissional já é demais? As princesas, as fadas, as camponesas não foram feitas para as mulheres negras? É isso o que o ballet vem dizendo há 300 anos.

Jenelle Figgins, em Gloria, Dance Theatre of Harlem. Foto: Matthew Murphy.

O racismo é estrutural, ele cresceu e criou raízes nas entranhas da sociedade. Alguém diz que não é racista, mas torce o nariz ao ver uma Giselle negra. Profere discursos sobre igualdade racial, mas em uma audição para escolher a mais nova bailarina da companhia, escolhe a branca em detrimento da negra, mesmo que as duas estejam em iguais condições artísticas. É professora de ballet e sorri docemente para todas as alunas, mas jamais coloca a melhor bailarina da turma no papel principal porque ela é negra. O sonho morre naquelas pequeninas da foto, que se sentem princesas quando meninas, mas adultas não poderão ser Aurora.

Mesmo com todos os nãos, estas são algumas bailarinas que ultrapassaram essa barreira e fizeram história.

Da esquerda para a direita: Janet Collins, Raven Wilkinson, Lauren Anderson, Aesha Ash.

Janet Collins foi a primeira bailarina negra a dançar no The Metropolitan Opera, em Nova York, mas antes havia passado na audição para o Ballet Russe de Monte Carlo. Não integrou a companhia, porque teria de pintar a pele de branco para se apresentar.

Raven Wilkinson foi uma das primeiras bailarinas negras dos Estados Unidos a integrar uma companhia, justamente, o Ballet Russe de Montecarlo. Acabou abandonando a carreira por causa dos constantes ataques que os bailarinos sofriam por causa de sua presença. Ela contou sua história no documentário “Ballets Russes”, de 2005.

Lauren Anderson foi a primeira bailarina negra a alcançar o topo de uma companhia, foi primeira-bailarina do Houston Ballet de 1990 a 2007. Depois da aposentadoria, continuou trabalhando no Houston Ballet e dá aulas como convidada em companhias ao redor do mundo.

Aesha Ash fez parte do New York City Ballet, mas acabou sendo praticamente convidada a se retirar da companhia e seguiu carreira no Béjart Ballet Lausanne e Alonzo King LINES Ballet.

Elas abriram caminhos para outras bailarinas que hoje conseguem uma notoriedade que suas antepassadas nem sempre conseguiram.

Da esquerda para a direita: Misty Copeland, Céline Gittens, Michaela DePrince, Precious Adams.

Misty Copeland, solista do American Ballet Theatre, é a mais influente. Além de ser uma grande artista, ela trabalha ativamente pelo espaço das bailarinas negras na dança profissional e é responsável pelo empoderamento de milhares de meninas. É raro alguém do meio não conhecê-la.

Céline Gittens é solista do Birmingham Royal Ballet. Em 2012, ela e Tyrone Singleton foram os primeiros bailarinos negros a dançarem juntos na Inglaterra os papéis principais de “O lago dos cisnes”. Esse repertório existe há quase 150 anos. Agora, façam as contas de quanto tempo demorou para isso acontecer.

Michaela DePrince participou do documentário “The First Position” e sua história ganhou o mundo. No começo, isso ofuscou o seu talento, mas depois de integrar a companhia júnior do Het Nationale Ballet/Dutch National Ballet, aos poucos trocaram a história da sua vida pela sua carreira artística. Ela já subiu um posto e está quase no corpo de baile da companhia.

Precious Adams estudou no The Bolshoi Ballet Academy, na Rússia, e ouviu de um professor para deixar a sala por ser negra. Também disseram para ela lavar a pele, para a cor sair. Em uma daquelas belas surpresas da vida, foi uma das vencedoras do Prix de Lausanne, ficou em segundo lugar, conseguiu uma bolsa de estudos e hoje faz parte do corpo de baile do English National Ballet. Talvez esse tenha sido um dos maiores avanços no mundo do ballet em relação ao racismo.

Precious Adams, “Variação de Aurora”, terceiro ato, Prix de Lausanne 2014.

Eu me concentrei nas bailarinas porque elas são o nosso espelho: escolhemos as nossas preferidas e queremos ser iguais a elas. Além do mais, as mulheres negras sofrem duplamente, pelo racismo e pelo machismo. Isso não significa que bailarinos negros não passem por uma série de percalços, mas encontrá-los no topo da hierarquia é mais fácil. Carlos Acosta é um deles.

Também é importante ressaltar o trabalho de algumas companhias formadas basicamente por bailarinas negras e bailarinos negros, como o Dance Theatre of Harlem e o Ballet Black. A Alonzo King LINES Ballet mantém um elenco misto, que deveria servir de modelo para todas as outras. A qualidade artística dessas companhias é de encher os olhos.

Por fim, e a Isabela Coracy? Depois de passar pela Companhia Brasileira de Ballet, São Paulo Companhia de Dança e Companhia de Dança Deborah Colker, ela é bailarina do Black Ballet.

Ainda há um longo caminho para o racismo acabar. Para isso, é necessário um trabalho conjunto, de educação e de reconhecimento de privilégios que não deveriam existir. O protagonismo dessa luta sempre será das pessoas negras, mas a responsabilidade é de todos. Para que nunca mais uma menina negra ouça que não pode ser primeira-bailarina do Teatro Municipal do Rio de Janeiro pelo simples fato de ser quem é.

Para mais informações:

Vídeos

“Blacks in Ballet”, vídeo em inglês, aqui.
“Being a Black Dancer”, Misty Copeland, vídeo em inglês, aqui.
“Black Woman in Classical Ballet”, mesa redonda com Virginia Johnson, Raven Wilkinson, Misty Copeland e Ashley Murphy, vídeo em inglês, aqui.

Matérias

“Where Are All the Black Swans”, matéria do The New York Times, em inglês, aqui.
“Where Are All the Black Swans”, matéria da Pointe Magazine, em inglês, aqui.

Entrevistas

Ashley Murphy, Ebony Williams e Misty Copeland para a Pointe Magazine, em inglês, aqui.
Misty Copeland para o The Huffington Post, em inglês, aqui.
Lauren Anderson para o Dances avec la plume, em francês, aqui.
Lauren Anderson para o Ballerina Guru, em inglês, aqui.
Raven Wilkinson para a Pointe Magazine, em inglês, aqui.

Texto

“Na pele”, texto de Cyndi Oliveira, aqui.

Perfis de companhias de dança

Quando escrevi o post “Guia de estudo”, contei que acompanho os perfis nas redes sociais de várias companhias de dança. Além de serem fontes de estudo e informação, o material produzido melhora a cada dia.

Selecionei os principais perfis de algumas companhias de dança para compartilhar com vocês. Gosto especialmente de alguns, mas acho todos eles interessantes. No caso da Ópera de Paris, do Mariinsky e do Royal, há mais de um link em algumas redes sociais, pois como são teatros, geralmente os perfis abrangem toda a programação, mas alguns são específicos do ballet. Quem quiser complementar nos comentários, sinta-se à vontade.

Ópera de Paris

YouTube: www.youtube.com/user/operanationaldeparis
Facebook: www.facebook.com/operadeparis
Twitter: @operadeparis e @BalletOParis
Instagram: @balletoperadeparis

Pacific Northwest Ballet

YouTube: www.youtube.com/user/pacificnwballet
Facebook: www.facebook.com/PNBallet
Twitter: @PNBallet
Instagram: @pacificnorthwestballet

Het Nationale Ballet/Dutch National Ballet

YouTube: www.youtube.com/user/DutchNatOperaBallet
Facebook: www.facebook.com/HetNationaleBallet
Twitter: @dutchnatballet
Instagram: @nationaleoperaballet

Bolshoi Theatre

YouTube: www.youtube.com/user/bolshoi
Facebook: www.facebook.com/bolshoitheatre
Twitter: @bolshoiofficial
Instagram: @bolshoi_theatre

Mariinsky Theatre

YouTube: www.youtube.com/user/MariinskyEn
Facebook: www.facebook.com/mariinsky.theatre e www.facebook.com/mariinsky.ballet
Twitter: @mariinskyen

New York City Ballet

YouTube: www.youtube.com/user/newyorkcityballet
Facebook: www.facebook.com/nycballet
Twitter: @nycballet
Instagram: @NYCballet

English National Ballet

YouTube: www.youtube.com/user/enballet
Facebook: www.facebook.com/EnglishNationalBallet
Twitter: @enballet
Instagram: @englishnationalballet

Royal Opera House

YouTube: www.youtube.com/user/RoyalOperaHouse
Facebook: www.facebook.com/royaloperahouse
Twitter: @royaloperahouse e @TheRoyalBallet
Instagram: @royaloperahouse

O arabesque perfeito em movimento

Dia desses, publiquei uma foto da bailarina Bianca Scudamore e seu arabesque perfeito na final do Prix de Lausanne 2015. Agora, assistam ao vídeo da sua apresentação, ela dançou a “Variação da Fada Lilás”, de A Bela Adormecida.

O seu arabesque não foi perfeito uma vez, ela faz toda uma sequência de perfeição. Depois, ela só baixa um pouquinho o braço direito nos arabesques, mas não atrapalha em nada. Sua qualidade técnica e artística não se resume a isso, ela é belíssima! Em tempos de ballet acrobático, assistir a uma bailarina tão nova dançando dessa maneira me deu até um afago no peito.

“Variação da Fada Lilás”, Bianca Scudamore, Prix de Lausanne 2015.

O arabesque perfeito

Cada vez mais raro no ballet, o arabesque 90 graus é sinônimo de perfeição. Nesta foto, tudo está no seu devido lugar: a perna do arabesque em relação ao chão e à perna de base, a colocação do tronco, os braços, as mãos, a cabeça, o olhar. Tudo.

Para imprimir e colar na parede, para estudar sempre e servir de inspiração.

Bianca Scudamore, Prix de Lausanne 2015. Foto: Gregory Batardon.

Seis anos

Engraçado como o tempo passa e nem sentimos. Ainda lembro quando resolvi criar o blog, a minha lista de possíveis nomes, a escolha da imagem do topo. Era uma cena do filme “O curioso caso de Benjamin Button”, esta. Detalhe: não assisti ao filme até hoje!

Para comemorar, eu pedi a vocês que fizessem perguntas e eu responderia em um podcast. Pois bem, foram várias perguntas, o que me deixou bem feliz, mas algumas não poderiam ser respondidas sem links e outras fontes. Como a informação é mais importante que o meio, preferi sanar as dúvidas do que fazer algo diferente. Alma nerd é isso, gente.

Eu publiquei apenas as perguntas, e um ou outro comentário adicional para facilitar a compreensão, tudo bem? Alguns comentários eram grandes e conheço as minhas leitoras e os meus leitores para saber que eles pulariam essas partes. Além disso, há uma porção de links ao longo das respostas, cliquem para complementar as informações. Vamos lá?

* * *

Perguntas da Marisol Salla

Você dança há quanto tempo?
Há sete anos e meio.

Sempre quis ser bailarina?
Quando criança, eu queria ser bailarina, mas meus pais não me deixaram fazer aulas. Pensei nisso algumas vezes ao longo dos anos, e contei toda a história neste post. Até que, aos 27 anos, finalmente comecei as aulas.

Qual espetáculo ou concerto você mais gosta?
Eu tenho três grandes amores: Giselle, O lago dos cisnes e Jewels.

Você acha que uma pessoa “dura” assim como eu aprende a dançar ballet?
Aprende sim, Marisol, porque o próprio ballet vai deixar você mais “molinha”. Quem não é uma pessoa naturalmente flexível pode adquirir flexibilidade com bastante treino. Não precisa se preocupar com isso.

Perguntas da Tainã Moreira

O que motivou você a começar a dançar?
As próprias circunstâncias, Tainã. Eu fazia teatro e ao começar a trabalhar em uma determinada empresa, não teria mais tempo durante a semana. Mesmo assim, não queria ficar sem qualquer contato com a arte e procurei aulas para o que queria fazer desde criança: dançar.

Por que escolheu o ballet clássico?
Apesar de querer ballet clássico desde criança, eu também pensava que não era para adultas. Quando resolvi dançar, não cogitei essa possibilidade, eu queria fazer dançar do ventre. Porém, no estúdio onde comecei, eu teria direito a duas aulas na semana. Como eu só poderia estudar aos sábados, teria de fazer outra aula além da de dança do ventre. Qual era a modalidade do horário anterior? Ballet clássico, turma de adultas.

E, por último, o que ainda a motiva?
Eu só me sinto plena dançando, eu continuo por isso.

Perguntas do Hans Müller

Por qual razão você escolheu a dança?
Como respondi à Tainã, eu não escolhi a dança por motivos muito nobres. Eu queria uma atividade artística para fazer aos sábados e a dança era a mais acessível. Sempre quis dançar, mas houve mil impedimentos. Acho que a dança me escolheu e por algum motivo que ainda não descobri. Volta e meia penso em parar, mas a dança não deixa.

O que te alimenta a querer viver mais dentro desta arte?
Hans, você não ficará feliz com a minha resposta, mas serei sincera, tudo bem? Não sei se quero viver mais dentro desta arte. Quanto mais eu conheço os seus meandros e seus caminhos, menos eu me identifico, especialmente com o ballet clássico. Amo a dança na sua essência, não no seu modus operandi, por assim dizer.

Pergunta da Maria Mariane

Você já fez espetáculos de ballet?
Maria, eu apenas participei de espetáculos de fim de ano das escolas onde estudei. Em todas as vezes que dancei ballet, foram músicas de repertórios e coreografias criadas pelas próprias professoras. Em 2007, foi uma música de Esmeralda; em 2008, Quebra-Nozes e Le papillon; e em 2009, La bayadère.

Perguntas da Letícia Magalhães

Qual a sua reação ao saber que faria seu primeiro solo? Quantos anos você tinha de ballet?
Letícia, eu nunca dancei um solo. Como muitas bailarinas adultas, ganhar uma variação para chamar de minha é um sonho distante, infelizmente.

Perguntas da Cyndi Oliveira

Quais tipos de exercício você gosta? (adágio, allegro, grand battement, sei lá)
Cyndi, sem dúvida alguma, allegro. Para mim, é a essência do ballet, mas o meu amor é inversamente proporcional a minha habilidade. Eu sou uma perdida nos allegros, demoro para “pegar o embalo”.

Qual passo você mais gosta de fazer? E qual faz melhor?
Eu tenho fixação por quatro: tendu, grand battement, cloche e arabesque. Dificilmente eu passo um dia sem fazer algum deles. Desses, sou melhor no tendu. Também sou boa em giros na diagonal, o que é inexplicável, já que apanhei anos para girar no centro. Vai entender!

Tem alguma recordação de um momento da dança que te faz chorar? E que te faz gargalhar?
Foram tantos os momentos que me fizeram chorar, mas vou contar um que merece uma grande discussão: no estúdio em que estudava, vi as fotos do espetáculo e voltei chorando para casa porque me achei gorda. A questão é: eu nunca fui gorda. E por que isso surgiu? Patrulha sobre o meu corpo nas aulas de ballet durante mais de dois anos. Percebi a gravidade da situação quando, numa conversa banal na pós-graduação, uma amiga da turma me disse: “Você que é magra…” Eu quase a corrigi. Não me apresento no palco há cinco anos, não faço aulas regulares há três e ainda controlo o meu peso. Imagina quem segue o caminho profissional. Assim nascem os transtornos alimentares.

Uma recordação que me faz gargalhar: em uma aula, pliés no centro, aquela concentração, chegou a hora do grand plié em primeira posição. Todo mundo desceu e voltou, eu caí de bunda. Eu me abri de rir e todo mundo ficou sério. Eu me senti mais tonta pela risada do que pela queda.

Há alguma coisa que todo(a) bailarino(a) deveria saber?
Toda bailarina e todo bailarino deveria saber que: o ballet não começou com você, tampouco terminará com você. O ballet já existia antes e existirá depois, mas muitas se comportam como se tivessem inventado a pirueta. A dança existe independentemente de você, tudo bem?

Qual figurino seu que você mais gosta?
O primeiro que usei, este aqui. Eu o mantenho guardado para usá-lo novamente um dia. Como eu gostaria de dançar uma variação vestida com esse figurino!

Qual música de ballet que você mais escuta/gosta?
Gosto de muitas, mas nada supera a música de O lago dos cisnes. Toda vez que ouço, tenho vontado de abraçar o Tchaikovsky.

Pergunta da Fabiana Falcão

Você teve muitas dificuldades com ele (o espacate)?
Fabiana, lamento te decepcionar, mas até hoje não consegui zerar o espacate. Já cheguei bem perto, mas não consigo, sabe por quê? Negligência minha, eu paro de treinar. Se você quiser zerar o seu, treino diário e paciência. Não tem outro jeito.

Pergunta da Adriane

Gostaria de dicas de cursos regulares de ballet onde adultos possam ingressar. Na minha cidade (Joinville), só existem duas escolas que oferecem curso regular, porém só aceitam crianças. O resto é curso livre.
Adriane, logo em Joinville, a cidade da dança, você não consegue um curso regular que aceite adultas? Eu não publico nomes de escolas no blog, mas tampouco conheço algum curso na sua cidade, infelizmente. Se alguém souber, por favor, indique nos comentários. Vou abrir essa exceção de aniversário.

Pergunta da Nathalia

Gostaria de saber se você tem algum livro bom de passos de dança para indicar.
Nathalia, no seu comentário você contou que fez ballet quando criança e que hoje faz jazz. Eu só conheço livros de ballet e há dois muito bons para começar: “Princípios básicos do ballet clássico”, da Agrippina Vaganova, e “Curso de balé”, do Royal Academy of Dancing.

Pergunta da Lia

Gostaria de outras indicações de música no estilo do post acima (este aqui), músicas de filmes, comerciais, etc. que derivem do ballet clássico.
Lia, de acordo com o post, essas são músicas de ballet que foram utilizadas pela Disney. Eu só saberia falar dos ballets, não de outras obras nas quais essas músicas foram utilizadas. Sendo assim, minha única indicação possível é você pesquisar repertórios e ouvir suas músicas.

Pergunta da Katia Carmelo

Poderia nos explicar melhor as definições do vocabulário do balé clássico. […] Vi que tinha começado um dicionário de balé e parou. Gostaria muito que voltasse, pois existem muitos passos e termos que não são explicados na internet ou se acham em inglês e outros idiomas que não são o português.
Katia, eu comecei um dicionário de repertório e o objetivo é explicar apenas os termos referentes aos repertórios, não os passos de ballet. O grande problema de pesquisar essas definições na internet, ainda mais em outros idiomas, é a dificuldade em entendermos as explicações. A melhor maneira de aprender é vendo como o passo funciona. Há um material incrível, o “Videodictionary of Classical Ballet”, em que praticamente todos os passos de ballet são devidamente demonstrados. Você pode assistir online ou baixar, parte 1 e parte 2.

Perguntas da Sara

Gostaria de saber um pouco sobre a sua rotina de estudos e as referências.
Eu fiz um post explicando a minha rotina de estudos, você poderá lê-lo aqui.

Falar um pouco da dança enquanto arte, talvez?
Sara, para isso precisaríamos de mil livros, sem exagero. Esse é um assunto extenso e cheio de meandros. Em todo caso, volta e meia eu questiono o ballet como arte e tento discutir sobre seus aspectos artísticos. Quando você tiver um tempinho, passeie pelo blog que você encontrará bastante coisa.

Fazer um draft do que seria seu sonho de espetáculo (bailarinos, orquestra, músicas, figurino, detalhes!).
São dois sonhos de espetáculo, eles já aconteceram e jamais se realizarão novamente: Margot Fonteyn e Rudolf Nureyev em O lago dos cisnes, e Carla Fracci e Rudolf Nureyev em Giselle. Ainda bem que existem os DVDs, aqui e aqui, mas a grandeza de vê-los no palco, só na minha imaginação.

Falar dos petit secrets do ballet: aqueles detalhes que não levamos tanto em consideração e que fazem uma enorme diferença!
As mãos e o olhar. Sou tão atenta a isso que um “pulso quebrado”, um “dedo levantado” ou um “olhar vazio” são capazes de acabar com uma coreografia para mim. Em compensação, quando ambos são levados em consideração, existe algo a mais ali e ninguém consegue perceber o que é. Como se uma bailarina encantasse mais do que as outras, mas ninguém conseguisse entender o motivo. É isso.

Pergunta da Tatiana Alves Raymundo Lowenthal

Sabemos que existem diversas versões dos repertórios de ballet. […] Sabemos que os repertórios, quando criados, foram registrados em libretos, onde há registro específico do que foi criado. Logo, existe uma necessidade de “registro” prévio ou “autorização” para que uma versão original seja modificada e passe a ser considerada oficial também? Ou será que apenas pelo fato da modificação/adaptação ser feita por uma grande e renomada companhia já a promove com “status” oficial?
Tatiana, para eu conseguir explicar claramente, terei de lhe fazer um pedido. Sabe tudo o que você disse? Esqueça, vamos começar do zero.

Em um repertório, pense em três grandes aspectos gerais: libreto, música e coreografia. No Dicionário de Repertório eu já expliquei dois deles, libreto e música. O libreto é um termo que veio da ópera e nada mais é do que a história contada detalhadamente.

Você falou das diversas versões dos repertórios e citou os libretos. Como nas montagens recentes as grandes diferenças entre uma e outra companhia estão nas coreografias e não nas histórias, parti do princípio que é disso que você está falando.

Sendo assim, coreografia é outra coisa. Os registros das coreografias são feitos por notações coreográficas, semelhante às partituras musicais. Um exemplo, aqui. O assunto é vasto, mas para falar brevemente, essas notações são mais antigas que o ballet clássico. Há vários tipos de notação, inclusive para as mais diversas modalidades de dança. Uma das mais conhecidas e utilizadas no ballet clássico é o Benesh Movement Notation, e sua história e difusão são mantidas pelo The Benesh Institute, ligado ao Royal Academy of Dance. Se você quiser saber mais sobre o assunto, leia o texto “A escrita da dança: pequeno histórico sobre a notação do movimento”, de Ana Lígia Trindade, aqui.

No Dicionário de Repertório, eu expliquei o significado de repertório, aqui. Para ser considerado um, é necessário que uma obra tenha sido montada e remontada ao longo do tempo. Pense em O lago dos cisnes, apresentado pela primeira vez no século 19. Imagine um período em que as notações não eram sistematizadas e arquivadas como são hoje. Acrescente a tradição oral do ballet clássico, em que as informações são passadas de geração para geração. Some os intercâmbios de bailarinos, remontadores e coreógrafos ao redor do mundo (Petipa, francês, fez sua história na Rússia; Balanchine, russo, fez sua história nos Estados Unidos e por aí vai). Acrescente o fato das obras já serem de domínio público. Deu para imaginar a mistura? Sendo assim, não podemos falar em “obra original” porque é impossível saber exatamente qual a coreografia original que Petipa e Ivanov fizeram para O lago dos cisnes. O que existe é a tradição de cada companhia. Quando você assistir a uma remontagem do Royal Ballet, aquele é o resultado de anos de montagens e remontagens realizadas por todos os profissionais que passaram pela companhia. Um mudou um passo, o outro mudou uma sequência, mais um acrescentou outro detalhe, tal maestro trouxe uma partitura perdida e por aí vai.

O mais legal de assistir às montagens de repertórios das companhias é entender essa história. A Julimel, do “Vídeos de ballet clássico“, é especialista nisso, ela sempre explica essas diferenças no seu blog. É muito interessante perceber essas mudanças, tanto ao longo do tempo como de companhia para companhia.

Mas e a vontade de sabermos como é a coreografia original? Não sei como está agora, mas tempos atrás algumas companhias tentaram resgatar isso. São as chamadas reconstruções. É uma tentativa de remontar a obra o mais próximo possível do original. O Bolshoi fez de O corsário, o Mariinsky fez de A Bela Adormecida e o Pacific Northwest Ballet, de Giselle, para citar alguns exemplos. Para saber mais sobre reconstrução, há um excelente post do The Ballet Bag, em inglês, aqui.

Perguntas da Ilka Wirti

Sempre foi tutu prato? De onde e quando surgiu? O tutu romântico veio primeiro?
Ilka, o predecessor do ballet clássico foi a dança de corte. Pense no minueto, aqueles vestidos longos, os passinhos contidos, os pés mal apareciam. Veio o ballet de corte, a primeira academia para estudo da dança e as primeiras bailarinas profissionais. Marie de Camargo encurtou as saias e as tornou mais leves, para facilitar os saltos e para mostrar como eles eram realizados. Marie Sallé mudou os tecidos dos figurinos, tirou os saltinhos dos sapatos e assim facilitou a amplitude dos movimentos. No romantismo, a Marie Taglioni criou de vez o tutu romântico, usando corpete e saias de tule, além de ser a primeira a usar sapatilhas de ponta.

Com o declínio do romantismo, surgiram os grandes repertórios na Rússia. Os tutus continuaram a diminuir de tamanho à medida que as coreografias ficaram mais complexas; quem simboliza essa transição do tutu romântico para o tutu clássico é a Anna Pavlova.

Qual o objetivo disso? Além de mostrar as habilidades da bailarina, esse figurino facilita o seu trabalho. Impossível fazer fouettés utilizando tutu romântico. Parece óbvio, mas nem sempre percebemos a importância dessa relação entre figurinos e coreografia. Quer um excelente exemplo para entender isso? Jewels, de Balanchine. As três partes desse ballet mostram claramente essa relação entre um e outro.

Algumas dessas informações eu descobri no trabalho “O tutu e o movimento: a liberação do corpo e a morfologia do figurino no ballet clássico”, de Amanda Marques de Rezende. É uma aula de tutu! Para ver, clique aqui, e siga as setas do grande retângulo que aparece no topo da página.

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Sanei as dúvidas? Querem perguntar algo além do que escrevi?

Muita obrigada pelas visitas, pelos comentários, por construirmos juntas o “Dos passos da bailarina”. Seis anos! Confesso, nem eu imaginava que chegaria tão longe.