Balter

Em inglês, o verbo balter significa “dançar graciosamente, sem arte ou habilidade específicas, mas talvez com algum prazer”.

Aquele momento em que nos permitimos dançar pelo simples prazer de dançar. Às vezes, nos esquecemos que esses momentos também devem existir.

Fonte: Pacific Northwest Ballet, Facebook.

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Bailando um tesoro

O Ballet Nacional de España é uma das companhias mais importantes daquele país, o primeiro diretor foi ninguém menos que Antonio Gades, e a base do seu trabalho artístico é a dança espanhola em suas várias expressões.

Talvez vocês se lembrem, eu fiz flamenco por um tempo. Pouco, na verdade, mas ainda estudo sobre o assunto. Gosto demais do Ballet Nacional de España e o acompanho por alto. Assim eu assisti a um vídeo tão interessante que quis compartilhar com vocês.

Em breve, eles lançarão “Bailando un tesoro”, um livro ilustrado para crianças sobre a dança espanhola e seus estilos. Para divulgar o lançamento, fizeram esse vídeo de dez minutos em que, além de entrevistas com os realizadores do livro, vemos várias crianças em uma escola de dança. Elas também fazem ballet clássico, assim como os profissionais da companhia, e é uma graça vê-las todas juntas e ouvi-las falar sobre dança. Em dado momento, um dos meninos diz: “Todo mundo tem direito de dançar porque é uma coisa muito bonita”. Como não amar?

Também há cenas dos profissionais da companhia em uma aula de ballet clássico e o diretor explica a importância desse estudo para bailarinas e bailarinos de dança espanhola.

Além de se desmancharem pelas crianças e se encantarem com o livro, prestem atenção na explicação sobre a Escuela Bolera, ela é prima do ballet clássico e farei um texto somente sobre isso qualquer dia desses.

O áudio original é espanhol, sem legendas, mas é tranquilo de entender.

“Bailando un tesoro”, video presentación del libro, Ballet Nacional de España.

Bailarina em qualquer lugar

Essa sou eu no jardim da Casa das Rosas, em foto tirada pela Cyndi em sua viagem à São Paulo.

Lá estou eu alinhada, mas sem leveza, “Solta esses braços, Cássia!”. As pessoas mais atentas perceberão que os meus indicadores não saltam aos olhos dessa maneira, justamente, porque isso me incomoda demais. Está correto, mas eu não gosto. É algo tão presente que eu os elevo delicadamente, quase os contenho, e faço isso sem perceber. [Quem quiser prestar atenção, clique na foto para vê-la em tamanho maior.]

Sabe aquela história de repetir tanto um movimento ou uma posição, que isso acaba fazendo parte da gente? Foi o que aconteceu.

Eu no jardim da Casa das Rosas. Foto: Cyndi Oliveira.

Os cinco repertórios obrigatórios

O espetáculo está prestes a começar. Enquanto isso, duas bailarinas conversam na coxia:
– Há um repertório pelo qual sou apaixonada, uma das cenas mais incríveis é quando Giselle…
– Giselle?

Essa cena realmente aconteceu. Sim, uma das bailarinas não sabia quem é Giselle. Não, ela não era profissional, era uma estudante de ballet, mas eu me pergunto: não deveria uma estudante conhecer minimamente o básico dos ballets de repertório?

Nesses anos de blog, reconheço o quanto insisto que bailarinas devem estudar. Isso é tão claro para mim que me admira quem diz o contrário. O ballet clássico não existe em si, há um propósito: dançar. Esse dançar vai além dos movimentos, ele carrega consigo toda uma bagagem técnica, histórica e artística. Não parece óbvio? Para as profissionais, sempre foi, para as amadoras, nem tanto. Tenho visto que ele se transformou em uma prática física com um pouco mais de glamour. É bonito posar de bailarina, quem não se sente linda?, mas ser bailarina é outra história.

Não serei a patrulheira, o ballet clássico não me pertence, cada qual faça dele o que quiser. Mas quem deseja ir além, vamos aos repertórios.

Há bastante tempo, expliquei o significado de repertório. Uma de suas acepções, de acordo com Vera Aragão, no curso Composição Coreográfica para Ballet, é:

“Em relação à dança, repertório é o conjunto de obras que, reunidas a partir de determinados critérios, continuam a ser encenadas, remontadas por diversas companhias ao redor do mundo e, mesmo décadas ou séculos após a morte de seus autores, continuam a gerar interesse do público que as assistem. Essas obras formam o acervo de uma companhia. Assim, repertório está ligado à permanência e à universalidade.”

Para mim, há cinco repertórios obrigatórios para quem estuda ballet clássico. Claro, é importante conhecer o maior número possível deles, mas esses devem fazer parte de nós como grandes amigos: conhecer a história, ter familiaridade com as músicas das passagens mais importantes, saber alguns passos das principais coreografias, reconhecer as personagens ao ouvir seu nome. Não precisa ser especialista, tampouco assistir a dezenas de montagens, mas compreender que os repertórios são tão importantes para o ballet quanto a técnica clássica.

Falarei brevemente os motivos pelos quais escolhi esses cinco e vou inserir links do Vídeos de Ballet Clássico, da querida Julimel. No seu blog, ela explica os repertórios, conta várias particularidades, além de publicar montagens de diversas companhias. Agora, não tem desculpa.

O lago dos cisnes

O repertório por excelência, O lago dos cisnes é sinônimo de ballet clássico: dificilmente alguma companhia não o montou pelo menos uma vez. Odette (cisne branco), Odile (cisne negro), Rothbart e Siegfried são as personagens principais, além da importância do conjunto de cisnes. Os primeiros acordes do prólogo nos fazem suspirar. É importante conhecer as sequências do entrance de Odette e Odile e suas respectivas variações, o pas d’action e a coda do segundo ato, o pas de quatre dos pequenos cisnes, o grand pas de deux do terceiro ato e outras tantas sequências. Quem sabe, escolher um cisne preferido, se identificar com um deles e chorar no final (não importa qual, pois eles diferem em algumas montagens). E, depois disso tudo, nunca mais olhar um cisne com os mesmos olhos.

Todos os posts do blog sobre O lago dos cisnes, aqui.
Para conhecer a história e assistir às montagens, aqui.

Giselle

Auge do período romântico, um marco na história da dança, esse repertório foi responsável por elevar bailarinas ao status de estrela. Várias delas têm nessa camponesa o seu grande papel. Giselle, Albrecht, Hilarion e Myrtha são personagens que devemos conhecer muito bem; sem falar nas variações de Giselle, do primeiro e do segundo ato, o “Peasant Pas de Deux”, a morte de Hilarion, o pas de deux do segundo ato, as wilis e seus arabesques alinhados e na mesma respiração, e o momento mais emocionante, o enfrentamento entre Giselle e Myrtha para proteger Albrecht. Por fim, o tutu romântico tem em Giselle sua perfeita definição.

Todos os posts do blog sobre Giselle, aqui.
Para conhecer a história e assistir às montagens, aqui.

A Bela Adormecida

Outro marco na história da dança, é o ponto máximo dos repertórios. Reza a lenda que Marius Petipa desenvolveu a coreografia quase ao mesmo tempo da criação musical de Tchaikovsky, foram feitas em conjunto, por isso tamanha sincronia. As mudanças coreográficas aconteceram em todos os repertórios ao longo do tempo, mas talvez  e isso é pura percepção  A Bela Adormecida tenha sido o repertório que sofreu menos modificações.

O conto de fadas veio da infância, mas só no ballet nós temos a alegria do entrance de Aurora, a beleza do “Adágio da rosa”, as fadas do nosso imaginário dançando juntas e sozinhas em suas variações, o grand pas de deux do terceiro ato que beira a perfeição, os coadjuvantes encantadores do “Grand pas de deux do Pássaro Azul”. É o ballet clássico em toda sua magnitude.

Todos os posts do blog sobre A Bela Adormecida, aqui.
Para conhecer a história e assistir a várias montagens, aqui.

O Quebra-Nozes

Não existe Natal para bailarinas e bailarinos sem ele. Montado em companhias ao redor do mundo durante as festividades de fim de ano, inclusive no Brasil, várias músicas são mais próximas de nós do que “Jingle Bells”. Os primeiros acordes da “Variação da Fada Açucarada” despertam nossa memória afetiva. A “Valsa das Flores” é praticamente o batismo de toda bailarina novata; assim como eu, aposto que várias de vocês também a dançaram. É o lado doce e encantador da infância traduzido pelo ballet clássico. A Clara somos nós quando crianças.

Todos os posts do blog sobre O Quebra-Nozes, aqui.
Para conhecer a história e assistir às montagens, aqui.

Dom Quixote

Ele não é sinônimo de ballet clássico. Ele não é um marco na história da dança. Ele não é o ponto máximo dos repertórios. Ele não é a personificação do Natal. Por que então conhecer Dom Quixote? Inspirado na obra de Miguel de Cervantes, é um dos ballets mais montados no mundo. Não falo apenas de companhias de dança, mas em escolas também. Quem nunca assistiu ao grand pas de deux do casamento? Quem não conhece a “Variação de Kitri”, em várias versões, ou o seu desafio? Sem falar na delicadeza da cena do sonho ou da “Variação do Cupido”. Longe daquela melancolia tão característica de O lago dos cisnes e Giselle, os dois repertórios mais conhecidos, Dom Quixote tem a alegria em sua essência.

Todos os posts do blog sobre Dom Quixote, aqui.
Para conhecer a história e assistir às montagens, aqui.

Passada a fase obrigatória, quem quiser conhecer mais repertórios: A filha do faraó, Coppélia, Esmeralda, La bayadère, La fille mal gardèe, La sylphide, O corsário, Paquita, Raymonda. Esqueci de algum repertório importante?

Se alguém discordar da minha lista, sinta-se à vontade para refazê-la e expor os seus motivos. É sempre bom trocar informações e opiniões.

***

Observação: Bom seria eu inserir links em todas as menções dos repertórios, tanto das músicas quanto das coreografias, mas a coisa mais normal no YouTube é retirarem vídeos do ar. Várias vezes eu repus links em posts anteriores, mas não consigo atualizar como deveria. Sabendo disso, resolvi não inseri-los neste texto porque são vários, mas todas as menções são bem fáceis de serem encontradas em uma busca rápida pela internet afora.

A pequena bailarina

O sonho da pequena Charlotte Bottger é ser bailarina. Ela tem paralisia cerebral e passou por uma cirurgia para ter a possibilidade de andar. Vejam que delicadeza um trecho da sua visita no Royal Ballet.

Charlotte Bottger performs ballet for her parents after life-changing surgery (Charlotte Brottger dança ballet para seus pais depois de uma cirurgia que mudou sua vida), Royal Opera House.