Uma aula em 1920

Tamara Karsavina é um dos grandes nomes da história do ballet clássico mundial: primeira-bailarina do Mariinsky Ballet, bailarina do Ballets Russes, uma das fundadoras do Royal Academy of Dancing, treinou Margot Fonteyn e Rudolf Nureyev, teve como seu grande partner ninguém menos que Vaslav Nijinsky.

Por isso, é fascinante assisti-la durante uma aula de ballet em 1920. Os passos estão ali, mas no geral é bem diferente do que estamos acostumadas a ver. Mas só conseguimos entender o ballet clássico de hoje se olharmos, com respeito e reverência, o que veio muito antes de nós.

O momento mágico do movimento perfeito

Há tempos não escrevo um texto pessoal, contando algo relacionado ao meu desenvolvimento na dança, mas hoje isso caberá no contexto.

Quando publiquei “Por que as pessoas fazem ballet clássico?”, eu disse que “[…] essa busca incessante pela perfeição talvez seja para encontrar aquele momento mágico em que um movimento perfeito simplesmente acontece”.

Vocês sabem qual é? Não é aquele momento em que conseguimos fazer um movimento difícil. Não é aquele momento em que nos sentimos felizes ao dançar. Não é aquele momento em que nos sentimos verdadeiramente bailarinas. Nada disso. É o momento do eclipse, quando tudo se alinha perfeitamente. É difícil explicar, mas fácil entender. O movimento é limpo do começo ao fim e realizado sem o menor esforço. Ele simplesmente acontece.

Comigo aconteceu duas vezes.

A primeira, eu estava na aula de ballet. Era uma sequência simples na diagonal, tour piqué en dehors. Quando terminei, duas colegas de turma, que estavam no ponto onde eu terminaria o movimento, disseram ao mesmo tempo: “Nossa, certinho!”. Senti que havia realizado tudo perfeitamente, mas nem adianta me pedir para repetir, não sairá do mesmo jeito.

A segunda é o meu momento mágico até agora. Contei algumas vezes que demorei quatro anos para aprender pirueta. Quatro. Ainda escreverei um post explicando todo o longo processo, mas o importante é que aprendi como ela funciona. Eu já estava desiludida, sem fazer aulas, sem conseguir girar e pensando que jamais conseguiria.

Comprei o livro Physics and the Art of Dance com o intuito de melhorar a minha técnica de uma maneira geral. Não preciso dizer que fui direto ao capítulo dos giros. Explicação da pirueta. Li atentamente, fui ao centro do meu quarto e fiz o movimento conforme as recomendações do autor. Não dá para explicar: a pirueta saiu perfeita. Eu senti isso no meu corpo, porque eu havia buscado esse momento por anos. Dali em diante, quando a pirueta não acontece, eu sei por quê. Mas nunca mais me senti mal por isso, porque eu aprendi a lição.

E qual foi o momento de vocês?

Variações (quase) desconhecidas

Outro dia eu propus o seguinte lá no nosso grupo de discussão: “Qual variação vocês amam, mas poucas bailarinas sabem que ela existe?”. Como exemplo, eu publiquei uma variação que já apareceu várias vezes no blog, a Segunda variação do Rio Nilo, “A filha do faraó”, Bolshoi Ballet.

Houve várias indicações. Entre variações praticamente desconhecidas e outras um pouco mais próximas de nós, todas são semelhantes num ponto: uma mais linda do que a outra. Achei uma tristeza deixar todas aquelas preciosidades perdidas por lá e perguntei se poderia trazer para cá.

Aqui estão elas, com o nome de quem indicou, as informações da variação e o link para o vídeo. Quem puder, assista a todas, valerá muito a pena.

Bárbara Menezes
“Variação do lenço”, Raymonda, Teatro alla Scala, Olesya Novikova.
Para assistir, aqui.

Cyndi Oliveira
“Valsa fantástica”, primeira variação, Raymonda, New National Theatre Tokyo.
Para assistir, aqui.

Erika Camargo
Outra versão da “Variação de Dulcinea”, Dom Quixote, Mariinsky Ballet, Margarita Kulik.
Para assistir, aqui.

Giovanna Fernandes
“Quarta variação de Paquita”, Paquita, Kirov Ballet, Larissa Lezhnina.
Para assistir, aqui.

Gisela Ferreira
“Primeira variação do pas de trois”, O lago dos cisnes, Colorado Ballet, Shelby Dyer.
Para assistir, aqui.

Julimel
“Variação de Esmeralda”, segundo ato, Esmeralda, The Mussorgsky Ballet, Elvira Khabibullina.
Para assistir, aqui.

Maria Eduarda Molina
“Variação de Gamzatti”, terceiro ato, La bayadère, Royal Ballet, Darcey Bussell.
Para assistir, aqui.

Marília Mascarenhas
“Variação de Nikyia”, La bayadère, Mariinsky Ballet, Polina Semionova.
Para assistir, aqui.

* * *

Apenas para quem faz parte do grupo: Quem quiser visualizar a discussão que deu origem ao post, aqui.

Novamente, as odaliscas

Eu percebo o tamanho do meu amor por uma coreografia quando costumo repeti-la no blog. Tento evitar, mas é sempre bom assistir a várias versões de uma mesma obra.

O pas de trois das odaliscas, de O corsário, foi publicado três vezes, em dois posts diferentes (aqui e aqui). Inclusive, esta mesma montagem do Bolshoi, mas com outras bailarinas.

Mas é tão lindo e gosto tanto desse figurino… Não há problema em assistir novamente, e tantas outras vezes, não é?

Pas de trois das odaliscas, O corsário, Bolshoi Ballet (Olga Kishnyova, Anna Okuneva e Anna Tikhomirova), 2012.

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