Quem deve brilhar no fim do ano: alunas ou professoras?

Dezembro é o mês por excelência dos espetáculos de dança. Nas redes sociais, há uma chuva de fotografias e vídeos das apresentações, o que eu acho muito bacana. A alegria e satisfação de quem dançou é evidente.

Eu me apresentei pela última vez em 2009 e contei a experiência em dois textos: “Sobre a minha apresentação de fim de ano” e “Quem é a nossa plateia?”. Eu mal dancei e foi tão desolador que nunca mais quis me apresentar com escolas de dança, mesmo sentindo uma imensa falta do palco. Quem sabe um dia isso mude, mas por enquanto…

Posto isso, vamos à questão: Professoras e professores devem se apresentar nos espetáculos de dança de fim de ano? A meu ver, sim, desde que não sejam protagonistas.

A apresentação de fim de ano é das alunas e dos alunos. Ponto. Isso sequer deveria entrar em discussão. Uns mais, outros menos, mas todos se dedicaram de alguma maneira à dança ao longo de vários meses. Muitas pessoas esperaram ansiosamente para pisar no palco e desembolsaram um alto valor para isso. Se não quiserem analisar o valor pelos seus próprios rendimentos ou da sua família ‒ porque isso é variável, o caro para um é barato para outro ‒ utilizem o salário mínimo como parâmetro, que nos valores atuais é R$ 880,00. Somem figurino, taxa de teatro, convites, outras despesas e analisem.

Agora, imagine gastar tanto dinheiro, convidar sua família e seus amigos, dançar uma coreografia de dois minutos no corpo de baile e ver a sua professora como protagonista. Eu passei por isso. Sabe quando passarei de novo pela mesma experiência? Nunca mais.

Pensei que havia sido um caso isolado, perdido tantos anos atrás, mas estava enganada. Professoras protagonistas nos espetáculos de fim de ano é algo mais comum do que eu imaginava.

Entendo o desejo daquelas que foram profissionais, ou desejaram ser, de serem estrelas em uma oportunidade tão próxima a elas, mas o desejo deve morrer ali, na sala de aula, por uma questão ética e profissional. Professora que deseja o principal holofote no seu rosto deve criar sua própria companhia ou trabalhar em companhias já existentes. No seu ofício educacional, a sua função é outra: ela conduz as alunas e os alunos ao palco, não o toma para si.

“Cássia, eu não me importo em ficar parada fazendo figuração enquanto minha professora dança o grand pas de deux.” Direito seu, mas não queira que todo mundo aceite passar por isso.

Por outro lado, para mim, o palco deve continuar fazendo parte da vida das professoras e dos professores de dança, mas, nesse caso, eles devem ser coadjuvantes. Uma ou duas coreografias estão de bom tamanho. Aliás, acho muito importante assistir à dança daqueles que nos ensinam a dançar.

Uma das melhores soluções que já vi aconteceu durante o primeiro espetáculo do qual participei. A escola de dança onde comecei ministra cursos de várias modalidades. Na última coreografia, todas as professoras e professores se apresentaram ao mesmo tempo. Eu estava na coxia e chorei, porque foi lindo de ver. Todos dançaram, cada qual teve o seu momento, ninguém brilhou mais que ninguém. Foi uma aula no palco de como a professora e a artista podem existir ao mesmo tempo.

Se não for possível ser assim, tudo bem. Só não vale roubar a cena. As alunas e os alunos merecem esse respeito.

Espetáculo “Preciosidades”, professores, Shiva Nataraj, 2007.

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8 comentários sobre “Quem deve brilhar no fim do ano: alunas ou professoras?

  1. Oi, Cássia! Adorei esse post e inclusive fui reler os anteriores sobre a sua apresentação de 2009. Lembro que cheguei a pensar em fazer aula nessa mesma escola quando estava voltando a dançar (fiz ballet dos 5 aos 19 anos e retornei de verdade ao ballet clássico com 28 anos) pq a proposta dela é muito boa e ela vende isso tudo muito bem. No fim eu mudei de bairro e escolhi uma pertinho da minha casa e foi a melhor coisa que poderia ter feito!

    Eu amo a minha escola… Estou lá a 4 anos e meio e me sinto em casa, um sentimento bem próximo do que eu sentia na escola que fiz a minha infância e adolescência inteira, e que realmente era uma extensão da minha casa pq eu fazia muitas aulas e ia praticamente todos os dias (não retornei para ela pq mudei de cidade, nasci e cresci em Maceió, mas desde 2004 moro em São Paulo).

    A minha escola atual conta com a presença dos professores na apresentação, mas é de uma maneira muito natural e tranquila… A maioria das professoras foram/são alunas da escola, se formaram lá e algumas dela continuam fazendo aula normalmente e fazem parte do grupo de dança da escola. Mas os papéis principais geralmente ficam com alunas que estão se formando… Esse ano mesmo o tema foi Alladin, e o papel da Jasmine foi dividido entre duas alunas, cada uma se apresentou no papel num dia. Cada nível se apresentava em um conjunto, desde o baby class até o avançado, das 3 modalidades que a escola ministra, ballet clássico, jazz e sapateado, e o grupo de dança também tinha uma coreografia, bem como as meninas que fazem aula de pas de deux. Ninguém fica muito tempo no palco, as coreografia tem em média 3 minutos cada… Eu dancei 2 coreografias, a do avançado e a do inter 3 e 4. As alunas de níveis mais avançados tinham essa opção de participar de mais conjuntos desde que fossem de níveis abaixo do seu. Tem uma turma de básico composta pelas mulheres que começaram a dançar adultas, e elas tinham uma coreografia separada das crianças que estavam no mesmo nível. Eu fiquei com muita vontade de dançar ela também… Era linda, a música maravilhosa… Mas 3 figurinos ia ficar meio pesado…

    Enfim… Acho que quem não está satisfeito em como as coisas funcionam na sua escola devem procurar outra… Os custos de aulas, espetáculo, figurinos é muito alto e tudo isso tem que te fazer feliz, e não gerar irritação e preocupação. Amo o clima de confraternização, amizade, companheirismo, apoio e amor que existe na minha escola e sinto que isso tudo é primordial para eu sentir o verdadeiro prazer em dançar!

    1. Ana Luísa, é uma alegria saber que existem escolas assim, onde as alunas se sentem em casa. Obrigada por compartilhar sua experiência conosco. <3 Imenso beijo!

  2. Boa noite Cássia, acompanho seu blog há anos, mas sempre calada… rsrsrs.
    Um texto muito polêmico este… aí dessa vez resolvi entrar na conversa.
    Acho que não dá para generalizar.
    É importante que os alunos brilhem na apresentação, mas também enriquece e sobe o nível do espetáculo quando os professores dançam em papéis de destaque.
    Acho que há casos e casos… Já vários espetáculos de escolas em que os professores protagonizavam, e eram muito interessantes – assim como já vi professores aparecendo e escondendo os alunos.
    Depende muito de como isso é construído… :D

    1. Mara, o meu questionamento não foi a respeito da qualidade do espetáculo, mas do seu objetivo. Eu analiso qualidade técnica e artística de companhias de dança e de bailarinas profissionais; em espetáculos de escola, me interessa ver o resultado do trabalho dos alunos. Como disse no texto, se as professoras querem ser protagonistas, que criem suas companhias ou sejam contratadas por elas, e aí dancem como bailarinas profissionais. Se estão dando aula, a função é outra. Não importa, mesmo que a professora seja a Zakharova, nesse caso, eu não quero vê-la protagonista, quero ver as suas alunas. Grande beijo!

  3. Olá Cássia, infelizmente a prática de professores dançarem em papéis principais é quase que regra, onde deveria ser exceção.
    Quando não são os principais, professores dançando sempre na frente e alunos atrás. Erro do professor, mas o erro maior é da direção da escola, se ela permite que seu aluno seja sempre coadjuvante é porque ela não acredita no que está ensinando.
    Diante de tantas insatisfações dos alunos e familiares algumas escolas ( poucas ) estão começando a fazer audições para os papéis principais, solos, etc… Tentando assim agir de forma mais democrática. Não sei dizer se é eficiente mas é uma tentativa de mudança.
    Outro ponto é : o aluno tem sim que colocar essas questões a direção da escola, sem medo de parecer arrogante ou invejoso por isso. Ó espetáculo de fim de ano é para mostrar o que o aluno aprendeu , então é ele que deve estar no palco e brilhar.
    Esse é meu ponto de vista!!!!
    Gostei muito do seu post e acredito que vc deve tocar mais vezes e com mais profundidade nesse ponto ” espinhoso ”
    Chamar as pessoas para refletir é o começo da mudança.
    Abraço !!!!!

    1. Paola, eu não sabia que essa prática era tão disseminada entre as escolas e concordo com tudo o que você disse! Sobre as audições, acho sempre que é possível fazer espetáculos em que todos participem, sem a necessidade de papel principal, mas para isso é necessário conhecimento mais aprofundados em dança e coreografia (outro ponto “espinhoso” que deveríamos discutir mais). Por outro lado, como você bem disse, é uma tentativa de mudança. Em algum momento, isso terá de mudar de vez. Grande beijo!

  4. Esse é um assunto delicado.Todo o processo, desde a assinatura do termo de aceite até a apresentação, é muito longo e tenso. Eu retornei ao balé este ano em abril e tornei a parar agora e, dezembro por uma série de situações na escola onde fazia aula. Começou com a proposta de dançar na apresentação de fim de ano e tínhamos que dar a resposta e os ‘pagamentos’ em uma semana! Achei um absurdo, pois em uma semana não dá para resolver tudo financeiramente e a escola não deixava pagar no mês seguinte. Reclamei, dei sugestões de que eles deveriam avisar mais cedo, esclarecer essas propostas de pagamentos, etc e passei por chata. Quando voltamos das férias, pessoas novas na turma foram convidadas a participar da apresentação caso quisessem, ai era só resolverem o pagamento. Eu fiquei bem decepcionada, pois não deixaram fazer acordo mas deram oportunidade para quem era novo na escola.

    No decorrer das aulas, a professora perdia muito tempo conversando e ensaiava a coreografia que ao meu ver, não era adequado usar aula para ensaio, ainda mais porque 80% da turma não iria dançar. Mas eu ensaiava junto. E enfim, fui na apresentação agora em novembro e no geral foi bonito. As donas, que também são professoras da escola dançaram com a turma de babyclass e foi uma graça! Lindo demais. E a minha turma, caso eu tivesse escolhido participar, foi decepcionante. Para não dizer de tudo, o figurino era lindo, mas a coreografia, foi reduzida pela metade daquilo que haviam ensaiado em sala. As moças ficaram que nem colunas esperando as avançadas dançarem na frente. Perderam o brilho. Elas mesmas gostaram, é isso que importa né? Mas eu achei que foi dinheiro jogado no lixo e não é porque somos iniciantes que precisa exagerar, mas sabe, dava para explorar mais a coreografia, deixar todas brilharem.

    Desculpe pelo desabafo e fugir um pouco do assunto do texto, mas esse conjunto de fatos acho válido dizer, caso alguém passe por coisas parecidas…. Espero que ano que vem eu consiga encontrar uma boa escola e voltar a fazer as aulas.

    Leio seu ebook direto e me sinto próxima, sucesso em 2017 e em suas futuras apresentações! Abraços!!!

    1. Parra, você não fugiu do assunto não, pelo contrário, é muito importante essa sua história. Acho um absurdo as escolas tratarem as apresentações dessa forma, exigirem alto pagamento em um período tão curto e utilizarem as aulas para ensaio (eu até escrevi um texto falando sobre isso). Parece ser senso comum as escolas tratarem as apresentações como a cereja do bolo, afinal, lucram demais com isso, em detrimento das alunas. Tomara que você consiga encontrar uma escola que te respeite e tenha uma outra visão. E fiquei lisonjeada por saber que você lê o ebook direto e se sente próxima de mim. Muito obrigada! Comente mais vezes, será sempre um prazer tê-la por aqui. Sucesso em 2017 para você também! :) Imenso beijo!

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