Remar o meu próprio barco

A minha relação com o ballet clássico oscila entre o amor e a indiferença. Há períodos em que organizo a minha vida em torno dele, em outros, alguns passos realizados no quarto diariamente já dão conta do recado.

Sem dúvida, essa oscilação se reflete no blog. Nem eu tenho vontade de aparecer por aqui às vezes, que dirá vocês.

Hoje eu compreendi o motivo: estou perdendo o meu tempo com um ballet que não me interessa, não enche os meus olhos, não me encanta, não me diz nada.

O ballet mudou, as bailarinas e os bailarinos possuem um grau de exigência física e técnica incrivelmente maior. Não à toa, a aposentadoria tem acontecido mais cedo, não há corpo que aguente tanta sobrecarga.

Com isso, existe uma supervalorização da forma, as possibilidades do corpo se tornaram a arte em si. Do ponto de vista histórico, isso não é novidade, o ballet já passou por períodos em que se criticava, justamente, a valorização da forma. Estamos em um momento semelhante.

No fim do ano passado, eu escrevi o post “Nadar contra ou a favor da maré?” em que me questionei por gostar muito mais do ballet de antigamente. Cheguei a dizer: “Na dança, eu olho para trás”. Assim, resolvi olhar para a frente e prestar mais atenção no ballet realizado no nosso tempo.

Um novo ano chegou trazendo uma série de acontecimentos: a aposentadoria da Aurélie Dupont, o falecimento da Maya Plisetskaya, eu assistir ao Bolshoi ao vivo dançando Giselle, algumas mudanças na Ópera de Paris, a aposentadoria da Paloma Herrera. Parece bobagem, mas tudo isso mexeu comigo.

Uma era do ballet havia chegado ao fim, mais um sinal para abraçar o futuro. O que aconteceu? Quanto mais eu entrava em contato com o ideal de bailarina do século 21, mais eu me distanciava do ballet clássico.

Onde estava o meu coração? Giselle. O Bolshoi me mostrou claramente qual ballet clássico eu quero na minha vida. Ele ainda existe.

Excelência técnica, alta capacidade física, hiperflexibilidade. Reconheço a importância disso tudo nos dias de hoje, mas, sinto muito, a minha alma é de uma bailarina do século 19. É para o passado que eu devo olhar.

* * *

ATUALIZAÇÃO: Por erro meu, não deixei claro qual é o problema. Há anos, por causa do blog, eu acompanho o mundo da dança em diversas fontes. De uns tempos para cá, esse excesso de informações tem me atrapalhado, porque acompanho muitas coisas que não me interessam ou não me dizem nada. Eu não estou matriculada em nenhum estúdio, eu estudo sozinha, aí sim minhas fontes de estudo remetem ao ballet no qual eu me encontro. Não vou parar de dançar, tampouco acabarei com o blog, podem ficar tranquilas. O texto foi apenas um desabafo sobre os rumos do ballet.

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8 comentários sobre “Remar o meu próprio barco

  1. Esse texto é o porquê de eu não ter comentado no outro post (no nada contra ou a favor). pensei bastante nele, na época, e não consegui concordar, me encaixar.

    Por vezes, eu pensei que “mas não será por ~despeito?~ porque é praticamente impossível que eu consiga tudo isso. meu corpo não é assim. não dá”, mas, depois, eu percebi que não havia admiração por quem conseguia. nem inveja.
    Tá tudo tão vazio e tão igual… não dá pra eu gostar do ballet de hoje.

    “minha alma é de uma bailarina do século 19. É para o passado que eu devo olhar.”

    1. Cyndi, é comum acharem que criticamos por despeito ou inveja, e lá no fundo nos questionamos se não é por isso mesmo. Mas o sentimento é outro, não é um “eu queria isso”, é um “eu não me encontro nisso”. Está mesmo tudo tão vazio, mas minha alma Poliana ainda acredita que a roda voltará a girar! Beijo gigante!

  2. Nem só de “tranquilas” (…não vou acabar com o blog, podem ficar tranquilas) vive seu blog. Tem um tranquilão aqui também…
    Bração procê!

    1. Alvâni, nós mulheres passando a vida lendo substantivos e adjetivos no masculino quando querem se referir a todas as pessoas. No blog, ou eu uso os dois gêneros de uma só vez, ou utilizo o feminino para designar todos, pois as meninas-adolescentes-mulheres correspondem a mais de 90% de quem lê o blog. Sendo assim, você está incluído no “tranquilas”. =) Fico bem feliz quando os leitores comentam por aqui. Grande beijo.

  3. Olá Cássia, não desista do ballet, realmente hoje em dia é difícil encontrar uma escola de dança que ensine o ballet clássico que assistimos em vídeos antigos. Aqui onde moro é uma pequena cidade, existem alguns estúdios de dança e graças a Deus eu encontrei um onde me encaixo bem, minha professora é amante do ballet clássico antigo e estou aos poucos aprendendo como as coisas funcionam e como o meu corpo está respondendo a tudo isso.

    Eu comecei a fazer ballet com 20 anos graças a esse blog e a você, então não desista do ballet e nem desse blog, pois tenho certeza que outras serão inspiradas por você.

    Fique bem.

    1. Anny, muito obrigada pelas suas palavras de incentivo. Não deixarei o blog, tampouco o blog, o texto foi apenas um desabafo sobre o que tenho visto nos últimos tempos. Fiquei muito feliz por você ter aulas com uma professora amante do ballet de antigamente, isso é cada vez mais raro. Beijo imenso!

  4. Devo confessar que às vezes também me sinto assim: uma órfã com pai e mãe. Assisto vídeos antigos em que as pessoas batalhavam pelo ballet, se esforçavam e davam o melhor de si. Vejo hoje uma “facilidade” muito grande em “aprender” ballet. Fiz 8 anos de ballet e fiquei um tempão parada. Voltei agora e não poderia estar mais realizada. Mas não pelo método ou pelo esforço físico. Estou realizada porque consegui achar uma professora que saúda os velhos tempos, valoriza as antigas formas e me dá a liberdade de me esforçar como no método Royal e aprender a leveza do método Russo. Graças à Deus acho que me encontrei.
    E concordo com você quanto à essas aposentadorias. Tenho hérnia de disco resultado de muitos anos forçando abertura. O corpo realmente não aguenta.
    Mas se posso me intrometer e dizer: busque algo que te faça feliz, realizada. Tem hora que o sapato não serve mais, partimos pra outra. Quando uma porta se fecha, geralmente outra se abre. Às vezes esse querer se afastar pode abrir um espaço pra algo novo que te faça feliz. =)
    Fique com Deus.

    1. Laís, fiquei encantada por você ter encontrado uma professora que valoriza os velhos tempos do ballet, que entende a importância disso. Graças a Deus mesmo que você a encontrou. =) O meu texto foi apenas um desabafo sobre o que tenho visto por aí. O meu amor é do ballet clássico, mas me encontro nesse ballet de antigamente, não nessa mistura de ginástica com preciosismo. De qualquer forma, muito obrigada pelas suas palavras! Imenso beijo.

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