Bolshoi, Giselle e eu

O Bolshoi esteve no Brasil entre os dias 17 e 28 de junho apresentando duas obras do seu repertório, Spartacus e Giselle. Eu fui no último dia, em São Paulo, às 15h.

Por uma série de motivos, eu nunca havia assistido a um ballet de repertório ao vivo. Parece um absurdo, mas é verdade. A espera trouxe uma recompensa. Assistir ao Bolshoi apresentar Giselle foi um dos momentos mais bonitos da minha vida.

Agradecimentos ao final de Giselle, Bolshoi Ballet, Teatro Bradesco, 28 jun. 2015. Foto: Cássia Pires.

Os papéis principais foram feitos por Anna Nikulina (Giselle), Mikhail Lobukhin (Albrecht), Maria Allash (Myrtha) e Yuri Baranov (Hilarion). Mariana Gomes, Bruna Gaglianone e Erick Swolkin, brasileiros que fazem parte da companhia, também dançaram. Além deles, seis bailarinas da Escola Bolshoi participaram do segundo ato.

Há experiências na vida difíceis de serem contadas a alguém. Como explicar a emoção de ter assistido ao meu repertório mais querido se desenrolar na minha frente justamente com o Bolshoi?

Eu chorei no momento da “Variação de Giselle”, a minha variação preferida. Na cena da loucura, a Anna Nikulina não caiu no erro de ser afetada, ela foi sutil, o que tornou tudo mais emocionante. Chorei de novo. Já no segundo ato, meu rosto ficou úmido do começo ao fim.

O ballet clássico é para todos, mas a excelência técnica é para poucos. Por maior que seja a dedicação da maioria, nem todos chegarão a esse nível. Isso fica ainda mais evidente quando assistimos a grandes bailarinas e bailarinos dançando diante de nós. Não, em momento algum eu pensei: “Uau, eles são sobre-humanos”. Na verdade, eu me senti próxima a eles, mesmo com todas as minhas limitações. Mas a grandeza do ballet clássico estava ali na minha frente. As bailarinas e os bailarinos do Bolshoi não são excelentes apenas pela técnica impecável, mas também pelos detalhes. É um jeito de olhar, as linhas do corpo, a colocação das mãos durante um salto. O ballet clássico acontece mesmo quando eles estão parados no palco. Sabemos disso, assistimos a mil vídeos no YouTube, mas isso só fica claro em uma apresentação ao vivo. Infelizmente, assistir a uma grande companhia ainda é um privilégio que poucas pessoas conseguem ter.

Um terço do corpo de baile do segundo ato era formado por bailarinas brasileiras e foi impossível perceber a diferença entre elas e as bailarinas russas. Confesso, tentei encontrar um deslize, qualquer particularidade, algum momento em que eu pudesse distingui-las. Nada. No primeiro ato, a Mariana e a Bruna também dançaram, além do Erick, e não lembrei que eles estavam ali. Existiu alguma diferença? Nenhuma. Mérito do talento e dedicação desses artistas e mérito da Escola Bolshoi, responsável pela formação dos brasileiros. Se antes eu era chata em relação à qualidade das aulas de ballet, de agora em diante eu serei insuportável. Porque eu mesma vi como uma boa formação faz o talento florescer.

O meu único pesar nessa passagem do Bolshoi pelo Brasil é que não assisti à Maria Alexandrova. Sorte de quem a viu como Myrtha.

Assistir a uma grande companhia apresentar um repertório é um momento especial para qualquer pessoa, mas acredito ser um pouco mais encantador para uma bailarina. Por saber várias passagens de cor, era como se eu dançasse com eles. Os meus pés nem sempre conseguiram ficar parados ao longo da apresentação. E eu sei que os meus olhos brilharam o tempo todo, porque eu estava diante do amor que tardiamente eu encontrei na minha vida.

* * *

ATUALIZAÇÃO: Eu não sabia quais bailarinos dançaram o Albrecht e o Hilarion, então deduzi pelos perfis na página do Bolshoi, mas me enganei. A Carolina, que assistiu a essa mesma sessão, me contou nos comentários. Já corrigi no texto. Muito obrigada, Carolina!

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8 comentários sobre “Bolshoi, Giselle e eu

  1. Poxa, queria ter ido também, mas além do ingresso teria que pagar passagens até SP… enfim, inviável mesmo, principalmente em tempos de crise =/
    Mas já vi Giselle na minha cidade, Londrina <3 Não tinha toooda essa técnica impecável, eram alunos da Escola Municipal de Dança, mas não tem jeito, mesmo assim o ballet ao vivo é apaixonante!
    Fica o convite, eles vão dançar o repertório esse ano de novo ;) Se estiver pelas bandas do Paraná, vá conferir :)

    1. Rosane, ficaria mesmo complicado para você vir para cá assistir, mas imagino como “Giselle” com a Escola Municipal de Dança deve ter sindo lindo! Quem dera eu pudesse ir assistir. =) Imenso beijo.

  2. Nem sei o que dizer…
    Sorte sua ter conseguido assistir Giselle de pertinho, ainda mais com o Bolshoi.Nunca vi uma apresentação desse tipo de perto e confesso que nem tenho dinheiro para ver coisas assim, mas gosto muito do ballet clássico.Fico muito contente em ver como o Teatro do Bolshoi no Brasil faz profissionais tão bons.Quem dera oferecessem cursos para adultos também, pois a maioria dos estúdios para adultos não tem essa técnica como a deles.Acham que só porque somo mais velhos, que não podemos aprender como os demais que começaram mais novos, mas eu digo isso em nível de aula e não para competir.Bom, sei que fugi um pouco do assunto, mas quero dizer que tb gosto de Giselle e a variação dela é mesmo uma graça.Gostei da Anna Nikulina. Ela e a Nina Kaptsova dançam muito bem.Olha esse video dela quando puder.https://www.youtube.com/watch?v=Wz_f9B4pPtg

    1. Miranda, essas apresentações são mesmo bem caras, mas dessa vez havia algumas áreas bem mais baratas. Eu paguei R$ 59 pelo ingresso, também não poderia se fosse mais caro. Seria um sonho se oferecessem cursos para adultos, não é? Concordo com você, não seremos profissionais, mas temos o direito de aprender como se deve. A Nina Kaptsova é linda, ela dançou no sábado. Muito obrigada pelo vídeo, ela está uma delicadeza como Fada Açucarada! Imenso beijo.

  3. Cássia! Fui nesse mesmo dia, e foi realmente maravilhoso…
    Giselle é meu ballet preferido e também não consegui parar quieta, assim como você já sabia a coreografia de cor e meu corpo queria acompanhar os bailarinos… haha.
    A Nikulina tava excelente mesmo, na cena da loucura cheguei a achar que ela fosse chorar… que olhos!
    Essa coisa que você falou dos detalhes é a mais pura verdade, fiquei particularmente encantada com o uso das mãos, principalmente com o Mikhail Lobukhin (que foi quem dançou o Albrecht. Ele o Gudanov são parecidinhos mesmo! E o Hilarion foi o Yuri Baranov). Confesso que quem mais me emocionou, desta vez, foi o cafajeste do Albrecht… chorei horrores na parte em que ele se dirige ao túmulo da Giselle, exatamente pela sutileza e por essas coisas que parecem pequenas mas que fazem uma enorme diferença (ele estava simplesmente caminhando!). E aquele corpo de baile? Socorro!
    Que as grandes companhias continuem vindo… Esse hiatus insano do Bolshoi aqui, considerando o fato de eles terem uma escola em Joinville, é imperdoável! Só me resta rezar pro Royal vir um dia desses… hehe.
    Um beijo!

    1. Carolina, muito obrigada, eu estava doida para saber quais bailarinos dançaram nesse dia e eu não sabia! Eles anunciaram e eu não ouvi? Procurei no site do Bolshoi, aí foi isso mesmo, me confundi com as fotos, hehehe. Muito obrigada mesmo! A Nikukina foi incrível em tudo, mas na cena da loucura, olha… Tantas bailarinas pecam nessa parte, mas ela, não. Também me emocionei com o Albrecht, além dele caminhar no túmulo, no final, ele caminhando para trás, as cortinas fechando, me arrepia só de lembrar. Vamos torcer, quem sabe um dia o Royal venha (e a Ópera também, por favor! hehehe). Grande beijo.

  4. Eu assisti à apresentação do sábado à noite. E tive exatamente a mesma opinião. O mais fantástico dessa experiência foi exatamente sentir essa proximidade de que vc falou…foi fantástico!

    1. Thaís, é estranha essa proximidade, não é? Eu pensei que seria justamente o contrário, mas não, o ballet parece ainda mais próximo de nós. E foi lindo, não é? Experiência que levaremos pra vida inteira. Grande beijo!

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