Posso aprender ballet sozinha?

Volta e meia me fazem essa pergunta. A resposta básica é: não. Mas vou explicar os motivos da negativa, que não necessariamente têm relação com o que vocês imaginam.

Para que serve uma aula de ballet? A pergunta parece óbvia, mas não é. Depende do seu estágio de desenvolvimento na dança. Para os níveis iniciante, intermediário e avançado, o objetivo é aprender técnica clássica. (Para quem é do curso regular: os três primeiros anos são iniciante; quarto, quinto e sexto são intermediário; sétimo e oitavo, avançado.) Para os profissionais, o objetivo é outro. Eles já aprenderam a técnica, as aulas diárias são basicamente uma manutenção dessa técnica, quase um “aquecimento de luxo”. Quem já assistiu a aulas de companhias, deve ter percebido que os bailarinos e as bailarinas erram movimentos, não seguem a música, estão supertranquilos. Além disso, as funções dos professores também mudam. No primeiro caso, eles ensinam a técnica, corrigem os alunos, orientam na dança. No segundo, eles apenas conduzem a aula.

Para os profissionais, o momento de aprender é no ensaio. Aí sim os coreógrafos, remontadores e ensaiadores analisam tudo, corrigem cada detalhe, de um gesto com a mão a uma pirueta realizada fora do tempo. Não passa nada! Inclusive, não é raro os bailarinos e bailarinas das grandes companhias terem um coach, e os principais costumam ter um só para si. É um misto de professor e ensaiador altamente qualificado. (Para ver como funciona, um vídeo do Royal Ballet, aqui.) E, por terem tanta experiência, também é comum as bailarinas e os bailarinos profissionais treinarem sozinhos.

Este trecho do filme Ballerina com cenas da Evgenia Obraztsova mostra tudo isso: ela erra durante a aula da companhia, é corrigida pela ensaiadora várias vezes durante o ensaio e, no seu dia de folga, vai estudar sozinha. Para assistir, aqui.

Voltemos à realidade da maioria de nós. As aulas de ballet são o nosso momento de aprender. Esse aprendizado não se limita a reproduzir os movimentos nas aulas, mas acontece especialmente com as correções dos professores. Eles conseguem enxergar o que estamos fazendo e para onde estamos indo.

Com o tempo, aprendemos como o ballet acontece no nosso corpo. Graças às aulas e correções, reconhecemos um passo errado quando estamos na metade do movimento, sabemos se a pirueta vai terminar onde deveria, conseguimos corrigir um passo durante a sua execução. Essa percepção é adquirida de uma única maneira: experiência. Não há atalho possível. Quando chegamos a esse estágio, aí sim podemos estudar sozinhas. O que não significa aprender sozinhas, ou seja, ir além do estudado na aula.

Todo mundo pode fazer isso? Não, depende de cada pessoa. Não é segredo para ninguém que eu estudo sozinha desde o meu começo no ballet. Na verdade, eu sempre estudei além da escola, desde criança, por puro amor ao conhecimento. Os meus pais são autodidatas em mil coisas. O meu irmão sempre aprendeu melhor estudando sozinho. Ou seja, eu cresci em um ambiente em que é normal estudar por conta própria. Funciono bem assim. Em relação ao ballet, poucas vezes eu estudei sozinha o que não estudei em sala de aula. Além disso, conheço o meu corpo e os meus limites. Nunca sofri uma lesão, mas já tive dores terríveis por causa do excesso de treino. O que eu fiz? Parei até melhorar. A minha responsabilidade é a minha proteção.

Quem não tem disciplina, responsabilidade e fontes confiáveis de estudo não pode estudar por conta própria. Eu já recebi vários relatos de pessoas que resolveram estudar sozinhas e se machucaram seriamente. Adianta falar para não fazer? Quem quer, vai fazer, mas assuma as consequências depois.

Existe algum mérito em gostar e se dar bem estudando sozinha? Nenhum. Há pessoas que não gostam e preferem estudar apenas com orientação presencial. Não existe melhor ou pior, é apenas uma característica pessoal, nada mais do que isso.

Ao defender o estudo solitário, eu estou diminuindo a importância dos professores? Pelo contrário. O termo “autodidata” tem uma pegadinha: ninguém aprende sozinho. As informações do nosso estudo foram produzidas por alguém. Quem escreveu o livro, quem produziu o vídeo, quem publicou um texto. Este blog não surgiu do nada, vocês não me veem, mas eu o mantenho há anos. Quem existe não é o Dos passos da bailarina, é a Cássia Pires, mesmo que muitas pessoas sequer saibam o meu nome. Nada substitui os professores, e falo num sentido amplo, aqueles que ensinam e orientam de alguma maneira. A diferença é que hoje eles estão em todos os lugares, não apenas na sala de aula.

Vivemos em um tempo em que podemos ter acesso a muitas informações. A grande questão é separar as mais relevantes e saber utilizá-las para o nosso crescimento. Quem sabe fazer isso, tem o melhor dos mundos nas mãos.

Resumindo: Não podemos aprender ballet sozinhas, mas podemos estudar sozinhas depois de ter aprendido ballet. Podemos ampliar o nosso conhecimento o tempo todo. Mas ninguém será bailarina treinando sozinha no quarto sem nunca ter pisado em uma sala de aula, por maior que seja a vontade disso acontecer.

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14 comentários sobre “Posso aprender ballet sozinha?

  1. Olá, gostaria de receber uma dica sua. Sempre quis aprender ballet, mas nunca tive oportunidade.
    Queria uma dica de como posso *principalmente* convencer meus pais a me colocarem em uma escola de ballet tenho 15 anos e ano que vem além da escola teria curso. Mas a tarde terei baStan te tempo para algo a mais. Porém não sei como convencer e\ou dizer a eles que eu gostaria de praticar. O que eu posso fazer, se eu disser eles contaram para toda minha família e além de fazer um discurso de que eu não iria aguentar como não aguentei em outros dois cursos. Esse sempre foi meu sonho mas não sei como realiza-lo. Se puder me ajudar ficarei plenamente grata. S2

    1. Isabelle, se você já desistiu de outros dois cursos, é possível entender por que os seus pais acreditam que você abandonará o terceiro. Se quiser convencê-los, fale sobre coisas que você concluiu, projetos ou cursos dos quais você foi até o fim. Quem sabe dá certo! Grande beijo.

  2. Oi, eu gosto muito de ballet apesar de nunca ter praticado, os meus pais nunca aceitariam nao so por ja ter quase 18, mas porque na cidade em que eu vivo as escolas alem de caras ficam muito distante de onde vivemos, por isso queria muito praticar em casa. Se tiveres algum conselho para me dar ficaria muito grata. (Desculpa pela falta de acentuacao, o teclado esta com problemas)

    1. Shelsia, entendo todas essas dificuldades para você começar a estudar em um estúdio de dança, mas no próprio texto eu explico por que não é bom aprender sozinha em casa. Infelizmente, é melhor você esperar até começar em uma escola. Grande beijo.

  3. Obrigada pelo texto, estou pesquisando muito sobre o ballet e cada vez me encanto mais e sei que isso é o que quero fazer: aprender ballet. Seu blog é maravilhoso.

  4. Pois,
    eu que estou fazendo exercícios em casa, abaixo do nível que parei, não tô estudando (não, né?!), nem aprendendo (haha), e não sei se tô mantendo o que aprendi. Hehe.
    Mas vou dançando! De leve, alegra o corpo e o coração e tá ótimo.

    Ah, layout novo \o/ haha

    Beijocas!

    1. Cyndi, você está estudando sim. E se está alegrando o corpo e o coração, então está tudo certo! Layout novo porque eu enjoei daquele outro, hehehe. Grande beijo!

  5. Oláaa! Adoro seu blog e estou sempre lendo! Acho que seria interessante um post sobre ponteiras, que eu acho que fazem muitaaa diferença na hora de usar a sapatilha de ponta. Eu uso uma que comprei a muitos anos atrás que é a ponteira toe savers da daztech. Pra mim ela é a ideal só que nunca mais encontrei. É essa aqui http://evolutionpirouette.com.br/evolution/product_info.php?products_id=119&PHPSESSID=f2edd53827f91eeee84715f78b7ac396
    Não me adapto com outras ponteiras porque apertam muito meus dedos e essa que uso é bem fina. Você teria algumas dicas?
    Parabéns pelo blog! =)

    1. Laís, eu não sou uma especialista em ponteiras e não tenho uma grande experiência em pontas para falar sobre as diferenças, teria de pesquisar a respeito. Eu usei três diferentes: uma bem grossa e dura de silicone (o horror!), uma de pano (não sustenta, a gente sente dor) e uma biqueira de silicone, a minha preferida. Ela é bem fácil de ser encontrada e é bem fininha, mas dependendo da força do pé e do peso da pessoa, talvez não segure tanto. É esta: http://www.fisiostore.com.br/images/product/IPEC-05068_298.jpg Grande beijo.

  6. Cássia, amei seu texto! Muito esclarecedor, centrado e firme, como já notei que é sua escrita!

    Um beijo!

    1. Marina, muito obrigada! Eu lembrei de você ao escrever esse texto, nos tempos do grupo de discussão, você perguntou sobre o estudo solitário e comentou que até os bailarinos têm aula de ballet. Lembrei disso para esclarecer tudo direitinho. Grande beijo!

  7. Oii, conheci seu blog a pouco tempo e já me apaixonei rs. Bom, queria saber de você se devo voltar ao ballet. Com meu 12/13 anos de idade sofri minha primeira lesão, nos tendões da pernas e fiquei 6 meses muito machucada.Lembro me como se fosse hoje, que queria levantar da cama mas não conseguia de tanta dor.Tentei voltar, mas não tive coragem (afinal, tive essa lesão por conta da falta de limites da professora ao me forçar), além da dor que sentia durante as aulas.Agora com 16 tenho vontade de voltar, pois eu realmente amo ballet mas tenho medo de me machucar novamente e estou completamente sedentária (fora que ainda sinto os meus tendões “presos”, mesmo despois de tanto tempo e tendo feito fisioterapia).Não alcanço nem meus pés rs.Eu iria tentar fazer execícios por conta própria mas acabei de ler este texto e mudei de ideia.Você acha que eu tenho chance?Que tenho ou devo tentar voltar?Dependendo como for, vai me ajudar inclusive no meu tratamento de desvio na coluna (cifose).Continue com o blog e parabéns pelos textos.Beijos

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