Na pele

Ano passado eu expliquei como seriam os posts sobre as bailarinas negras e o ballet clássico. Ontem publiquei o meu texto, que pode ser lido aqui. Hoje será o texto da Cyndi Oliveira, do blog O meu repertório, contando as suas experiências.

* * *

Na pele, por Cyndi Oliveira

Comigo, o preconceito sempre foi mais disfarçado. Talvez por não ter traços negros tão fortes, ou por isso de o preconceito ser uma coisa totalmente errada e as pessoas disfarçam seu racismo ao máximo e tentam escondê-lo, mas ele ainda tá lá. Eu sinto racismo nos buracos desse disfarce.

Está num figurino “cor da pele, nude”, mas como a maioria é branca, vamos fazer o de todo mundo bege (ficou super cor da minha pele, valeu mesmo). Está na meia-calça rosa ou salmão, que mais se aproxima da cor de pele europeia do que a negra (aliás, divide as linhas da bailarina negra, tira a unidade do corpo). Está na alça do figurino que, de novo, é da cor da pele da maioria (vai me dizer que eu paguei por um figurino feito sob medida e a alça, que tem que ficar “invisível”, não vem personalizada também?) Está no “mas você vai dançar esse papel?” quando o papel é sempre feito por uma bailarina branca (a menos que você dance a parte árabe de Quebra-nozes, todos os papéis são basicamente por pessoas brancas). Está no argumento absurdo que corpo de baile tem que ser homogêneo, e uma bailarina negra vai se destacar demais e chamar atenção.

Bem, essas são minhas experiências, mas com certeza muitas bailarinas negras já passaram por alguns desses casos, até pior. Um racismo bem mais intenso mesmo.

Exemplos? Michaela DePrince, aos 8 anos, foi impedida alguns dias antes de dançar Clara, de Quebra-Nozes, porque a América não estava preparada para uma bailarina negra, ou as várias audições que ela fez, ficou nos tops e não recebeu propostas. Precious Adams e todo racismo enfrentado na escola do Bolshoi e castings. Misty Copeland e sua história de vida. Ou a de Aesha Ash. Bailarinas negras que vivem eternamente no corpo de baile, isso SE conseguem chegar lá, e são absurdamente menos escaladas que bailarinas brancas.

Quando eu vejo uma bailarina negra com destaque em uma companhia de ballet, eu grito, choro, fico emocionadíssima. O que deveria ser normal e rotineiro é motivo de festa, porque é muito raro. E isso principalmente com mulheres.

Como a mãe da Michaela bem disse, uma bailarina negra tem que ser 10 vezes melhor que uma branca pra ter ao menos uma chance.

Precisamos saber que nossos sonhos não são inalcançáveis. Precisamos de exemplos. Precisamos de mais diversidade no ballet.

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7 comentários sobre “Na pele

  1. Olá Cássia, também gostei muito dos posts que li, comecei interessada pelo conceito racial e cheguei até aqui. Há mais tempo surgiu a dúvida quando tive que comprar uma meia coral para que minha filha participasse das aulas e do festival de ballet. Então encontrei uma confirmação aqui o que achei bastante intrigante, vou questionar a escola (detalhe – minha filha é parda). Obrigada, amei cada palavra e vou levar adiante.

    1. Inêz, a meia coral vai “cortar” visualmente a sua filha em dois, atrapalhando aquilo que chamamos de “linhas do corpo”, o que não acontecerá com a meia tonalizada; as sapatilhas também devem acompanhar o mesmo tom, para dar unidade. É direito da sua filha. Grande beijo!

    2. Inêz, o legal da gente se questionar e procurar se informar é perceber que não está sozinha, né? A questão das meias é uma coisa… Quase não se acha, e quase não se aceita, porque sempre foi assim.

      “É um padrão”, dizem.
      Mas, pensa aqui comigo: padrão? de quê? de cores? Não tá legal esse argumento, né?! Porque a sua filha, eu, muitas outras, não tem braços e rostos de cor coral. Já não estamos nesse “padrão” aí. Por que isso não se estende para as pernas? vamos refletir aí…

      Eu achei meia, mas não achei sapatilha. Meia da capezio, muito boa. =)
      Algumas amigas já falaram que aqueles produtos pra dar brilho em sapato de couro (branco) + base dá pra cobrir e fixar legal na sapatilha.

      Espero que a escola permita e que você abra esse caminho. =D

  2. Meninas, que show os posts! Demorei quase um mês pra ler, mas valeu a pena. Sou negra também e uma das poucas da minha escola. Até no ballet amador as negras são raras, acho que é justamente porque não se vêem como bailarinas clássicas, por causa de tudo isso que vocês falaram… Muita gente acha que dança de negro é só o break mesmo =/ nada contra, mesmo pq lugar de negro é onde ele (ou ela) quiser, se no break ou no clássico ;)

    1. Rosane, fiquei muito feliz que você gostou dos textos! É bem isso, e a importância de ter bailarinas negras dançando grandes repertórios é mudar a percepção das pessoas. Como você bem disse, os lugares das pessoas negras são onde elas quiserem, mas enquanto a participação delas não aumentar em todas os lugares, continuaremos com essa divisão na sociedade. Passou da hora disso mudar (e acredito que vai mudar!). Beijo imenso.

  3. Olá Cássia, estou amando o seu blog, meu comentário não é relacionado ao post, mas tenho algumas duvidas… Tenho 17 anos e comecei a fazer ballet agora. Já tinha feito um pouco em 2009 porém me mudei de cidade e acabei ficando sem fazer por todos esses anos. Agora estou voltando e meu sonho é participar de algum espetáculo, tenho chance? Sou tão iludida que ainda sonho com a Bolshoi kkkkk Amei o seu blog! Beijos!

    1. Letícia, vou começar pela notícia ruim: sonhar com o Bolshoi tudo bem, torná-lo realidade é mais difícil, hehehe. A notícia boa é que você pode participar dos espetáculos de dança da sua escola numa boa. Eu mesma participei do meu primeiro espetáculo aos 28 anos de idade. Beijos.

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