Como eu aprendi a fazer pirueta (2)

Para ler a parte 1, aqui.

*

Depois de contar a minha saga até conseguir girar, explicarei as etapas que eu sigo para a minha pirueta acontecer.

Não entrarei nas questões de anatomia, física ou biomecânica, tudo bem? Além de não ser uma especialista em nenhum desses assuntos, as explicações ficarão confusas; o objetivo é girar, não entender como o giro acontece. No fim do post, haverá uma lista com todas as fontes para quem quiser se aprofundar no assunto.

Antes de começar, duas coisas:

◦ Para quem consegue girar: A minha intenção é auxiliar quem não consegue girar de maneira alguma. Se você consegue fazer pirueta seguindo as indicações dos seus professores, não arrume problema para a sua cabeça. Continue no que está dando certo.

◦ Para quem não consegue girar: Siga os passos de mente aberta e coração tranquilo. Eu vou refutar algumas coisas que nos foram ensinadas, por isso, esqueça o que você já aprendeu e não funcionou. Tente seguir as explicações na sequência, sem refutá-las. Escute seu corpo, não sua cabeça.

Preparadas? Vamos lá.

1. Postura neutra

Desde que começamos no ballet, ouvimos a frase: “Encaixe esse quadril”. Eu não o encaixo há alguns anos. Escrevi sobre isso uma vez, sem muito conhecimento, mas agora sei um pouco mais sobre o assunto. Se quiserem, escrevo novamente sobre isso, mas agora, pensem na postura neutra.

Postura neutra significa posicionar o corpo mantendo intactas as curvaturas naturais da coluna vertebral.

Nem todos nós somos alinhados e temos uma coluna saudável, há os vícios posturais, além dos problemas de coluna. Sendo assim, há uma maneira de encontrarmos a nossa postura neutra e o passo a passo é explicado no livro “Anatomia da dança”, de Jacqui Greene Haas. Basicamente, (1) fique em pé, em primeira posição e contraia o abdome. (2) Inspire lentamente, solte o abdome e empine um pouco o bumbum. (3) Expire lentamente, contraia o abdome e encaixe o quadril. (4) Inspire de novo, seu quadril irá lentamente para trás e você sentirá como se um fio te puxasse para cima. (5) Contraia o abdome e sinta o quadril ir para o lugar. Essa é a sua postura neutra.

Se não ficou claro, preste atenção neste trecho do DVD “Workout 2”, do New York City Ballet, aqui. A explicação está em inglês, mas conseguimos entender apenas ao prestar atenção nos movimentos.

2. Centro de gravidade

É comum ouvirmos: “Na hora de girar, foque nessa região, bem debaixo das costelas”, aquela parte também conhecida como boca do estômago. Assim, lá vamos nós focar nessa região no momento de girar e nada acontece. Sabe por quê? Porque cada pessoa tem o seu centro de gravidade.

Para as baixinhas, o centro de gravidade é abaixo do umbigo. As ginastas são de baixa estatura justamente por isso, é mais difícil elas caírem. No caso das bailarinas, isso não faz diferença, certo?

Em um infográfico da revista Superinteressante, vemos a diferença entre os centros de gravidade de acordo com a altura. Para vê-lo, clique aqui. Não há nenhum problema em ser alta, de estatura mediana ou baixa, basta apenas descobrir onde é o seu centro de gravidade; observando o infográfico é possível ter uma ideia. Aí será o seu foco no momento de girar. É importante ressaltar que o centro de gravidade se desloca no momento do giro: com os dois pés no chão, ele fica no meio; no momento do retiré, ele continuará na mesma linha, mas mudará para a lateral do seu corpo. Foque-se aí que dá certo.

3. Alinhar pescoço e cabeça

Você já encontrou sua postura neutra e descobriu o seu centro de gravidade. Falta apenas um passo para estar no eixo, alinhar seu pescoço e sua cabeça.

Quem entende francês, assista ao vídeo “L’equilibrie”, do professor Wayne Byars, aqui. Quem sabe inglês, uma boa alma traduziu o vídeo nos comentários, mas basta utilizar um tradutor online para compreender melhor o processo. Na verdade, é bom assisti-lo de qualquer maneira. Eu falarei apenas o básico.

Temos a tendência em empinar o nariz e levantar o queixo, certo? Aí está o problema. O correto é alinhar as orelhas com o pescoço, deixando-o no centro do crânio. Fica claro ao vermos um esqueleto de lado, aqui.

Querem ver isso na prática? No “Adágio da Rosa”, de A Bela Adormecida, as bailarinas se mantém no balance durante os attitudes derrière olhando para frente, nunca para os pretendentes, aqui.

4. Distância entre os pés na quarta posição

Postura neutra, centro de gravidade, pescoço alinhado com a cabeça. Se você chegou até aqui, no mínimo, está craque em balance. Mas queremos o giro, então vamos ao pulo do gato.

Minha primeira pirueta limpa aconteceu depois de ler o capítulo 4 do livro “Physics and the Art of Dance”, de Kenneth Laws. Ele faz uma longa explicação sobre piruetas, mas vou destacar o ponto mais importante: a distância entre os pés na quarta posição.

Eu aprendi que a distância ideal era a equivalente a um pé meu. Se você também aprendeu isso, esqueça. Se aumentarmos a distância entre os pés, menor será a força horizontal necessária entre os pés e o chão para a pirueta acontecer. Trocando em miúdos, aumente a distância entre os pés e será bem mais fácil girar. Além disso, alongue ambos os braços, em vez de deixá-los arredondados.

Vejamos isso na prática. Neste vídeo, o professor Finis Jhung explica a diferença entre os dois e mostra como é melhor ampliar essa distância e alongar os braços. A explicação aparece logo no começo do vídeo, mas é interessante assisti-lo completo para ver como a pirueta acontece facilmente. Para assistir, aqui.

5. Marcar a cabeça

Essa todo mundo conhece, mas coloquei para ninguém dizer que esqueci um passo importante. Ainda não aprendeu como marcar a cabeça? Veja como funciona aqui.

Recapitulando: postura neutra, centro de gravidade, alinhamento de pescoço e cabeça, distância entre os pés na quarta posição, marcar a cabeça. Com isso em mente, é hora de girar.

Pirueta não é questão de treino. Pirueta é questão de eixo. Agora que vocês aprenderam como encontrar o próprio eixo, é fácil descobrir o que saiu errado quando a pirueta não aconteceu. Aí sim é treino constante. Chegará o momento em que a pirueta sairá boa parte das vezes. Falo pela minha própria experiência.

Dúvidas? É só me perguntar.

* * *

Fontes:

Anatomia da dança, Jacqui Greene Haas, Editora Manole, 2011. “Capítulo 2 − Coluna vertebral”, p.17-21.

“Ballet Glossary − Spotting”, Royal Opera House, YouTube. <http://www.youtube.com/watch?v=88bsYB9i6Mc>

“Corpos olímpicos − Ginástica artística”, Superinteressante, 7 jan. 2013. <http://super.abril.com.br/blogs/superlistas/o-melhor-do-ano-10-melhores-infograficos-de-2012>

“L’equilibre”, Wayne Byars, YouTube. <http://www.youtube.com/watch?v=hooSm-aAnlM>

“New York City Ballet: The Complete Workout, vol. 1 and 2”, New York City Ballet, 2006, 210 min.

Physics and the Art of Dance: Understanding Movement, Oxford University Press, 2002. “Chapter 4 − Pirouettes”, p.66-72.

“Pirouette Class 1”, Finis Jhung, YouTube. <http://www.youtube.com/watch?v=e2-qRFM_g_I>

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17 comentários sobre “Como eu aprendi a fazer pirueta (2)

  1. Muito obrigada pela ajuda. Era disso que eu estava precisando. Comecei o ballet aos 29 anos e pra mim preciso ter alguma logica ao executar um movimento. Estou ha um ano no ballet e nao consigo executar as piruetas. Depois do seu post vejo uma luz no fim do tunel. Rs Mt obrigada! ❤❤

  2. Parabéns! Em vez de se submeter a quase “superstições” foi atrás de entender a biomecânica e anatomia por trás da dança e obteve o resultado. Sou profissional de Educação Física e é assim que um professor competente trabalha.

  3. Oi Cássia! Obrigada pelas dicas. Comecei a dançar a 1 ano e meio na turma de adulto iniciante, e as piruetas são definitivamente meu ponto fraco, infelizmente. Elas simplesmente não saem. De tudo que você listou acima, o único ponto que ainda não ficou claro pra mim é o centro de gravidade… A minha professora sempre fala pra gente “inclinar um pouco as costas pra frente”, mas isso também não me ajuda… Com o pé no chão fico equilibrada numa boa, mas quando é pra subir na meia ponta, num pé só, pareço um joão-bobo. Como achar esse eixo? :(

    1. Maria, para achar o seu eixo, você tem de seguir os três primeiros passos do post: postura neutra, centro de gravidade e alinhamento de pescoço e cabeça. Se você inclinar suas costas para frente, vai sair do eixo. O centro de gravidade não é nenhuma ação específica, você tem de achar o seu centro e se concentrar nele ao girar. Só isso. Se você tem 1,50m, seu centro de gravidade é logo abaixo do umbigo e esse centro irá subindo quanto mais alta você for. Descoberto isso, o seu centro de gravidade passará do “meio da barriga” para a lateral do seu corpo quando você estiver na meia-ponta em um único pé, no retiré. Você desloca essa força para ficar equilibrada. Tente esquecer o que já aprendeu nas aulas, releia o post com calma e tente fazer cada passo. Se não der certo, volte que te ajudo. Grande beijo.

  4. Muito do seu post já são instruções da minha profe, mas nunca tinha visto nada assim, tão esmiuçado e ilustrado. Valeu por mil horas-aula ;) Só não comecei a praticar ainda – acredite! – porque quero comprar um espelho antes e marcar a cabeça corretamente. Mas vou anotar tudinho no meu caderninho Jolie Ballet que comprei pra estudar dança ;) rsrsrrs

    1. Rosane, eu quis colocar tudo bem-explicado, com todas as fontes, para auxiliar todo mundo. =] E sabe uma maneira de marcar cabeça sem espelho? Coloque um adesivo na parede. Na parede do meu quarto tem, é um adesivo fofo, redondo, foi assim que aprendi a marcar a cabeça. Viva a gambiarra, hehehe. Grande beijo.

  5. li tudinho, me concentrei, e… uma, duas, AAAAAH arrepiei, tava no eixo certinho, me desconsertei e puf… caí na metade da terceira.
    Poxa! hahah. Mas, inacreditável!

    Beijocas!

  6. Eu consigo girar, até. Não é sempre, não é bem, e nem me atrevo a sonhar com mais do que píruetas simples. Aceitei que tenho o meu tempo, mas deixei esse post nos favoritos e vou consultá-lo sempre!

    1. Sarah, cada pessoa tem mesmo o seu tempo. Quem sabe quando você sonhar com mais do que piruetas simples (o que é possível), tomara que o post te ajude. Grande beijo.

  7. Olá Cássia!

    Adorei o texto! Estrou treinando aqui… Já percebi um dos meus erros: na hora do plié, eu estava “sentando”. Outra coisa que me atrapalha é ficar nervosa na hora de girar, mesmo fazendo em casa sem ninguém olhando… Fico ansiosa e com esperança que dê certo!
    A pirueta ainda não saiu perfeita, mas vai sair! rsrs… Depois venho contar.
    Beijos!

    1. Adriane, eu estou respondendo os comentários nos posts “de trás para frente”, aí eu falo “Adriane, você já viu isso”, aí chegou no seguinte e você comentou, hahaha. Desculpa! Mas não vou editar os outros comentários, assim você lê como eles estão. Boa observação, eu não tinha parado para pensar no “sentar” no plié. Eu faço o tombé inconscientemente. E o nervosismo atrapalha demais. Sabe uma coisa que ajuda? Faça por partes. Por exemplo, siga os quatro primeiros passos, faça o retiré e não gire. Quando estiver mais tranquila, gire. Mas se a pirueta está saindo, é uma coisa boa! Uma hora a pirueta perfeita virá. =] Qualquer dúvida, é só vir perguntar. Beijo grande.

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