Como eu aprendi a fazer pirueta (1)

Quem acompanha o blog há bastante tempo sabe da minha imensa dificuldade em fazer pirueta. Eu era um daqueles casos perdidos, quando você pensa que jamais vai conseguir. Resolvi pesquisar sozinha sobre o assunto e, enfim, aprendi.

Demorei para falar a respeito porque o caminho percorrido por mim deu certo para mim e não significa que dará certo para vocês. Além disso, algumas pessoas pensarão que estou desmerecendo ou refutando a maneira ensinada pelos professores e professoras há décadas. Não estou. Apenas tive de descobrir o que era certo para mim, e assim foi.

Para o texto não ficar imenso, eu o dividi em duas partes. Hoje contarei todo o caminho percorrido por mim até conseguir girar sem dificuldade. Outro dia contarei os passos que sigo para a pirueta acontecer.

Tudo começou no meu primeiro semestre de ballet clássico. Logo no primeiro mês, já treinávamos o básico da pirueta na barra fixa e logo fomos ao centro. As minhas piruetas eram totalmente descoordenadas; saíam, mas com cara de nada. Eu comecei as aulas em junho e em novembro aconteceria o espetáculo anual. O que a professora colocou na nossa coreografia? Pirueta. Todo mundo girando ao mesmo tempo? Não, uma por vez. Passei dias dormindo mal porque me imaginava caindo no palco. Não é exagero. Na apresentação, não caí, mas a pirueta saiu parecendo a Torre de Pisa.

Mudei de escola no ano seguinte e os treinos se intensificaram no centro. Eu só conseguia fazer pirueta de quinta posição, vai entender!, mas a de quarta não saía. Na diagonal então, nem pensar! A professora começou a ficar tensa, a me cobrar, e eu só me angustiava. Ela me ensinou um treino básico, retiré e um quarto de giro na barra, mas nem isso adiantou. Assim foi durante um ano e meio até eu sair de lá.

Terceira escola. Já fui avisando a professora que eu tinha dificuldade com pirueta. Lá fomos nós: um quarto de giro, meio giro, giro completo. Piruetas no centro. Nada. Saí dessa escola, voltei um ano depois. Até o dia em que eu estava sozinha na aula com a professora e ela resolveu me ensinar a girar. Durante meia hora ou mais, ela me fez girar infinitas vezes. “Você só sairá daqui hoje se fizer pirueta.” Pânico. Eu não girava. Ela me fez ficar de costas para o espelho. Nada. Ela me fez fechar os olhos. Nada. Então ela percebeu que eu estava ficando nervosa e resolveu parar. Foi quando pensei que o ballet não era mesmo para mim.

Mesma escola, outra turma. Agora, um professor. Enfim, as coisas começaram a mudar.

As outras três professoras costumavam ensinar a pirueta separadamente. Na maior parte das vezes, treinávamos só a pirueta e eu já suava frio por antecipação. Esse professor ensinava de outra maneira, as piruetas eram inseridas em sequências de barra, centro ou diagonal. A pirueta era um dos passos entre tantos outros. Aprendi a girar? Não, mas perdi o medo. Sem isso, esqueça, a pirueta não acontece.

Saí da escola, estava sem aulas e voltei a treinar sozinha. Era o momento de aprender. Ninguém me cobrando, nada de tensão, faria como eu achasse melhor, no meu tempo. E fui estudar sobre os giros no ballet clássico.

Comprei o livro “Physics and the Art of Dance”, já falei sobre ele aqui, sobre a física aplicada ao ballet clássico. Livro em mãos, fui direto para o capítulo sobre o assunto. Li e fui ao centro do meu quarto, seguir exatamente as recomendações do autor. O que aconteceu? Pela primeira vez, fiz uma pirueta completa e limpa. Entre a minha primeira aula de ballet e esse momento foram quatro anos.

Mas o que aconteceu, mágica? Não, física. Só então entendi como temos uma visão completamente equivocada. Pirueta não é uma questão de treino. Pirueta é uma questão de eixo.

Você pode treinar horas por dia, mas se estiver girando de maneira errada, não vai adiantar. “Ah, mas as professoras falam sobre eixo.” Sim, mas ensinam todas nós da mesma maneira. Há pessoas que já nasceram no eixo, como a Adeline Pastor. Já a maioria de nós não nasceu pião, precisamos encontrar o nosso eixo. Como encontrá-lo? É isso que vou ensinar.

Desde a minha primeira pirueta limpa até agora, outras coisas foram estudadas, como equilíbrio e centro de gravidade. O meu índice de acerto nos giros? Em torno de 90%. Foram sete anos para chegar nisso.

Novamente, não estou desmerecendo ninguém. Você consegue girar da maneira ensinada pelos seus professores? Ótimo, mantenha. Eu vou falar com quem não consegue fazer pirueta de jeito nenhum.

Preparadas? Até o fim da semana eu volto para contar.

*

Para ler a parte 2, aqui.

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20 comentários sobre “Como eu aprendi a fazer pirueta (1)

  1. Precisava dessa postagem hoje. Ás vezes dá um desânimo e agente percebe que o professor está quase desistindo de você, mas nada como uma explicação dessa….super me identifiquei!

    1. Mariana, é tão triste quando percebemos isso, mas importante é a gente não desistir da gente. :) Espero que a postagem tenha ajudado você. Qualquer dúvida, é só me perguntar. Grande beijo!

  2. Nossa eu adorei tudo, vc sabia que li tudo ontem e hoje quando fui tentar consegui duas piruetas de cara? Aquele video tbm ajudou muito
    Nossa eu fiquei de boca aberta
    Você é incrível
    Espero que possa ajudar muitas pessoas como ajudou a mim
    Meus parabéns e obrigada

  3. Apenas vejo problemas em executar a bendita pirueta quando estou nervosa ou em dia ruim haha mas também não sei se está correta, quando consigo vou até o final, não fico tonta e acredito que o passé esteja alto. Mas nunca ouvi minha professora dizer se estar certo ou errado. Então nem sei ;/

    1. Silvia, se você sente que a pirueta está certa, que você girou no seu eixo e a sua professora nunca falou nada… Mas já pensou em perguntar para ela? Assim, acaba a sua dúvida. =] Beijo grande.

  4. Não poderia ter ficado mais ansiosa pelo próximo post. Tenho vivenciado o terror da pirueta há 5 anos e tem sido frustrante não conseguir. Já decorei todo o caminho ensinado pelo professor, mas parece não estar dando muito certo. Esse post acendeu uma luz ao fim do túnel.

    1. Jessica, é uma frustração imensa quando tentamos tanto e não conseguimos. Espero que o post 2 tenha te ajudado a girar. Grande beijo.

  5. Esperando ansiosamente o próximo post hahahah Até faço pirueta.. uma, duas… mais que isso é queda na certa, de pontas, então, nem se fala! Fora aqueles dias que você realmente não acordou equilibrada.. um terror! hehe

    1. Bruna, há dias em quem não giramos de jeito nenhum! Nos outros, damos o nosso jeito, hehehe. E o novo post já está pronto, espero que tenha te ajudado. Grande beijo.

  6. Giros, meu maior terror. Ensaio dos flocos de neve: 7 deboulés en manége na coreografia. Não, não digo que hoje giro bem, mas ao menos consigo finalizar os 7 hoje sem cair no meio do caminho ou atropelar a colega que está na minha frente. Algo que me ajudou? Entender que na verdade, não se trata de uma questão de ballet clássico apenas.

    Eu sofro de cinetese, ou seja, enjôo do movimento — aquilo que faz pessoas não conseguirem ler em ônibus –. Mais do que ficar tonta, piruetas me enjoam. Não conseguia melhorá-las porque não conseguia treinar, e não treinava pois já queria vomitar depois da segunda tentativa. O que eu fiz foi tentar, gradativamente, acostumar meu corpo ao movimento de outras formas. Girava com a cadeira do computador em frente a um espelho e tentava fazer um spotting ao máximo, me forçava a conversar pelo whatsapp enquanto ia de ônibus pra faculdade. No início, foi um tormento, hoje me sinto muito mais confortável. Ainda não aprendi a girar bem, mas melhorei meu índice de acertos por diminuir meus enjôos em 70% quando giro. Consigo treinar mais, e consigo fazer meu corpo resistir melhor ao estímulo porque o acostumei ao movimento de outra forma.

    1. Ana Paula, que dificuldade a sua, deve ser terrível sentir esses enjoos! E obrigada por compartilhar a sua história, de como melhorar isso treinando o seu corpo para se acostumar aos movimentos. Sem dúvidas, há quem sofra com isso e não sabe o que fazer. E que bom que seus enjoos diminuíram e você possa treinar mais sem passar mal. Grande beijo.

    1. Juliana, espero que o outro post tenha te ajudado nas piruetas, e como prometi à Rosane, farei um post apenas sobre valsas, pode deixar. Grande beijo.

  7. Olá Cássia!

    Adorei o post, obrigada por compartilhar! Estou ansiosa para saber o resto, conta logo! rsrs
    Sou dessas pessoas que não conseguem fazer pirueta de jeito nenhum… Fico nervosa só de pensar! Quando chega essa hora na aula já sinto arrepios! Aliás, qualquer tipo de giro me assusta. Como fazer para não ficar tonta? Essa história de “bater cabeça” não adianta pra mim… rsrs

    Beijo!

    1. Adriane, desculpa, respondi a você em outro post e só agora te vi aqui. Entendo os seus arrepios, eu chegava a suar frio nas aulas, a sentir angústia esperando o momento dos giros. É terrível! Infelizmente, não sei como não ficar tonta, porque eu também fico mesmo “batendo cabeça”. Com uma colega de turma, aprendi a olhar para a palma da própria mão para passar mais rápido. Ela sempre ficava muito tonta, e olhava para as linhas da mão assim que terminava de girar. Tudo bem que não dá para fazer isso no palco, hehehe, mas nas aulas pode dar certo. E procure aqui nos comentários, um pouco mais para cima, a história da Ana Paula. Ela nos ensinou como acostumou o próprio corpo para não sentir mais enjoos nos giros. Talvez também dê certo com a tontura. Grande beijo.

  8. Cássia, depois desse você faz um post sobre valsa? :D
    Não sei do que tenho mais pavor, se da pirueta ou das valsas…

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