Do que é nosso

Às vezes, um determinado assunto começa a aparecer na minha frente de várias maneiras. Recebo um e-mail, depois surge um comentário no blog, alguém diz algo no Twitter e percebo que talvez seja o momento de falar sobre isso.

O assunto da vez é a ausência de apoio das pessoas próximas quando começamos a fazer ballet clássico já adulta. Não só, quando a indiferença dá lugar à depreciação. “Ballet clássico? Não seja ridícula, olha a sua idade!” É possível trocar idade por peso, altura, habilidade para dançar, flexibilidade e por aí vai.

Nunca tive esse problema na minha família, por exemplo, mas também não tive torcida organizada quando comecei. Com o tempo, meus pais e meu irmão perceberam como o ballet clássico é importante para mim e me ajudam no que for necessário. Porém, já sofri depreciação pesada de pessoas bem próximas.

É comum ouvirmos “Está fazendo ballet para quê?” e essa frase vem carregada de julgamentos. Implicitamente, é uma pergunta autorrespondida: Oras, se você é mais velha, se você nunca será profissional, fazer ballet é algo inútil. Você está perdendo tempo. Dedicar-se à dança simplesmente pela satisfação pessoal não é uma alternativa.

De acordo com o manual da autoajuda, o normal seria dizer para não nos preocuparmos com isso. Problema dos outros, vamos seguir nosso caminho. Fechar os ouvidos para estranhos é fácil, mas para alguém importante para nós é complicado. Ser depreciada por quem amamos dói: além de não termos apoio, a nossa autoestima diminui um pouco a cada dia.

O que fazer? Pensar naquilo que queremos alcançar.

No texto “O ballet clássico e o tempo”, eu disse que gosto de caminhar. A minha satisfação na dança reside muito mais no caminho percorrido para dançar do que em alcançar determinado feito, mas nem sempre foi assim.

Eu também quis dançar na infância, depois na adolescência, no começo da juventude e não pude. Só consegui aos 27 anos. Pisei em um palco para dançar ballet clássico pela primeira vez aos 28 anos. Na plateia, estavam seis pessoas da minha família, incluindo meus pais. No agradecimento geral, meu pai virou para a minha mãe e comentou: “A Cássia disse que ia dançar ballet. E dançou mesmo”.

Eu quis dançar, eu comecei a dançar, eu queria me apresentar e assim foi. Não importa o que os outros digam a esse respeito: eu dancei. Qualquer depreciação, crítica ou ofensa não tirará o meu mérito. Porque eu dancei.

O que é nosso ninguém tira, nem com toda a vontade do mundo.

O pai fez piada, a mãe soltou uma ofensa, a tia chamou de gorda? Dance. O namorado te chamou de ridícula? Largue o namorado − ele não te respeita − e dance. A colega de trabalho riu da sua cara? Dance. É fácil? Nem um pouco.

Sempre fico chateada quando recebo histórias de corações magoados porque alguém fez pouco caso do sonho de outra pessoa. Mas não existe satisfação maior do que conquistarmos o que tanto sonhamos. Dar a essas pessoas o direito de acabar com isso é injusto conosco, com o que nos dedicamos tanto para conseguir.

Em “O lago dos cisnes”, a Odile não acabou com a Odette; em “A Bela Adormecida”, a Carbosse não acabou com a Aurora; em “Giselle”, nem a traição acabou com a doce camponesa. Todas continuaram dançando. Porque é assim que as bailarinas seguem na vida.

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16 comentários sobre “Do que é nosso

  1. Cássia… vc traduziu tudo nesse post!
    Sempre gostei de ballet, mas não tive oportunidade de fazê-lo quando era criança. Fiz jazz, mas quando via as meninas ensaiando… eu pensava: eu queria tanto!
    Ano passado, qnd fui assistir uma apresentação de ballet em minha cidade, eu pensei: ano que vem eu começo! Mas não imaginava o quanto eu seria criticada por iniciar ballet aos 29 anos. E como vc escreveu… doeu muito mais pq eram pessoas próximas…
    Hoje, com 9 meses na luta, faço minhas aulas na turma dos adultos (1 vez na semana) e também na turma de adolescentes (2 vezes na semana). Até mesmo a professora me questionou se eu queria mesmo estar entre as meninas… Mas um dia desses ela me elogiou na frente de todas! E isso foi o melhor de tudo!! Independente de todas as críticas que eu ouvi!!!
    Hoje, meu pai ainda tira onda comigo… mas qnd não vou para a aula, ele pergunta o porquê de não ter ido… ele reconhece o quanto eu amo tudo isso e o quanto é importante para mim.
    Ainda estou no começo, na meia ponta… mas vou me apresentar no final do ano… ballet de repertório!! No teatro da cidade!!! Que responsabilidade!!
    Vou dançar Giselle!!! E me lembro bem qnd era pequena (dançando jazz) a turminha das moças se formando e dançando Giselle… eu não entendia muito bem o que era… mas era tão LINDO!!!
    E agora vou dançá-lo!! Ainda não sou uma Willi, mas um dia chego lá!!
    De corpo e alma… totalmente entregue ao ballet! Que me faz feliz todos os dias que seguro naquela barra!!

    Obrigada por nos proporcionar esses ensinamentos!!
    Muitos beijos!!
    Dani

    1. Daniele, com tamanha persistência, você ganhou elogios da sua professora diante das meninas, reconhecimento do seu pai de que o ballet é importante para você e vai dançar Giselle! No teatro da sua cidade! Fiquei imensamente feliz por você. Torcerei para ser incrível e que você se sinta a mais linda das bailarinas. Parabéns! Imenso beijo.

  2. Oi acabei de descobrir o seu blog e estou simplesmente amando. Desde criança sempre quis fazer ballet e fiz dos 3 aos 7 anos, porém uma série de acontecimentos acabaram me afastando da dança. Hoje com 17 anos meu maior sonho é voltar pro ballet, mas várias pessoas dizem que eu não tenho mais idade pra isso ou que se não é pra ser profissional pra que fazer… Enfim, eu não desisti e já estou me organizando pra voltar pro ballet.
    Eu pesquisei bastante sobre começar o ballet tardiamente e achei depoimentos incríveis assim como o seu que me ajudaram a não desistir.

    1. Gabriela, as pessoas adoram falar e palpitar sobre aquilo que não sabem. Você só tem 17 anos, tem toda uma vida pela frente e pode começar tranquilamente. Eu comecei 10 anos depois de você e cá estou dançando ainda. Comece as suas aulas numa boa. Grande beijo.

  3. Menina, não sei nem o que falar sobre este post, estou sem palavras, só tenho que te agradecer pelo incentivo e ajuda que nos da, eu tenho 23 quase 24 e meu sonho é dançar, aprender a arte Ballet, sou obesa, e sei que para realizar meu sonho tenho que me esforçar o “dobro” das pessoas normais, pretendo fazer Reeducação alimentar e academia para emagrecer e fortalecer meu corpo, e no começo do ano já quero começar o Ballet, é um sonho distante mais sei que nada é impossivel e como vc disse ninguém pode tirar o meu sonho de mim. Um grande abraço estarei sempre por aqui :) Bjos

  4. Realmente tocante esse post, desde que decidi iniciar no ballet há 2 meses, também aos 27 anos, seu blog tem sido meu companheiro quase diário. Esse post reflete a importância de nunca desistir e buscar nossos sonhos, sei que nunca serei uma profissional, mas a cada aula, a satisfação de dançar e aprender o ballet não cabe dentro de mim. Parabéns por esse trabalho e pela coragem de expor tanto sentimento….é um incentivo para nós Bailarinas Adultas….Grande Abraço

  5. Oi querida.

    Conheci seu Blog hoje, precisei dizer que ele me levou às lágrimas. Faço um trabalho para promover a autoestima e a autoaceitação e te dou os parabéns pelas palavras de incentivo. É linda a maneira que você escreve sobre a dança.

    (Faço ballet desde pequenininha, gosto muito. Mas o preconceito e o caráter exclusivista muitas vezes me deixam triste. Já testemunhei muita gente sofrendo por causa das exigências e da falta de tato de alguns professores)

    Dá um pulo no meu Blog ;)

  6. Acho que sou uma pessoa abençoada! Meus pais e amigos mais próximos me deram total apoio quando disse que ia começar a fazer ballet! Minha mãe achou o máximo! E isso tudo só me deu mais coragem ainda pra seguir em frente! Alguns amigos mais distantes ficaram chocados de início. Mas foi uma reação de cinco segundos que logo deu espaço à admiração! Acho até que as pessoas que fazem piadinhas e depreciam a decisão de começar a fazer ballet depois de adulta estão, na maioria dos casos, com uma certa inveja da nossa coragem! Na verdade, não é fácil tomar uma decisão como essa! Requer coragem e determinação! E isso gera muito incômodo em algumas pessoas…

  7. Maravilha! Sempre amei o ballet mas não tinha coragem para começar a dança, pois me achava “velha” pra isso. Tinha aquele pensamento de que só conseguem as que treinam desde os 5 anos. E com 20, criei coragem e comecei a dançar. Mesmo sem o apoio de ninguém no começo. Mas hoje minha mãe me disse “Quem diria que ia mesmo se tornar uma bailarina”. E receber essa nomeação, mesmo que seja num simples comentário, é de encher o peito de orgulho!
    Lindo seu texto. Todas que querem dançar, não importa a idade, devem dançar!
    beijos

  8. Ohhhh meldels o q falar de mim c 44 quase 45 anos kkkkkk dou risada e muita pq nessa idade já não me importo já não me afeta + sabe?! Acho q é a maturidade pq dancei final de ano c uma alegria tão grande ensaiando c as cças e adolescentes e foi tão gostoso subir pela primeira vez no palco c essa idade e ter minha família assistindo e se perguntando:”o q uma cardiologista dessa idade casada c dois filhos tá fazendo lá?” e eu nem aí…
    Esse ano danço c minha menina e será sublime e se perguntarem darei risada e na hora lembrarei desse post aqui
    Meninas vivam seus sonhos pq a vida passa rápido d+ p se importar c os outros mesmo sendo família não estão em nossas mentes p saberem de nossas vontades!
    Abç minha linda

  9. Sei bem o que é isso, também comecei aos 27 anos e não tive muito apoio da minha familia e ouvir coisas que nem vale a pena descrever no trabalho e de conhecidos. Tô nem aí, sigo balleteando!!!

  10. Cássia, o texto mexeu comigo, mas esse último parágrafo chegou lá no meu coração. Devemos aplicá-lo pra tudo!

  11. Quando penso no ballet, só me vem frustração na cabeça. Frustração por não ter tido a oportunidade de dançar quando pequena, por falta de dinheiro, por falta de incentivo, por falta de programas gratuitos. Agora já adulta, trabalho e mesmo assim, não tenho dinheiro necessário e muito menos tempo.
    É difícil amar o ballet e não ser amada por ele.

  12. Cássia, você tem o dom de tocar as pessoas com seus textos…

    Diz a Bíblia que não devemos matar, não simplesmente fisicamente, mas também pela palavra. Uma frase mal dita pode acabar com o sonho de uma pessoa! Você bem sabe o quanto já ouvi das pessoas que eu era velha pra dançar ballet, que ballet é coisa de criança, e já ouvi até que eu era velha pra fazer faculdade de Música, e mais ainda, que eu preciso, obrigatoriamente, ver um concerto ao vivo pra saber se quero ou não ser uma pianista… Ah, me poupe!
    Sem contar o que as pessoas falam por aí: você trabalha ou só dança? ¬¬

    Eu tenho orgulho de dizer: comecei aos 22 e eu vou me formar!!! Faça chuva, faça sol, faça frio ou calor, o ballet é o meu momento sagrado, e não abro mão dele por nada!

    Se a Ópera de Paris promove audições para bailarinos com até 30 anos, então, porque não se formar começando mais tarde?

  13. Eu fiz ballet a vida toda, num total de 15 anos. Nunca quis ser bailarina profissional, dançava pelo esporte, pela maravilha do dançar, pela beleza da arte. Na minha época, tinha aulas com pianista, uma coisa sensacional. Voltei depois de muito tempo, aos 31anos, com companheiras de classe com menos da metade da minha idade e já com uma filha.
    E foi quando tive a melhor de todas as experiências, que foi dançar com ela, eu com 32 ela com 3. Não tenho palavras pra descrever o quão mágico foi aquele momento. Foi sublime!!
    Adoro seu blog!
    beijos
    Taís

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