O ballet clássico e o tempo

Eu gosto de fazer tricô e estou na fase de passar do cachecol a outras peças. Mas qualquer pessoa que começa a tricotar, sabe: é preciso paciência. Além disso, a grande graça está em fazer a peça e não simplesmente vê-la pronta. Quem quer apenas a blusa, é mais fácil e rápido comprá-la em uma loja.

Mas não existem lojas de técnica clássica, tampouco de atributos necessários para dançar. Por isso, para ser flexível, melhorar o en dehors e fazer uma bela diagonal, você terá de seguir o caminho mais difícil: estudar e treinar.

O ballet clássico tem mais de 300 anos e não existe apenas uma maneira de aprendê-lo, e cada qual tem a sua própria relação com a dança. Mesmo assim, existe algo igual para todo mundo. É preciso tempo. Não, você não sairá dançando com apenas dois meses de aula. Você não terá um excelente trabalho de pontas em um semestre. Não vai. Não adianta dizer que sim, brigar comigo, falar que você é diferente, que sua professora/mestra/mentora disse que sim. Porque isso não é uma questão de opinião.

“Ah, mas a Sylvie Guillem chegou ao mais alto posto da Ópera de Paris com apenas oito anos de ballet clássico.” Ela é exceção. E quem também é exceção, não está preocupado em acelerar o processo de aprendizagem, pelo simples fato de não precisar disso. E se você quer pular etapas, você é regra, como 99,99% de quem dança.

É preciso percorrer um longo caminho para sentir o ballet no nosso corpo. Eu demorei pelo menos três anos para isso. Hoje, o plié está em mim e não preciso pensar tanto nele para realizá-lo. Significa que o faço perfeitamente? Claro que não. Mas ao pensar no plié, meu corpo já se prepara para o movimento. Para isso, foram alguns anos de treino, não foi do dia para a noite.

Ainda há muitos movimentos e sequências pela frente. Tenho muito a fazer. Ainda não domino o trabalho de pontas, mas não tenho pressa, porque esse domínio chegará apenas quando eu não precisar pensar no eixo e na força do meu corpo para não desequilibrar.

Mas eu gosto de caminhar. Todo caminho é construído ao longo do tempo. Toda arte é assim.

Aceito, entendo e compreendo que muitas pessoas veem o ballet clássico com outros olhos. Só fui perceber isso agora, depois de anos escrevendo sobre ele. Há pessoas que têm no ballet a sua jornada pessoal. Ele é o seu Monte Everest e toda a jornada só valerá a pena quando chegarem ao topo e fincarem a bandeira.

Aí entra a angústia de conseguir a perna alta, a pirueta tripla, os fouettés, a hiperextensão. Como se não existisse dança sem isso. Oras, a menos que você seja bailarina clássica profissional, e nesse caso a questão é completamente outra, isso não é necessário, ou não deveria ser. A menos que exista a jornada rumo às medalhas imaginárias, em que ostentamos algo que fará nos sentirmos vitoriosos.

Não estou fazendo juízo de valor, tudo bem? Querer isso é legítimo. Mas, por favor, assumam essa postura. “Eu quero chegar lá.”

Existe a arte, existe a jornada pessoal. O artista só existe se as suas criações saem da esfera particular e encontram o outro, quando sua obra estará finalmente concluída. O pessoal existe quando as minhas conquistas me bastam, porque lutei por elas com afinco e as almejei por muito tempo.

Ambos podem coexistir? Sim, mas são diferentes. E reconhecer essa diferença diminui todos os desgastes existentes entre quem quer uma coisa e quem quer outra.

Daqui em diante, serei mais flexível com aquelas pessoas que veem na dança a sua jornada pessoal. É meu dever respeitá-las e jamais diminuir os seus objetivos.

Mas, por favor, respeitem o fato do ballet clássico ser arte para mim. É assim que eu o vejo e é assim que ele existe na minha vida.

Por isso, sempre defenderei o tempo das coisas. O tempo da técnica. O tempo do estudo. O tempo do conhecimento do próprio corpo. O tempo do palco. O tempo da dança.

Anúncios

18 comentários sobre “O ballet clássico e o tempo

  1. Oi Cássia! Tudo bem?

    Faz tempo que não passo por aqui! Eu retornei ao ballet aos 19 anos (época em que descobri seu blog), depois me afastei de novo, e agora estou pensando em voltar. Mas sabe o que é interessante? Que nesta última temporada longe das salas de aula eu amadureci muito, com relação a como entender meu corpo e a relação ballet clássico x tempo…foi assim com vc tbm? Pois lembro que vc ficou um tempo fora das salas de aula também.

    Antes eu achava que o tempo era meu inimigo, por não ter mais 13 ou 14 anos…hoje, aos 24, não olho mais para o tempo que ficou para trás, mas sim para o tempo que está a minha frente!

    A propósito, gostei muito de uma frase que li no seu post sobre a Isabelle Guérin: “Nunca uma criança ou uma adolescente me levaram às lágrimas ao vê-las dançar. Em compensação, quanto mais os bailarinos envelhecem, menos eu percebo o corpo e mais eu enxergo o artista. Porque até a alma precisa de tempo para se manifestar.”

    Vc está fazendo aulas atualmente? Se sim, onde? (Se puder falar).

    Super beijo de uma grande admiradora!

  2. Oi! Tenho 46 anos. Quero começar e estou disposto a não pular etapas. A única coisa que procuro é um lugar que me dê privacidade e segurança. Não quero exposição. Suas palavras são para mim. Obrigado!

  3. Dos posts que eu adoro e que me fazem refletir sobre ballet, e minha relação com a dança.

    Eu ainda estou no comecinho dos meus estudos (1 ano de aulas, apenas), mas percebo um pouco essa problemática com o pessoal que faz aulas comigo. E ando me pergunto que tipo dançarina eu sou. Um dos meu professores vai oferecer um atelier de coreografia agora no verão (do hemisfério norte ;) e ele está me incentivando a participar dessas aulas, e isso me fez pensar um bocado, porque, no fim das contas, minha intenção ao iniciar o ballet sempre foi, além da ganhar conhecimento da técnica, conseguir me expressar através da dança. Ainda não decidi se me inscrevo agora ou não (confesso que fazer aulas com pessoas com técnica muito mais avançada me dá um certo medo), mas eu sei que coreografia é algo que definitivamente estará no meu futuro.

    Bjos e continue escrevendo!

  4. Oi Cassia, faz pouco tempo que venho aqui. Queria fazer um comentario acerca disso, sobre as etapas. Fiz ballet quando era crianca por pouco tempo, um dos fatores que me fez largar foi justamente nao me sentir a vontade de errar. Nunca fui muito boa com a minha consciencia corporal, entao muitas vezes nao seguia o ritmo das coisas, nao conseguia reproduzir um passo com facilidade, mas sempre fui muito dedicada. Hoje com 23 anos resolvi voltar ao ballet, estou nas minhas primeiras aulas, e ainda reconheco que preciso de tempo, repeticao e paciencia. Estou morando na Australia. As vezes nao me sinto a vontade quando nao consigo reproduzir algo muito rapido, e muitas vezes nao consigo, principalmente nos exercicios de centro. As aulas vao num ritmo muito acelerado, queria que tivesse tempo para explorar cada movimento, para que eu de fato aprendesse. Nao queria deixar de lado o ballet por causa da minha falta de coordenacao, porque a cada coisa diferente que eu aprendo me sinto um pouco mais bailarina. Tambem nao tenho pressa, alias, queria que o aprendizado seguisse um pouco meu ritmo, mais lento. Sonho um dia chegar nas pontas, mas quero vencer cada obstaculo! Cassia, o que voce diria a uma bailarina adulta que ainda esta um pouco insegura? Um grande abraco e parabens pelo “dos passos” !!

  5. Cássia, mas a graça toda da coisa não é essa caminhada? É claro que o chegar lá, o conseguir de fato executar os movimentos ‘com perfeição’ é uma delícia, mas os progressos pequenininhos, o que acontece a cada aula, você conseguir fazer uma coisa de um jeito e pensar “aula passada eu não tinha conseguido, mas olha só!”, é muito gostoso também. Existe uma música da Miley Cyrus chamada “The Climb” que eu acho que tem muito a ver com a sua opinião; em determinado momento ela diz assim: “Não é sobre o quão rápido eu vou chegar lá, não é sobre o que está esperando do outro lado; é a escalada”… A Sylvie Guillem é exceção; também o é a Svetlana Zakharova, por exemplo. E, honestamente? Eu não acredito muito em nada que vem fácil (é claro que existem exceções). Não tem o mesmo sabor daquele progresso lento, mas geralmente continuo, sabe?

    Beijos!

  6. Olá Cássia!
    Acompanho seu blog já há algum tempo, mas só agora resolvi “virtualizar” um pouco do meu mundo também.
    Sou bailarina adulta há quatro anos – já havia feito alguns anos antes na infância – mas parei e retornei aos dezoito. Hoje estou com vinte e dois, faço parte da turma avançada e não imagino a minha rotina sem o ballet, que, invariavelmente, tornou-se mais do que uma válvula de escape para mim. A propósito, compartilho da mesma visão que a sua em relação a representatividade do ballet, da dança… Encaro-o acima de tudo como arte e não apenas sou a favor, como testemunha dos reais progressos que acontecem somente através do tempo! Não o bastante, no entanto, desejo absorver ao máximo essa arte, repassar o que absorvi – pingar doses dela na minha essência… Infinitamente! Mas sempre com um passo (de bailarina, rs) de cada vez.

    Um abraço!

    Estou te acompanhando.

    Bluma.

  7. Cássia, eu amei o texto!

    Pra mim o ballet é a maior expressão de mim mesma. Eu escrevo, e ali me desnudo, mas acho que as pessoas só me entendem de verdade quando me veem dançar. Há algo que exala, que sai do meu coração e vai calar no coração dos que me amam e estão ali me vendo dançar. O ballet, pra mim, é arte. Mas dentro da arte, coloco objetivos pra mim mesma, sempre visando melhorar a dança: fazer um plié perfeito, melhorar minha elasticidade, sustentar a perna por mais alguns segundos. E ver, na hora da dança, como meu esforço valeu, como faz com que os passos saiam mais fluidos e mais precisos.

    A técnica precisa de treino, aperfeiçoamento, trabalho. O sentimento, esse tem de estar em cada bailarina, e sem ele, o ballet não é ballet direito!

    Um beijo!

  8. Concordo totalmente Cássia, mas eu acredito que nesse post as bailarinas adultas tenham mais facilidade em entender e concordar com seu ponto de vista. Esta visão sobre o ballet vem não só do seu amadurecimento como artista e bailarina, mas também como pessoa e mulher. Essa compreensão, paciência e respeito é muito difícil para as mais novas, ainda mais quando cada uma quer ter a perna mais alta que a outra! rsrsrs. Excelente texto!!! :)

    1. Elaine, eu concordo com você até a página 2… Porque eu falei da pessoa competir consigo mesma e não com os outros. =) É bem comum bailarinas adultas, mais até do que as adolescentes, verem o ballet como seu Monte Everest. Alcançar certos feitos é uma prova para si mesma, ser capaz de ser bailarina mesmo depois de tanto tempo. É algo pessoal, porque nem sempre elas veem o todo da dança. E não falo isso como demérito, viu?! É legítimo. Só não é a maneira como eu vivencio o ballet. Imenso beijo.

  9. Cássia, parabéns! Tenho adorado tudo que você escreve e concordo plenamente com você ! Ballet é esforço, amor e resignação por esta maravilhosa arte. tenho 71 anos de idade e desde o ano passado voltei para o ballet e já tenho conseguido progressos. Evidente que fiz ballet dos 11 aos 20 anos e sempre recomeçava, sendo que agora já estava parada por 10anos. Estou super feliz e espero que sirva de incentivo para outras pessoas. Um beijo grande. Lenita

    1. Lenita, você não sabe o quanto fiquei feliz com o seu comentário. Mesmo parada há 10 anos, e com tantas idas e vindas ao longo da vida, você voltou e está progredindo. Uma vez bailarina, é para sempre. Beijo imenso.

  10. Adorei seu texto.. certo dia precisei fazer aulas com as meninas do avançado (sou do intermediário). achei curioso elas nao reclamarem tanto quanto minhas colegas do intermediário. Minha professora disse que era simplesmente porque elas já sabiam como era difícil, vinham de muitos anos de ballet..
    acho isso muito curioso… pra mim ballet tem essa dose de dificuldade e dor.. então, por que afinal elas reclamam tanto? poderiam fazer algo mais “facil”, certo? ótimo texto!

    1. Leila, você tocou num ponto que volta e meia penso em comentar, mas sempre fico quieta: o quanto as bailarinas reclamam! É um mimimi sem fim, hehehe. Talvez seja a idade ou, como bem disse sua professora, o desconhecimento do quanto é difícil fazer ballet. Mas uma hora todas nós aprendemos que é preciso muita vontade para continuar no ballet. E que bom que você adorou o texto! Grande beijo.

    2. Hahaha… Verdade, como algumas reclamam!!! E outra coisa que me irrita bastante é ficar sentando ou se escorando toda hora durante a aula, principalmente durante a explicação do próximo exercício. Além de achar um desrespeito ao professor, eu que trabalho fora o dia todo, cuido da casa, cuido do marido e faço trocentas outras coisas não tenho a preguiça que algumas têm! rsrs

    3. Concordo totalmente, Elaine. Já que está sendo tão penoso (lógico que dói e é difícil, mas estou lá simplesmente porque QUERO ESTAR e aprender), por que não algo mais “simples”, né? opções certamente não faltam. Mas eu procuro ignorar esse mimimi e me concentrar no que a professora está explicando..

Os comentários refletem a opinião das leitoras e dos leitores e não correspondem, necessariamente, à opinião da editora do blog.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s