city.ballet.

Produzido e apresentado pela atriz Sarah Jessica Parker, em conjunto com a AOL, city.ballet. é um documentário em 12 episódios sobre o New York City Ballet. O objetivo é mostrar os bastidores da companhia.

Eu assisti a todos os episódios, na sequência. Quando li que a intenção era mostrar a “realidade”, fiquei com o pé atrás. Nenhum programa, nenhum documentário, nenhuma reportagem, nada mostra as coisas como elas são. Há sempre um olhar que determina o caminho de uma história a ser contada.

Pois eu me surpreendi. No começo, há o grande clichê da vida árdua e competitiva dos bailarinos, mas ao longo dos episódios, eles não escolheram o caminho fácil do drama, da choradeira, da superação dos limites. Encontraram o equilíbrio e realizaram um grande trabalho.

Para fazer parte do New York City Ballet, é necessário estudar no The School of American Ballet (SAB), a escola oficial da companhia. Os recém-formados se tornam apprentices (aprendizes) por um ano. Dentre eles, saem os novos membros do corpo de baile, que assinam um contrato e são oficialmente profissionais. O próximo passo é ser solista até, finalmente, ser um dos principals (primeiros-bailarinos). Não é preciso dizer que nem todos conseguem e muitos serão do corpo de baile até pararem de dançar.

Além de conhecer cada uma dessas etapas, também vemos sobre os relacionamentos entre os bailarinos, o sacrifício em prol da dança, os bailarinos homens, a parceria no pas de deux, três bailarinas analisando os papéis principais de O lago dos cisnes, as lesões que afetam o desempenho e a carreira dos bailarinos e a conclusão.

Depois da Ópera de Paris, a minha segunda companhia do coração é o New York City Ballet. Ambas funcionam da mesma maneira: ninguém entra como primeira-bailarina. Na Ópera, ainda há audições para o corpo de baile; no City Ballet, nem isso. Há um caminho a ser percorrido, quem chega ao topo um dia foi da base. Em outras companhias, não funciona dessa forma. Todos já foram corpo de baile, mas não necessariamente na companhia onde são primeiros-bailarinos. Gosto dessa ideia de construir uma história em um único lugar, porque a companhia passa a ser maior do que os bailarinos. Quando os bailarinos são maiores, o ego e a vaidade tomam conta.

Além disso, todo o repertório do New  York City Ballet é original. Não são remontadas obras criadas em outros lugares, tudo nasce e cresce ali dentro. OK, a companhia foi fundada pelo George Balanchine, toda a sua obra faz parte do New York City Ballet, mas não há apenas ballets coreografados por ele. As companhias ao redor do mundo estão cada vez mais parecidas entre si, remontando as mesmas obras, e é um alento ver uma se sobressair pela originalidade do seu repertório.

Voltando ao documentário, sinceramente, mudei a maneira de enxergar o ballet profissional. Para mim, a soberba imperava, mas ali vemos bailarinos que são desafiados constantemente, com autoestima abalada por terem de provar, o tempo todo, o quanto são bons. É triste ver uma bailarina se achar enfadonha porque só fala sobre ballet ou um bailarino contar o quanto é horrível ouvir piadas por ser homem e dançar.

Também gostei da sinceridade em vários momentos. Uma bailarina do corpo de baile disse: “É difícil ver outra pessoa dançando o que você quer tanto dançar”. Outra contou: “Às vezes, você tem certeza que será promovida e isso simplesmente não acontece”. E uma das primeiras-bailarinas disse: “Há tantas outras melhores do que eu, por que eu sou principal? Não sei!”.

Para além de tamanha dedicação, vemos pessoas normais, que saem para passear, sentem angústia quando pensam que vão parar de dançar, não sabem o que será dali em diante. Nada de artistas perfeitos, acima do bem e do mal. O ponto comum é o amor pela dança e pelo que fazem. No fim, sentimos o “tudo isso vale a pena”.

Sem exageros, essa é a melhor produção sobre ballet profissional que já assisti. Infelizmente, os vídeos são em inglês, sem legendas. Mas quem entender minimamente o idioma, por favor, assista.

Para assistir:

• No site do city.ballet., integralmente, aqui. O primeiro episódio começará sozinho e os demais serão exibidos na sequência.

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2 comentários sobre “city.ballet.

  1. Cássia, também gostei muito do documentário, por mais incrível que possa parecer! E vou confessar: rever pequenos pedaços de uma das minhas cidades preferidas aqueceu meu coração! =)

    Um beijo!

  2. Então, Cássia, eu também fiquei com o pé atrás pelos mesmos motivos que você citou. Mas também me surpreendi positivamente. Também gostei do fato de eles não caírem no melodrama e sim em mostrarem os bailarinos como pessoas normais, que passam por ansiedades comuns a qualquer emprego (medo de se tornar substituível, medo de ficar muito tempo afastado, medo de errar, medo de nunca conseguir uma promoção, etc).

    Também gosto muito do New York City ballet, até porque ele tem uma variedade maior de corpos, o que muito me agrada. Temos pessoas de tronco largo, mais magrinhas, mais fortes, todos dançando. Inclusive é muito interessante ver o episódio sobre Lago dos Cisnes e ver que as três bailarinas principais são completamente diferentes. Infelizmente, só vemos negros/latinos/indianos principais entre os homens, o que é uma pena. Quando é que a diversidade racial vai chegar nas primeiras bailarinas, hein?

    Eu não sabia que todo mundo do NYCB tinha a mesma formação na SAB. Inclusive, isso deve aumentar a sensação de conviver sempre com as mesmas pessoas. Deve ser complicado ou reconfortante, dependendo do ponto de vista. Tem sempre um lado bom e ruim de todos terem a mesma formação. O bom é que todos são focados nos mesmos princípios, o ruim é que isso pode abafar chances para algo novo, uma abordagem diferente. Apesar de que gosto muito do trabalho do NYCB justamente por tentar fugir do “mais do mesmo”.

    Enfim, é isso. Vai ter mais episódios? Ou paramos por aqui mesmo?

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