90 graus

(Para visualizar os exemplos citados no texto, clique nas palavras em negrito e eles abrirão em outra janela.)

Vocês lembram do post anterior? Eu publiquei o grand pas de deux do cisne negro, de O lago dos cisnes, com a Maria Alexandrova e apontei alguns pontos para vocês prestarem atenção, que posteriormente seriam desenvolvidos em dois textos. Para ver ou relembrar, aqui.

O primeiro ponto era prestar atenção em três passos. Quem assistiu ao vídeo, deve ter percebido que o arabesque, o attitude derrière e o developpé à la seconde estão todos em torno de 90 graus.

É ainda mais bonito quando os vemos em ação. Assistam a um exemplo seguido do outro: a Maria Alexandrova e a Alina Somova. No primeiro, o developpé é levemente maior que 90 graus, mas isso não atrapalha. O giro vem em seguida e os movimentos são limpos e precisos. Bem diferente do segundo exemplo, o developpé sobe à orelha, depois a perna desce para só então o giro acontecer. Opinião minha, mas acho sujo de doer!

Essa sequência de developpé e giro também existe na variação feminina do Grand Pas Classique. Olhem que coisa mais linda quando a perna é mais baixa, aqui.

Salvo nesse caso, eu prefiro o developpé um pouco mais alto, acho mais bonito. Nada muito absurdo de ser conseguido, alongamentos diários dão conta do recado. Em relação ao arabesque e ao attitude derrière, vocês sabem a minha opinião: 90 graus sempre e toda vida. Ninguém me convence do contrário.

Agora, onde quero chegar. Perna alta é item obrigatório no ballet profissional? É. Perna alta é item obrigatório no ballet amador? Não. Por que não? Porque ela não será utilizada nas coreografias. Aprendi isso com uma das minhas professoras de ballet e quanto mais eu presto atenção nisso, mais eu percebo que ela tem toda razão.

Pensemos. As bailarinas profissionais não dançam apenas repertórios, elas têm de ser capazes de realizar uma infinidade de movimentos. Nós, amadoras, não. Eu vou dançar Balanchine? Só se o estúdio onde eu estudar infringir os direitos autorais, porque as suas obras não são de domínio público. Se for uma coreografia original, a menos que todas as participantes tenham perna alta, é absolutamente desnecessário.

Dançar repertório com perna alta é firula de estúdio de dança. Não existe essa necessidade. Se ainda hoje a Ópera de Paris e o Bolshoi Ballet mantêm a perna a 90 graus nas coreografias de repertório, por que essa insistência em nos colocar com a perna no céu?

Digo e repito: antes uma perna a 90 graus bem-realizada que uma perna alta desalinhada. Se todas nós tivéssemos isso em mente, Petipa se encheria de orgulho e Vaganova suspiraria de emoção.

Sei que não é fácil, sei que seguimos as diretrizes de onde estudamos. Mas não seria mil vezes melhor trabalharmos para ter a perna sustentada e alinhada a 90 graus do que lutar contra o que não conseguimos realizar? Acho mil vezes mais produtivo. Além do mais, ainda não nasceu o dia em que eu trocarei a beleza pelo virtuosismo.

*

Falei sobre esse assunto, sob um outro ponto de vista, em “A tal da perna alta”. Para ler, aqui.

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29 comentários sobre “90 graus

  1. Já eu amo perna alta. Não pq me impressiona, mas sim pq acho bonito. Devant, a la seconde, derriere, acho o ângulo perna-tronco bonito. Amo Odile com o pernão lá em cima, dá um ar mais sedutor, mais sexy. Mas não abro mão do encaixe! Os 2 ossinhos da anca viradinhos pro público e o quadril niveladinho! Vamo, se a Zaharova consegue colar a perna esticadérrima lá no coque sem desencaixar um centímetro, pq o resto da humanidade não consegue? E a Alina tá muitooo mas muito melhor hj, e bem menos “contorsionista”. Mas ela não tem culpa se os cara lá do Kirov tem obsessão por contorsionistas, é só ver as primas da companhia… É tudo um grande negócio, viu? Agora até o corps do POB usa pernão lá no céu em repertórios clássicos! Só assim pro povo ir assistir ballet!

  2. Olá Cássia, um ótimo exemplo de bailarina que sabe aonde e quando aplicar a elevações de pernas é a linda Sylvie Guillem, apesar da não muito boa resolução podemos vela executando o pas de deux de Cisne com pernas na medida do necessário, e isso por puro capricho, pois a mesma já mostrou em outras danças pernas na cabeça. Gosto, e para mim que sou bailarina e curso Licenciatura em dança na Federal de Minas Gerais, sei o quanto é importante conservar os reis valores de uma obra, e exageros não se aplicam. Beijinhos
    Video do Pas de Deux: http://www.youtube.com/watch?v=kWAlinGIQYo

    1. Caroline, já assisti a vários vídeos com a Sylvie Guillem, mas nunca o cisne negro, acredita? Assisti agora e, nossa, a perna dela a 90 graus! Agora, não tem mais desculpa, se até ela faz isso… E muito obrigada pelo seu comentário, gosto quando bailarinas, professoras, graduandos em dança também explicam e deixam seu parecer. Todos nós aprendemos mais. Imenso beijo.

  3. Vou ser a chata: em 04:00, 04:04, e 04:10 a Alina está beeem desencaixada. Me deu até um arrepio aqui.
    De novo: não vou ser hipócrita e dizer que acho perna alta feio. Não acho. Mas existem limites, pra tudo.
    Beijos Cássia!

    1. Sarah, a Alina Somova desalinha que é uma beleza! Aliás, ela é muito criticada pelos amantes do ballet clássico e ainda hoje não entendo por que ela é primeira-bailarina do Kirov e a Olesya Novikova é solista. Mas, enfim. Grande beijo.

  4. Bem, eu não vejo problema em arabesques e attitudes a mais de 90º, mas sim em como eles são feitos. Sei lá.
    Se estiverem encaixados e não virarem o foco da dança, por mim tudo bem.
    Tipo com a Marianela, que pode até fazer a mais de 90º, mas não tomam a atenção de seus braços e sua expressão por exemplo. E não são exagerados.

    Quando vejo arabesques lá no coque pra Aurora, me dá um negócio…

    Não admiro bailarinos extremamente flexíveis, apenas me impressiono.

    1. Cyndi, como falei para a Marina, é uma questão de preferência. Há quem goste de pernas mais altas, há quem não goste. Mas o post fala sobre outra coisa, as exigências para as alunas, com base nas montagens dos repertórios em grandes companhias. Como eu já disse em outro texto, ninguém me convence de perna alta em repertório, acho medonho. Beijo imenso.

  5. Cássia, adorei sua dica na resposta da Melissa, estou colocando isso nas minhas aulas, depois te conta se estou tendo resultados, ah dá mais dicas, adorei!!!!

    1. Vivi, como você colocou dois comentários, responderei cada assunto no seu devido lugar, hehehe. Há vários exercícios que aprendi lendo e pesquisando, mas não gosto de compartilhar por receio de prejudicar alguém. Em mim, tudo bem, se algo der errado, eu sou responsável por mim, mas nos outros… Esses dois que comentei eu li em outros lugares e dão mesmo bastante resultado! Depois me conta o que achou. Imenso beijo.

  6. Oi Cássia, pois é sou professora de ballet clássico sim, bom eu já comentei isso com vc mas acho que meu nome estava Vivian, lembra?Então o que acontece hj em dia é q as professoras exigem muito de suas bailarinas, e pra quê?Pra que essa exigência se na verdade elas mal usam isso nas suas coreografias, por isso não exijo, cada uma se esforça pra conseguir chegar no seu limite,acho q cada uma se esforça muito e seu limite já tá valendo, pra que passar do limite?Isso só irá prejudicar sua saúde .Bjs Cássia, pra falar a verdade estou me tornando sua fã, já gostava antes e agora mais ainda, gostaria de poder te conhecer melhor, e trocar algumas ideias, dicas e conversar mais, parece q vc me entende..rsrs.

    1. Vivi, desculpa, pelo primeiro nome eu não lembro. Eu costumo lembrar de quem comenta quando colocam nome e sobrenome. Mas agora eu guardei seu e-mail (ele aparece para mim) e não esquecerei. =) Claro, podemos trocar ideias, me escreva quando quiser! Imenso beijo.

  7. Eu não sou muito fã da Alina Somova por isso, ela quebra as linhas do balé. Em quase tudo que vejo dela, ela está subindo a perna na orelha e encostando o pé na cabeça no attitude sem a mínima necessidade. Também não troco beleza por virtuosismo e sou totalmente a favor das linhas nobres que a Myrna falou. Sobre o Grand pas Classique, esse vídeo aqui tem a Elizabeth Platel e a Sylvie Guillem: http://www.youtube.com/watch?v=Cv9Yms5Q3Gg

    A Platel me pareceu bem mais controlada, mas muitos comentários eram a favor de Guillem por causa dos pés e pernas. Mas, claro, ambas são lindas bailarinas.

    1. Achei a Platel muito mais segura também. Claro que a Guilhem tem um virtuosismo próprio, aquela interpretação meio selvagem que é gostoso de ver, mas nessa variação eu gostei da suavidade da Platel. Acho besta preferir Sylvie Guillem só porque a perna dela é mais alta. O que eu gosto na Guillem é muito mais a ousadia pra dançar algumas coisas do que a altura que a perna dela vai.

  8. Cássia, adorei seu texto.

    Concordo, acho que exigir perna alta não é essencial para bailarinas amadoras. Aliás deu pra ver que mesmo em profissionais isso não é 100% importante. Achei que os ângulos de 90 graus estavam muito bonitos e graciosos, mas no caso dessa coreografia, não adianta, meu coração acredita em pernas altas! Odille é sensual, esquiva, exibicionista… acho que a perna alta ajuda a construir essa personalidade. E olha que isso é uma sabotagem pra mim mesma: sonho em dançar “O Lago dos Cisnes”, especialmente o papel do Cisne Negro, mas minhas pernas mal chegam a 90 graus, que dirá passar disso!

    Pra mim, pernas altas cabem em coreografias específicas mas não precisam ser regra geral. No caso desta, no entanto, eu acho que sim…

    Um beijão, Cássia! =)

    1. Marina, concordo que pernas altas cabem em determinadas coreografias, como eu disse no post “A tal da perna alta”, escrito há quase um ano. Mas no caso dos repertórios, não, porque eles não foram criados dessa maneira. A coreografia da Odile foi criada com pernas a 90 graus. Com o tempo isso foi mudando e, sem dúvida, assim foi construída a sua percepção. Na época do lançamento do filme “Black Swan”, a bailarina Zenaida Yanowsky explicou em uma matéria da BBC que a grande diferença entre Odette e Odile está nos movimentos dos braços, é aí que Odile mostra que comanda a situação. Entendo a sua preferência e a escolha do seu coração, mas é algo pessoal mesmo. Você poderia fazer uma Odile incrível com as pernas onde elas devem estar, a 45, 90 e 120 graus, como a Myrna explicou lá no começo. =] Grande beijo.

    1. Aline, adorei essa imagem, até salvei no meu computador! Obrigada por compartilhar. E, imagina, eu só publico pernas no coque e bailarinas magérrimas se for para questionar e dar como exemplo daquilo que não acho bacana. Sou uma fã ardorosa das pernas 90 graus, movimentos limpos e bailarinas saudáveis. Beijo gigante.

  9. Esse fim de semana passou no canal Arte1 justamente “O Lago dos Cisnes”, na montagem da Ópera de Viena, 1966. Ontem quando postei sobre a reprise da peça pelo canal (passou no sáb à noite e sempre reprisa de dom à tarde), um dos seguidores da fanpage disse achar a produção fraquinha. Adivinhe um dos motivos???

    “Acho que para um papel protagônico, faltou flexibilidade pra odette/odile.”

    Nesse caso nós temos um ponto importante a considerar: na época em que o vídeo foi produzido, as bailarinas eram sim flexíveis, mas não eram obrigadas a ter perna alta como nos dias de hoje. Infelizmente as pessoas acabam associando uma coisa com a outra, e consequentemente, acham que perna alta e flexibilidade são sinônimos.

    E como você coloca, se companhias importantes conseguem manter a perna mais baixa em repertórios clássicos, porque não seguir o exemplo?

    1. Julimel, sério que disseram isso? Olha só o tamanho do desconhecimento! Concordo plenamente com você, as pessoas confundem, mas também, a culpa é de muitas companhias que colocam perna alta onde ela não deveria existir. Ainda bem que companhias importantes têm mudado isso, quem sabe essa visão muda. Beijo imenso.

    2. Que ignorância, gente. Que absurdo!

      Flexibilidade não tem nada a ver com perna alta. Não vou dizer que sou a senhora flexibilidade, mas me considero uma pessoa alongada (talvez não agora porque estirei a perna direita então fazer abertura de quarta é sofrimento na certa, mas antes era tranquilo). Quando faço detiré, por exemplo, consigo a perna lá em cima. É só a professora falar “Agora tira a mão e sustenta a perna” que o troço despenca horrivelmente. Perna alta tem muito mais a ver com força.

      Não que as bailarinas da década de 60 não tivessem força na perna, óbvio que tinham. Mas não era o objetivo, né?

  10. Ainda bem que nunca tive que lidar com esse tipo de exigência. Minha professora faz coreografias originais para o festival de fim de ano (só o pessoal que faz solo que dança alguma variação de repertório) e a perna é mesmo 90 graus. No adágio que dançamos no ano passado, essa era a regra, mesmo para as meninas que conseguiam uma perna mais alta. O máximo que já aconteceu foi um grand battement developé passar de 90 graus (mas aí não é tão difícil, pois a perna é lançada, não sustentada) numa coreografia de ballet moderno.

    Também acho que não faz sentido exigir uma perna lá na cabeça se a pessoa não tem condições para tal (ninguém merece quadril fora do lugar, perna dobrada e expressão de sofrimento só pra ter aquela perna alta). Eu mesma explodo de alegria sempre que consigo um developpe a la second de 90 graus. Não vai passar disso também, eu bem sei, 90 é mesmo meu objetivo. Falo isso porque não tenho força na perna (mesmo tendo alongamento) pra sustentar uma perna alta. Ao invés de ficar frustrada com isso (como eu ficava quando comecei), resolvi focar em chegar aos 90 graus no arabesque, attitude derriere além do developpé. Não é sempre que consigo, mas chegar lá é motivo de alegria. :)

    Compartilho sua opinião: 90 graus costuma ser mais limpo mesmo. Principalmente em passos que emendam com giro.

    1. Melissa, muito legal a sua professora em alinhar todo mundo nos 90 graus. Fica imensamente mais bonito! Sabe uma coisa que aprendi para ter perna mais alta e depois sustentá-la? No site da Evgenia Obraztsova, a própria explicou o seguinte: fazer muito grand battement para conseguir perna mais alta. Depois, fazer developpé e, enquanto sustenta a perna, fazer relevés com a perna de base. Menina, depois do terceiro você já está pedindo água, mas é uma maravilha! Para melhorar o arabesque, eu fico ao lado da barra, depois apoio na barra a perna de fora e estico. Se não consigo ficar com o tronco erguido, eu desço e vou subindo conforme vou conseguindo. Dá um imenso resultado. (Você não me pediu dica nenhuma, mas eu não resisti, hehehe.) Grande beijo.

    2. Cássia, dicas são sempre ótimas!!!

      Então, meu arabesque é até bom (porque tenho bastante força nas costas pra ficar reta), mas o resto… ai ai. Haja perna.

      Fazer relevé na perna de base! Nussa, deve ser o bicho mesmo. Vou fazer aqui em casa (segurando na pia do lavabo, como sempre rs) com certeza! Depois te conto os resultados…

      bjs!

    3. Cássia,

      Teria como colocar o link dessa explicação do site da Evgenia?
      Precisando infinito de ajuda com exercícios para melhorar a subida da perna detrás. Não consigo manter o arabesque de jeito nenhum. Falta força e elasticidade. Minha parte posterior não entendeu ainda que eu estou fazendo Ballet… rs

  11. Concordo com vc, tb acho muito mais bonito o 90° graus bem feito do que aquelas pernas altas desalinhadas, e eu não exijo pernas altas;

    1. Vivi, você é professora de ballet clássico? Que bacana! Parabéns por não exigir isso das suas alunas, essa atitude faz toda a diferença. Beijo imenso.

  12. Bravo, Cássia! Um outro exemplo aos leitores é o Grand Pas Hongrois de Raymonda, que estou montando este ano e algumas pessoas me perguntaram se eu achava que não receberia críticas, pois as pernas não passavam de 120 graus no devellopé e 90 graus nos arabesques. Minha resposta foi que quem criticar por este motivo, deveria estudar mais sobre os ballets que assiste e a maneira como foram concebidos, antes de falar o que não sabe. Tive um professor que dizia: ballet é construído por linhas nobres: 45, 90 e 120 graus e nos contava uma experiência em um espetáculo no Chile, em que Makarova dançou Le Silfides com as pernas a 45 graus e foi ovacionada com mais de 20 chamadas de cortina.Podem me chamar de ultrapassada, mas para mim isto é Ballet, isto é Arte!

    1. Querida Myrna, de hoje em diante, terei três números em mente: 45, 90 e 120 graus. Adorei a sua resposta sobre as possíveis críticas, você tem toda razão, as pessoas adoram falar daquilo que não sabem. Estudar história do ballet, ninguém quer. Assistirei ao Grand Pas Hongrois com esse olhar para a altura das pernas e eu imagino como a sua montagem ficará linda! Beijo gigante.

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