O que está acontecendo com o ballet clássico?

Há tempos eu não escrevo um texto questionador porque resolvi ficar quietinha no meu canto, mas tenho visto um desdém tão grande com o ballet clássico que resolvi falar sobre o assunto. Sim, desdém, e dos próprios bailarinos e bailarinas.

Sempre notei isso, mas comecei a prestar mais atenção quando publiquei o vídeo da bailarina Lili Felmery dançando a variação contemporânea no Prix de Lausanne 2008. Eu disse que amo coreografias assim, mas porque é ballet clássico dançado de outra maneira. Quem percebeu que a base dessa obra são os passos de ballet? Infelizmente, poucas pessoas. Lembram quando falei que a dança contemporânea é um jeito de pensar a dança e por isso admite mil possibilidades? Dentre elas, o ballet clássico.

Tantas pessoas não enxergaram essa coreografia como deveriam pela falta de conhecimento sobre técnica clássica. A propósito, o nome dessa obra é “Nocturnes”, de John Neumeier, o mesmo coreógrafo de A dama das camélias. Viram como tudo ficou mais claro?

Não escrevi a respeito e, tudo bem, passou. Como os comentários no blog são bem poucos, eu resolvi passear por várias páginas do Facebook para descobrir o que os bailarinos e bailarinas falam sobre ballet clássico.

Pausa. Eu fiquei chocada.

Dentre tantas coisas que me surpreenderam, talvez a mais incômoda tenha sido o uso indiscriminado da palavra talento. Uma foto de uma bailarina hiperflexível e a chuva de comentários: “Isso que é talento”. Dança é movimento. Por isso, me digam, qual técnica ninja vocês utilizam para saber, só de olhar para uma imagem, qual o grau de coordenação motora, equilíbrio e musicalidade de uma bailarina? Mais ainda, como alguém consegue analisar o seu nível técnico?

E olha que estou sendo legal. Geralmente, essas fotos mostram meninas desalinhadas fazendo uma força desmedida para sair bem na fotografia. Nem falarei das poses nas sapatilhas de ponta, porque eu choraria um mês, sem parar.

Pessoas de fora associarem ser flexível com ser bailarina, eu entendo. É o senso comum. Mas bailarinas dizerem isso? Além do mais, estudantes de ballet clássico não conseguirem reconhecer um developpé torto ou confundirem arabesque com penché? Só pode ser brincadeira.

Depois não adianta publicar nas redes sociais: “Eu amo ballet, sem ele eu não vivo”. Vive sim, está vivendo sem ele há muito tempo porque o que muitos têm propagado por aí não é, nem nunca foi, ballet clássico.

Nessa semana, faleceu o grande bailarino e professor David Howard. Em uma entrevista, publicada aqui, ele disse: “[…] se Vaganova fosse viva e pudesse ver o que está acontecendo, eu acho que ela se mataria”.  Não apenas ela, né? O Petipa, o Ivanov, o Bournounville, o Cecchetti, a Pavlova…

Daqui a pouco, não será mais necessário estudar tantos anos para ser bailarina. Bastará pegar uma seleção de ginástica rítmica e colocar em O lago dos cisnes. Ué, hoje em dia a questão não é ser forte e flexível? Problema resolvido.

Sim, nem tudo está perdido, há algumas bailarinas dedicadas que conhecem ballet clássico muito bem. Mas isso deveria ser regra, não exceção.

Vamos mudar isso? Comecemos trocando o Facebook pelo YouTube. Menos fotografias, mais vídeos. Depois, por favor, vamos estudar técnica clássica. Vocês querem que eu explique como eu estudo especificamente sobre isso? Terei o maior prazer em fazer um post. Só não podemos deixar as coisas como estão. O ballet clássico não merece ser resumido a uma perna alta. Não mesmo.

Anúncios

29 comentários sobre “O que está acontecendo com o ballet clássico?

  1. Que post interessante! Cássia, talvez você nem concorde comigo, mas acho que essa demanda por perna alta e espinha dorsal de ginasta advenha da exigência do proprio público!
    Quando mostro pra alguem vídeos antigos de atuações da Mezentseva ou da Ulanova o povo fica tipo ‘ah que saco, mas a perna dela nem sobe, nem tem corpo de bailarina!’
    Eu acho que desde Sylvie Guillem as pessoas ficaram incapazes de dissociar ballet clássico de pernão pro teto. E claro, dá nisso. Hoje temos bailarinas super flexíveis como a Zakharova ou a Osipova que apesar disso são também artistas incríveis que quase fazem a gente esquecer da super abertura agonizante, contam uma historia com seus movimentos, expressam com a alma. Mas depois, e infelizmente, tem as contorcionistas de serviço, quase todas menininhas jovens que pensam que flexibilidade é tudo e focam seu estudo somente em alcançar a abertura negativa…
    Eu acho o auge dessa tendencia aquela bailarina ucraniana que ficou famosa pelo documentário sobre anorexia ‘Beautiful Tragedy’, o nome dela é Oxana Skorik, principal do Mariinsky. Ela não tem nem ideia do que é sentir a música, os braços têm quase sempre uma colocação monstruosa de horrível, mas ela gira pro mundial, é alta-magra-linda, tem pernão e de quebra consegue tocar a cabeça com o pé então temos bailarina assoluta…
    Triste…

    1. Dri, não acho que seja exigência do público, isso foi construído pelo próprio ballet clássico e não há interesse algum de mudar. Assim, o público se acostumou com a perna alta e a associa ao ballet clássico, aliás, as novas bailarinas pensam a mesma coisa. Por outro lado, o público quer ver bons espetáculos. A recriação de “O lago dos cisnes” feita pelo Ratmansky é um imenso sucesso de público e as pernas são a 90 graus. É tudo uma questão de saber fazer bem-feito. Grande beijo.

  2. Cássia, que bom que passei por aqui e achei o post! Pq olha, tbm já fiz esse passeio pelo facebook e tbm me choquei! Pior que isso, fiz um comentário relacionado exatamente a esse uso da palavra “talento” para descrever uma foto de uma bailarina forte e elástica (confesso que posso ter sido um pouco grossa dizendo que “se era apenas aquilo que eles procuravam, que fossem às Olimpíadas”), e bem, por fim, comprei briga né! Todos ficaram muito irritados! Mas como eu cheguei a dizer, aquilo era uma foto, não um vídeo. Aquela bailarina se tirasse o tutu poderia ser uma ginasta, pq o rosto dela não tinha expressão e a preocupação com a perna era tanta que até os braços estavam feios.
    E esse é um dos motivos pra Tamara Rojo ser a minha inspiração. Ela é muito estudada, sabe muito bem a arte que é o trabalho dela, não faz uso indiscriminado da flexibilidade como se tudo se resumisse a isso.

  3. Estou 100% de acordo com o texto e com vários dos comentários. Sigo alguns perfis de “bailarinas” internacionais no instagram e é chocante ver o abandono da técnica, substituído por fotos estáticas, artificiais e muitas vezes vazias.
    Eu mesma me considero um exemplo. Dancei a vida inteira e, quando tinha 16 anos, era super flexível, tinha o arabesque no coque e a perna a la second na orelha. Meu grand jeté passava tranquilamente de 180 graus. O tempo passou, diminui o ritmo, escolhi uma outra profissão e continuei a dançar só por lazer. Sabe o que acontece? quando vejo meus vídeos dos 16 anos, virando várias piruetas e com as pernas altíssimas, sinto vontade de morrer, porque minha falta de expressão era terrível… Eu sofria tanto para dançar que, a cada vídeo dessa época que assisto, penso como eu faria melhor hoje. Por outro lado, quando danço atualmente sou tecnicamente pior do que eu era. A perna é mais baixa, o eixo é muito pior, mas aprendi a dançar sorrindo e a usar verdadeiramente o coração e isso não tem preço!
    Uma de minhas professoras sempre diz: “O que faz o adágio bonito não é a altura da sua perna, mas sim a limpeza do movimento, a precisão na execução e, principalmente, o sentimento de adágio que tem que estar dentro de você”.
    Os documentários sobre a seleção das meninas que entram na Escola Vaganova são chocantes! São centenas de crianças peladas, sendo avaliadas por critérios como o “tamanho da cabeça”… Depois de assistir isso deixei de idolatrar o ballet russo de atualmente, com profunda tristeza pelo que perdemos.

  4. Bravo! Um dos melhores posts do blog com certeza. Concordo com você. Semana passada apresentei na faculdade (Educação Física) um trabalho sobre a relação entre a ginástica e a dança e desabafei a minha indignação sobre o fato da flexibilidade ser abordada na dança hoje, como ela é abordada na ginástica. É absurdo isso acontecer, são dois extremos! Apesar das várias semelhanças entre as duas modalidades, a dança tem algo mais, é uma arte! Comparei duas fotos: de uma ginasta realizando um grand jeté e da Natalia Osipova dançando a entrada de Kitri exagerando no cambré na hora de saltar. Se não fosse pelas sapatilhas de ponta que ela usava, eu mesma diria que ela estava fazendo uma rotina de ginástica! Como é bom ver que eu não carrego essa opinião sozinha!

  5. Cássia, você e sua sabedoria!
    É um dos principais motivos pra eu não gostar muito do ballet russo, sabe? Mil pirouettes seguidas, 572 fouettés, arabesque no coque, perna a la second na orelha e devant no nariz… Respeito e admiro tudo isso, mas às vezes falta algo. Pelo menos eu sinto falta de algo. Expressão. A Zakharova é a campeã. A Carmen dela, por exemplo. Acho esquisita. Não vejo aquela sensualidade que é tão necessária à personagem. Gosto muito mais da Alessandra Ferri (especialmente neste pas de deux com o Roberto Bolle, um dos meus eternos vídeos favoritos de ballet: http://www.youtube.com/watch?v=UBioW3goRcg Aliás, sou louca pra ver os dois em Giselle. Quem sabe um dia acho por aí)
    Talentosas, pra mim, são as Giselles, Julietas e Odettes que me fazem chorar, as Odiles que me hipnotizam e as Lises e Auroras que parecem crianças de tão inocentes.
    É claro que eu não vou ser hipócrita de dizer que acho perna alta feio, afinal se a natureza está a seu favor, não utilizá-la é quase estupidez. Mas também não vejo problema nenhum em um arabesque a 90º encaixadinho, e nada (N-A-D-A!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!) substitui um lindo sorriso!
    Mas sei lá, talvez eu seja louca.
    Ou não.
    Beijos!

  6. Olá Cássia, lembraste de mim?
    Como sabes, eu deixei de comentar faz imenso tempo mas continuo a seguir o teu blog.
    Este post despertou realmente a minha atenção, porque é algo que sinto que tem vindo a acontecer.
    Não só esse desprezo pelo ballet clássico, como uma tremenda crença de que este está ultrapassado.
    Eu vejo isso no número de companhias clássicas que ainda existem pelo mundo. Não falo em companhias que só façam obras clássicas. Não não. Falo de companhias que ainda incluem bailados clássicos no seu repertório.

    Fora as nacionais e as companhias independentes dos países de língua inglesa ou francesa, são muito poucas.
    Em Portugal, a única que temos é a CNB, que infelizmente só apresenta um bailado clássico por ano.

    E mais! Eu própria vejo colegas meus a torcerem o nariz para uma coreografia de contemporâneo que siga uma linha de ballet clássico.

  7. Realmente é tão triste.. vejo tantas “bailarinas” que dizem não viver sem dança,” ballet é minha vida,” postando fotos com pernas altas e abertura, mas no fim das contas, não conseguem dançar uma variação sequer com emoção de verdade. Sempre as mais flexíveis são vistas como as melhores. Eu faço ballet há 2 anos apenas. Lógico que minha técnica está longe de ser boa, e minha flexibilidade deixa muito a desejar, mas ainda assim danço com meninas que fazem aula a oito anos. Mas isso porque eu simplesmente sinto a dança, e sorrio e me expresso com a alegria que o movimento me dá, acaba sendo algo natural. A professora mesmo diz que as vezes, mesmo com minhas falhas técnicas, me destaco. Dançar é muito mais arte, expressividade, sentimentos, do que a neura de 32 fouettés e pernas na cabeça. É lindo? Claro! Mas ainda mais bonito é se emocionar com o que você está assistindo, viver a história, a música. E essa coisa de “sem ballet não vivo” é tão.. hipócrita! Só porque não troco aulas por momentos importantes não quer dizer que não tenha um papel muito importante na minha vida. Quer dizer que vejo além das salas do estúdio ou dos palcos, e danço onde for, quando quiser, muitas vezes sem flexibilidade, sem ter um pé bonito, mas com paixão. Arte é algo tão profundo, por favor, não confundam com um esporte.

  8. Concordo plenamente e devo dizer que esse clima que está cada dia mais associado ao ballet está me levando a procurar outros caminhos para meus pés, pois a convivência nesse meio está cada dia mais insuportável e lamentavelmente competitiva, um competição ruim e errada devo dizer.

  9. É por isso que eu fico putíssima com Facebook e CIA. Pessoas totalmente ignorantes nas páginas de dança, dizendo um monte de bobagens. Usam a Dança como aparência, como status! Poucas pessoas ali sabem o que é Ballet Clássico. Tirar uma foto no quarto, usando a ponta, pra 560 amigos curtirem e vc pagar de bailarina solista! Olha o rumo que estamos tomando..

  10. Olha isso serve para muita gente da minha escola,eles acham que flexibilidade é o que faz uma bailarina mas eles não enxergam que aquelas garotas com tanta flexibilidade não tem a limpeza dos passos.Eu prefiro ir de pouco a pouco forçando me alongando de forma correta do que esta toda torta só para subir as pernas…Na dança tem que ter vontade,alegria de dançar,força e ter consciência do que esta fazendo.

  11. Nunca li um texto tão verdadeiro. Vejo cada absurdo no ballet… Na minha sala mesmo tem uma menina EXTREMAMENTE flexível com um En dehors invejável, mas quando dança aquilo perde toda a graça porque a menina é simplesmente oca. Pra mim uma bailarina com muita flexibilidade é lindo, mas se não tiver o conjunto completo, quem conhece realmente ballet clássico, não se impressiona com a dança que essa pessoa mostra e em vez de ficar encantado fica revoltado.

  12. Sei que não tem muito à ver com o assunto, mas vou dizer uma coisa, não entrei em uma escola de dança justamente , porque a professora disse que eu já não tinha a flexibilidade de uma menina e que jamais poderia erguer a perna tão alto como uma bailarina faz. Sem contar que depois de uma aula experimental nessa escola eu já desisti de entrar nela porque além de ouvir isso, me disseram que ali não era lugar pra gente adulta que não tem mais o quê fazer da vida. Me segurei e ri por dentro, sabe. No final das contas vi que, o que elas ensinavam lá nem era ballet clássico, pois como vc disse, elas só visavam as pernas altas e se esqueciam de todo o resto. Uma aluna de lá estava em pé com a perna elevada quase que no nariz pela professora já havia um dois minutos e a professora só gritava: – “Aguenta menina, vc quer ser bailarina ou não?”
    Triste viu.

  13. Dou graças por não ser a única a ver flexibilidade como uma coisa não tão importante! Claro, faz a diferença pra aumentar e beleza de uma variação de Esmeralda, por exemplo, mas de que adianta se a bailarina que dança essa mesma variação não tem leveza, técnica e expressão? São três coisas muito mais importantes que flexibilidade!

    Na minha academia sou sempre obrigada a ouvir que as alunas do professor X são as melhores porque são muito flexíveis. Ouço, como complemento, a seguinte frase: “a maioria delas é ginasta”. Oi? E bailarinas, elas são? Admito, muitas delas são realmente excelentes, mas a maioria só fica “se rasgando” nas coreografias e dançar que é bom mesmo, nada!

    Não sou a mais flexível da minha turma, tenho consciência, mas tento ser expressiva, afinal, o rosto, o gestual, tudo isso importa. Pra mim, pelo menos, muito mais do que ter uma abertura negativa, que no fim das contas, por si só, não te torna uma bailarina.

    Ótimo texto, Cássia! É um alívio saber que mais alguém pensa como eu e como algumas – poucas – bailarinas que conheço, já que a maioria ainda vê a tal “abertura negativa” como meta principal…

  14. Cássia, isso que você escreveu é muito presente na minha vida. Tenho estudado ballet não só na sala de aula, mas em livros e na internet. Também me sinto angustiada com o rumo que o ballet toma, mas acredito que se existem pessoas como nós discutindo isso, há espaço para mudança, afinal o ballet é algo maior do que as academias e companhias dominantes. O ballet é uma história do ballet, como qualquer outra coisa (já dizia Marx que a única ciência é a história, pois a matemática é a história da matemática, tudo é a sua própria história). Outro dia coloquei no fb este vídeo de uma cena de ballet no filme Casanova de Fellini, olha que interessante, o ballet é uma linguagem, que pode ser usada de diversas maneiras.
    [http://www.youtube.com/watch?v=fu3X4VOBlNU]
    Por fim, gostaria de te escrever um email, se vc puder me mandar um para eu lhe responder…gostaria de te convidar para assistir um trabalho que vou apresentar (na verdade vai ser no RJ, mas quem sabe dps apresento em SP), que é um pensamento meu sobre o ballet. Enfim, ficaria muito feliz ! bj grande

  15. Arrancou as palavras da minha alma. Comecei a seguir alguns vários tumblrs internacionais (principalmente americanos) de ballet e o que eu percebo é justamente isso: bailarinos que só veem e veneram os pernões altos e os pézões. O que vejo são fotos realmente com alongamentos de dar inveja, mas nada que me faz querer ir atrás da/o bailarina/o para ver mais coisas a seu respeito.

    Há alguma exceções, porém. Uma foi justamente de imagens estáticas com closes no rosto da Aurélie Dupont como La Sylphide. Uma expressividade que me fez querer assistir ao ballet inteiro.

    Centenas de fotos de pernões e pézões. O que me chamou a atenção foi o artístico.

  16. Concordo em gênero, número e grau! e no que mais que der.

    Eu fui agorinha ver os comentários da foto e está ainda pior!

    Sabe o que eu lembrei? Essa semana eu vi no tumblr um gif de um grand jeté da zakharova, de 200°, e alguém perguntava “por que não fazem gifs de momentos artísticos dela?”
    Aí eu me perguntei: e alguém nota? e há? Não é por isso que ela se destaca, é pela perna altíssima! Não é isso que me comove. Toda vez que escuto um comentário sobre ela é sobre sua flexibilidade, e não pela sua expressão, comoção ou etc.

    Ontem mesmo fui assistir a um pas de deux do pássaro azul e não vi nem a metade. A menina exagerava tanto na altura das pernas, e aquilo pra mim não fazia sentido pra uma música tão delicada, para a personagem delicada.

    Tá tudo virando ginástica mesmo.
    Mas ainda bem que tem gente por aqui que pensa o contrário!

    1. Nossa, aqueles comentários me deram vontade de vomitar, sério!

      Sabe uma outra coisa engraçada?
      Antes de fazer ballet eu tinha sido ginasta alguns bons anos e MUITA gente acha que ser ginasta é ser super flexível e ter força e acabou. News flash: Não é bem assim. Há muita técnica envolvida e essa idéia deturpada acaba com a vida de muita gente. Eu sou exemplo, porque tive lesões por conta disso tudo, que até hoje me deixam com receio para executar alguns movimentos e alongamentos. Também tenho amigas que hoje não podem mais fazer qualquer exercício físico mais pesado porque numa dessas de forçar o alongamento para flexibilidade tiveram os tendões rompidos. Não é por aí. Ginástica precisa sim de força e força a flexibilidade, mas precisa muito mais de força e técnica do que da flexibilidade em si.

      Outra coisa é que quando eu comecei com as aulas e falei que tinha sido ginasta, a reação da galera (professoras, alunas, todo mundo) foi de que eu era extremamente flexível e seria A bailarina. HAHAHAHAH, cara eu ri muito por dentro. Eu não sou flexível. Eu morro pra colocar a mão no pé. E apesar de em alguns momentos a ginastica ter me ajudado no ballet. Na maioria deles eu sinto que ela me atrapalha, me limita.

      Vamos parar com a idolatria à flexibilidade, né. Em qualquer lugar, técnica tem que vir primeiro, sempre.

  17. Obrigada pelas suas palavras, Cássia!

    Concordo muito contigo. Eu fico impressionada como as pessoas estão deturpando o que é balé. Dançar balé não é fazer amostragem de poses virtuosas, mas em muitos vídeos do youtube as pessoas aplaudem, no meio da apresentação mesmo, uma pose com perna super alta ou múltiplas piruetas. Como se o que importasse fosse aquele passo feito de maneira exagerada, talvez até fora de música, e não o conjunto da obra, a dança, a arte.

  18. Concordo mais que plenamente Cássia!!!

    Nós já conversamos sobre isso várias vezes, e até mesmo sobre esse vídeo da Lili Felmery.
    Hoje em dia acho que se esqueceram que a essência do Ballet Clássico é a Dança, a Arte, e não simplesmente ter um corpo com super extensões. É como já me disseram: Bailarino é tudo doido, eles só pensam em dançar, e no caso querer zerar o alongamento…

  19. Como sinto falta de não conseguir acompanhar seu blog com mais assiduidade e participação, mas ser gestante não é tão fácil como falam e minha internet pelo jeito, sempre será uma porcaria.
    É impressionante como temos pensamentos parecidos, não sou exímia na técnica clássica, mas primo por ela e também sinto que isso está sendo deixado de lado ultimamente. Infelizmente não consigo executar movimentos com técnica e precisão, mas por estudar bastante sobre isso sei identificar quando os passos estão sendo feitos de forma errada em favor do “alongamento”, ou quando a perna chega na orelha mas a expressão é de um prato vazio. Posso não saber executar a técnica, mas sei identificá-la e acho que por isso sei valorizá-la também.
    Acho muito bonitos os vídeos dos dançarinos acrobatas chineses representando “O Lago dos Cisnes”, mas não consigo considerá-lo Ballet, para mim é quase uma arte circense (com todo o merecido respeito, afinal eles executam movimentos dificílimos). Para mim Ballet é o PDD Negro de “A Dama das Camélias” com a nossa querida Aureliè Duppont, onde com apenas um olhar dos bailarinos já compreendemos toda a profundidade daquele relacionamento conturbado.
    Enfim, cada dia mais me penso que, depois de ter o bebê, quando voltar a dançar, provavelmente não voltarei as aulas de Ballet Clássico, pois minhas limitação vão apenas aumentar e não suportarei certos tipos de pressão (como pelo corpo perfeito), estou pensando em voltar a estudar Dança do Ventre e Sapateado e só depois, voltar a minha paixão.

    Parabéns pelo texto Cássia, você acertou novamente, como sempre.

    Beijinhos… Carol Celeghin
    http://carolinaericardo.blogspot.com

  20. Onde eu assino, Cássia? É o mal do virtuosismo no lugar da arte. É como os guitarristas de metal pesado, sempre serão considerados os mais talentosos pelos seus dedos rápidos, não importa se os solos ficarem perturbadores e desagradáveis de escutar, o importante é o visual, a impressão de super-humanos que eles passam… Também vejo isso no clássico mas tenho que admitir que em outras danças também, até mesmo no contemporâneo às vezes o contorcionismo e a mera subversão da delicadeza são colocados como os passos mais importantes. A minha visão da dança, quando não é espontaneamente compartilhada mas sim assistida, é de algo musical, belo, intenso mas não necessariamente chocante e assustador, por isso quando assisto um vídeo de ballet clássico me encanto muito mais com os braços e a delicadeza das mãos do que a perna lá em cima.

  21. Excelente colocação, gostei muito do comentario explicativo e sugestivo,
    Tomará que inspire reflexões àqueles que se dizem amantes da dança, Parabens!!

  22. Só tenho uma coisa a te dizer: Você me entende!
    Logo hoje que fiz um questionamento e acordei super triste, você fez este divino post. As pessoas me perguntam se estou desistindo, e digo que NÃO! Não estou desistindo mais estou ficando cada dia mas triste e horrorizado com o que as pessoas estão fazendo com o Ballet Clássico, principalmente os próprios bailarinos! Isso é triste!
    Cássia espero poder conhecê-la, sentar com vocês e conversar muito, trocar ideias, experiências, nossas alegrias e tristezas e claro começar o nosso Pas de Deux! ;)
    Obrigado, não posso deixar de dizer isso!
    Beijos e até breve!
    BRAVO, pelo lindo e reflexivo post!

  23. Ai Cássia, eu entendo isso que você sente. Também morro de pânico com essas coisas. E você nem mencionou os comentários/alegações de gente dizendo que faz piruetas múltiplas além de todo aquele alongamento. Como se ballet fosse realmente somente sobre fazer seis piruetas e depois subir a perna lá na cabeça. Pronto acabou.

    Também sempre serei mais fã dos vídeos do que das fotos, porque é realmente no vídeo que a gente vê o movimento. E como você bem disse, dança é movimento, né?

  24. Adorei seu texto, e concordo! Onde faço aula percebo que as professoras não se importam muito em “limpar” a coreografia. Esperam pernas altas nem que isso custe o equilíbrio ou ombros para cima! Penso todos os dias em me oferecer em ser ensaista das meninas, mas fico com receio de interpretações equivocadas. Parabéns pelo texto e obrigada por me fazer perceber que não sou a doida invejosa não flexível que prefere fazer a coreografia limpa….rs…bj

Os comentários refletem a opinião das leitoras e dos leitores e não correspondem, necessariamente, à opinião da editora do blog.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s