Estender a mão

Antes debaixo do tapete, agora exposto para todos saberem, o ballet clássico sempre teve seu lado nebuloso. A vaidade é devastadora e vai deixando os seus rastros por onde passa. Mas e o outro lado?

Sim, o outro lado: da solidariedade, do companheirismo, da amizade. Cada um de nós tem uma história para contar. Auxílio para se maquiar ou fazer o coque. Uma breve explicação sobre a coreografia. Uma mãozinha para vestir o figurino. Socorro ao sofrer uma lesão na aula. Uma dúvida esclarecida pela colega de turma que compartilha informações sem a intenção de aparecer. Sem falar nas longas conversas sobre ballet clássico que só as bailarinas e os bailarinos são capazes de entender.

Há uma fina linha interligando aqueles que dançam. Talvez porque o corpo fale além das palavras, muitas vezes nos compreendemos sem precisar dizer. Quando isso é utilizado para o bem do outro, quando a ajuda surge sem pretensões, todos nós crescemos de alguma maneira.

Pensei nisso outro dia e lembrei com carinho das bailarinas e dos bailarinos que me ajudaram, e de quem ainda me ajuda. Já me estenderam a mão das mais diversas maneiras, desde uma sincera preocupação até uma ajuda prática. Nos estúdios por onde passei, no blog, no Facebook, no Twitter, por e-mail. Enfim, me dei conta que o ballet clássico sempre me cercou de afeto. E o amor sempre será mais forte do que qualquer tapa ou rasteira que possamos receber.

Seremos todos amigos? Não. Formaremos uma grande comunidade hippie dançante? Também não. Mas que o companheirismo torna tudo melhor, isso é verdade. Quem sabe um dia esse ciclo de vaidade seja quebrado pela solidariedade. Quem sabe.

Bailarinas e bailarinos do The Australian Ballet, ensaio de “Of Blessed Memory”, 1991. Foto: Luzio Grossi.

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8 comentários sobre “Estender a mão

  1. Que bom que ainda existem pessoas que estendem a mão e, acredito eu, elas são maioria. Tive professores de dança que pisaram em mim, sim. Mas muito mais professores que me ajudaram e me fizeram crescer, alguns inclusive fizeram diferença não só na minha dança, mas na minha vida. Convivi com pessoas arrogantes e cheias de si, com certeza. Mas com muito mais pessoas legais, de convivência agradável, sonhos contagiantes e com as quais eu tinha vontade de passar aquele tempo. Algumas dessas pessoas podem até me corrigir em alguns detalhes, mas só se eu der a elas liberdade pra tal, pessoas com quem eu já tenho intimidade e que sabem como chegar e me mostrar como fazer, ou dar uma dica sobre como fica mais fácil de conseguir aquele passo que eu tenho dificuldade. Sou chata com isso, chata demais. Mas, é claro, tem gente que “se mete” com a melhor das intenções, apesar daqueles que fazem pra se mostrar. Não esquecendo dos “colegas de camarim”, que se ajudam sem se conhecer. E todos os etcs que existem para essa lista. Espero com todas as minhas forças que a vaidade caia e a solidariedade prevaleça no mundo da dança. Mas, mesmo que isso não aconteça, é bom saber que ela está presente, apesar de toda a vaidade.

    Beijos

    PS: tava com saudade do blog, tenho um monte de coisas pra ler agora, rs

  2. Queridas, só vou comentar uma coisa para não interpretarem mal a minha colocação: eu acho importante ajudar as companheiras de turma, tirando dúvidas e afins, apenas se isso for solicitado pela outra pessoa. Particularmente, eu acho invasivo se aproximar de alguém e dizer como algo pode ser feito. E não suporto quando fazem isso comigo sem que eu peça. Caso contrário, se a pessoa chega até mim e pede, ou eu peço à outra pessoa, a ajuda é muito bem-vinda. =]

    Imenso beijo.

    1. Novamente concordo com você Cássia, acho que todas nós estamos falando daquela ajudinha solicitada pela amiga, daquela “dica” para a amiga que sempre pede ajuda.
      Uma coisa é ajudar de bom coração, outra é “ajudar” para se mostrar.

      Beijinhos… Carol Celeghin

  3. Ah, como a Carol, eu também já ajudei muito e fui mal interpretada. Mas, quando posso, continuo a estender a mão, porque acredito em duas coisas: (1) somos maiores que isto; (2) fazer o bem, de coração, para outra pessoa, na verdade significa fazer o bem para nós mesmos! Então, vamos em frente: dançando, sendo feliz, estendendo a mão quando podemos e sendo positivos, mesmo por aquelas pessoas que a pequenez da mente e das atitudes pareçam não merecer! Bju

  4. Ótimo post Cássia, você se superou novamente.
    Uma das coisas que mais sinto falta por não estar indo as aulas de Ballet é esta solidariedade velada que existe entre algumas de nós.
    Eu por exemplo tinha uma colega com quem conversava com o olhar, como fazíamos todas as aulas juntas acabamos por criar códigos com o olhar, tanto que no espetáculo de final de ano, em lados opostos do palco nós nos ajudávamos com o olhar, uma mexidinha de cabeça, enfim, puro companheirismo.
    Eu não sou uma bailarina profissional (nem nunca pretendi ser), mas como estudo muito sobre dança, assisto muitos videos e principalmente por acompanhar o “Dos passos da bailarina” desenvolvi um certo conhecimento teórico maior que o das aulas alunas (em sua maioria garotas com menos de 20 anos), então sempre que percebia que alguma delas estava com dúvida, ou mesmo com dor ajudava na medida do possível ou pedia para ela chamar a professora, sempre achei isso um gesto de cortesia e gentileza, uma troca saudável de informações, um companheirismo sem interesse. Qual não foi minha surpresa quando minha professora reclamou desta minha atitude, dizendo que eu gostava de ensinar no lugar dela.
    Fiquei chocada, mas decidi que poderia superar isso, porém a dita mestre me disse que queria que eu “entrasse muda e saísse calada da aula”, pois só assim ela poderia continuar a me ter como aluna. Aí eu pensei, de que adianta participar de uma aula, fazer parte de um grupo de dança se eu não poderia compartilhar nenhuma experiência com as outras alunas, não digo ficar conversando em aula, pois isso eu nunca gostei, mas não poder trocar uma informação sobre um passo, fazer um elogio sobre outro. Então, somando isso a todos os outros problemas que tive abandonei esta academia e fui procurar por outra, pois se você não pode compartilhar informações você não tem como crescer tecnicamente.
    Esse foi mais um de meu desabafos e espero não chatear os leitores da Cássia, mas aqui é o único lugar que me sinto realmente a vontade para compartilhar minhas “desventuras bailarinísticas”.

    Beijinhos… Carol Celeghin
    http://carolinaericardo.blogspot.com

    1. Nossa, Carol, que história mais triste. Mas acho que você tomou a decisão certa em ir embora. Um professor que não aceita contribuição dos alunos está bastante equivocado na arte de ensinar. Tudo bem, uma coisa é aluno aparecido que não deixa nem o professor falar, outra coisa é alguém que está disposto a ajudar os outros alunos. São coisas bem diferentes.

      Espero que você já tenha encontrado seu lugar ao sol. :)

  5. Bom, realmente deve ser muito, mas muito bom ter alguém por perto em momentos tão prazerosos quanto realizar a arte do ballet, ou em momentos de conflito quando simplesmente achamos não ser possível mais realizar o exercício ou dançar…
    … não sei como é ter amigas, ainda mais bailarinas, faço ballet adulto numa turma bem pequena, beeeeeemmmmmmm pequena… Somos só eu e a professora… então… me apego aos blogs, sites e páginas sobre ballet… e isso já me ajuda muito, mas confesso que não é o que sonhei pra mim… gostaria de colegas para conversar sobre as dificuldades e satisfações e compartilhar dos encantos e perspectivas do ballet em nossas vidas. Sobre os repertórios, figurinos, bailarinos (as) profissionais, escolas, enfim…
    … mas tudo bem! Já estou me acostumando… Infelizmente!! Quem sabe no futuro não tenho com quem compartilhar não só os momentos de crise quanto os de realização?!! Abraços Fraternos a todas (os) as(os) bailarinas (os)!!! E… viva a arte do ballet!! \ o /

  6. Realmente, companheirismo é uma coisa muito bonita. Eu tenho sorte porque na minha turma todo mundo geralmente tem paciência de ajudar com coisas práticas ou mesmo técnicas. Eu sou a mais velha do grupo, mas sinto que sou aceita pelas meninas e elas entendem minhas dificuldades e limitações. Isso me ajuda a me sentir mais confortável e à vontade num ambiente que normalmente é, como você disse, tão associado à competição e à vaidade.

    Além do mais, já tive apoio em momentos de crise. Tipo no dia em que surtei e decidi que não ia dançar no festival porque estava com medo e várias pessoas vieram me dizer pra não desistir. Ou quando nesse mesmo festival minha roupa agarrou no telão e rasgou e eu fiquei agarrada lá que nem uma idiota sem poder me mover. Tudo que eu queria era chorar, mas eu continuei e quando cheguei no camarim todo mundo estava lá pra dar um apoio. Isso faz toda a diferença do mundo, viu.

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