A importância de conhecer o próprio corpo

Quem acompanha o blog, sabe do meu apreço pelo estudo em casa. Nunca o coloquei como substituto das aulas regulares, pelo contrário, mas sempre os vi como complementares. Mas percebi que nunca falei sobre o mais importante desse estudo solitário: conhecer o próprio corpo.

Até onde você consegue ir? Nenhum professor pode lhe dizer, por melhor que ele seja, por um motivo simples: ele não é você. Sendo assim, sempre existe um “limite coletivo”, somos todos exigidos da mesma forma. Mas temos corpos diferentes, somos pessoas diferentes, temos histórias diferentes. Logo, respondemos de maneiras diferentes a estímulos semelhantes. Ao nos conhecer, conseguimos aproveitar o aprendizando da melhor maneira. Evoluímos no estudo, sentimos menos dor e há uma melhora significativa na nossa dança.

O ballet clássico é a arte do controle. Cada passo tem um caminho a ser percorrido e cabe a nós controlá-lo. Não é uma dança criativa no sentido intuitivo, de fazermos os movimentos que nosso corpo pede. Ninguém sai dançando ballet porque está com vontade. É preciso conhecê-lo antes, ter domínio dos movimentos, saber realizá-los e, só então, dançar. Sem isso, não existe bailarina clássica. Mas ninguém conseguirá controlar o próprio corpo sem conhecê-lo. Parece óbvio, eu sei. Mas quando paramos para pensar nisso?

Entendo que tudo pareça meio abstrato, mas falarei como isso funciona na prática. Por força das circunstâncias, eu aprendi a conhecer o meu corpo. Assim foi desde que comecei no ballet clássico, há quase seis anos. Mas só neste momento da minha vida esse conhecimento foi crucial. No próximo post, eu contarei como eu estou voltando devagar ao ballet clássico depois de ficar seis meses de molho por conta da minha saúde. Quem sabe isso ajude quem passou, ou está passando, pela mesma situação.

Para terminar, as palavras que inspiraram o post:

“Os desenhos incluídos [no livro] serão uma útil contribuição ao estudo regular e ao seu conhecimento da técnica do balé. Não ensinarão a dançar − isso compete ao professor − mas ajudarão a compreender em que cadência é aconselhável que você realize o seu trabalho, em particular, e o tempo correto de seus estudos a fim de avançar para passos mais difíceis. É muito importante que você não tenha pressa excessiva, nem exija de si mesmo um esforço extenuante, pois, nesse caso, é quase certo que haverá sérios problemas no futuro.”

Margot Fonteyn, no prefácio do livro “Curso de balé”, Royal Academy of Dancing, Editora Martis Fontes.

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6 comentários sobre “A importância de conhecer o próprio corpo

  1. Concordo com você Cássia, apenas nós mesmos sabemos os limites de nossos corpos, e geralmente travamos uma luta mental contra estes limites. Acredito que um professor que respeite as diferenças físicas de um aluno colabora muito para o seu desenvolvimento, porém, o que geralmente encontramos são professores que pensam que o aluno é folgado ou preguiçoso e por isso não sobe a perna ou executa o movimento mais lentamente.
    Por enquanto estou longe das salas de aulas e proibida de treinar em casa (por um ótimo motivo né? hehehehe), mas assim que puder, pretendo voltar a estudar em casa, coisas simples como sequencias de pliès, alongamentos leves, pirouettès simples (sou uma negação em giros, minha prima bailarina profissional do Guairá diz que é mal de família… hehehe), para quando finalmente voltar as salas de aula reconhecer meus limites corporais e informar isso a professora.

    Beijinhos… Carol Celeghin
    http://carolinaericardo.blogspot.com

  2. Cássia,
    Não sei se tem muito a ver com o estudo em casa, mas achei importante falar o que vou falar agora, especialmente depois do comentário da Cyndi sobre conhecer o próprio corpo.
    Modéstia à parte, minha técnica é boa (são 15 anos de aulas, mas sei que ainda posso progredir muito), mas sempre tive muita dificuldade com a postura do ballet, e isso me atrapalha mais do que eu gostaria. Recentemente, comecei a fazer RPG e, nossa, que diferença! Finalmente consegui “colocar no corpo” a postura correta e percebi uma diferença enorme nas aulas.
    Antigamente, eu tinha pressa em conseguir fazer as coisas, admito; provavelmente por causa dos problemas de postura acima citados, eu estava sempre alguns passos atrás das minhas colegas de turma e isso acabava comigo. Mais ou menos aos 13 anos (não sei dizer exatamente se eram 13 ou 14), decidi que não, que não era mais possível viver assim, isso estava acabando comigo e não se tratavam só de diferenças de técnica entre eu e o resto da turma. Desci um nível. Sem crise, sem drama, sem choro, sem noites mal dormidas. A pressa foi diminuindo, embora não tenha desaparecido.
    Talvez minha professora seja uma exceção, mas ela deixa claro que valoriza mais uma execução (quase) perfeita de uma pirouette simples do que 32 fouettés malfeitos. Eu tento, aos poucos, fazer a mesma coisa – em um exercício em que há, duas vezes seguidas, um movimento que eu sei que não faço bem, procuro fazer uma vez, com calma, tentando entender a execução e “colocar no corpo” e na cabeça. Mas é claro que às vezes eu esqueço; o que seria da geração Y sem a pressa que lhe é natural?

  3. Uma coisa que vem me fascinando é a retroalimentação que ocorre entre treinar em casa e conhecer o próprio corpo. Quanto mais se treina por conta, melhor se conhece o próprio corpo, e quanto mais se conhece o próprio corpo, mais se aproveita do treino “solitário”.

    E bem como Cyndi disse, quanto melhor conhecemos o corpo, mais o aceitamos. Por alongar e exercitar todos os dias meus pés, eu sinto que na questão do alongamento eles já estão praticamente no máximo. E justamente por saber disso eu o vejo esticado e acho a coisa mais linda, por mais baixo que meu arco seja :)

  4. Verdade, Cássia. É por isso que digo que acabo progredindo mais quando treino em casa do que quando faço aulas todos os dias.
    Quando estou sozinha, posso ir até onde eu acho que dá, na minha velocidade, sem minha professora me mandando fazer mais rápido ou mais devagar. Eu só acho a velocidade certa assim, e só aprendo a fazer os passos direito quando começo devagar e entendo cada parte deles.

  5. uma vez, me falaram uma coisa que eu achei superbonita: que quanto mais a gente conhece o corpo, mas a gente o aceita. e agora eu estou entendendo mesmo. não me lamento mais, como antigamente, por não ter um pé tão saltado, ou linhas em x da perna.
    acho que me aceitei. =)

  6. Cássia,

    Realmente, conhecer o corpo é essencial. Eu já tive (tenho) vários problemas de saúde, a maioria deles ligadas ao sistema respiratório (alergias e mais alergias) e durante toda a minha adolescência convenci a mim mesma de que não poderia fazer nenhuma atividade física (fosse dança ou outra coisa). Então, ano passado, eu decidi mudar a minha vida e me colocar a prova: eu queria saber até onde eu podia chegar, estava cansada de não me mexer, de não fazer nada. Aos poucos, fui descobrindo até onde eu podia ir: o quanto e o quão rápido eu aguentava correr, me alongar, fazer força. Nesse meio tempo veio o ballet clássico que me ajudou a abrir ainda mais os olhos pra tudo isso.

    O ballet é, afinal, um ótimo medidor dos nossos limites. Passamos a perceber nosso condicionamento físico por quantas sequências de salto conseguimos fazer; nosso alongamento por cambrés e aberturas; nossa força pela altura que a perna sobe. Acho que com o ballet eu aprendi até onde posso ir e onde devo parar, até onde vale a pena ou não ir. É estranho dizer isso, mas quando você força seu corpo até seu limite, é realmente quando percebemos que temos um pé, um braço, costas… é como se realmente percebêssemos que temos um corpo. E que ele está ali, para que nós possamos usá-lo.

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