Música com o próprio corpo

A musicalidade é um dos pontos-chave da dança para mim. Sem ela, perco o interesse e sinto o brilho da coreografia ir embora. Parece exagero, mas eu vejo exatamente assim.

Porém, a musicalidade raramente é trabalhada nas aulas de ballet clássico. Contar de 1 a 8 não é conhecer música. Além disso, a coisa mais comum é vermos bailarinos e bailarinas irem para um lado e a música, para outro. E não apenas entre os amadores, quem assiste a muitos vídeos de espetáculos e aulas de grandes companhias sabe bem como é.

Falando assim, parece que sou a pessoa mais musical do mundo. Não sou. Nunca estudei música, nem sou uma grande conhecedora do assunto. Sendo assim, como trabalhar a musicalidade?

Ano passado, quando eu fazia pós-graduação em dança, tive aulas de educação rítmica corporal. De longe, foram as melhores aulas para mim. Eu nunca havia estudado percussão corporal, e logo pensei em vocês. Se não há conhecimento musical, se há dificuldades em aliarmos música e dança, por que não fazer música com o próprio corpo? O nosso corpo é o instrumento da nossa dança. Se ele também for nosso instrumento musical, será que essa relação entre música e dança ficará mais estreita? Eu acredito sinceramente que sim.

Para entender o que é percussão corporal, assistam a este vídeo de Fernando Barba, fundador do Barbatuques.

Não é simplesmente batucar em si mesmo, é fazer música com o corpo. Há uma série de exercícios e um conjunto de conhecimentos para que isso seja realizado, mas é uma das coisas mais legais do universo.

Depois disso, a minha relação com a música mudou completamente. Senti a diferença ao voltar a treinar, a contagem deixou de ser simplesmente contar, o que tantas vezes fiz nas aulas de ballet, eu entendi a relação entre o que eu estava fazendo e o tempo da música. É outra coisa. Só fazendo para entender.

Como bem disse a professora: “Vocês conhecem aquela história de que bailarino não conta? Isso não existe”. Há quem afirme que exista, talvez sejam esses que dançam para um lado enquanto a música vai para outro.

Agora que vocês entenderam o que é percussão corporal, como funciona isso na prática? Ouçam “Baianá”, uma das minhas músicas preferidas do Barbatuques. Não dá vontade de dançar e fazer igual no mesmo instante?

O Barbatuques é um grupo de São Paulo, mas eles se apresentam em todo o Brasil. Quem quiser conferir a agenda de apresentações e as oficinas que eles ministram, acesse o site, aqui. Eu desconheço outros grupos que trabalhem com percussão corporal. Quem souber, por favor, compartilhe nos comentários.

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Quer tentar em casa? Levante da cadeira e faça esse jogo do CD mais recente do grupo, aqui.

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Para saber mais:
Ritmo e movimento: teoria e prática. Inês Artaxo e Gizelle de Assis Monteiro. São Paulo: Phorte Editora, 2007.

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7 comentários sobre “Música com o próprio corpo

  1. Que legal, Cyndi! *-*
    Eu já tinha comentado com a Cássia, a musicalidade é algo que sempre me encanta, que desperta meu interesse. Espero aprender mais sobre o assunto. Que bom que pode ser aprendido, não? haha. Podemos trocar informações sobre o assunto, seria ótimo :D

  2. No meu caso, a coreografia sem música não perde brilho porque sou surda. Fiz muitos anos de ballet clássico e jazz. Os bailarinos sempre me questionaram como que eu consigo dançar as coreografias certinho sem ouvir nada. Nunca soube como explicar de forma de que pudessem entender. A minha posição no palco era sempre a primeira fileira para que o pessoal pudesse copiar de mim na coreografia. O que eu sinto é que os movimentos do corpo é que como se fossem a própria música, com os seus ritmos, os movimentos me levam na dança. Eu consigo memorizar os tempos de cada movimento da coreografia.

    Nunca consegui fazer as contagens numéricas que alguns professores fazem, sempre achei que elas atrapalhavam a mente. Eu penso que tem que esvaziar a mente e deixar o corpo se levar pela coreografia, como se tivesse uma energia mágica te puxando no palco.

    Sempre gostei muito de observar os movimentos de um bailarino, para mim é como se fosse uma música orquestrada pelos movimentos e expressão corporal, é lindo demais e me emociona muito.

    1. Maria, muito obrigada pelo seu comentário. É importante a gente saber de outras histórias, de outras maneiras de sentir a dança. O corpo da gente também tem ritmo, ele tem sua própria música, como você bem disse. E você me fez repensar se essa escravidão que temos com a contagem não tira um pouco dessa “energia mágica nos puxando no palco”. Ah, e aposto que você dança lindamente! =]

      Grande beijo.

  3. Hehehe, musicalidade é um ponto forte meu, felizmente.
    Aqui em casa somos muito ligados à música, em parte pela igreja que incentiva muito. Eu já fiz teoria, canto, violão, violino e um pouquinho de teclado.
    Assim ficou muito fácil! =D

    O meu professor contou que, um dia, ele perguntou à Toshie Kobayashi como poderia ensinar musicalidade (ou algo do tipo “ser musical”), e ela disse que não dá para ensinar. é dom. ou você nasce com, ou sem.
    Sei lá. meio drástico.

    Beijocas!!!

    1. Cyndi, com todo o respeito, eu terei de discordar da Toshie. Isso não é dom, musicalidade é algo adquirido. Você é musical porque cresceu ouvindo música, vive em torno de música, estudou música. Uma criança que nasceu em um meio assim será musical, querendo ou não. Logo, não é dom. Ela está confundindo com habilidade musical, com ser um grande músico. Você pode aprender a tocar, mas não a ser um Mozart, são coisas diferentes. Além disso, uma pessoa que comece a estudar música hoje, não importa a idade, ficará mais sensível à música porque o seu cérebro se adaptará a essa experiência. Ou seja, musicalidade é algo que pode ser ensinado, e aprendido. Basta querer.

      Grande beijo.

    2. Eu também discordo. =D
      Afinal, a gente aprende tudo, né? Mas é cada um no seu tempo. Pode ser que, nesses casos, eles ainda estão no meio do caminho…

      Por isso meu professor falava muito para a gente escutar música clássica, que aí nosso ouvido fica mais sensível mesmo e reconhece mais batidas, toques, que fazem diferença na música, e também já meio que sabe o que esperar. A música diz. =)

      Beijocas!

  4. Como o próprio Fernando fala no vídeo, o flamenco é um bom exemplo dessa percussão corporal. Antes do ballet, fiz 1 ano de flamenco, e morro de saudades disso quando faço as aulas do ballet. As palmas, os estalos, o sapateado, o “batuque” no próprio corpo… é tudo lindo, e realmente dá uma outra dimensão à tal da musicalidade. Eu ainda tenho muita dificuldade com a contagem e tudo mais, mas sem dúvidas dançar compondo o som ajuda. Ótimo exercício!

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