Sempre um peixe fora d’água

O blog foi criado em fevereiro de 2009 justamente por isso: eu me sentia um peixe fora d’água. Quase quatro anos depois, vocês acham que as coisas mudaram? Eu mesma me questiono por que mantenho blog, fan page, faço pós-graduação e não me sinto parte disso tudo.

Nos últimos dias, recebi vários e-mails de bailarinas entristecidas pelos mais diversos motivos. Talvez por isso, ontem eu fiquei pensando em escrever este post. Estava me sentindo assim, deslocada, mas não comentei com ninguém. E olhem só a imagem que recebi de uma grande amiga.

Ilustração: Heather Ross.

Ela me disse: “Não que você seja assim, mas achei legal porque questiona os estereótipos do ballet”. Eu sou assim, e ela sabe, só não quis me dizer porque foi delicada comigo.

Quando começamos a fazer ballet, não importa a idade, sabemos que não será simplesmente dançar. Parece que entramos para um clube. Há regras e características muito bem definidas. Não só, há comportamentos que se repetem. É fácil reconhecer uma bailarina sem que ela precise dizer, e não estou falando de postura ereta.

Nesse clube, todos se sentem especiais, não são simples mortais. Somos bailarinas. Não é “qualquer pessoa” que sabe dar pirueta tripla. Nos vangloriamos pelas horas de dedicação, pela exigência de perfeição. Agradecemos aos céus pela dor que sentimos, praticamente um atestado de que dançamos. Ballet sem dor? Impossível.

A competição. O ego. A vaidade. A soberba. Os especiais dentre os especiais, aqueles que são melhores tecnicamente do que os outros, mas se acham melhores do que os outros e fim. Melhores em relação a quê?

E o palco? Espaço de comunhão? Que nada! A disputa pelos holofotes acontece dos ensaios à coxia, atinge o grau máximo em cima do palco. “Olhem para mim! Só para mim!”

A tristeza. O sofrimento. A angústia. Quem faz ballet conhece os três muito bem, não importa qual o papel da dança na sua vida. Precisamos mesmo disso? Eu quero a alegria, a tristeza vem de bônus ao longo da vida, não é necessário procurá-la.

Por favor, não se sintam ofendidos, não estou questionando as pessoas. Estou questionando um mundo que tem seu próprio sistema, independentemente de quem entra ou quem sai. Porque quase todos se moldam, não é? É legítimo querer entrar para o clube. E se ele tem regras, aceitemos, pois é a única maneira de fazer parte dele.

Quando eu faço ballet clássico sozinha, eu evoluo sem sofrer. Aprendo um pouco por dia, todo dia. Eu fico tranquila. O que me incomoda não entra na minha vida. Já passei por três estúdios, estou sem aulas há quase um ano, e quando penso em voltar a sensação de “tudo de novo?” retorna. Antes eu achava que o grande problema eram os lugares. Não, sou eu. Eu não faço parte do mundo do ballet clássico, não concordo com as regras do clube, mas o ballet clássico faz parte de mim.

Como proceder? Não sei. Eu, realmente, não sei.

*

ATUALIZAÇÃO: Não que eu precisasse explicar, mas acho melhor: eu não sou uma excluída do ballet clássico. Foram raras as vezes em que uma ou outra colega de turma me tratou de maneira atravessada. No ballet, eu conheci uma das minhas grandes amigas na vida. Em relação ao lado profissional da dança, entre todas as pessoas das quais tive contato, sempre fui muito bem-aceita e respeitada pelo meu trabalho no blog. Eu não me sinto diferente das demais bailarinas, afinal, também sou uma. Só coloquei a ilustração porque ela mostra alguém que não se encaixa, por isso a achei pertinente para o texto. O meu questionamento foi sobre como o mundo do ballet clássico funciona. Aliás, nada diferente do que faço aqui há tanto tempo, apenas me coloquei no centro do problema. Não concordo com seu modo arcaico em relação à dança e às pessoas que dela fazem parte. Essa é a questão. Para mim, o ballet clássico existe como dança, não simplesmente como um sistema. Por isso, continuo dançando. Apenas abri meu coração sobre o que me angustia. Se tantas pessoas se abrem por aqui, eu também posso, certo? Mas tudo continuará no ballet como sempre foi. E eu continuarei o questionando enquanto eu existir.

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16 comentários sobre “Sempre um peixe fora d’água

  1. Olá a todas, quando criança fazia ballet clássico, parei depois de um tempo cresci, casei tive dois filhos e a 1 mês voltei com o clássico, hoje tenho 30 anos e um corpo bem sarado, rsrsrsrs digo sou gordinha e daí??? sou a mais velha da turma, ou melhor mais velha do que a profª, e daí???? estou completamente feliz e super anciosa para cada dia de aula, au AMO o ballet e quando acho que não vou conseguir eu digo SENHOR EU VOU CONSEGUIR ME AJUDA….. TEMOS DE FORÇA DE VONTADE SEMPRE E NUNCA DESACREDITAR QUE PODEMOS E CONSEGUIMOS!!!! bjks a todas

  2. Sabe eu concordo com a sua posição. Essa ideia que a maioria das pessoas tem sobre o ballet já me fez querer desistir dele várias vezes. Mas acho que o ballet é só mais uma das muitas coisas na nossa vida que a gente tem que fazer uma análise própria, pessoal, saber o que significa pra a gente e não pra esse, como vc falou, sistema do mundo do ballet, que eu sei que nunca vou fazer parte, parte porque não posso, parte porque não quero, afinal todas nós temos vida fora do ballet. Mas eu fico otimista quando vejo tantas escolas aderindo ao ballet adulto. Eu sei que não é da forma ideal, principalmente na questão da profissionalização, o aluno adulto ainda não é levado a sério como deveria, mas já é um grande passo, pois há poucos anos era raríssimo adultos no ballet. Mas hoje o próprio mundo do ballet está renascendo graças a esse público “tardio” que tem procurado realizar o sonho. Se eu pudesse te dizer algo, seria continue treinando. Porque apesar de nunca ter visto vc dançar e nem mesmo ter como te julgar, eu sinto que você não só dança como estuda o ballet clássico, e vc é uma lutadora contra esse sistema injusto dessa dança hoje em dia, um sistema extremamente excludente… eu por exemplo ainda não consegui começar por motivos financeiros e já fazem dois anos que eu espero… Por isso vcs todas que já podem fazer aulas, continuem, por todas nós que ainda não podemos. Porque eu acredito muito que a dedicação, independente de tipo físico, pode levar ao bom desempenho…e acima de tudo ao prazer de dançar.

    E acho que devemos questionar sim, sempre, afinal tudo que é extremista e radical está sendo revisto hoje em dia. Estamos mudando nossa visão em relação a várias áreas da vida, acho que já está na hora de desmistificar o ballet clássico e torná-lo acessível a quem o ama de verdade, porque eu mesma conheço muitas bailarinas que não tem esse nosso brilho nos olhos quando falam do ballet. É assim que começa uma mudança de pensamento, com uma pergunta, um questionamento. Acredito que, mesmo longe, estamos no caminho certo.

  3. Foi simplesmente incrível o que escreveu, adorei… É como se suas palavras desabafassem tudo aquilo que está na garganta de muitas bailarinas… Por isso tomei a liberdade de pegar um trecho e postar no face! Se não se incomoda, é claro.

  4. Adorei o que vc postou porque é mais ou menos o meu mundo, sempre se achando diferente das outras, sempre a pior, sempre a mais esforçada mais ninguém sabe disso porque por mais que eu me esforce continuo sendo a pior no ballet, para mim tudo é melhor na teoria porque sou nota 10 na escola sempre com notas acima de 90, e na prática um desastre, mas fazer o que, por mais que eu tento, não consigo :(

  5. Oi, fiquei preocupada com este seu texto, me identifico muito com seus textos, mas não com este. Sim, me sinto diferente das outras meninas também, peixe fora dágua? Talvez, apesar de meu corpo ser “bom”, tenho dificuldades na dança, meu pé é “horrível”, forço ele até uma dor extrema para ficar bonito, não decoro as sequências, tenho mais de 30, o corpo reclama, a cabeça fica preocupada com outros problemas da vida, mas tenho qualidades sim, então persisto, insisto, eu quero, eu sou feliz quando consigo um passo que não conseguia, uma pirueta, um foueté, um gran jeté mais alto, uma expressividade melhor, além da ponta, ah … dançar na ponta é um sonho distante, mas nas aulas de ponta curto cada evolução minha, a maior independência de me apoiar na barra, etc.
    O que quero dizer é que sim, larguei o ballet quando era criança por me sentir diferente, por não aguentar a competitividade, fracassei sim pois podia ter sido uma boa baliarina clássica (sim, é difícil enfrentar mesmo, talvez determinadas crianças tenham que fazer até terapia, pq o ser humano é irritante às vezes) mas enfrento as dificuldades hoje, fecho os olhos sempre que posso para as idiotices das meninas, as pequenas humilhações de ter que aceitar exclusões, aguentar coisas infantis que não concordo) porque esta dança faz parte de mim (já dancei outras danças, e, claro, isso me deu fluidez, expressão, mas quando via as bailarinas clássicas dançando e eu não sabia dançar aquilo, minha alma chorava).
    Enfim, é assim que procedo, matando um leão por dia, mas prefiro mesmo estes desafios do que as competições do meu trabalho, porque ali, dançando, me encontro.

  6. Não sei o que fazer também… Sei que nunca vou ser profissional, viver disso. Mas queria ser pelo menos boa sabe? Vejo as meninas da minha sala que são naturalmente boas, nasceram com o pé, a perna, o corpo de ballet e eu lá, sempre lutando para conseguir um en dehor melhor, uma perna e um pé mais esticado…. Estou seriamente pensando em desistir…. terminar os exames da RAD esse ano e ficar só no jazz e contemporâneo…

  7. Acho que há dois pontos, primeiro, o que queremos do estúdio de ballet? Eu sou casado, tenho um trabalho em tempo integral, faço faculdade, inglês e ballet. Eu realmente não espero fazer grandes amizades, dividir segredos, ser acolhido, etc. Eu vou no estúdio realmente para fazer aula. É só. O mundo do ballet não é um grupo de apoio, e acho de certa forma normal, quanto mais técnica é uma atividade, mais fechada ela tende a ser. Mas o que me importa é poder dançar, e o resto, é o resto.

    E isso me leva ao segundo ponto, já trabalhei em multinacional, igreja, universidade e até ong, a cultura do local é sempre mais receptiva a quem adere às suas regras, sempre. Há sempre pessoas que querem se sobressair, as coisas só mudam um pouco de grau. Estamos criticando no ballet, um problema que existe em qualquer comunidade. Se você tomar por exemplo o mundo corporativo, que deveria se orientar por resultados, encontrará uma vasta literatura sobre a dificuldade de adesão à cultura organizacional. Não que não seja necessário avaliar ou propor mudanças, mas uma cultura vai ser sempre hostil para que não se vê refletida nela.

  8. ” Eu não faço parte do mundo do ballet clássico, não concordo com as regras do clube, mas o ballet clássico faz parte de mim.”

    Isso pode ser dito pelas pessoas que não se encaixam no estereótipo de bailarinas, que tem que ser magras sempre, ter o cabelo assim sempre e outros detalhes que nem vale a pena ressaltar. Assim como você, eu e muitas outras pessoas tem o mesmo sentimento de não pertencer ao ballet mas o ballet pertencer a si. Meu cabelo não é de bailarina, meu corpo tatuado não é de bailarina, mas o ballet é minha forma de dar vida ao sentimento que tenho dentro de mim. Se você não entra no padrão, faça seu próprio estilo, que é isso que muita gente fez antigamente e faz ainda hoje, e são considerados gênios!

    não desista

  9. Acho que quem faz arte sempre vive esses tormentos de ego. Buscar a essência é muito difícil. Mas, quer saber? Toda vez que sofro com alguma coisa penso que é um desafio para melhorar. Melhorar não na técnica, mas como um ser humano. Acho que, na verdade, na dança rola coisas que nos incomoda porque ela simplesmente traz a tona nossos sentimentos. As emoções e os medos ficam mais evidentes. O significado mais profundo de dançar está aí. A de evoluirmos como um ser humano realizado. Os sofrimentos que sentimos estaria escondido, mascarado se não fosse a dança; A arte faz isso. Torna evidente a dor mais intimo. Então, a dança nos traz a oportunidade de trabalhar com nossas fraquezas. Por isso é tão maravilhoso.As vezes me sinto uma criança infantil diante dos meus sentimentos. Aí eu penso. Sim, sinto inveja, Sim, sinto insegurança, Sim, sinto medo. Assumo. E procuro ficar agradecida pela oportunidade de trabalhar com meus sentimentos. E vou dançando….

  10. O problema não está no lugar ou nas coisas, ele está sempre nas pessoas.
    São indivíduos que tornam um ambiente desprezível ou estereotipam uma atividade. O relacionamento interpessoal depende dos outros mas muito de nossa responsabilidade individual.
    Passei tb por várias escolas, vivi preconceito e todo tipo de descrédito, mas foi mudando minha atitude que encontrei meu espaço.
    Suportamos muita coisa chata nesse meio, mas quem ama o ballet engole e fortalece seu eu-interior.

  11. É exatamente assim que me sinto… quando penso em ballet, não consigo mais enxergar um sonho, eu logo lembro do preço caro($), do meu corpo, do meu jeito… como pode né, uma dança tão linda, que parece divina, ser simplesmente proibida pra tanta gente… isso me tira a vontade de assistir grandes bailarinas no palco, não que tente julgá-las sem conhece-las, mas eu logo lembro de tantas outras milhares que não tem a mesma oportunidade…
    Sei que, por não ter sua experiência, não sou apta a conselhos…. Mas se eu fosse você, pelo tanto que você conhece de outras danças, procuraria uma outra fonte… Sei lá, faculdade de dança, por exemplo… Porque realmente é ruim não poder ser dono da própria dança, ser o tempo todo corrigido é chato, emplaca e tira o prazer de dançar… E isso não é só no ballet e nem só na dança, tudo o que se tornou técnico, ou oficial meio que bloqueia a criatividade… A dança tem que ser motivo de paz, alegria, prazer e não insatisfação.

  12. Nossa, que vontade de chorar, que nó na garganta, que verdadeiro. É a sensação que tenho: parece que estou tentando a todo custo entrar em uma roupa que não me serve… O Ballet quase sempre é para mim como um amor não correspondido, daqueles que quanto mais você dá menos recebe. Não que eu não tenha recebido coisas boas, mas o que eu ganhei é muito aquém do que eu, de coração, esperava (apesar de racionalmente saber da realidade).

  13. Acho interessante quando parece que outra pessoa descreve seus sentimentos melhor que você mesmo. E é exatamente isso que está acontecendo com esse post.

  14. Isso aconteceu comigo na dança do ventre. Fiz aula durante anos, apresentações, workshops, cheguei a ir ao Egito para fazer aula com as melhores. Mas parece que quanto mais me esforçava e “subia de nível” mas difícil e sufocante ficava. A gota d`água pra mim foi um festival em SP onde vi uma das dançarinas que mais admirava tendo ataque de estrela, entre outras atitudes de outras pessoas, egos gigantes e etc. Eu resolvi me afastar um pouco, apesar da minha paixão pela dança esse não era o mundo onde eu queria estar.
    Dei um tempo, aliás ainda estou dando. Nesse tempo resolvi fazer ballet, entrei na turma de iniciante do centro Deborah Colker, uma turma de adulto para quem nunca fez ballet. Cada um tem seu ritmo e limite, o mais legal nisso é ver a evolução de toda a turma e agora vamos para o iniciante II.
    Eu acredito que isso existe em todo o tipo de dança e nós escolhemos nos envolver ou não. Eu quero muito voltar para a dança do ventre mas sem participar de concursos ou festivais, não quero mais me envolver nisso. Vou voltar a fazer aula num nível intermediário e penso em ficar por ali porque danço por prazer e não para ser melhor que os outros. Eu ainda não vi isso acontecer na minha turma de ballet, mas pode ser porque somos todas iniciantes. Desejo de verdade que você consiga dançar apesar de todo esse mundinho, porque para quem dança não há nada mais triste que um mundo sem dança.
    Grande beijo.

  15. Cássia,você é incrível. Você conseguiu expressar o que muitas vezes eu sinto,o que eu senti hoje,apesar de amar o ballet e amar ser uma bailarina as vezes eu me questiono se isso é mesmo pra mim.Aí eu venho aqui e me sinto bem de novo,só preciso do que sinto pra saber que o ballet é a minha vida,é o meu destino.

    Adorei esse post,parabéns.

    Mary Anne.

    1. Engracado, eu reparei nessa fogueira das vaidades entre as meninas, que ainda estao comecando… Minha filha tem 9 anos, esta no quarto ano de ballet no SAB…La, as proprias maes estimulam a concorrencia, a competitividade…eu acho terrivel…Eu nem sei, se minha filha sera bailarina profissional no futuro.. So dei a ela a oportunidade de fazer ballet numa escola incrivel, ja que moramos em New York.. Na verdade, nem dei, ela foi escolhida…Mas, eu vi criancas sendo deixada de lada, por nao ter o corpo, que eles consideram perfeito. Tive uma amiga, que foi convidade a retirar a filha da escola com a seguinte frase: “Don’t waste your money and our time”… muito complicado td isso..

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