A tal da perna alta

Há alguns dias, compartilhei essa foto da Svetlana Zakharova na página do blog no Facebook e perguntei o que as pessoas achavam sobre a perna alta no ballet clássico. Por mais voltas que várias delas deram em suas respostas, no fim das contas, a maioria gosta sim de uma perna alta.

Quem acompanha as minhas publicações deve ter percebido como eu sou uma crítica à perna alta. Não só, sempre deixei claro que prefiro o ballet do tempo em que magreza e hiperextensão não eram obrigatórios na dança.

Não sou ingênua e sei como as coisas funcionam: hoje, uma bailarina não consegue ser profissional se não for absurdamente alongada. Também sei que nas montagens de praticamente todas as companhias vemos as pernas lá em cima. Além disso, alunos de ballet de todos os lugares querem ter isso. Ou seja, eu estou fora do meio em todos os sentidos.

Para não parecer a “do contra”, decidi fazer o post para embasar a minha opinião sobre o assunto. Existe um motivo para eu defender o que defendo. Mas como eu disse, é a minha opinião. O mundo do ballet continuará desejando a perna na orelha do mesmo jeito.

Encontrei por acaso um vídeo em que Roland Petit explica alguns passos de ballet clássico com demonstrações da Agnès Letestu bem novinha. Em um determinado momento, ele explica as diferenças entre o dégagé clássico, aquele dos repertórios de Petipa, e do dégagé contemporâneo, aquele realizado hoje em dia. Para assistir a esse momento da explicação, aqui.

Viram a diferença? Na época em que a maioria dos repertórios foram criados, quase no fim do século XIX, as pernas não eram altas. Essa mudança aconteceu de algumas décadas para cá. Por exemplo, se vocês assistirem a obras de George Balanchine, que foram criadas depois desse período, verão pernas bem altas em várias coreografias.

Chegamos ao ponto da questão: para mim, os movimentos devem ser mantidos de acordo com o período de sua criação. Eu nunca critiquei perna alta em uma obra de Balanchine. Eu tenho espasmos quando vejo perna alta em uma obra de Petipa.

A meu ver, um movimento é como uma palavra, ele tem um sentido na coreografia, ele faz parte de um contexto. Se eu vejo um movimento e percebo que ele está ali apenas para mostrar a habilidade do bailarino, eu perco o interesse, porque a dança não existe para isso. Não para mim.

Para demonstrar o meu ponto de vista, selecionei dois vídeos bem distintos.

No primeiro, vemos vários trechos de “A Bela Adormecida”, ballet criado por Marius Petipa no final do século XIX. Essa montagem é do Het Nationale Ballet/Dutch National Ballet, e essas imagens correspondem a uma apresentação de 2010. Prestem atenção como quase todos os arabesques e attitudes derrière estão a 90 graus. Notem como a perna alta quase não aparece. Claro, houve uma releitura da obra de Marius Petipa, mas o novo coreógrafo, Sir Peter Wright, respeitou a obra original.

Trechos de “A Bela Adormecida”, Het Nationale Ballet/Dutch National Ballet, Jurgita Dronina, 2010.

No segundo, vemos um trecho de “In the Middle Somewhat Elevated”, de William Forsythe. Essa obra foi criada em 1987 para Sylvie Guillem, o que já nos diz muita coisa. Prestem atenção nos movimentos dos bailarinos Marta Romagna, Roberto Bolle e Zenaida Yanowsky e me respondam: É possível uma bailarina dançar essa obra sem ter perna alta?

Trecho de “In the Middle, Somewhat Elevated”, Marta Romagna (La Scala) Roberto Bolle (La Scala) e Zenaida Yanowsky (Royal Ballet).

Um outro ótimo exemplo é a segunda parte de “Jewels”, de George Balanchine. Eu sou apaixonada por esse ballet e sempre me encanto com os “Rubis”. Acho belíssimo. E eu duvido que exista alguma outra obra com tanta perna alta de uma única vez! Quem quiser assistir aos “Rubis”, aqui.

Ou seja, eu sou contra a perna alta? De maneira alguma! Eu sou contra perna alta fora de propósito. Quando há um sentido para a sua existência, eu acho lindo.

Só há um movimento do qual eu não abro mão: arabesque a 90 graus. Para mim, ele é o sinônimo da perfeição no ballet clássico. Infelizmente, encontrá-lo está cada dia mais raro. Daqui um tempo, ele deixará de existir. Ou não, porque no que depender de mim, ele terá vida longa.

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8 comentários sobre “A tal da perna alta

  1. Sempre leio seu blog. Nem sempre concordo com tudo. Mas acho muito interessante a forma com que você pensa o ballet.
    Eu não gosto de ballet de repertório porque acho que o movimento diz muito: não preciso da atuação. Mas entendo e admiro sua opinião. Sei que você gosta muito dos ballets de repertório.
    Hoje uma afirmação sua traduziu muito o que eu penso sobre dança. E fico muito grata a você. É muito bom ver pelos olhos dos outros a mesma imagem que você enxerga. Muito obrigada.

    “A meu ver, um movimento é como uma palavra, ele tem um sentido na coreografia, ele faz parte de um contexto. Se eu vejo um movimento e percebo que ele está ali apenas para mostrar a habilidade do bailarino, eu perco o interesse, porque a dança não existe para isso. Não para mim.”

  2. Pra mim pernão é coisa de neoclássico, clássico é, como já diz o nome, CLÁSSICO! Tu não faria uma nova filmagem de “O Poderoso Chefão” com a cena do atentado a Dom Corleone feito com um fuzil, porque é uma cena clássica de um filme mais-que-clássico. Giselle, Swan Lake, La Sylphide, etc etc tem que ser a perfeição clássica, sem pernão desnecessário.

  3. “A meu ver, um movimento é como uma palavra, ele tem um sentido na coreografia, ele faz parte de um contexto. Se eu vejo um movimento e percebo que ele está ali apenas para mostrar a habilidade do bailarino, eu perco o interesse, porque a dança não existe para isso. Não para mim.”

    concordo plenamente..tanto que as vezes movimentos simples mas dançados com paixão são muito mais significativos do que muito dificeis apenas com uma tecnica crua e sem, digamos, espiritualização do movimento.

  4. Acho que cada coreografia exige/permite um determinado tempo para se desenvolver o movimento. Quando a dança permite uma demora maior para a bailarina ir e voltar da perna alta, dentro do sincronismo e da melodia, fica bonito, caso contrário fica estranho.

  5. Com concordo Cássia, arabesque clássico tem que ser a 90°!!! Pra mim, a 180 deixa de ser arabesque e virá panché!!!
    Até gosto de algumas sequências com maior amplitude de movimentos, mas nada de exageros!!!! Uma sequência que eu acho linda: Larissa Lezhnina na Bela Adormecida, na coda do 1º ato.

    Ah se todas as bailarinas atuais dançassem a Bela assim… Sou apaixonada pelos developês dela, um pouco mais altos, mas nada exagerado…

  6. ah, essa tal de perna alta…

    Eu concordo com você: quando há um motivo para que ela exista, é lindo. Quando não há, é pedante. Perna alta por perna alta prefiro assistir o Balle Acrobático Chinês ou mesmo o Cirque du Soleil. Pelo menos por lá as pernas altíssimas e super extendidas fazem sentido. Achei que os exemplos que você mostrou foram bem pertinentes. Não faz sentido ver obras que não foram criadas para perna alta apresentarem aquele movimento de quase 180 graus. Fica muito na cara que o adaptador/diretor/whatever só está querendo dizer “olha que bailarinos incríveis eu tenho!”. blé E convenhamos: quando há um motivo coreográfico pra uma perna alta, ela fica natural, se torna parte da música e fica lindo.

    Eu também sou super fã do arabesque 90 graus. Acho que é de uma limpeza simplesmente tocante. Arabesques hiperextendidos são um tanto arficiais, não sei. Não gosto muito da estética.

    E antes que alguém venha jogar pedra dizendo que sou uma recalcada que não tem perna alta e só por isso está dizendo que não gosta de perna alta, eu digo: não foi isso que eu quis dizer. Eu gosto de qualquer movimento que faça sentido dentro de uma coreografia. E muitas pernas altas por aí são totalmente gratuitas.

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