A história de cada um

“Portanto, poderíamos deduzir que os seres humanos são, acima de tudo, romancistas, autores de um romance único cuja escrita dura toda a existência e no qual assumimos o papel de protagonistas.”

Rosa Montero, em A louca da casa, p.8.

A despedida de Véronique Doisneau mexeu conosco, não é? Eu fiquei tão entristecida que volta e meia lembro dela cantando e dançando “Giselle”. Na verdade, qualquer pessoa com um mínimo de empatia ficaria tocada com a sua história, mas nós ficamos ainda mais por um motivo: nos enxergamos nela. Aquela frustração também é nossa. “Se nem ela conseguiu o que sonhou”, pensamos, “e eu?”. O contrário também acontece. Quando uma pessoa que, supostamente, não tem características para o sucesso atinge o auge, nós nos animamos. “Se ela conseguiu, eu também consigo.”

E entre sucessos e fracassos alheios, acompanhamos histórias que não são nossas, nos enxergamos naquilo que é tão distante de nós. Por isso, passamos dias pensando em Véronique ou suspiramos pensando nos “exemplos de vida e superação” que pipocam por aí.

Vamos pensar sob um outro ponto de vista: Véronique Doisneau realmente fracassou? Ela dançou a vida inteira. Tudo bem, não dançou aquilo que sonhou, mas o ballet clássico não se resume à “Giselle”. Não dançou os primeiros papéis dos repertórios, mas dançou obras significativas da dança moderna e contemporânea. Foi bailarina profissional. Dançou durante anos e anos na Ópera Garnier. Se aposentou como bailarina. Mas a gente só consegue lembrar da sua imobilidade no adágio de “O lago dos cisnes”…

E os “exemplos de vida e superação”? Eu sinto calafrios quando ouço essas palavras. O ser humano adora um sacrifício! A dor engrandece. É preciso ser renegada na dança, ensaiar de segunda a segunda, sofrer uma grave lesão e atingir o olimpo: ser coroada primeira-bailarina! Aurélie Dupont chegou naturalmente ao posto de étoile, quer parar de dançar quando se aposentar, aí não tem graça. Foi muito tranquilo. Queremos é novela mexicana, com final feliz no último capítulo. Afinal, se a nossa vida não é fácil, por que a dos outros deveria ser?

Perceberam a situação? Olhamos sempre para os outros. Não olhamos para nós.

A vida de cada pessoa é única. Teimamos em não olhar para a nossa própria história, em não enxergar beleza no nosso próprio caminho, em não construir nosso próprio ideal de sucesso. Se cada leitor ou leitora contar aqui a sua história na dança, não teremos uma única história igual. Quem tiver curiosidade, pesquise a biografia de grandes bailarinos, todas diferentes umas das outras.

O que você quer no ballet clássico? Não é preciso sonhar em ser primeira-bailarina, em ser profissional, em atingir um grau técnico além do possível se isso nunca foi o seu objetivo. Quem realmente quer, está correndo atrás disso, tenha certeza. Quem não quer, não precisa se forçar a querer o que nunca almejou. Preciso me rasgar por algo que eu nunca quis de verdade? O ballet nos une, mas isso não significa que queremos todos a mesma coisa.

Vamos nos emocionar com a Véronique Doisneau, mas não somos ela. Vamos suspirar pela Aurélie Dupont, mas não somos ela. Vamos nos impressionar com a trajetória de tantos outros bailarinos, mas não somos eles. Se inspirar neles, sim. Querer ser igual a eles, nem pensar.

Porque é melhor ser protagonista da nossa própria história do que ser coadjuvante nas histórias dos outros.

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16 comentários sobre “A história de cada um

  1. Sempre quis fazer ballet…mais não tenho condições financeiras para bancar. É triste isso,porque é tão difícil achar uma coisa que gostamos de fazer, e quando finalmente acho, vejo que é algo longe da minha realidade…Passei toda a minha infancia frustada por não ter realizado meu sonho,hoje tenho 18 anos e morro de vontade de dançar, mesmo sem fazer ballet sinto que tenho vocação.

    1. Nayra, não se martirize tanto, você tem apenas 18 anos. Entendo a sua frustração por não ter mais chances de ser uma bailarina clássica profissional, mas você poderá fazer ballet clássico quando quiser. Em algum momento, você conseguirá pagar pelas aulas, fique tranquila. Beijos.

  2. Muito obrigada por seus textos claros e dinâmicos Cássia! Me faz refletir sobre os meus passos no mundo da dança, quando muitas vezes são atirados ao pó diante de professores que te desestimulam, que não enxergam o que há de melhor em você. Quantas bailarinas não passaram por isso, viram seus sonhos desmoronarem por conta de professores que só dão atenção para as “Svetlanas” das salas de aula…

  3. Seu blog é tudo que eu estava precisando ouvir..Está sendo como uma válvula impulsionando-me. Vou contar um pouco minha história aqui para você. Nasci em um lar pobre, sempre sonhei em cursar academia de ballet mas meus pais pagavam aluguel e meu pai era semi-analfabeto. Não tive acesso ao ballet em minha infância. Após muita insistência e persistência e sacrifício meus pais aos meus 12 anos conseguiram me matricular em uma academia aqui da cidade porém por apenas 1 ano eles puderam pagar. Meu talento era muito nato, arabesques rasgados, lindo pé, andeors 180, ótimo físico e por isso um dos meus professores conseguiu uma bolsa para eu estudar todas as modalidade de graça(Sapateado, espanhol, jazz e ballet clássico) isso durou mais um ano. Tive a oportunidade de fazer teste em Escolas de danças profissionalizantes em outros municípios e participar de competições como Joinville porém meus pais nunca apoiaram meu futuro na dança. Como não tive recurso para continuar aos 16 parei de dançar. Conseguir voltar mais um ano aos 17 indo até aos 19. Novamente não tive recurso para continuar.. A dança está na minha veia.. nessas idas e vindas.. sempre participei de projetos sociais que envolvia a dança.Me formei professora de ensino fundamental e em minhas aulas sempre fazia coreografias com meus alunos.. Agora GRAÇAS A DEUS tenho uma filha de 6 anos q já está fazendo 1 ano de ballet. Deus está me dando recurso para custeá-la. Ela tem vocação, talento e pais q a apoiam….e estou tendo a oportunidade de ministrar aula de balllet na minha igreja para as meninas e quero muito voltar a fazer aula de pontas e dançar alguns clássicos como Esmeralda, Lago dos Cisnes e quiçá até com minha pequena. Hoje tenho 31 anos e não VOU DESISTIR DO MEU SONHO DE DANÇAR E DANÇAR BALLET.. OBRIGADA.. SEMPRE ESTAREI AQUI ACOMPANHANDO SEU BLOG.. TB TENHO UM nossasala-de-leitura.blogspot.com meu Face https://www.facebook.com/?ref=logo Me add lá para conversarmos…. bjs.. Te admiro… Há hoje estou com 31 anos e tenho dois filhos maravilhos (Lídia com 6 anos e Joás com 5 meses), sou casada e professora em meio período…

  4. Lindo texto, Cássia! E mesma já me peguei pensando várias vezes “Eu quero ser igual a Svetlana”, “Eu quero ser igual a Polina”… Acho que, por eu ter 12 anos, esse pensamento é ainda pior, pois eu vou me limitar a dançar de apenas um modo…
    Sabe o que eu acho legal? Como você disse, se perguntasse a história das leitoras do blog, nenhuma seria igual a outra. Você podia pedir pra lhe enviarem as histórias, que podiam ser publicadas em uma página aqui do blog… Seria muito bom pra ajudar as outras bailarinas!

  5. Até porque, cada um é autor de sua história, não se sabe ao certo como ela terminará. Especialmente nós, bailarinas, que temos esse lado quase obscuro por trás de tanta perfeição. Adorei o seu texto, e realmente retrata a realidade. Não é porque fulano passou por isso, que iremos passar também; ou não é porque fulano venceu isso, que venceremos também. O ballet é apaixonante sim, mas também um tanto traiçoeiro, quem quer seguir esse ramo, ou realmente nasceu para isso não deve ter medo ou uma (por exemplo) variação no seu topo de metas. O bailarino que nasceu para isso, tem que ir de cara, com a certeza de que a cada dança executada será uma vitória, será um dos seus sonhos realizados. é dançar para expressar, e não para impressionar! “[…] Se inspirar neles, sim. Querer ser igual a eles, nem pensar.”

  6. Concordo que cada um de nós temos q viver a nossa vida, não as das outras bailarinas.

    Acho que cada uma dando o melhor de si em cada aula, em casa ponta em cada cambret já é o suficiente, e por isso temos q nos orgulhar de quem somos e fazer cada passo valer a pena e dançar não só com o corpo mas tb com a alma, com o espírito, com vontade de ir além….

  7. nossa cássia… mais uma vez obrigada.. Obrigada por colocar em palavras, lindas palavras por sinal, tudo o que nós sentimos e não sabemos expressar.. Tive um momento de desistir do ballet clássico, porque não estava conseguindo enxergá-lo na minha vida de forma diferente de como ele é na vida de outras pessoas.. Exatamente como você falou, eu estava sendo coadjuvante na história alheia e não protagonista da minha própria.. Ainda não sei o que vai ser do futuro, mas essa liberdade de poder pensar o ballet sem tantas amarras, limites, e fronteiras que nunca poderemos ultrapassar é muito reconfortante. Poder pensar sobre essa dança que tanto amamos de forma que ela seja um prazer para nós e não um peso, uma frustração. Espero que cada vez mais o ballet adulto seja um símbolo dessa maturidade e reflexão correta sobre a vida que muitas vezes li em seus textos.

  8. Lindo o seu texto Cássia. Sempre fico pensando porque essas bailarinas se lamentam e sofrem tanto! a vida e tão curta para tanto sofrimento! O melhor de tudo é viver, estar no presente e usufruir a graça de estar vivo e o que é melhor: dançando, dançando pela casa, pelas ruas, pelos palcos da vida! Bjs

  9. Cassia, vc me surpreende cada vez mais. Vc é para muita gente(inclusive eu) a luz no fim do túnel. Sério, vc me fez olhar com outros olhos o caso da Veronique. Li, reli e li de novo esse post pra guardar beem cada palavra. Até alguns minutos atrás confesso q desejava cada segundo de minha vida ter a perna IGUAL a da Svetlana Zakharova, a ter a expressão IGUAL a da Marianela e da Evgenia… Enfim, eu queria me igualar a essas bailarinas que eu adimiro tanto, mas ai vc me fez perceber que eu nao preciso disso e melhor, me fez perceber que para eu atingir meu objetivo tenho que trabalhar mais! Cássia realmente eu nao sei como te agradecer.
    Bjs e obrigada!!!
    P.S. Cássia, o simples fato de vc postar sua opinião no seu blog faz diferença na vida de tantos bailarinos, por favor nao pare de escrever. Pode creer que no final de cada post lido vc ilumina o sorriso de seu leitor.

  10. Também adorei o que você escreveu!
    Realmente, temos essa cultura dos mitos e isso faz com que a gente se sinta constamente frustrados. Eu por exemplo tenho o ballet como um meio de me expressar e de superar algumas dificuldades. Não tenho vontade alguma de ser profissional, mas isso não significa que não vou dar o meu melhor nas aulas. O ballet me ajuda a ser mais confiante e a me entender melhor com meu próprio corpo. E é esse o meu objetivo. Então me comparar a grandes bailarinas é simplesmente algo ridículo de se fazer. E infelizmente às vezes a gente se pega fazendo isso e se frustrando.
    Obrigada por me lembrar dos meus objetivos, Cássia.

    1. Concordo com você Melissa, para mim é a mesma coisa!
      Cassia seu blog é muito bom para todas nós! Obrigada!
      Abraços!

  11. Cassia, adorei o que vc escreveu. Aliás tenho pensado muito nisso. A historia de superação… Sou naturalmente esforçada e nunca me permito faltar um ensaio ou uma aula. Mas isso é ainda muito pouco. O quanto consigo estar presente? A presença quer dizer o quanto consigo penetrar na dança e me expressar? Me pego, muitas vezes, com preguiça de me entregar…. Não basta estar presente de corpo somente… tenho q estar presente de corpo e alma…

  12. Falou tudo Cassia! Acredito no meu curto percurso no ballet q ele é para poucos pois exige realmente demais do corpo e ser profissional é um caminho árduo.
    E imagino q torna-se fixação chegar ao topo sem necessariamente desejar de verdade!
    Adoro seu blog bjs
    Nancy

  13. “Porque é melhor ser protagonista da nossa própria história do que ser coadjuvante nas histórias dos outros.”
    Adorei, Cássia!

    1. Eu ia postar exatamente a frase que a Isabela repetiu de seu texto… Essa é a lição para os próximos dias! Obrigada e maravilhosa semana!

Os comentários refletem a opinião das leitoras e dos leitores e não correspondem, necessariamente, à opinião da editora do blog.

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