Técnica clássica: meio ou fim?

“Mas não se esqueçam de que a técnica só serve para ficar a serviço de sua própria arte.”
Cena do filme “Carmen”, de Carlos Saura.

Existe ballet clássico sem técnica clássica? Essa é uma pergunta óbvia, mesmo assim, ela é pertinente, especialmente quando as pessoas dissociam uma coisa da outra. Só existe ballet se determinados parâmetros forem seguidos. E isso em qualquer dança. Senão, ninguém precisaria estudar, dançar no meio da sala já faria de qualquer pessoa uma bailarina.

E quando ouvimos “Esqueça a técnica e dance!”? É como se alguém dissesse a um escritor: “Esqueça o idioma e escreva!”. A afirmação procede, caso a técnica tenha sido tão estudada e interiorizada a ponto do artista não precisar pensar a respeito. Quando você já fez pirueta tantas vezes que não precisa pensar no processo, você simples a faz. Mas para isso, é preciso estudar técnica clássica. Bailarinos profissionais não fazem aula todo santo dia à toa. Quanto maior o domínio técnico, mais o artista consegue se preocupar com a arte em si, porque ele utiliza a técnica como meio para realizar a sua obra artística. É a história do escritor do começo do parágrafo: quanto maior o domínio do idioma, quanto mais ele conhece os meandros da gramática, mais ele pode criar a partir disso. Quem já leu João Guimarães Rosa sabe do que eu estou falando.

E no ballet clássico? Creio eu que, de uns tempos para cá, ocorreu uma inversão no processo: a técnica clássica é fim, não meio. Como se os bailarinos estivessem em uma competição de ginástica artística e, no final da apresentação, recebessem as notas. Basta pensar que nos dias de hoje Anna Pavlova e Margot Fonteyn jamais seriam bailarinas, pois não passariam em nenhuma grande escola de formação: seriam eliminadas por serem en dedans.

Não vou entrar na questão do talento e das habilidades físicas, isso é assunto para um outro post. Mas acho importante pensar se não estamos dando valor demais à técnica em detrimento da arte. A técnica leva à obra, seja na pintura, na escultura, no cinema, na literatura, na música. Mas na dança, suspiramos pelos 32 fouettés da Odile e não pela sua vitória em enganar o Siegfried.

Sou a primeira a valorizar o estudo da técnica clássica. Aliás, é o que eu mais estudo na dança. Mas ela sempre será o meio, jamais o fim.

“A técnica […] é o que permite ao corpo chegar a sua plena expressividade… Adquirir a técnica da dança tem apenas um fim: treinar o corpo para responder a qualquer exigência do espírito que tenha a visão do que quer dizer.”
Martha Graham, citada por Roger Garaudy no livro “Dançar a vida”, p. 97.

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9 comentários sobre “Técnica clássica: meio ou fim?

  1. Cassia, sou sua fã, leio seu blog já fazem alguns anos e recomendo sempre para minhas amigas bailarinas. Vc consegue passar seus sentimentos nas palavras de uma forma incrível , uma clareza que fico pasma !!!! Continue escrevendo nem que seja só pra mim….

  2. Concordo com você. A técnica é o alicerce para a realização de algo – mas nunca deve ser único objetivo. Se fosse pra me preocupar com técnica, eu nunca teria entrado no balé, até porque eu estou tão perto de ser uma boa bailarina tal qual uma tartaruga idosa e sobrepesa tem chance de saltar como um golfinho. Minha professora é um pouco a favor dessa teoria “esqueça a técnica e dance” , e eu entendo o porque: ela nos ensina a técnica, a maneira correta de fazer um passo, mas se você se preocupar demais em acertar um passo no meio da coreografia, você acaba até fazendo pior, ou nem fazendo e empacando’ o fluxo todo. Tem horas que não dá pra se estressar com técnica, tem que mergulhar de cabeça e fazer como dá pra fazer.

    1. Eu acho a Zakharova muito linda. A técnica dela é muito limpa também, incrível até. Só que também acho que ela não preenche alguns papéis. Algumas atuações dela são um tanto exageradas e às vezes sinto que ela nem está dançando, mas executando uma sequência muito bem conectada, sei nem explicar. Bom, essa é a impressão que tive pelos vídeos. Pode ser que ao vivo seja completamente diferente. Também concordo com o post. Há muito tempo que essa supervalorização da técnica vem ocorrendo. E quanto aos 32 fouettés de Odile, se a bailarina faz um alternativo é criticada até a morte, mesmo tendo dançando todo o ballet perfeitamente.

  3. Concordo tb com vc Cássia, e concordo tb com a Julimel, porque não adianta só dançar, temos que envolver a dança e expressar sentimentos através dela.

    Cássia, não queria fazer propaganda das minhas aulas nem da minha academia, só queria q alguém me ajudasse, mas tudo bem, entendi o recado,Beijos.

    1. Vivan, o meu comentário não foi uma reprimenda, você conhece o blog há pouco tempo e não sabia que não faço, ou autorizo, qualquer tipo de propaganda, especialmente de estúdios de dança. Só achei por bem te avisar, para você não estranhar a retirada do seu e-mail. Não foi nada além disso.

      Beijos.

  4. Concordo com vc Cássia, em gênero, número e grau!

    Aqui no seu blog vc publicou uma vez uma entrevista com a Roberta Marquez, nossa representante brasileira lá na Royal. E lá ela conta que antes de entrar para a Royal, ela dava um imenso valor a técnica…

    “Quando era mais jovem, eu me preocupava demais com a técnica. Mas ela sozinha não basta. Consigo ver quando alguém está dançando com o corpo, mas sem a cabeça. É o conjunto que faz diferença. Aqui, na Inglaterra, eles dão mais valor à atuação (interpretação). Às vezes, eu me sinto uma atriz sem falas.”

    Existem tantas bailarinas que simplesmente dançam, não interpretam ou sequer dão emoção ao papel que elas estão representando… Acho muito lindo quando apesar da excelente técnica eu vejo interpretação! É isso o que me faz chorar…

  5. Cássia, concordo plenamente com tudo que você disse. Técnica não é, nunca foi e nem deve ser o objetivo final de um artista. Obviamente é preciso dominar a técnica, mas há uma diferença grande entre dominar a técnica e deixar a técnica te dominar. Infelizmente isso acontece em muitas escolas. Sou professora de inglês (dança pra mim é algo extra) e vejo alunas de 10, 12 anos chorando porque ouviram seus professores de ballet dizendo que elas não tinham en dehor nem altura de perna suficientes para serem bailarinas. Poxa, isso é muito cruel. Obviamente que devemos treinar e tentar sempre nos superarmos, mas parece que essa obcessão por técnica está dominando mesmo.

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