Odette: frágil ou rainha?

Eu tenho o costume de ler os comentários dos vídeos no YouTube. Gosto de saber o que as pessoas acharam, mesmo que pareça um absurdo o que disseram. Em uma dessas vezes, assistindo pela vigésima vez à estreia da Evgenia Obraztsova em “O lago dos cisnes”, li o comentário de uma pessoa dizendo que a sua Odette era a moça frágil e amedrontada como deveria ser, ao contrário de várias outras bailarinas que davam ao cisne branco um ar de “diva”. E não é verdade?

Pensemos: você está caminhando no bosque feliz e contente, um feiticeiro medonho aparece do nada e te aprisiona no corpo de um cisne, sem mais nem menos. Desde então, você está fadada a ser cisne durante o dia e mulher durante à noite, além de estar longe de sua mãe que chorou tanto a ponto de formar um lago onde você é obrigada a ficar durante o dia. Não só, para se livrar disso, você precisa encontrar um rapaz que a ame verdadeiramente. E detalhe: encontrará esse rapaz, mas ele pedirá outra em casamento e você será prisioneira para sempre. Haja angústia!

Para mim, a melhor tradução desse aprisionamento pode ser vista nesta cena.

Primeira cena do filme “Black Swan”, de Darren Aronofsky.

Sim, eu acho que a Natalie Portman conseguiu entender claramente a personalidade da Odette (e também da Odile, mas isso fica para outro dia). A angústia está nos seus olhos, o tempo todo. E notem o momento em que ela toca o próprio rosto depois da transformação… Na segunda vez, parece que ela mostra as lágrimas escorrendo. Perfeito!

Mas ela é atriz, existe uma facilidade maior pela própria característica da profissão (e falei sobre essas diferenças aqui). E entre as bailarinas? A meu ver, duas conseguiram encontrar esse tom de fragilidade: a Evgenia Obraztsova e a Gillian Murphy. Sendo que a Gillian consegue manter isso o tempo todo ao longo do ballet, eu fico impressionada.

Por outro lado, o perfil “rainha dos cisnes” impera. Acho que duas bailarinas atingem o grau máximo nesse quesito: Ulyana Lopatkina e Svetlana Zakharova. Divas do começo ao fim.

Dentre essas duas possibilidades, eu prefiro a Odette frágil, amedrontada e angustiada para fazer o contraponto com a Odile vil, sedutora e dona da situação. Mas essa é uma visão absolutamente pessoal.

E vocês, preferem a frágil ou a rainha?

Anúncios

17 comentários sobre “Odette: frágil ou rainha?

  1. Cássia, o que vc acha da Svetlana Zacharova? Sua tecnica e interpretação? Gostaria muito da sua resposta, se puder é claro. Escuto muitas opiniões diferentes em realação a ela.
    Bjs laura

    1. Laura, sinceramente? Não sou fã da Svetlana Zakharova. Uma época eu não gostava dela, depois comecei a gostar e deixei novamente depois de assistir ao documentário “Ballerina”. Ela é perfeita tecnicamente, é belíssima no palco, mas falta alma no que ela faz. Acho que ela é bailarina por ser incrível no que faz e não por uma identificação genuína com a dança. O que não é um problema, acho que há vários bailarinos que enverederam por esse caminho por se destacarem e não porque realmente amam a dança. Mas no caso da Svetlana, ela não me “pega”, sabe? Não me encanta. Mas, sem dúvidas, é uma das grandes bailarinas do nosso tempo.

      Grande beijo.

  2. Posso ficar no meio termo?
    Eu prefiro as duas!!! Vou explicar…

    Li os comentários e concordo muito com a fragilidade da Odette, afinal a própria história pede isso da bailarina… Mas também concordo com o lado rainha, não no sentido “sou uma diva!”, mas no sentido de liderança e proteção para com as companheiras, como foi colocado pela Camila aqui nos comentários.

    Por isso gosto de um misto das duas personalidades…

    Claro que muitas vezes as coisas acontecem na base dos extremos, 8 ou 80, e isso me faz parar pra pensar: existe alguma bailarina que consiga dosar essas duas características?

    *Pausa pra reflexão…

    Eu já assisti várias versões e gosto muito mesmo da Yulia Makhalina e da Natalia Makarova nesse papel… Mas nunca parei pra analisar qual a interpretação que cada uma dá a mesma personagem.

    1. Concordo com você! :D
      Gosto quando ela meio que “protege” e “”manda”” nas outras. Sei lá, ela tá sofrendo mas ainda é realeza, hehe.

  3. Oi, Cássia! Primeiramente, queria dizer que adorei o seu blog. rsrs
    Em segundo lugar, eu comecei a fazer balé clássico com jazz há muito pouco tempo – apesar de já ter um “conhecimento prévio”, digamos assim -, então eu acho que a minha opinião soa muito como a de alguém de fora da atividade de dança – porque eu não tenho experiência com nada.
    Eu conheço a história do “O Lago dos Cisnes” porque eu curto música clássica desde criança. E assim, eu acho que pra “interpretar” um personagem como a Odile, precisa manifestar essa fragilidade, até porque a personalidade da Odile É composta principalmente pela fragilidade, além de delicadeza e angústia. Mas eu curto muito quando a bailarina coloca um pouco de diva na Odile. Eu acho que eu nunca curti coisas delicadinhas demais, por passar a ideia de “impotência” – coisa que eu acho que a Odile tem até demais. Sei lá, rsrsrs. Ela sempre me passou a ideia de “Oh, eu fui transformada em cisne por um feiticeiro do mal, estou longe da minha mãe, o príncipe que eu amo vai se casar com outra e eu estou sozinha”. Quando é aplicado o perfil de “rainha dos cisnes”, passa mais a ideia “Eu estou sofrendo, mas enfrentarei tudo com graça e elegância, porque eu sou uma diva”. Passa uma ideia de mais força e imponência ao personagem- sem perder a delicadeza própria da Odile. =)

  4. A Gillian é a minha preferida *-* Apesar de eu ainda não ter visto muiiitas montagens e, nas que eu vi, sempre a Odette era mais pro tipo frágil, e eu vejo mais sentido assim. Em alguns momentos, nas partes com as outras cisnes e tal, eu até sinto essa fragilidade ser substituída por um tanto de liderança e senso de proteção – pelas cisnes (que retribuem c/ o respeito e o cuidado por ela também) e acho que isso faz que ela seja forte apesar da fragilidade. Acho que a nossa querida rainha dos cisnes é rainha mais no sentido de líder, “mãe”, alguém que cuida das outras do que de realeza propriamente dita, então acaba que a colocação da Odette num contexto de diva não faz muito sentido pra mim. A Odile sim é diva (entre tantas outras coisas).

  5. Eu gosto muito da dança da Zakharova, acho realmente incrível. Ela consegue mexer com quem está assistindo (mesmo que seja em vídeo) e exibir técnica impecável ao mesmo tempo, o que eu considero uma habilidade incrível. Eu não me canso de assitir O Lago dos Cisnes com ela no papel principal no Youtube…

    Mas eu concordo com você: prefiro a Odette frágil/assustada. E nesse quesito a Murphy é realmente um primor. Muitos criticam a técnica dela e até mesmo seu lugar como primeira bailarina, mas eu acho que ela é o um caso em que a expressão artística ofusca a técnica quase que completamente. A dança dela é emocionante.

    Numa visão pessoal, eu acho que dança pra mim vale muito mais como expressão artística. Claro que técnica é importante e muito estudo para aprimoramento, mas pra mim, como espectadora (e agora como bailarina aprendiz rs) valorizar a expressão artística é essencial. Afinal, dança é arte e não só uma combinação de exercícios.

  6. Sou completamente apaixonada pela Odette da Gillian (essa montagem do ABT com o Angel Corella e o Marcelo Gomes é uma coisa de linda!), fico simplesmente impressionada em como ela consegue imprimir essa fragilidade e por vezes parece tbm amedrontada, acho que alguém que passa pelo que a Odette passou dificilmente será “diva”. É uma coisa que tbm me faz ter birra de muitas Auroras, Kitris… Acho que poucas conseguem passar o espírito da coisa, mas enfim, a discussão dessas nuances nas mais diferentes personagens dá muito pano pra manga, acho super interessante discutir isso.

  7. Eu partilho do seu ponto de vista. Para mim, alguém que foi submetida ao que Odette foi, dificilmente será diva do começo ao fim. Acho que o que me emociona e me envolve com a personagem é justamente este medo, esta angustia.

  8. Acho a personalidade frágil da Odette predominante. Afinal, condiz muito mais com a trama do ballet. Ela é altiva, sim. Tem sua beleza clássica, imponente, real. Mas é uma jovem frágil e angustiada, acima de tudo.

  9. Eu achei a versão de “A Morte do Cisne” da Anna Pavlova a mais linda de todas! Claro, naquela época a técnica não era apurada como atualmente, mas era tão mais lindo! Elas realmente entravam no personagem, e ao mesmo tempo que dançavam, comoviam.

    1. Louise, a Carol não disse que “A morte do cisne” faz parte de “O lago dos cisnes”, ela apenas exemplificou como a Anna Pavlova é um exemplo de belíssima interpretação do cisne branco.

  10. a frágil, até porque no momento em que eclode a Odile, a diferença fica muito mais acentuada com relação a personalidade delas…. E isso, na minha opinião, dá um toque de emoção a mais no repertório!

Os comentários refletem a opinião das leitoras e dos leitores e não correspondem, necessariamente, à opinião da editora do blog.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s