Saudade de palco

Ao pesquisar posts antigos sobre o assunto, percebi que a palavra “palco” era recorrente neste blog. Falei sobre isso diversas vezes, sob vários pontos de vista. Inclusive, disse que gostava mesmo de aula, não de apresentação.

Tenho pensado muito a esse respeito e foi impossível não fazer uma analogia com meus anos de atriz. Só então entendi essa minha saudade.

Eu fiz teatro durante cinco anos. Eu faço ballet há cinco anos. No primeiro caso, foram três peças e 25 apresentações. No segundo, foram três espetáculos e quatro apresentações.

Quase caí de costas quando fiz a soma. Tudo bem que não me apresento no ballet há dois anos e meio, mas esse número pularia de quatro apresentações para, sei lá, sete? Pouco do mesmo jeito.

Além dessa diferença, existe outra mais importante. No teatro, temos um público que vai à peça justamente por se interessar por ela. Família e amigos estão presentes, mas até pelo número de apresentações, quem nos vê é quem não nos conhece. A relação é entre público e artista.

Pelo menos no ballet clássico, há dois públicos possíveis para quem não é profissional. Existe a “plateia amiga”, aquela das apresentações de fim de ano, composta por família, amigos, consortes e conhecidos, e existe a “plateia especializada”, aquela dos festivais, composta por jurados e outros “concorrentes”. Cadê o público?

Tenho um punhado de histórias dos meus tempos de teatro. De ver alguém da plateia emocionado em plena cena minha. De uma senhora vir conversar comigo depois da peça, enquanto eu ainda estava de figurino, porque ela queria saber a minha idade porque a minha personagem era uma criança. De pessoas que eu reconhecia de outras sessões, porque fizeram questão de assistir à peça diversas vezes. E eu não era atriz profissional. As três peças foram resultado dos meus cursos de teatro. Mas comecei a conhecer o palco, a relação com a plateia e o fascínio que isso exerce.

Agora, me digam, como ter isso na dança sem ser profissional?

De uns tempos para cá, sinto uma vontade imensa de estar no palco. De dançar para a plateia. Mas não quero rostos conhecidos, não quero jurados, não quero companheiros de ballet. Eu quero essa relação público e artista. Acho que finalmente cheguei a uma bifurcação na estrada. Na dança, não dá para ter as duas coisas, estar no palco diante de uma plateia que está presente apenas pelo espetáculo, sendo amadora. Ou dá, mas esse caminho eu ainda não conheço.

Enquanto isso, e a vontade de colocar uns holofotes na garagem da minha casa e chamar todo mundo para me assistir, hein?!

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6 comentários sobre “Saudade de palco

  1. Trabalhei num projeto que o objetivo era “desmistificar a dança”. Eramos um grupo de bailarinos que gostariamos de apresentar trabalhos simples, sem virtuosismo e sobretudo bonito. Queriamos que nossa dança provocasse as pessoas, sentisse desejo de dançar também. O projeto chamava “vem dançar comigo” e conseguimos a aprovação de lei Rounanet. Apresentamos inúmeras vezes, nos palcos e fora dos palcos tb. Nas praças, shoppings, ruas, escolas…
    Existia um outro grupo que era de terceira idade, elas dançavam com mesmo objetivo, coreografias baseadas em danças circulares. Elas começaram mal reconhecendo direita e esquerda, mas após anos tornaram semi profissionais. Dançaram muito, os convites eram muitos…O projeto delas chegou a ser premiado num congresso sobre terceira idade na Grecia.
    Numa linguagem não clássica, acho mais fácil conseguir esses espaços. A linguagem não é tão rígida, dá para montar projetos com mais liberdade e flexibilidade. Nas poderia ser feita também com ballet classica, porque não? basta ter criatividade e proposta legal.
    Você está fazendo pós-graduação, acredito que deve estar num ambiente previlegiada. Deve ter pessoas com mesmo desejo no seu meio…. Será que não daria para montar um grupo com alguma proposta bacana?
    Cassia, acho que a coisa mais importante é ter clareza de o que você quer expressar com sua dança. O desejo mais puro, mais cristalizado. Quando a gente consegue descobrí-lo e focó-lo com energia certeira, a gente consegue qualquer coisa. Não estou falando de boca para fora não, eu tenho absoluta certeza disso.

  2. Li tanto aqui sobre dançar para si mesma, sobre ser bailarina 1º para si e não para os outros, sobre querer ser bailarina por ser bailarina e não por ser artista… que não esperava esse post.
    Mas foi então que fui lendo e entendi.
    Cássia, Cássia. Tudo isso é porque você já é uma artista em todos os sentidos. A arte corre nas suas veias em todas as formas de expressão.
    Com o Ballet, não sei se existe como satisfazer essa questão. Mas você tem tantos talentos, que certamente devem haver oportunidades, não?

    Eu sempre fui muito tímida, de ficar vermelha só de falar na frente de muitas pessoas (e com muitas, quero dizer 4, 5… rs), de ser o centro das atenções, etc.
    Durante o colégio, apresentei algumas peças de teatro. E isso sempre foi incrível para mim, porque aquela pessoa tímida e ruborizada das coxias, entrava no palco e se tornava uma pessoa completamente diferente. É difícil descrever o sentimento de fazer a plateia rir com uma fala sua, ou com algo que você fez. E uma vez me apresentei dançando. A colega que coreografou a dança era bailarina e ensinou alguns passos para nós. E subir no palco, dançando alguns passos de Ballet… foi mais incrível ainda. E o comentário das pessoas? “Aquela era você mesmo?”

    Mas sempre pensei nisso como coisas de colégio. Aquelas experiências super bacanas pelas quais a gente passa e se lembra com carinho.
    Até que minha professora de Ballet me chamou ao final da última aula e pediu que eu adquirisse uma sapatilha de ponta porque ela quer acelerar meu aprendizado para que eu possa me apresentar no festival do final do ano.

    Eu, uma adulta de 26 anos, subindo num palco fantasiada para dançar para pais, tios, irmãos e primos… imagina isso tudo de novo?

    Ainda nem caiu a ficha. Como será? Nem sei.

  3. Verdade, Cássia. O palco exerce um fascínio tão grande.. era isso que eu queria quando sonhava em ser atriz, essa relação direta com as pessoas. Eu achava isso tão bacana.

  4. Poooxa! que lindo você falar isso.

    Eu sei exatamente o que você está falando, sei por que sinto, por que vivo!
    Eu, a cada dia que passa percebo que o palco é minha casa, é expressar, e rir, chorar, fazer os outros sentirem o que você quis transmitir, causar um impacto em gente que você nunca viu na vida, provocar extremas sensações, despertar a sensibilidade alheia e um novo olhar, uma nova perspectiva, uma nova verdade….

    Ontem mesmo ouvi de uma mestra no teatro, que a maior droga que ela já experimentou foi a adrenalina e a endorfina no palco. Ela consegue chegar rapidamente ao estágio de prazer, de gozo só no ato da peça, sentindo a vibração da plateia, e é isso que é a maior droga do ator: não é a cocaína, a maconha entre outras, mas o maior prazer, aquele que nunca acaba e não é artificial é, de fato, a energia do público de qualquer lugar, é se jogar, se permitir…

    Dançar é mais ou menos isso, só que infelizmente o sistema nos obriga a entrarmos na linha conservadora, ainda há muito há ser mudado, a começar pela “exclusão” de dançarinos que poderiam estar em um patamar igual ao do ator, e poder ser livre no palco sem um esforço e muitos “nãos” e a exigência (de peso, de técnica, de aperfeiçoamento, de cobrança em si). Quando a questão é SE EXPRESSAR, provocar aquilo que não foi levantado, dizer o que não foi dito ainda que sem palavras mas com gestos.

    1. Sim Tita!

      Sei o que está dizendo. Experimentei isto quando chegei aqui no Brasil em 1997. A musica eletronica estava nos boates do momento mas….os Brasileiros não estavam dançando esta musica (tudo mundo meio parado na pista, se olhando). Resolvi de me apresentar como ‘dançarina de techno’ nos boatres e senti aquela adrenalina no meu mini palco! A minha intenção era mostrar com a minha dança, que na musica eletronica você pode se expressar como quisser, você pode se soltar, libertar e misturar vários estilos de dança. (nos momentos ‘lentos’ da musica eletronica eu usava o ballet clássico que fiz na infancia) Queria espalhar luz e amor e também mostrar que ninguem precisa de droga quando se dança e se liberta; a adrenalina e a luz te dão toda energia! A reação do público foi positivo e espontaneio. Adoro os Brasileiros; vocês são um povo muito verdadeiro!

      Beijos e abraços,
      Sara van der Hoek

  5. Oi Cassia,
    Interessante, eu também ando pensando nisso os ultimos dias…..Até lembrei de um post seu sobre uma senhora (uma figura, mas linda, linda!) que há tempo dá aula de ballet clássico para adultos nos EUA e montou um grupo que se apresenta em hospitais, casas de repouso….Vou reler este post porque é inspirador. As coisas estão mundando….daqui em pouco talvez nós vamos nos apresentar para público de maneira gratificante em todos os sentidos e para todos!
    Amo teu blog!
    Beijos,
    Sara

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