Olhar para o passado

Em janeiro, escrevi o post E os livros nessa história? Falei sobre esse desdém com o estudo teórico, mas disse: “Não acho que estudar a parte teórica e histórica da dança seja obrigação.” Mudei radicalmente de ideia.

Nesse fim de semana, passei sábado e domingo inteiros na pós-graduação estudando história da dança. Tive aula com a Camila Coppini que, além de todo o seu conhecimento sobre dança, é uma pessoa encantadora.

Começamos na pré-história, com algumas hipóteses sobre a dança, e chegamos ao nosso tempo, com a dança contemporânea. Depois de 20 horas de estudo, a minha mente simplesmente se abriu e minha visão sobre a dança nunca mais seria a mesma.

Ao entrar em uma sala de aula e nos posicionarmos na barra fixa em quinta posição, achamos que aquilo é somente uma maneira de colocar os pés. Não é. Essa posição percorreu quatrocentos anos para chegar até nós, porque um francês chamado Pierre Beauchamp assim a criou, juntamente com as outras quatro, em 1660 e poucos.

E depois? Falando de uma maneira muito rasa e simplista, o ballet se profissionalizou, as bailarinas foram revolucionárias para a época, o ballet romântico teve o seu apogeu e decaiu porque tornou-se mera exibição de forma e beleza, os grandes coreógrafos foram para a Rússia e os grandes ballets de repertório foram criados, veio o ballet moderno… Acabou? Que nada. Ainda há muita história para contar.

A grande questão é: não há simplesmente ballet clássico, dança moderna e dança contemporânea. Elas não podem ser vistas como danças que existem separadamente, mas sim, como resultado de uma transformação na arte, na sociedade e na história. Hoje, elas coexistem. Enquanto você está indo para a sua aula de ballet clássico, alguém está em uma sala estudando dança moderna, e outro alguém ensaia mais uma coreografia de dança contemporânea. Todos dançando juntos, no mesmo espaço de tempo. Isso sem falar nas outras tantas danças que existem pelo mundo afora.

Sendo assim, por que há tanto desmerecimento entre uma e outra? Dança é dança. Eu me apaixonei por aquela que surgiu graças ao Rei Luís XIV, mas vejo Isadora Duncan, Martha Graham e Merce Cunningham, e tantos outros, com a mesma admiração e gratidão.

Agora, a minha relação com a dança é completamente diferente. Eu a vejo como algo muito maior, simplesmente porque é isso o que ela é.

Quer continuar vendo o plié como um simples passo? Direito seu. Mas se quiser ser profissional, pesquisador ou professor de dança, sinto muito. Está na hora de começar a estudar.

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13 comentários sobre “Olhar para o passado

  1. Faço jornalismo e vou começar o meu tcc, e como a faculdade estava me deixando com ódio pelo jornalismo, descidi juntar com dança. Eu mal sabia onde estava me metendo. É tão, tão difícil a teoria que acho que vou enlouquecer, mas pelo menos, é algo que eu amo. Tem como você me passar algumas referências bibliográficas? (:
    Beijo!

  2. Parabéns pela dedicação! Eh isso aí! fiz uma monografia sobre o ballet e revi sua história, e compreendi, que o balé na verdade está presente tanto na dança moderna quanto contemporânea, por isso que não estão separadas, mais que coesxistirem, elas existem uma nas outras basta ter um olhar mais acurado para perceber. cada técnica tem suas peculiaridades, mas tudo é uma coisa só.

  3. Nossa!
    É exatamente desse jeito que penso. Embora ainda seja nova (e muito…) penso que sempre é hora de ter novas visões, ampliar os horizontes e o campo de orientação. Não somente na dança, como na arte como um todo.
    Como mais que vida, algo que é uma porta para descobrir outras coisas. Penso que a arte é muito mais ampla do que esse conceito medíocre e limitado que as pessoas lhe atribuem. Há quem diga que ” A vida imita a arte e não o contrário.” Sigo essa linha.
    Mas partindo para a dança, eu sinceramente acho que a maioria das pessoas, ou melhor, dos bailarinos atuais não se preocupam em voltar ás raízes e entender mais aprofundadamente muito além da origem de um simples fouettés, por exemplo, com a mesma intensidade e paixão que eles tem pela emoção e o prazer de estar fazendo aquilo que ama: Dançar. Há algum tempo eu fiquei preocupada ao ouvir de minha professora que 4 anos de estudo numa faculdade de dança é muito pouco, é o mesmo que sair de lá despreparado.
    Ela Está CERTA. Mas me pergunto: Será mesmo que uma faculdade é necessário? Quem dança transmite com um gesto, um movimento, um passo, uma cena, toda a poesia que poderia estar em um papel. Quem diz se você está apto a dançar ou a ser um profissional não é o sistema em si, mas o quanto que VOCÊ percebe e busca se aprofundar. Acredito que se você realmente ama o que faz, certamente você irá além, mesmo depois de se profissionalizar vai continuar estudando mais e mais, e se atualizando, e revigorando seus conhecimentos a respeito. Mas com a arte já é mais amplo: Não se pode ensinar a essência, pois cada individuo tem a sua, cabe a ele descobrir sozinho. Pois acredito também que quem dança procura se expressar de alguma forma, e essa forma (através das notas e de amplos movimentos corporais) já nasce com ele, ele apenas a ponhe pra fora.
    No entanto não se pode julgar, cada um sabe a paixão que possui, e o tamanho de sua entrega e compromisso com aquilo que diz amar.

    Mesmo com minha visão um pouco esquisita, busco sempre seguir essa linha de raciocínio que você propõe Cássia. Pois é necessário sim buscar ampliar o campo de visão, nunca é tarde.

  4. Concordo muito com o post. Sempre gostei de estudar a teoria por trás da dança, é uma pena que seja tão difícil encontrar material pra isso. Hoje tenho acesso aos livros da biblioteca do curso de dança da universidade onde eu estudo, mas achar pra comprar mesmo é uma tortura. A minha opinião é que quanto mais você conhece mais você ama, mais você encontra um sentido naquilo que tá fazendo. Já conheci pessoas que não se interessavam muito nem em assistir aos espetáculos das cias, como você pode amar dançar algo e não ter o mínimo interesse em saber mais sobre essa dança ou em assistir pessoas experientes dançando? Não funciona pra mim, felizmente.
    Beijinhos.

  5. mais e mais vontade de fazer esse curso… todo dia!
    eu quero ter essa visão também. :(

    aah, mas muito sucesso pra você, e traz sempre essa sua visão, pra gente ter um pouquinho também :)

    Beijocas!

    1. Caaaaaaalma, Cyndi! Você ainda tem um caminho a percorrer: fazer faculdade, ter um tanto assim de vivência e então fazer uma pós-graduação. A gente consegue uma visão mais ampla das coisas não apenas com o estudo, mas com o tempo. Devagar com o andor. ;)

      Grande beijo.

  6. Cássia, vc saberia quando eles abrirão nova turma nessa pós que vc está fazendo? Ou sabe de algum link onde eu possa me informar?

    Bjooooooooos!!!!!!!

    1. Carol, a FMU ministra esse curso em São Paulo; a Gama Filho, em várias cidades. Fique atenta nos sites desses dois locais, porque eles divulgam as datas de inscrição e início do curso.

      Grande beijo.

  7. Simplesmente parabéns pelo seu texto, Cássia!!! Outro dia eu comentei algo parecido na minha aula de ballet, em que eu pensava que as pessoas que estudam dança devem estudar um pouco mais além de passos para saber o que está fazendo de verdade. Conheço muita gente que trabalha com dança ensinando, que ainda não se ligou nisso infelizmente, já perdi até amizade por causa disso…

    1. Janaina, professores de todas as áreas continuam estudando. Preparam aula, vão além, fazem cursos. Professores de ballet acham que oito anos de formação está ótimo! Estão prontos para dar aula e nunca mais estudam na vida. Isso beira o absurdo. E ostentam o diploma na porta do estúdio. Nossa, você já perdeu amizade por conta disso? Mas nem esquente com isso. Há pessoas que pensam diferente e é isso que nos alenta. =)

      Beijos.

  8. Não poderia concordar mais. Minha paixão pelo ballet apareceu instantaneamente sob a forma de estudo aprofundado. Eu quis entender o corpo das bailarinas, a forma como isso as afetava, a dor, e principalmente a história dessa arte tão linda. Só depois de três anos fazendo minhas pequisas sobre ballet e lendo MUITO, resolvi entrar em uma aula. É preciso mais consciência da maioria dos alunos, porque ballet não é só coração, é também maturidade e muita disciplina. Não podemos nos render ao encantamento instantâneo que a leveza da dança nos proporciona, porque dessa maneira, não estaríamos enxergando todo o quadro, a realidade. Estudar, estudar e estudar. Pesquisar, sempre, antes de afirmar que aquilo faz parte da sua vida, de coração.

    1. Daniela, concordo plenamente quando você diz que ballet não é só coração, é também maturidade e muita disciplina. É muito comum a gente ouvir “eu amo ballet!” ou “falta paixão na dança!”. Pelo contrário, está sobrando paixão e faltando estudo, maturidade e disciplina. E adorei o final do seu comentário: “Estudar, estudar e estudar. Pesquisar, sempre, antes de afirmar que aquilo faz parte da sua vida, de coração.” Não poderia concordar mais.

      Grande beijo.

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