Você não é tão ruim quanto imagina…

Nem as outras são tão boas quanto você pensa.

Eu estou exagerando? De maneira alguma. Quando entramos no ballet clássico, especialmente quem nunca o fez antes, acha que todas as bailarinas mais avançadas são incríveis. As próprias professoras incentivam isso, as colocando como os modelos a serem seguidos. E você, oh! pobre novata, se sente a pior das mortais.

Mas o tempo passa, você estuda, pesquisa, treina muito e desenvolve uma coisa chamada senso crítico. Então chega o dia em que, novamente, assiste às tais “primeiras-bailarinas do estúdio” dançando. E? Bem… Falta técnica, limpeza nos movimentos e presença de palco. Onde quero chegar com isso? Desmerecer as mais avançadas? Não, eu não desmereço as pessoas. Quero dizer outra coisa.

Muito cuidado com o deslumbramento nos estúdios. É comum existirem as eleitas que representam a grandiosidade do lugar. E, por terem mais tempo de estudo, são vistas como as melhores. Agora, uma pergunta: entre um aluno de terceira série nota 10 versus um aluno de oitava série nota 7, quem é melhor? É possível comparar?

Não, mas é o que acontece. A pirueta limpa da bailarina do básico é vista como obrigação. O fouetté malfeito da bailarina do avançado é visto com aplausos. Parece que temos de chegar ao topo, mesmo aos trancos e barrancos. A limpeza técnica e o avanço gradual e constante não são vistos com bons olhos. Mas acreditem, eles farão diferença mais para frente.

Por uma imensa ironia, acabei assistindo a algumas bailarinas que já passaram pela minha vida, as quais eu via com uma certa inveja velada. É duro admitir isso, mas é verdade. Qual não foi a minha surpresa ao perceber que não, elas não eram incríveis. Elas eram as garotas nota 7 da oitava série.

Resolvi me rever, assisti aos DVDs que tenho (quando escrevi o post Os braços e as mãos) e, não, eu não era tão ruim quanto imaginava. Era meio dura, estava imensamente cansada (olá, professoras que fazem as alunas ensaiarem o dia inteiro quando há apresentação!), mas tinha o meu encanto. Consegui atingir o que as coreografias exigiam. E, afinal, não é esse o propósito?

Agora, responda: Você é mesmo tão ruim? Ah, você não conseguiu dançar o que era pedido na coreografia? Cuidado com o segundo erro das professoras: colocar as alunas para dançar o que está além da sua capacidade. Há muitas professoras de ballet clássico dando prova de ensino médio para alunas de ensino fundamental, se é que vocês me entendem.

Compreendam o que quero dizer: não é para ninguém sair por aí vendo defeito nas outras bailarinas. É para olhar para si mesma. E, mais importante, estudar. Quem tem conhecimento corre menos risco de se enganar. Conheça o ballet clássico. Saiba reconhecer técnica clássica, limpeza dos movimentos, presença de palco, qualidade artística. Não para os outros, mas para você. Só assim é possível enxergar onde você se situa nesse meio todo. E saberá distinguir se as críticas que você recebe dos seus professores têm fundamento ou se existem apenas para desmerecer o que, de fato, não corresponde à realidade.

Não sou a favor da soberba, tampouco da subestimação. Nós temos de aprender a enxergar as coisas como elas realmente são.

Anúncios

14 comentários sobre “Você não é tão ruim quanto imagina…

  1. Nooossa Cáassia, esse post me descreveu EXATAMENTE, semana passada eu estava tentando explicar isso à minha mãe e ela eu acho que não entendeu muito bem o que eu estava querendo dizer, vou mostrar esse post a ela. Quando eu entrei no ballet clássico, cheguei 2 horas mais cedo que o meu horário e vi a aula das meninas do avançado, eu queria, eu desejava ser igual a elas, para mim elas eram todas perfeitas e metas a serem atingidas. Mas depois de um tempo, eu fui percebendo que elas não eram aquilo tudo, aquilo que você disse, é algo como “é melhor fazer uma pequena coisa bem feita, do que uma grandiosa mal feita” A verdade é que eu estava fascinada porque elas se aventuram a ir além do que podem, elas são “babadas” por todos e por isso sabem que não importa o que elas façam vão escutar “ficou lindo”. A verdade é que elas se sentem princesas no castelo, mas todo castelo pode cair, e princesas um dia são substituidas por outras, e nem todas princesas se tornam rainhas. E nós temos que parar com isso de querer ser iguais a outras pessoas, temos que começar a entender do assunto antes de julgar bem ou mal feito. Nós temos que ser nós mesmas. Sentir a dança dentro de nós. Uma coisa que eu acho o auge de uma bailarina que não é a quantidade de aplausos, nem medalhas ou prêmios, claro que eu quero tudo isso, mas uma coisa que eu quero de verdade é isso: Sentir a música, eu ser a música, a música estar tocando e o movimento fluindo, e mesmo que a música pare, continuar dançando em série, no ritmo, porque eu sou a música, e nem toda música precisa de caixa de som, apenas de um bom ouvido humilde.

  2. Há algum tempo venho pesquisando sobre ballet na internet e já me deparei com vários blogs, sites… Este blog em específico me chamou atenção pelo conteúdo rico e pela carga extra de sentimentos que fazem as palavras bailarem nos textos coerentes e cheios de filosofia. Na verdade filosofia da vida real, aquela que se aprende e se vive dia após dia. Comecei a fazer ballet há um ano e meio, com 33 anos. Seu blog é inspirador. Parabéns!

  3. Foi por causa dessas primeiras-bailarinas que eu saí do ballet. . Eu via bailarinas medianas tecnicamente e zeradas teoricamente ”brilhando” com os melhores papéis…É uma longa história que envolve vários fatores, mas só posso dizer que morro de saudades de dançar.

  4. Lindo post, Cássia. É sempre bom ler suas palavras que soam como um abraço confortante desses que a gente precisa ganhar certos dias…
    Hoje eu estava refletindo sobre outra questão, uma companheira de classe chorou na sala durante uma correção (não por causa da correção em si, porque foi uma correção pertinente e bastante respeitosa), mas porque ela estava se sentindo como muitas de nós… perdendo tempo, tendo começado tarde…achando que ‘nunca iria ser boa’. Coisas que eu costumo pensar também de vez em quando…
    E daí esse post soube se encaixar direitinho mesmo abordando outra questão, outro ângulo…muito obrigada!

  5. Cássia, muito obrigada pelo seu post! Assim como a Flor levou a lição para a enfermagem, eu levo para a minha vida como um todo – e isso também inclui o ballet, é claro ;)
    Acho que você está certíssima e vou brigar comigo mesma até aceitar 100% essa ideia.

  6. Cassia, que coisa mais incrível!!!! este final de semana eu e meu marido pegamos para assistir a videos antigos da academia e estávamos fazendo EXATAMENTE esta reflexão! Que coisa mais louca! Como é importante o estudo para que a gente entenda técnica, interpretação, entre outras coisas. Alunas que eram tidas como perfeitas, são, na verdade, muito limitadas tecnicamente! Como isso abriu meus olhos este final de semana e agora, com seus post, me deixaram ainda mais “elucidada” com relação a isso. Não pe que sou boa (pelo contrário, vc sabe o quanto me cobro e me critico), mas vejo em mim um avanço e limpeza em coisas mais básicas que pessoas formadas, com mais gabarito, não tiveram. Muito legal ter lido isso hoje, estou começando uma semana renovada! Bjus!

  7. Olá Cássia! Já há alguns tempos não comentava aqui, não é verdade? Mas nem por isso deixei de visitar alguma vez o teu blog. ;) Continuo a seguir como uma fiel leitora e deixa-me que te diga que gostei muito deste post, em especial por teres feito uma referência a uma mensagem anterior tua (a qual eu lembro-me perfeitamente de ler) e de reconheceres que é natural cometer erros, coisa que na altura em que escreveste essa antiga mensagem achei-te muito dura para contigo mesma.

    Desejo-te muita sorte com essa pós-graduação!

  8. Engraçado… o mesmo aconteceu comigo, mas não no ballet e sim na enfermagem. Só há pouco tempo descobri que eu não era tão ruim quanto imaginava. Eu era apenas a aluna da terceira série com um 10 me cobrando para ser igual às meninas da oitava série que tiravam 7. Ainda bem que percebi isso enquanto era tempo… :)

  9. Adorei o post, Cássia! Acredito que todos os envolvidos no mundo do balé já passaram ou ainda passam por isso, de buscar inspiração em quem nem sempre é tão bom como a gente imagina inicialmente. O que nos resta é tirar como exemplo somente o lado bom dos outros e nos esforçar para que façamos o melhor que pudermos, em prol de nós mesmos.

  10. Amei esse post, principalmente porque eu descobri um pouco isso um dia desses, quando resolvi assistir a uma filmagem antiga na qual dança como a Clara do Quebra Nozes a bailarina que foi minha grande inspiração em termos de ballet desde criança (a fita é de uma apresentação que a minha irmã dançou quando era bem pequena). Eu achava ela simplesmente magnífica e, agora que eu já assisti tanta coisa e vi tantas bailarinas diferentes… não é que ela não era tão linda assim dançando? Tecnicamente falando, em termos de limpeza nos giros, en dehors e expressividade. Mas, no final das contas, ela continuou sendo uma inspiração pra mim. Eu falhei na resolução de voltar para o ballet esse ano por um monte de motivos (o que não foi de tudo ruim porque eu tô amando dançar contemporâneo), mas eu comecei a pensar que não é de tudo ruim ter uma inspiração que é parecida comigo, cheia de defeitos, mas ela tinha o olhar de quem estava amando a dança, o palco e tudo. Talvez tenha sido isso que tenha me feito me encantar por ela quando criança e, nesse sentido, quero ser uma bailarina como ela. Ainda que hoje eu seja a criança da 4ª série e nem seja realmente nota 10. Todo mundo tem defeitos, acontece que quando começamos a dançar queremos ser o melhor e esquecemos que ninguém é perfeito, quem está no avançado já passou pelo intermediário e pelo iniciante antes, ninguém começa a fazer ballet dando fuettés e grand jetés, nós não somos piores que ninguém por causa disso. Acho que eu falei demais, haha.
    Beijos

  11. Passei exatamente por isso, e como era o único menino da classe achava que ficava mais evidente ainda meus erros, mas fiz exatamente o que voce falou, fui estudando mais e confiando mais no que eu fazia. Resultado: melhorei muito mais minha técnica e vi que ninguem é perfeito.

  12. Cassia,
    Quero muito te ajudar.A boa bailarina,como já disse antes, não existe,o que existe são os estereotipos que são criados por cada pessoa que as vê.Estude tudo o que voce tem que estudar.A resposta virá com a dedicação,persist~encia,disciplina e força de vontade.No ballet existe aquela máxima que muitas vezes funciona:50% de dedicação,30% de persistência e 10% de talento.ISTO MESMO 10% DE TALENTO!!!!!!!!!

Os comentários refletem a opinião das leitoras e dos leitores e não correspondem, necessariamente, à opinião da editora do blog.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s