Os dois lados do respeito

No post A importância das correções, eu comentei que “você pode até não gostar do seu professor, mas lhe deve respeito.” Disse para não bater o pé, não rebater, não responder, enfim, ouvir quieta as correções e acatá-las.

Pois algumas bailarinas comentaram sobre atitudes abusivas de professores. A Mariana resumiu a questão: “Parece que o respeito é unilateral, tem que partir obrigatoriamente de quem aprende, mas não há respeito algum vindo de quem ensina.”

Depois disso, eu nem precisaria escrever um post. Ela disse tudo. Mas como eu gosto de falar, vamos lá.

Eu sou capaz de aguentar muitas coisas de professores. Até lapsos de competência. Mas algo que não me segura em lugar algum é falta de respeito. Para mim, uma professora de ballet gritar com uma aluna para que ela aprenda é tão absurdo quanto um professor de química gritar sobre ligações iônicas e querer que o aluno entenda.

“Cássia, mas sempre foi assim no ballet clássico.” Se você faz parte da turma que aceita tudo na vida porque sempre foi assim, você está no blog errado. Comum não é sinônimo de normal. Não é porque sempre foi assim que deva ser assim. E o mais engraçado é que há professores que corroboram essas atitudes. Não só as aceitam como as reproduzem.

E se fossem apenas gritos, poderíamos acionar a audição seletiva. Mas não. Há outros absurdos. Humilhações de todos os tipos. “Gorda desse jeito, nunca vai girar!” “Você não nasceu para fazer ballet, não sei por que perco o meu tempo.” “Você não dança bem e, pelo visto, nunca dançará. Diferentemente da Fulana, olha como ela dança!” Sério que isso é aceitável?

Mais outro absurdo? Alunas preferidas. Há quem seja primeira-bailarina em sala de aula. “Isso, Siclana, linda! Mas que pé, que linhas, nossa!” As outras não ouvem um “a”, seja correção ou elogio. Estão lá para fazer volume. Escolher algumas alunas, as melhores tecnicamente, para dar ênfase ao estudo, não é apenas desrespeito, é não ter noção do próprio ofício. Não quer dar aula para todos os alunos, não seja professor.

Tem mais? Tem. O deboche. “Nossa, isso é maneira de saltar, Beltrana? Hahahaha.” Hello, quinta série! Há professores que também estacionam nessa fase da vida.

Gritos, humilhações, segregação, deboche. Dá para aceitar essas atitudes de profissionais que recebem para dar aulas? Sim, porque estamos falando de prestação de serviço. Estamos falando de competência profissional. E olha que nem estou entrando no mérito técnico, hein?! Porque se eu começar a falar sobre professores que sequer têm domínio do conhecimento para dar aula, não sairemos daqui hoje.

Espero, sinceramente, estar viva e saudável para ver essas atitudes serem reprovadas no meio da dança. De verdade. Chega de ouvir que sempre foi assim. Respeito tem dois lados: vai e volta. Quer ser respeitado pelos seus alunos? Seja digno desse respeito e comece por você.

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19 comentários sobre “Os dois lados do respeito

  1. Eu gosto de dançar desde criança, infelizmente foi um sonho que comecei muito tarde a realizar, no começo foi tudo maravilhoso,mas nesses 3 anos de aprendizado tive que sair no terceiro ano tive que abandonar a escola por motivos profissionais.Enfim voltei no quarto ano,porém antes não tivesse voltado as coisas ficaram um pouco diferentes,tive decepções com minha professora,ela mandou que uma das meninas mandasse um recado no gpo do whats dizendo para eu e mais uma colega não ir durante uma semana,alegando treinar os demais alunos,só que acabei não entendendo e achei que ela estava nos excluindo e pedi explicações no gpo.Ela teve uma reação em que eu não esperava,ao invés de me chamar no privado respondeu no gpo com aqueles textos feitos:pessoas chatas chateiam e por aí vai.Mas não tenho a pretensão de me tornar uma bailarina profissional, eu começei porque é uma forma de desestressar e porque amo o mundo das artes em todos os sentidos e no final tudo se resolveu e continuo, tanto que irei me apresentar,pelo menos esse ano,acredito que é nescessário um ambiente de respeito e de perseverança,quando isso é quebrado,isso causa uma barreira grande entre o aprendizado e o professor.

    1. Cristiane, a sua professora foi antiprofissional e antiética. Se você é aluna matriculada na escola, ela não pode simplesmente pedir para você não ir às aulas; sem falar nos comentários no grupo, de uma infantilidade desmedida. Independentemente dos seus objetivos na dança, a obrigação da sua professora permanece a mesma: ensinar. Deu tudo certo na sua apresentação? Espero que, pelo menos nisso, ela não tenha prejudicado você. Grande beijo!

  2. Acho um absurdo issso..professores não tem o direito de humilhar os alunos apenas porque “sabem mais”, alias ngm tem.
    na minha academia todas as professoras são uns amores, corrigem sempre,brigam de vez em quando, mas sempre com mt respeito e carinho por todas as alunas

  3. Nossa,estou passando por essa situação agora com minha filha, ela está no ballet desde os cinco anos, agora está com onze e me disse que esse é seu ultimo ano, tudo por conta do professor que constantemente a chama de gorda, ela não é magérrima, mas é uma criança, tem aquelas gordurinhas normais da idade mas que conforme for entrando na adolescência vão se transformando, eu tb era assim, hoje sou magra, e tb mesmo que continuasse mais cheinha ela dança por prazer, nunca almejou se tornar profissional, que mal há de estar um pouco acima do peso?? enquanto isso outras alunas “magras” mas que se atrasam,faltam aulas, vão com uniforme incompleto com o coque desfeito, coisa que a minha nunca fez são as queridinhas e nunca são chamadas atenção, estou muito triste com a situação, pq essa é a unica escola de ballet na minha cidade e acho uma pena ela largar agora depois de tantos anos, e não é pq é minha filha não mas ela dança lindamente, tanto ponta qt meia ponta.
    O que vc acha Cássia??
    Beijos

    1. Acontece o mesmo comigo,fico mt triste ,não qria ser A preferida ,mas gostaria de que pelo menos reconhecessem o meu esforço ;/

  4. Perfeito Cássia!

    Acompanho seu blog desde o ano passado, quando comemorei meu aniversário de 28 anos com a matrícula na aula de ballet adulto! Rs… Uma história parecida com a sua.

    Resolvi comentar esse post pois eu e meus colegas passamos por uma situação semelhante na última semana.
    Temos uma professora ótima, que nos corrige entendendo nossos limites e a possibilidade de superá-los, e que nos transmite o amor que ela sente pela arte e pela profissão. Mas na última semana recebemos uma coreógrafa que, apesar de possuir vários “títulos” e de ser bailarina por mais de 40 anos, só conseguia passar conhecimento através da grosseria e da humilhação! Gritando com uma das alunas, chegou a pedir para nossa professora, que assistia à aula, que corrigisse a aluna referida, pois a coreógrafa “não teria paciência para uma bailarina tão ruim”. Um absurdo completo!!
    Todos nós, alunos, ficamos estarrecidos. Questionamos como seria possível alguém querer ensinar algo tão leve, belo e artístico como a dança de modo tão rude, indelicado, e pq não dizer, infeliz. Acho que dançar é uma forma de expressar a felicidade, a arte, a música.
    É isso deve estar presente em cada aula, e não o medo e a humilhação.

    Parabéns pelo post e parabéns aos professores que ensinam com amor e felicidade.

  5. Perfeito!!

    eu percebo isso em todo tipo de professor, os meus da escola tbm tem essa síndrome de rei/rainha com essa idéia fixa de que estão fazendo um favor ao dar aula, que estão sendo mto generosos em compartilhar o seu grande conhecimento (que na maioria das vzs nem é tão grande assim) e esquecem que são os alunos que os sustentam e pagam suas contas…

    é difícil ensinar?é. é difícil ter paciência com quem tem menos facilidade de aprender? é. mas a pessoa tem q ponderar essas coisas antes de escolher sua profissão pq são desafios obrigatórios a esse tipo de profissional..

  6. Como eu disse no outro post – A importância das correções – meus professores são muito rígidos, mas nunca me desrespeitaram. Me corrigem toda santa aula, sem gritar, zombar ou qualquer outro insulto mencionado no texto. Ainda bem, fico muito feliz com isso.

  7. Sem querer ou sem saber muitos deles acabam destruindo sonhos. Porque imagina se alguém procura uma escola e tem um professor desses? Bom ela muda de escola. Mas se na próxima escola tem outro assim? E sabemos bem que os bons e dedicados são minoria e isso é em tudo na vida. Eu acho que a aluna prejudicada deve conversar com a professora e se não der jeito falar com a diretora da escola. Afinal todas vocês fazem aulas em escolas particulares,não é? Mesmo se não fosse, elas teriam a mesma obrigação. Elas não recebem salário? E mesmo se não recebem, se fossem voluntárias, ninguém as obrigou a estar ali. Foram por vontade própria. Pra mim pessoas que agem assim é porque falta amor e motivação na vida. Mas nós não temos culpa.

    1. sim, Cássia. Entendi que não és tu quem está passando por isso. beijos e bom fds

  8. Minha professora é bastante exigente em relação à técnica. Não é porque “já tenho” 33 anos, dois filhos bebês e não terei possibilidades de me tornar uma Tamara Rojo, que me deixa dançar com os joelhos dobrados. Estou completamente habituada com as correções durante toda aula. Ela as faz com firmeza, mas também educação e respeito. Não gostaria de ser pouco corrigida. Para aprender qualquer ofício, não tem como ser diferente. Eis aí o talento e vocação do mestre. Nem todos são bons alunos; nem todos, bons professores. Eu sou dentista. Sempre quis ser. No primeiro vestibular que passei, não gostei da faculdade, nem dos professores. Mas amava a odontologia. Então não desisti do curso. Fiz vestibular de novo, comecei do zero e me formei em outra escola. Serve para o ballet. Se descontente, não desista. Procure outra escola. Bjs

  9. Esse pode ser o motivo das recorrentes desistências algumas de nós, bailarinas adultas, que depois de anos e alguns “traumas” voltaram, autoconfiantes, a calçar as sapatilhas. Quiçá talentos desperdiçados ou subaproveitados.

  10. Estou passando exatamente pelo contrário na minha escola… Minha professora tem receio de magoar as alunas , gritando, corrigindo com muita insistência ou constrangendo-as de alguma forma.
    Fizemos uma avaliação da escola, do método e da aula e eu citei que gostaria que ela fosse mais “enérgica” em suas correções.
    Não, não estou afim de ouvir: “Thais você é um lixo, pliéeeeeeee pelo amor de Deus”, não é isso,rs.
    Minha professora faz comentários genéricos e não específicos pra ninguém, só se for extremamente gritante.
    Estamos todas no relevé em quinta posição, ai ela diz coisas como :”Joga o tronco mais pra frente…”.
    Ela esta falando com Quem??? Comigo??? Ai eu toda preocupada, me coloco um pouco pra frente e saio do eixo… e despenco! Ou seja…não era comigo.

    Vejo algumas alunas com mais dificuldades em executar certos movimentos (não vou considerar o fato de que para algumas, trata-se de pura falta de vontade e persistência) e essas alunas fazem coisas tão bizarras na minha frente, que as vezes dói de olhar e eu penso “Nossa senhora da sapatilha, alguém corrige essa pessoa” e o máximo que ouço é : ” Alonga mais o braço…”; e normalmente essas meninas são as que nem ligam para o comentário da professora, afinal, não disseram o “nome” delas, especificamente.

    É complicado…. Eu não sou a prima-ballerina na sala, não sou excepcional nem nada, mas gostaria muuuuuito de ouvir mais vezes o meu nome nas correções, eu não me importo, pelo contrário, quero ser corrigida e instigada a melhorar, nem que fosse pra parecer que estava sofrendo perseguição.

    Situações adversas no ballet é o que não nos falta, não é mesmo? rs
    Ótimo post!
    Bjs

    1. Thais,
      na minha academia acontece a mesma coisa!
      Acredito que isso acontece pq o pessoal tem medo de perder aluno. Eu mesma não gostaria que meu filho chegasse em casa falando que a professora de ballet gritou com ele, ou então que ele não se sente motivado pq sempre é corrigido, fazendo com que ele pense que não é capaz de realizar um movimento e não queira voltar mais as aulas.
      Sou uma Ballerina adulta, comecei aos 21 anos, e sempre ouvi o mesmo de muita gente: “ah, e você vai ter saco em ser corrigida e ficar levando bronca? Já está bem grandinha”. Eu mesma não me incomodo em ser chamada a atenção, até pq eu estou na sala de aula para aprender, e assim como vc, gostaria de ouvir mais o meu nome pq eu sei que erro muita coisa! Acho que vc pode levar uma bronca e nela ser completamete respeitada. Concordo com a Cássia. Não é só pq o seu mestre foi super rude e grosso com vc, que hoje o seu dever como professor é fazer o mesmo pq com vc “deu certo”.

      Beijos

  11. Olha Cássia, gostei muito do post. Eu fiz ballet dos 4 aos 11 anos e parei pois era muito humilhada pelas professoras. Por diversas vezes, durante os exames, uma delas ria da minha ponta, que não era boa. Em outras, eu ouvia que era gorda e que se quisesse dançar teria que ser magra. Quando começamos com a ponta, eu fiquei doente na semana em que todas aprenderam a colocar a sapatilha, ponteira, fitas.. eu estava doente e não fui às aulas. Na semana seguinte, todas sabiam e eu não. Você acha que a professora me ensinou? Ela me disse ” ng mandou faltar”. Enfim, não colocava direito, não conseguia subir na ponta, durante muito tempo.
    Isso tudo pra uma criança de 10 anos. Aguentei mais um ano e desisti. Agora pensem, quantas outras não desistem por falta de respeito das professoras? Eu não sei se estava ali para ser uma profissional, o que eu queria era dançar. Simplesmente..

    Enfim, falta de respeito não dá, isso TEM que mudar.

  12. Nossa Cassia, bacana você ter abordado isso! Todas as situações que você mencionou no post já aconteceram comigo, como eu comentei naquele mesmo post sobre a importância das correções. Porque dar uma de Capitão Nascimento de sapatilhas é fácil, difícil é fazer um aluno, que não tem corpo ou talento à primeira vista, crescer e florescer em aula. Digo por experiência própria, pois tive uma professora que conseguiu operar milagres em minha dança e em meu corpo no geral!

    É claro, tudo foi à custa de muita, mas MUITA luta mesmo. Você até pode não se tornar a próxima Svetlana Zakharova, mas com uma dose generosa de boa vontade, dedicação, disciplina, e uma boa professora ou professor, você consegue se tornar a melhor bailarina que pode ser (parafraseando Center Stage). Ouso dizer que 60% de tudo depende de você mesma em sala de aula, e o restante, de uma/um mestre tão interessado em ensinar quanto você em aprender!

    Utopia minha? Talvez. Mas quem sabe um dia a maioria dos professores pense assim, não é? Torço muito para que a discriminação e a humilhação gratuita em sala de aula sejam erradicadas de vez. Porque nada me tira da cabeça que muitos grandes potenciais da dança se perdem em algum ponto do caminho, por causa de traumas gerados por maus professores (acreditem, vi isso acontecer a 3 colegas, todas talentosíssimas o bastante para entrar em uma companhia internacional).

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