Os sapatinhos vermelhos

Há bastante tempo, eu li o livro Mulheres que correm com os lobos, da psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estés. É uma daquelas obras que toda mulher deveria ler pelo menos uma vez na vida. Mas seria bom reler e reler e reler…

O capítulo “A preservação do Self: a identificação de armadilhas, arapucas e iscas envenenadas” começa com o conto “Os sapatinhos vermelhos”. A versão contada por Clarissa não é de Hans Christian Andersen, mas uma versão germânico-magiar, que ela ouvia quando criança.

Basicamente, é a história de uma menina pobre que tinha sapatos vermelhos feitos a mão. Adotada por uma rica senhora, ganhou roupas e sapatos novos. Os velhos trapos e os sapatos vermelhos foram jogados fora. A menina ganhou sapatos vermelhos novos e ficou fascinada por eles. Aí começou a sua ruína. Ela dançava sem parar e, para a agonia cessar, ela teve os pés amputados. Os pés com seus sapatos vermelhos continuaram dançando por aí…

Eu fiquei muito impressionada com a história e com o desenrolar do capítulo em si, especialmente pelo significado desse “dançar sem parar”. Aliás, ele representa algo nada saudável, é bom deixar claro. Quando descobri o filme Os sapatinhos vermelhos, quem disse que eu queria assistir? Até o dia em que, ao mudar de canal, o encontrei prestes a começar. Enfim, eu assisti.

Estrelado pela bailarina Moira Shearer, o ponto principal do filme é a sua escolha entre a carreira e o casamento. O espetáculo do qual ela é a principal conta a história de “Os sapatinhos vermelhos”. São as suas sapatilhas vermelhas nervosas que não param nunca. Há uma linha tênue entre o que ela dança e o que está acontecendo em sua vida.

Tanto o conto quanto o filme falam de uma coisa: obsessão. “As pessoas que são apanhadas e levadas pelos sapatos vermelhos sempre começam pensando que qualquer substância da qual estejam dependentes representa uma forma ou outra de salvação. […] No entanto, no final das contas, a dependência só cria, como vemos na história, uma paisagem borrada que gira com tal velocidade que no fundo não se está vivendo uma vida de verdade.” (Estés, 1994, p. 315)

Sabe quando uma pessoa se sente vazia e se apega com unhas e dentes a alguma coisa que a faça se sentir viva? É o que acontece nessa história. Para cada um pensar consigo mesmo se isso é bom ou ruim.

A leitora Juliana quem pediu um post sobre o filme. Nunca falei sobre ele porque essa história me assusta. Mas é bacana assistir e refletir sobre ele. Ou, no mínimo, se deslumbrar com as cenas de dança.

Para ler

  • Clarissa Pinkola Estés. Mulheres que correm com os lobos. “Capítulo 8. A preservação do Self: a identificação de armadilhas, arapucas e iscas envenenadas”. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1994. p. 269-320.
  • Rubens Ewald Filho. Redescobrindo os Clássicos: Blu-ray: Os sapatinhos vermelhos (The Red Shoes), aqui.

Para assistir

  • Os sapatinhos vermelhos (The Red Shoes), de Michael Powell e Emeric Pressburger. Inglaterra, 1948, 134min.
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8 comentários sobre “Os sapatinhos vermelhos

  1. Cassia! Obrigada pelo post! Nunca vou me cansar desse filme! :)
    Mas uma frase sua me impressionou:
    “Sabe quando uma pessoa se sente vazia e se apega com unhas e dentes a alguma coisa que a faça se sentir viva?”
    Essa frase por si só acho que explica perfeitamente a personagem.
    A questão é que, com uma pontinha de culpa, eu me identifiquei com esta frase. Por muitas vezes transformei algo em obsessão, e agora eu percebo que foi em momentos em que eu precisava me agarrar a alguma coisa para não cair. Foi assim com muitas coisas na minha vida, em diferentes momentos. O ballet foi uma dessas obsessões, eu simplesmente tinha ele na cabeça 24/7.

    Detalhe, eu tenho sapatilhas de ponta vermelhas. Na minha época de obsessão com o ballet, minha segunda obsessão era ter sapatilhas vermelhas. Eu nunca tinha ouvido falar do filme, eu queria elas vermelhas porque adoro sapatos vermelhos, então porque não sapatilhas? Comprei um par e usei algumas vezes. Depois de assistir ao filme, olhei para elas assim de canto de olho e falei apenas: “hum, sei, vocês não vão conseguir o que querem…”

    Talvez eu quisesse direcionar isto para mim, e não para as sapatilhas. O importante é que hoje eu não dependo das minhas sapatilhas para preencher vazio nenhum. :)

    1. Ju, não precisa agradecer. Esse filme realmente merecia mesmo um post. E não sinta culpa por ter sido obsessiva em vários momentos da sua vida. Às vezes, sentimos mesmo essa necessidade de nos apegar a algo com unhas e dentes, até que simplesmente passa. O mais importante é o que você disse: não depender das sapatilhas (ou de qualquer outra coisa) para preencher vazio nenhum. Quando chegamos a esse nível, aí sim somos muito mais felizes. =)

      Grande beijo.

  2. Bom dia Cassinha, tudo bem?

    Qq coisa que façamos “sem parar” é obsessão, não é?

    Bom nessa epóca, não tem jeito é ensaios, ensaios e mais ensaios rs

    beijos

  3. Se não me falha a memória, comentei algo sobre este filme com você.
    Ele é de certa forma tenso pois fica bem explicita a tal obcessão. Não é difícil nos identificarmos como ela ainda que por um segundo.
    Cássia, amei a dica dos livros!

  4. Tudo que que é feito de maneira exagerada traz consequências ruins. E entre o amor e a carreira?Fico com o amor. Porque mesmo a carreira mais bem sucedida não preenche nossos vazios. nem traz a real satisfação.

  5. Eu adorei o filme, já conhecia a historia, porem nunca havia assistido, foi uma coincidência pq eu também estava mudando de canal quando vi o filme ainda sendo anunciado então é claro que foi assistir, pois já tinha procurado e não encontrei, foi sorte…
    Adorei o espetáculo e o jeito da Moira Shearer de dançar.
    bjs e até

  6. Olá Cássia, como está.
    A dias ando “futucando” seu blog e gostei bastante do trabalho.
    Parabéns =D

    Gostei mto tbm dessa dica de “história”, vou procurar ver o vídeo.
    :)

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