O tempo de cada um

Eu nunca fui aquela aluna que amava Educação Física. Pelo contrário, fugia das aulas com todas as minhas forças. Só era boa em corrida, ganhava de todo mundo. Talvez porque quisesse realmente fugir. Tanto queria que ia a médicos para ser dispensada. E consegui: eu realmente tenho um problema no joelho. A partir da sexta série, nunca mais precisei fazer essas aulas.

O ortopedista só liberou uma coisa: natação. E os meus pais, claro, só me deixavam fazer isso, nadar. E nadei durante um ano.

Eu afundava mesmo usando prancha. Só para aprender a boiar demorou um tempão. Todos eram mais rápidos do que eu. Até que o professor percebeu que, se mantivesse comigo as mesmas séries dos outros alunos, eu não aprenderia a nadar nunca. O que ele fez? Primeiro, ele passava o que eu deveria fazer. Depois, o que os outros deveriam fazer. Eu tinha todo o tempo que quisesse para nadar as séries indicadas por ele.

O que aconteceu? Continuei sendo a mais lenta. Mas aprendi a nadar melhor do que todo mundo. Depois de um tempo, o professor nem me corrigia mais.

Contei tudo isso para dizer que, muitas vezes, culpamos os professores de ballet pela nossa inadequação, dificuldade de aprendizagem ou demora na evolução da dança. Claro que eles têm responsabilidade sobre isso. Mas só eles?

Ao contrário da natação, um professor de ballet não pode passar barras, centros e diagonais diferentes para cada aluno. No máximo, pode notar as dificuldades individuais, dar uma atenção especial a isso, e só.

Cada professor tem um jeito de ensinar. Cada aluno tem um jeito de aprender. A meu ver, o casamento perfeito é quando os jeitos se encontram.

Há pessoas que precisam repetir 30 vezes o mesmo passo em um mesmo dia. Outras, repetir uma vez, todo dia. Há quem aprenda sob pressão, há quem aprenda aos poucos.

Pelo que acabei de contar, deu para notar como é a minha maneira: devagar. Um pouco por dia e vou longe. O meu corpo é inversamente proporcional à minha mente. Ele é lento, demora para aprender. Mas aprendeu uma vez, não esquece mais. Não consigo fazer nada se sou pressionada e em qualquer área da minha vida. Quer me ver correr? Basta me pressionar, seja para o que for.

Sendo assim, é bacana perceber como é o nosso jeito. Se você adora repetir mil vezes um passo e ter um professor ao seu lado dizendo “Vamos lá, mil e uma…”, não terá paciência com aquele que não age dessa forma. Se for da mesma turma que eu, devagar e sempre, precisa de um professor que repete o mesmo passo, com combinações diferentes, de tempos em tempos.

Porque não há um jeito certo de ensinar. Cada pessoa tem o seu tempo de aprender. E enquanto você não descobrir qual é o seu, viverá achando que o problema está no método, no estúdio, no professor, em você. Quando, na verdade, era só uma questão de acertar o relógio.

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10 comentários sobre “O tempo de cada um

  1. Ameeei o texto, Cássia. Eu também não gosto de educação física, (foi a única matéria que eu fiquei de recuperação kkkk, no resto eu já até passei :B) e quando eu era pequena fiz natação por 2 anos, eu nadava bem e era rápida mas tinha medo, então eu saí depois de muito implorar. Nessa mesma época eu fiz jazz (por 2 semanas) mas tinham muitas alunas e elas eram bem mais flexíveis e tinham mais técnica, então eu saí porque me sentia inferior e porque eu nunca gostei de Jazz.
    No judô, eu também tinha medo (sempre fui muito medrosa), entendia rápido o que ele explicava e era boa, saí logo depois da minha mudança de faixa. Mas o meu amor ainda não tinha sido descoberto: O Ballet.
    Ah, o Ballet… Eu entendo as coisas muito rápido, tenho uma ótima memória e só basta o professor me ensinar e me corrigir uma vez que eu não esqueço mais. O problema é na hora de fazer, eu tenho dificuldades. Eu tento fazer tudo certo, sem errar nada que o professor corrigiu, mas parece que não adianta. Minha cabeça é boa mas meu corpo … Sérios problemas. Problemas seríssimos.
    Uns demoram a aprender, mas quando aprendem não erram mais. Uns aprendem rápido mas erram sempre e sempre. Acho que Deus nos fez assim: Ou é a cabeça ou é o corpo.

  2. Por que será que tem tanta gente que reclama da mesma coisa que muitas – eu inclusive – reclamam? Eu imagino que, [b]algumas vezes[/b], deve ser porque há muitos professores que não respeitam os diferentes ritmos de aprendizado dos alunos, e pior: escancaram sem a menor cerimônia sua preferência pelos que aprendem mais rápido, ou têm melhor capacidade física, como mencionou a Cássia ali em um dos comentários. Professores que agem como se os outros alunos nem existissem.
    Quando eu fazia aula, o mesmo acontecia. Eu vivia com a permanente sensação de que não era bem assistida em minhas dificuldades, ou recompensada e incentivada pelos meus acertos. Por outro lado, as alunas que já mostravam desde cedo o tal “corpo de bailarina” – flexibilidade, en dehors abertíssimo, colo de pé impecável, capacidade para zilhões de piruetas por minuto – eram observadas e corrigidas o tempo todo, recebiam quase toda a atenção e estímulo dos professores durante a aula inteira.
    Até que um dia, uma das minhas colegas, que também era professora de outra turma nessa mesma academia, me disse: “eu prefiro você, que é esforçada e demonstra uma dedicação e interesse enormes nas aulas, e só conseguiu esses resultados depois de ralar muito, do que a fulana, ciclana ou beltrana que nasceram com os pés atrás da cabeça, mas não procuram estudar e se aperfeiçoar, porque acham que já sabem tudo.”
    Esse foi o estímulo que eu precisava para seguir enfrente, apesar de meu desânimo!
    É por saber que ainda posso encontrar professores como essa minha antiga colega, que eu voltarei às barras e às sapatilhas assim que puder!

  3. É muito difícil lidar com isso mesmo até aprender qual o seu ritmo.
    Eu mesma pego muito rápido algumas coisas, outras não… e antes ficava me perguntando porque não consigo aprender TUDO rápido, depois fui entendendo que meu corpo responde melhor a determinados movimentos, já outros são bem mais difíceis…

    Sobre a questão da “preferência” que alguns professores tem por determinados alunos, que foi levantada nos comentários, acho que merecia um post…às vezes noto algumas meninas incomodadas por acharem que a professora tem uma preferida, e se sentem desestimuladas e deixadas de lado. Acho que seria interessante discutir isso…

  4. Que legal!
    Eu também nunca fui muito boa em educação física, e desde que aprendi a nadar (um pouco tarde), adoro fazer isso, mesmo sendo muuuito devagar. Meu professor, que é meio atentado, até imita minha braçada em super câmera lenta, haha, mas muita gente diz que é bonito me ver nadando, bem com calma, sem ficar se engasgando toda (e bem lerda!)
    E acho que é isso mesmo, faço quase como se estivesse dançando, é gostoso dançar ou nadar como se estivesse voando, sabe, no seu ritmo.
    Adorei, Cássia!

  5. É verdade,cada uma tem seu tempo e jeito de aprender e o professor não tem como se adequar a todos. Por isso,às vezes quando há uma conexão entre o professor e um aluno os outros acham que é prefererência. Nem sempre. É o simples casamento que você falou acima.

    1. Priscila, sobre o “casamento perfeito”, eu disse outra coisa. É o fato do aluno aprender bem de acordo com a didática do professor. Isso nada tem a ver com preferência ou conexão entre ambos, mesmo que seja subentendido. Aliás, não acho bacana quando isso fica claro. Na sala de aula, o professor deve ser isento e imparcial.

      Grande beijo.

  6. Muito bom o texto! Concordo plenamente… Ninguém é igual a ninguém..a gente precisa se conhecer e saber o jeito que temos mais facilidade em aprender – Adoro o Blog, seus posts são muito bons!

  7. Que texto Cássia!!
    “Porque não há um jeito certo de ensinar. Cada pessoa tem o seu tempo de aprender. E enquanto você não descobrir qual é o seu, viverá achando que o problema está no método, no estúdio, no professor, em você. Quando, na verdade, era só uma questão de acertar o relógio.”
    Muitas vezes ainda acho que tenho algum problema enorme porque todos aprendem rápido algo que não consigo fazer de jeito nenhum.
    Preciso aceitar que meu tempo é diferente das outras pessoas.
    bj e obrigada por este texto
    Jac

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