Quando o “se” tem muita força

Nos comentários do post sobre o processo seletivo do Bolshoi Brasil, surgiu uma discussão (saudável, ninguém brigou com ninguém) sobre as escolas de formação só aceitarem crianças ou adolescentes. Não só, discutiu-se também que, muitas vezes, não temos contato na infância com algumas habilidades que poderiam ter sido desenvolvidas. E que, depois de uma certa idade, parece que estamos “velhos” para tudo, não importa o quê. Ballet, música, outra faculdade, mudar de profissão. Como se todos nós viéssemos ao mundo com um cronograma: “Depois dos 30 anos, sinto muito. Se não descobriu o que queria, aceite a vida como está”.

E não é assim.

Pensei em fazer um post falando sobre o assunto de maneira geral. Mas o blog é sobre ballet clássico. Sendo assim, o meu foco será esse, tudo bem? Mas, acreditem, valerá para qualquer coisa.

Vocês me veem criticar muitas questões acerca do ballet. Muitas. E já levei vários tomates por conta disso. Porém, vocês nunca me viram criticar o fato das escolas de formação aceitarem apenas crianças. No máximo, adolescentes com conhecimento em dança. Não questiono pelo seguinte: ser excelente no ballet é coisa rara e demanda tempo. Muito tempo. Qualquer pessoa que dance não discute isso. Como ter uma primeira-bailarina de 25 anos de idade se ela não começou mais nova? Palpite meu, mas creio que o auge de um profissional da área, quando a técnica e o físico caminham lado a lado, reside entre os 25 e 35 anos. Ou seja, vamos tirar um pouco a ideia do sonho dourado e pensar nas grandes companhias como empresas: elas precisam de grandes bailarinos nessa faixa etária. Engraçado, ninguém discute os sistemas de seleção das multinacionais, mas das companhias…

Sendo assim, o meu foco não passará nem perto dessa questão. Eu quero viver em um mundo onde Sylvie Guillem existe. Amo ver espetáculos com bailarinos de alto nível. Ponto.

Agora, vamos pensar em nós, aquelas bailarinas que não começaram a dançar aos 10 anos de idade. Aquelas que voltaram a dançar depois dos 20 anos, que descobriram o ballet aos 30, que resolveram dançar aos 40.

Vocês acham mesmo que, o simples fato de começar na infância garante uma história brilhante no ballet clássico?

Quantas crianças fazem ballet? Nem falo daquelas que fazem na escola ou apenas duas vezes na semana. Falo daquelas que se dedicam, que crescerão na dança, que sonham com grandes teatros, que trocam as brincadeiras por aulas e ensaios. Quantas, dessas crianças, se tornarão bailarinos profissionais?

Não precisa ir muito longe, podem perguntar nas escolas brasileiras de formação quantos alunos começam o curso, quantos terminam e quantos seguem carreira. Isso não é exclusividade da dança, isso acontece na vida. Os caminhos mudam, as histórias mudam, nós mudamos.

Será que cada uma que sente uma angústia desmedida por não ter começado na infância, seria hoje uma grande bailarina profissional?

Talvez sim. Talvez não. Quem vai saber?

Parece simples, mas sei que não é. Vocês acham que eu nunca me questionei a respeito disso? Claro que sim. Várias vezes. Já chorei por isso. Poucas vezes. Mas não me culpo, ou culpo meus pais, ou culpo as circunstâncias, ou culpo a vida, ou culpo a humanidade. Simplesmente, não aconteceu. Eu me cobro hoje? Nem um pouco. Em quatro anos de ballet, estou bem distante do que muitas outras que começaram na mesma época estão. Estou preocupada com isso? Nada. Eu tenho o meu tempo e não vou correr para alcançar ninguém.

Se os grandes palcos não estão reservados para nós, há muitos outros por aí. Se em alguns teatros nós estamos na plateia, em outros esperamos na coxia.

Tempo passado não volta. E quanto mais achamos que sim, mais ele vai passar…

*

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23 comentários sobre “Quando o “se” tem muita força

  1. Oi, Cássia. Tenho 23 anos e faço ballet desde criança, nunca havia considerado seriamente o ballet como carreira profissional, não por falta de vocação ou por paixão a outra carreira, mas por simplesmente achar que não era para mim. Hoje, vejo como gostaria de ter pensado mais seriamente há alguns anos atrás, vejo que ballet é uma grande paixão. Tenho vontade de tomar um novo caminho, que me aproxime mais do ballet, porém não consigo avaliar se é um sonho viável a esta altura tornar-me bailarina profissional. Nunca encontrei em nenhuma companhia uma bailarina que tenha feito esta escolha com a minha idade, normalmente, fazem cursos profissionalizantes ou entram em grandes escolas de ballet desde cedo. Já conservei com pessoas que me disseram que ainda dava tempo e outras que já era tarde demais. O que você acha?

    1. Bruna, a resposta para a sua pergunta está bem detalhada neste post https://dospassosdabailarina.wordpress.com/2011/10/24/eu-tenho-tantos-anos-ainda-posso-ser-bailarina-profissional/, mas de maneira geral é sim tarde para ser bailarina profissional aos 23 anos. Por outro lado, há algo muito importante a seu favor, você disse que faz ballet desde criança, sendo assim, teve ter uma boa técnica clássica. Já pensou em ser avaliada por alguma professora que entende do meio profissional? Aí sim você teria um parecer confiável. Ou então, preste audição para companhias de dança. Idade para participar você tem, quem sabe não dá certo. Grande beijo.

  2. Tenho 51 anos e resolvi voltar a fazer ballet clássico. Sou uma pessoa ativa fisicamente, já pratiquei vários esportes. Hoje pratico capoeira à 10 anos, corro e faço musculação, mais sempre fui apaixonada pelo ballet, quando criança era pobre não tinha condições de pagar as aulas. Aos 16 anos quando estava no 2º grau consegui fazer ballet porque ganhei uma bolsa depois que fiz uma apresentação de dança no teatro do colégio aonde eu estudava, lembro que o professor olhou para mim e perguntou se eu já tinha feito ballet, pois meu alongamento era fantástico, até hoje tenho eu alongamento perfeito. Depois veio o Jazz, quando terminei os estudos e sai do colégio tive que parar. Durante anos quando via uma apresentação de ballet sonhava, este ano depois de assistir uma apresentação do Royal Ballet Sylvia de 2005, encontrei uma reportagem no portal G1 sobre ballet que as mulheres de 30, 40 ,50 e 60 anos que estão descobrindo essa arte. Então pesquisei e encontrei uma academia de ballet que oferece aulas para adultos mesmo!. Corre atrás de um sonho, tentar viver o sonho, viver o sonho e melhor realiza-lo, faz bem para todo mundo enriquece a alma e faz muito bem ao corpo e a mente. Um abraço e um beijo

  3. Oi gente,sou Luana vasks tenho 20 anos e começei a fazer ballet aos 17 anos incompletos vejo a dança como uma forma de vidaaaa.
    Sou uma uma aluna muito dedicada nas aulas até mais do que outros.As vezes fico pensando será daqui ums 5 anos eu já posso me sentir uma bailarina profissional?bjs

  4. Pra complementar, Martha Graham que começou a dançar depois dos 20 anos não apenas se tornou um granda dançarina, mas também criou sua própria dança.

  5. Gostei do texto, da sua visão, opinião…
    Eu acho que nunca realmente me deixei sofrer por isso porque nunca me deixei pensar/sonhar tão grande. haha Aquela velha historia de manter o ballet num cofre. Mas sabe… minha paixão pelo ballet se basta, por enquanto, nas salas de aula e apresentações. Nos livros e espetáculos. Gosto de te-lo como coadjuvante na minha vida. Não sei se gostaria de ser profissional, afinal, amo tantas outras coisas. E o ballet do jeito que ele é pra mim hoje é mais… livre.

    Beijos,Cassinha

  6. Tenho 18 anos, gostaria de ter feito ballet… AMO DANÇA, acredito que se tivesse investido mais nisso na infância poderia até ter feito belas apresentações, mas não aconteceu..
    Ameei o Post!
    Parabéns por tanta sensibilidade.
    xD’

  7. Esse é o tipo de post q me lembra porque eu gosto tanto desse blog…me faz respirar,refletir e ver q a vida tem uma beleza diferente da que pensávamos….Que talvez nunca seremos grandes bailarinas,que não ganhemos reconhecimento nem sucesso isso é uma realidade com a qual precisamos aprender a conviver,e nos ajuda a pensar que a dança é muito mais q aplausos e fama ou seja,nõs podemos sentir a mesma sensação q a aurelie dupont ou a alina cojocaru sentem ao dançar,pq o prazer da dança não depende de lugar,status…

    e muitas bailarinas q tem sucesso e vitorias talvez não tenham vencido em outras áreas que nós,as bailarinas adultas,temos vencido,como familia,coração e muitas outras habilidades e talentos pq quem vive de dança tbm se priva de MUITA coisa,acaba não vivendo muitos momentos q a nossa liberdade de dançar “amadoramente” nos permite viver…

    muito obg cássia,por compartilhar esses tão belos e importantes pensamentos..

  8. Olá Cássia, e meninas!
    Creio que não tem muito a ver com o assunto do post, mas eu achei linda a história e quis compartilhar com vocês

    Um grande abraço!

  9. Bom, eu sou do time da consciência corporal sempre.
    Quando eu fazia mais nova, amava o ballet e como a menina de cima disse,eu me sentia um tanto excluida pelo corpo. Eu não era magra, mas tinha uma elasticidade incrivel… os professores sempre me olhavam de certa forma e penavam ‘ que pena que não é mais magra’. Eu sai, com muida dor no coração e muito choro e segui a minha vida.
    Hoje eu voltei. Voltei consciênte, voltei mais magra e voltei por amor. Eu voltei porque não aguentava mais ficar longe. A verdade é que meu corpo sempre, desde que sai, sentia necessidade da dança, dos alongamentos e da diversão. Mais magra? Aham, acidente de percurso, porque isso não me torna melhor do que antes! O tempo que fiquei longe reduziu imensamente a minha elasticidade. E por amor? Com certeza! Não vou ser prima baillerina de lugar nenhum, mas amo a minha sala de ballet, as minhas colegas de turma e a minha professora.
    Enfim, algumas vezes como você, tive “raiva” de não ter continuado. Mas hoje compreendo que foi muito melhor assim. Hoje eu olho para ballet como uma fonte de diverão que vai além do meu espirito. Estou livre de castigar meu corpo e minha alma buscando uma perfeição para agradar outros milhares de olhos e criticas.
    Eu amo a dança porque ela fala por mim. As vezes sai tudo errado, tudo torto e tudo certo. A dança sou eu, um mixto de perfeito e imperfeito.
    E sim eu sei que pode parecer egoista, mas eu danço pra mim.

    Quantos as crianças que assim crescem eu honestamente não vejo nada demais. Desde que não sejam exploradas por um perfeição, tudo certo. Muitas meninas tem o talento mesmo e devem aproveitar isso.
    Só não acho certo privar as pessoas de” idade avançada”( 30 para cima) Já conheci excelentes bailarinas de 40.
    O problema não é auge tecnico, mas sim uma obsesão social pela juventude.

  10. Quantas questões surgiram desse post! ahisuehaie
    Quando criança fiz jazz e dança contemporânea, e só aos dezoito comecei no clássico. Penso que quando criança eu provavelmente não teria gostado de ballet, outras vezes penso que SE tivesse começado quando criança eu seria uma bailarina incrível hoje.
    A gente tem sempre essa tendência de pensar no que teria sido, e não no que já aconteceu,e por isso nos sentimos tão frustradas diante das coisas, não só do ballet. E se eu tivesse feito vestibular pra outra coisa? E se eu tivesse ido morar fora? Nunca vou saber… mas não devemos nos lamentar diante das coisas que não voltam mais, e sim aproveitar as oportunidades que tantas vezes estão escancaradas à nossa frente e a gente não enxerga!
    Quanto ao processo de seleção das grandes companhias, também não critico…Como em toda profissão, o profissional do ballet tem que ter um determinado perfil, e a idade é um dos fatores que conta. Também com relação ao corpo, entendo os critérios, embora cruéis. Também não é o que acontece com as modelos, ginastas, jóqueis? Sempre vai existir alguma coisa pra “limitar” o acesso às grandes companhias, e acho até que grande parte do encantamento vem daí: é muito difícil estar lá, é pra poucos! Mas como já foi dito, se as grandes companhias não são pra nós, vamos ter os pés no chão e procurar aquilo que É pra nós.

  11. Estou chocado com o video postado pela Leticia! Realmente…é um absurdo mesmo Cássia, agente se arrepender de não ter entrado no ballet mais cedo….achando que isso nos tornaria em uma Natalia Oisipova!
    Mas pense, no video esse postado, a criança não tem nem força nas perninhas para se manter em cima das pontas e nem equilibrio… vai ficar traumatizada quando ver isso e se (de repente) ternar-se-á uma Nina do Cisne Negro!
    Beijos!

    Obs.: cada vez fico mais encantada com o teu pensamento e opinião… Pois pensamos bastante parecidoe tb não sou magrinha e danço ballet..e adooooooorooooooo!!!!!!!

  12. Nossa, sinto que causei um tanto aqui hein, Cássia? rsrsrs… Mas eu tô contigo, você traduziu muita coisa que eu tbm fico pensando. Mas essa discussão é longa…

  13. Acho que todas nós entendemos a dor e a delícia de ser bailarina. Isso tanto faz a idade, porque quando ainda somos novinhas, sofremos pela falta de maturidade e por querer abraçar o mundo, ser perfeita, por nos frustrasmos com nosso corpo, com nossas limitações naturais.
    Quando adultas, ao nos encontrarmos com o ballet e nos apaixonarmos, sofremos também – de maneira diferente – por não ter começado antes, pelas limitações da idade (inúmeras responsabilidades e ocupações que não nos permitem que nos dediquemos às aulas como gostaríamos.
    Dancei até os 15, 16 anos e parei. Por vários motivos, sendo que um deles foi o excesso de aulas que me deu de presente tendinites e stress muscular. Também a adolescencia, amores, estudos.
    Por alguns anos eu esqueci a dança. Mais tarde, sofri por mais vários anos, a dança me parecia então inatingível – perdi flexibilidade, tive filho, engordei, enfim, não tinha como voltar.
    Mas, aos 32 anos, pintou uma oportunidade de voltar a fazer aulas, e eu – muito timidamente e sem muita esperança de dar certo – tentei. O resultado é incrível! Nunca mais quero parar! Estou sonhando com o meu primeiro solo, que começarei a pegar em breve, minha elasticidade voltou quase toda, emagreci, peguei mais confiança em mim mesma, estou amando! E com apenas 2 anos de ballet! Pra mim, chega a ser terapêutico.

    Estive em Jville este ano, e lendo um jornal achei o “ó do borogodó” o teste que eles fazem para o Bolshoi. Meu Deus, essa avaliação é muito cruel! Fiquei imaginando o sofrimento das pequenas, sobahndo com uma vaga na companhia e de repende se vendo reprovadas por ter pouca rotação na coxa, ou menos colo de pé, entre outras características não-artísticas. Puxa, que coisa mais excludente! Acredito que é muito fácil montar uma companhia de seja lá o que for, escolhendo os integrantes e aprendizes “a dedo”.

    Num encontro com arte-educadores, vi a apresentação de um grupo de teatro formado apenas por pessoas com deficiências – física e mental – e eles arrasam demais! Chama-se “Trupe do trapo”. Deve ter blog, não pesquisei. É impressionante conhecer a história dessas pessoas, que sempre foram excluídas e desesperançadas, e que tinham um sonho e puseram em prática, e é lindo demais. Talvez seja mais emocionante do que um desses grupos excludentes, que podem ser perfeitos tecnicamente, mas que pode ser que não tenham alma.

    Tantas misturas de assuntos, me desculpem, mas é que tanta coisa vem à nossa cabeça, uma coisa puxa a outra, e tive vontade de compartilhar aqui neste espaço, que me pareceu muito sensível!

    Viva para todas nós, mulheres bailarinas !!!!!

  14. Cassia, sempre acompanho seu blog. Na verdade, leio tudo sobre ballet por conta de minha filha. Gosto de ficar antenada, ligada nas coisas.
    Moramos em New York, e minha filha ha 3 anos faz classes no SAB (School of American Ballet), escola oficial do New York City Ballet.
    Quando ela tinha 6 anos, a professora da escolinha me aconselhou leva-la para fazer “audition”, devido ao talento nato, que segundo a professora, ela tinha.
    Para te ser bem sincera, na epoca fiquei muito angustiada, porque sabia que ali, era algo bem diferente. Nao era um after school program, mas uma verdadeira escola de ballet, onde vem gente do mundo inteiro pleitear uma vaga. Duvidei se ela conseguiria passar, ja que eh extremamente concorrido. No entanto, ela passou na “audition”, com mais de 300 criancas concorrendo.
    Entendo, que sao necessarios varios anos para aperfeicoamento, soh que terei que decidir por minha filha, quando ela tiver por volta dos 11, 12 anos de idade, hoje ela tem 8, se ela se tornara uma bailarina profissional.
    Acho isso tudo muito complicado. Por mais que ela tenha talento, nao sei se posso decidir por ela, seu futuro profissional. Mas, tambem tenho medo de dizer nao, e la na frente ser acusada de ter lhe tirado uma grande oportunidade.
    Ardua escolha… muitas reclamam por nao terem comecado bem cedo… e outras, por nao terem maturidade suficiente quando comecaram.
    o que fazer ??

    1. Monika, se entendi bem, a sua filha já faz as aulas de ballet clássico na escola de formação, certo? Por enquanto, ela está feliz e você está tranquila ou algo está te atormentando? Eu não sou mãe, mas imagino como deva ser a sua situação. Em primeiro lugar, é importante saber o que sua filha quer. Ela quer ser bailarina? Ela gosta das aulas? O curso é importante para ela? O ballet faz parte do seu desenvolvimento de uma maneira positiva? Por mais que você decida por ela, é importante saber qual o seu desejo, quais as suas expectativas. Por enquanto, se ela está feliz, não há do que se preocupar. O dia em que ela não quiser, tudo bem. É bom você e sua filha saberem disso: desistir e seguir um outro caminho sempre será uma opção. ;) E como você se interessa e busca sempre informações, leia esta entrevista com o professor e bailarino David Howard. Ele traça um panorama da dança no mundo, mas especialmente dos EUA: https://dospassosdabailarina.files.wordpress.com/2011/08/entrevista_qa_david_howard.pdf

      Grande beijo.

  15. Meninas, só deixar claro uma coisa: começar cedo e ser treinado para isso nem sempre significa ser colocado no palco nas sapatilhas de ponta aos 8 anos de idade, tudo bem? Tampouco maltratar ou humilhar a criança. Se a gente condiciona uma coisa a outra, parece que NECESSARIAMENTE uma criança passará pelo calvário. Sabemos que não é fácil, também conhecemos mil histórias mirabolantes. Mas cada coisa no seu lugar, tudo bem? Sei que ninguém disse isso claramente, mas conheço bem como as coisas funcionam e como as pessoas entendem o que querem. A minha questão, REPITO, é voltada para as mulheres que começaram mais velhas e sofrem com o arrependimento por não terem começado antes ou por terem parado e voltado. Apenas isso.

  16. Eu comecei com 8, e vou fazer 15 daqui duas semanas… mas com 8 anos eu não tinha essa visão, digamos, mais aberta. Quem era Sylvie Guillem pra mim? Eu não pensava nem em sapatilha de ponta! Não tinha noção nenhuma da coisa em toda sua amplitude. Grandes palcos, grandes bailarinas, grandes ballets, técnica, essas coisas que adoramos correr atrás para ver e se informar sobre. Eu fazia porque gostava e ponto. Claro, ainda faço pelo mesmo motivo! Mas eu não me arrependo de não ter tido algum tipo de treinamento russo quando eu entrei. Tanta pressão só serviria pra me traumatizar.
    Agora tenho minhas ambições, sim, defino minhas metas, trabalho pra alcançá-las, conheço (muito) melhor o mundo do ballet… foi tempo perdido, os primeiros anos, sem forçar tanto a técnica no geral? Confesso que já achei que sim, muitas vezes já chorei tanto por isso, achando que deveria ter sofrido mais (e que mania temos de achar que devemos sofrer), que deveria ter tido mais pressão pra fazer as coisas… Se tem gente que sofre por não ter começado na infância, já sofri muito por perceber que comecei mas não ”aproveitei”. Muita, muita gente mesmo, deve pensar assim quando vê um daqueles vídeos das(dos?) tais V.Kuramshin e T.Petrova… Mas nem sempre dá certo, principalmente colocar ponta em meninas de menos de 10 anos… como assim? E imagina essa criança, o que vai pensar dela mesma quando crescer, sendo submetida desse jeito a um palco?

    Bom, agora eu não me culpo por não pensar como uma pessoa adulta, quando tinha 8 anos de idade, por ninguém ter me enfiado na cabeça que eu deveria ganhar 1º lugar em alguma competição… Agora que sei como alcançar o que quero, onde quero chegar, sei realmente sobre as coisas, como lidar com as situações que enfrentamos, vou no meu tempo, sempre em frente, com mais esperteza e maturidade!

  17. Concordo plenamente com o que você disse. Tudo nessa vida tem regras,princípios. Até agora nunca vi ninguém criticar o fato dos atletas olímpicos também começarem crianças. Os ginastas começam aos 4 anos(pra mim ainda são bebês). E não é como o baby class,é treino pra valer. Já vi documentários em que alguns deles até choram e pedem pra volytar pra casa.Gostaria muito de ter feito ballet quando criança,mas não deu,havia outras prioridades. Acho até que se tivesse começado criança,provavelmente não teria continuado. Porque hoje meu amor pelo ballet é muito mais forte e está bem claro na minha cabeça. Não me sinto frustrada porque não é só em palcos de grande compahias que uma bailarina se realiza. Sinto que não preciso mostrar nem provar nada pra ninguém. Antes de tudo tenho um compromisso comigo mesma. Acho que essa coisa de “recuperar o tempo perdido” não vale pra mim. Não perdi nada. Tudo aconteceu como deveria acontecer. Hoje estou mais que realizada na faculdade que estou fazendo e não queria substituir esse momento por nenhum outro. Nem mesmo pelo ballet. O ballet terá seu tempo em minha vida. O tempo certo.

  18. Mas acho que tem uma outra questão que não é específica do balé clássico e sim do mundo artístico no geral, que é, em como conduzem essas crianças que se iniciam na arte desde a infância.
    Eu fiz balé dos 4 aos 17 anos e me vi obrigada a parar porque eu não tenho perfil físico para isso e por mais que eu levasse a sério desde a infância a Dança e até ter um nível técnico similar a dos outras meninas com esse tal “perfil de bailarina” eu nunca chegava a ir a festivais etc.
    Então, todos os professores e coreógrafos me encaravam como uma menina que fazia dança por hobby mesmo que eu tentasse provar o contrário, desisti do balé com dor no coração por isso. Já se passaram 3 anos e os resquícios disso ainda vive, tanto que, com 20 anos de idade eu não tenho uma auto-imagem legal e com certeza é por isso.
    Enfim, concordo com tudo que disse no post mas acho que a arte-educação principalmente do balé clássico é muito deficitária e bailarinas magras não significam serem grandes bailarinas.
    beijos, parabéns pelo blog!

    1. Juliana, mas essa sua questão já foi criticada, falada e comentada mil vezes aqui no blog. Pode pesquisar nos arquivos. Todos sabem o quanto eu questiono a magreza das bailarinas, o fato de afirmarem que corpo esguio é sinônimo de excelência técnica (e não é!), essa postura de segregação e desmerecimento dos professores. Concordo com tudo o que você disse. A minha questão, no post, é o sofrimento das pessoas que não começaram a dançar na infância, como se isso fosse garantia de sucesso. Só. Os desdobramentos disso já foram falados por aqui. ;)

      Grande beijo.

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