Por que o amor não é suficiente?

Essa frase é de Alice Ayres, personagem de Natalie Portman no filme Closer. O tema é outro, mas acho que se aplica a tantas áreas da vida. Afinal, basta amar para que as coisas deem certo?

Digo isso porque todos nós, especialmente eu no blog, falamos muito sobre o amor pelo ballet clássico. Sempre ele para justificar a nossa persistência, a nossa resignação, as nossas dores, as nossas horas, a nossa dedicação. Mas ele não é, nem nunca será, garantia de êxito em absolutamente nada na vida.

O amor nos ajuda a suportar e a nos dizer que vale a pena. Ele minimiza o sofrimento. Só. Não adianta usá-lo como desculpa para o nosso fracasso, “Eu amava tanto!”, ou como mérito, “Eu consegui por amor!”.

Quantos grandes bailarinos não falam sobre o amor ao ballet clássico? Já perceberam isso? Para vários deles, a dança aconteceu e eles seguiram o caminho. Era trabalho. Era objetivo de vida. Não era ideal, amor ou sonho.

Muitas vezes, perdemos tempo com os suspiros. Mal subimos na ponta e achamos o céu. Um salto bem-feito e o coração se abranda. Nem sempre vemos como mais um passo, um degrau, uma conquista. Ainda temos um mundo pela frente.

Talvez essa postura funcione para alguns bailarinos. Talvez. Eu achava que funcionaria para mim. Não funciona. Eu sou a bailarina do estudo árduo teórico e prático longe dos holofotes. Eu sou a bailarina do brilho no palco. Sabe como funciona? A emoção tem a sua hora. Não acho que o palco seja o momento das correções. Isso fica para depois do espetáculo. Tampouco acho que fora dele seja o momento do fim do trabalho. Sempre há tempo para mais um ensaio.

Era assim que eu funcionava no teatro e pensei que poderia ser diferente na dança. Não é. Tentei, mas não deu certo.

O texto é realmente para mim. Mas quem quiser, pensemos juntos. Até que ponto o amor atrapalha? Porque, às vezes, quando ele comanda, nossos olhos turvam. E não quero mais isso para mim.

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11 comentários sobre “Por que o amor não é suficiente?

  1. Amei seu post…sou bailarina e comecei adulta. Concordo plenamente, acredito que o amor as vezes nos atrapalha porque pensamos que por fazermos as coisas por amor..tudo será uma maravilha. Penso que o amor nos dá respaldo apenas isso, é mister ser frio embora amando.Bjs

  2. É, pode até ser. Mas eu não vejo outra coisa também que possa me levar a continuar, a seguir este sonho apesar de todo o resto. E se eu não conseguir chegar lá, serviu por me fazer feliz.

  3. Amar. Amor.
    Muitas vezes cansada, exausta, ouvindo tudo que me dizem (afinal bailarina não fala bailarina dança)… dada a ultima gota de suor, eu tenho que levantar minha sobrancelha e tirar o ultimo suspiro e fazer o que me é pedido…

    A isso eu chamo de trabalho. O ballet clássico é trabalho, trabalho árduo. E para dança-lo é necessário frieza. Para aprende-lo é necessário frieza. É necessário tirar o emocional e fixar-se na técnica… no aprendizado.

    Porém é necessário sentir. O ballet é proprioceptivo. Necessita meu conhecimento máximo de mim mesmo (aquele que a gente vai tentar construir a vida inteira).

    Em contrapartida, como o maestro e bailarino Baryshnikov no palco será o momento de divertir-se. Uma das causas que decidi que esse ano minha escola não teria apresentação no final deste ano. Não quero loucuras ou tensões desnecessárias. Quero que o formos fazer seja feito de modo agradável.

    Mas devo confessar… dançar com ódio é grandioso…

    O que eu amo no ballet?! O encontro que ele me obriga a fazer comigo mesma, e com meus piores pesadelos e melhores sonhos. Amo também a conquista diária de meus alunos, a descoberta do ser bailarina.

    Quem não ama e odeia suas próprias pontas?!

    Amo o desafio de superação diária, a fé e a admiração que pomos em nossos maestros. A responsabilidade do trabalho com uma arte tão séria, hierárquica e completa.

    Não danço por amor, mas amo dançar. O ballet me dá a possibilidade de faze-lo (o meu dançar) de forma técnica e bela.

    ARTE – visual para quem a ve, puro sentido para quem a executa… e para ser arte e ir além de executar é necessário SENTIR E SE EMOCIONAR…

    Acho lindo o desafio que meus alunos se dão diariamente… entram pela beleza, pelo sonho, ficam pelo desafio! Porque não é fácil. Ballet é para os fortes, para aqueles que conseguem ser frios quando menos se espera… Você vai cair na pirueta até ela sair certo, vai demorar horrores para executar com a proximidade da perfeição o tendu… e quando o fizer outras coisas estarão desafiando vc… amo isso.

    beijos cassinha, amei o post!!!

  4. Já dizia Baryshnikov: “É necessário primeiro o conhecimento, a técnica. Depois é que vem a diversão.”
    Concordo com o Misha, na sala eu me desligo do mundo para me concentrar na explicação dos professores, na contração dos músculos, na minha postura, na execução do movimento; não me divirto, sinto dores e às vezes tenho bolhas nos pés, mas amo isso, pois sei que quando estiver no palco me divertindo perceberei que todo esse ”sofrimento” valeu a pena.

    1. Gabs, grande frase do Baryshnikov, eu não a conhecia! Quando eu fazia teatro, em uma das peças que fiz, o diretor nos dizia antes de cada apresentação: “Divirtam-se!” Porque era o momento disse acontecer, durante a apresentação. Quem dera todo mundo seguisse isso e se divertisse no palco.

      Imenso beijo.

  5. Oi Cássia, amei o texto pois estou passando pela mesma situação…
    Eu amo a dança e digo com toda a certeza do mundo, mas não é esse amor que faz de mim uma boa bailarina. Eu olho pra minha sapatilha e pra sala de aula vazia, penso em vários allegros que poderia estar dançando com elas. vários fouettés, mas não tenho técnica pra isso, nem sei por onde começar a fazer. Nessa semana eu chorei por isso, porque sei que amo tudo aquilo e eu treino, me esforço, machuco meu pés e volto pra casa com dores nos músculos, mas não tenho a alegria de me ver fazendo
    um movimento bem feito.
    Eu entendi o propósito do seu texto e adorei o que vc escreveu. Eu
    também me sinto como aquela bailarina do estudo teórico e prático longe de todos.

    Parabéns, amo o seu blog.

    1. Clara, você entendeu mesmo o texto, é exatamente isso! Eu também choro volta e meia por não conseguir, mas só agora entendi que “amor” nada tem a ver com isso. Porque ele eu tenho de sobra. O que me falta são outras coisas. Muito obrigada, fico feliz que você ame o blog! =)

      Beijos.

  6. Oi Cássia, sempre com posts maravilhosos hein? Então, eu não sei se entendi seu texto, ok? Mas vou deixar meu pitaco, rsrs.

    Eu entendo a paixão que nós temos pelo Ballet como a unica fonte de não desistir, nunca, de estudar sempre, de justificar as dores e frustações que enfrentamos. Apenas isso.
    Já pensou em alguém que faz ballet sem gostar? Será que aprenderá tanto qto os que amam isso tudo?(estou me referindo a estudantes adolescentes e adultos,pois criança é motivada por outros estímulos).

    Eu tenho uma profissão, sou professora de ballet. Não tem somente amor nisso mas tb profissionalismo e meu ganha pão.Pago minhas contas com isso.

    Eu me castiguei muito qdo retornei ao ballet por não conseguir executar certos movimentos. Me senti frustada, isso sim é dizer: Mas eu amo tanto e não consegui. Realmente esse amor atrapalha e turvam nossos olhos.

    Não devemos deixá-lo tomar conta do nosso dicernimento, mas temos que continuar amando, sei lá.

    beijos, e desculpe se não entendi bem seu texto.

    1. Heydi, é exatamente isso. ;) Mas acho que há quem faça ballet sem paixão, há vários bailarinos que contradizem essa ideia. Mas no caso deles, é porque são realmente bons no que fazem. No caso daqueles que não são geniais, concordo com você, a paixão só nos mantém lá. E não é ela que nos faz conseguir acertar os passos. Nós não amamos o ballet perdidamente e, mesmo assim, tem coisa que não sai nem com muito treino? Então… E, claro, temos de continuar amando, mas sabendo onde o amor entra nessa história. Ele não nos deixa fugir, mas não faz de nós bailarinos melhores, tecnicamente e artisticamente falando. Ou seja, você pegou o ponto do texto. ;)

      Grande beijo.

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