A diferença entre interpretação e expressão

É comum ouvirmos que determinada bailarina interpretou muito bem tal personagem. Na verdade, ela simplesmente soube expressar as características de tal protagonista. São coisas bem diferentes, nem sempre perceptíveis para quem desconhece como cada arte funciona.

Não existe o “entrar no personagem”. Isso é bonito, romântico e poético, mas interpretação é técnica. Estuda-se muito para isso. “Ah, então, por que nem todos que estudam teatro são bons atores?” Pelo mesmo motivo que nem todos que estudam ballet são bons bailarinos.

Há diversos teóricos sobre o assunto (por exemplo, Brecht, Artaud, Grotowski, Boal), mas um dos mais importantes e estudados é Stanislavski. A base do seu método consta em três livros: A preparação do ator, A construção da personagem e A criação de um papel.

Bailarinos precisam conhecê-lo? Não. Mas precisam saber que não são atores.

Não vou me aprofundar no assunto, porque os livros existem para isso. Passarei brevemente por uma parte do processo de composição de personagem, para vocês entenderem a diferença citada no título.

Quando um ator recebe um personagem, a primeira parte de seu trabalho é compô-lo. Ele terá de transformar uma ideia em praticamente uma pessoa, para que os espectadores assistam e acreditem que aquele ser existe. Sim, sabemos que é tudo ficção, mas se não nos envolvêssemos, ninguém se emocionaria em uma peça, filme ou novela.

Como construir alguém que não existe? O ator tem apenas o básico: a história do personagem inserida em uma história maior. Pensemos em Marguerite, personagem de A dama das camélias, romance de Alexandre Dumas Filho, que virou peça, vários filmes, a ópera La Traviata e o ballet de John Neumeier.

Prostituta de luxo, sustentada por seus amantes, ela se apaixona por um rapaz mais jovem, Armand. O pai do rapaz faz de tudo para separá-los, chegando praticamente a chantageá-la. Além disso, ela está morrendo por conta da tuberculose. O que ela faz? Renuncia esse amor, sem dizer a ele o verdadeiro motivo do abandono. O final? Não vou estragar a graça de ninguém.

Com isso em mãos, uma atriz só sabe coisas básicas: Marguerite é prostituta, sustentada pela burguesia, é refinada, está doente, é mais velha que seu amante, conhece bem os meandros da sociedade da época, guarda o real motivo de sua separação. Ou seja, não é ingênua, é sagaz, experiente e sabe onde está pisando.

Agora, é hora de dar vida a essa mulher. Há várias maneiras, mas uma delas é se abastecer de referências. A atriz lerá romances de mulheres que tiveram de renunciar ao amor, assistirá a filmes de cortesãs do século XIX, pesquisará sobre os sintomas que caracterizam uma tuberculose, lerá poemas sobre amores trágicos, ouvirá canções que remeterão à renúncia e infortúnio, estudará sobre os modos burgueses da época em que se passa a história, pesquisará imagens de mulheres refinadas daquele período, enfim, ela mergulhará nesse mundo. Além disso, poderá reconstruir as lacunas dessa personagem: Ela se apaixonou antes? Por que começou a se prostituir? Ela tem família? O que aconteceu em sua vida até o momento em que conhece Armand?

Para entender na prática, assistam ao vídeo da atriz Sara Antunes falando sobre seu “diário de criação” para a peça Sonhos para vestir. Para mais vídeos do processo de montagem, aqui.

O espectador precisa saber disso? Não. Isso é importante para a atriz em questão. Antes que os outros acreditem, ela precisa enxergar essa personagem como um ser verossímil.

O próximo passo do trabalho é o processo de montagem, específico demais para quem não é da área.

Uma bailarina não precisa fazer a mesma coisa, não precisa construir a Marguerite. Mesmo assim, ela tem de entender essa mulher. Entender o que está acontecendo: uma mulher apaixonada que terá de renunciar ao seu amor por conta das pressões sociais da época.

No momento do espetáculo que corresponde à separação dos dois, a bailarina não poderá entrar sorridente no palco, mas nem por isso deverá fazer caras e bocas para demonstrar o sofrimento de Marguerite. Aliás, erro básico que, por favor, jamais cometam. Nada de retorcer seu rosto para demonstrar sentimento; ele começa do lado de dentro. Simplesmente, sinta. Emocione-se com a dança, com a história, com a música. Dance com o corpo e com o coração. No pas de deux negro, entre Marguerite e Armand, sinta a angústia desse casal que se ama e não poderá ficar junto. Naturalmente, o rosto e o corpo expressarão tristeza e resignação.

Expressar tristeza e resignação. Só isso que a bailarina precisa. Entendendo essa questão, fica fácil perceber a vivacidade de Kitri, a angústia de Odette, a ingenuidade de Giselle, a doçura de Lise… O próprio ballet traz a emoção à tona. Esse é o limite. Quem quer ir além, exagera e fica falso, e ninguém é tocado pela falsidade.

Agora, vamos ver isso na prática?

Trecho do filme A dama das camélias, de Mauro Bolognini, 1980, com Isabelle Huppert. Prestem atenção nos primeiros cinco minutos. Ela mal precisa falar: o seu olhar, os seus gestos, a expressão do seu rosto, tudo nos mostra o seu sofrimento. Esta é a Marguerite imersa em dor.

Cena do ballet A dama das camélias, de John Neumeier, Ópera de Paris, com Agnès Letestu. Notem o seu ar de tristeza e resignação. Não precisamos perceber de maneira consciente o que está acontecendo: o seu corpo e o seu rosto nos dizem que estamos diante de uma mulher que está sofrendo.

Deu para entender? Por isso, se expressem da melhor maneira possível e deixem a interpretação para o teatro. Cada coisa lindamente no seu lugar.

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8 comentários sobre “A diferença entre interpretação e expressão

  1. Eu concordo discordando, pode? rs
    Concordo que interpretação e expressão são coisas diferentes, mas – na maior parte do tempo – coisas que caminham de mãos dadas no meio artístico. Acho que a bailarina quando dança um repertório acaba em algum grau interpretando um personagem, ao expressar as emoções desse personagem. Na minha opinião, sempre que se conta uma estória existe interpretação. E os repertórios clássicos são justamente estórias contadas através da dança, certo? É claro que é diferente da interpretação do teatro, é mais sutil. Então, quando uma mesma bailarina dança Odete e Odile, por exemplo, ela não está só expressando emoções, mas representando diferentes papéis. Ou, quando observamos A Bela Adormecida, há um jogo de papéis, tem uma grande diferença entre a forma que a Fada Lilás, a heroína, forte e inteligente, e a Aurora, a mocinha indefesa que encontra o seu príncipe se apresentam. E eu não acredito que isso seja só por elas estarem expressando emoções diferentes, e sim por elas serem personagens diferentes, possuírem uma identidade. Não é só expressão, existe uma representação envolvida. Mas, por outro lado, é claro que isso é feito de forma diferente da que acontece no teatro e no cinema, que, por sua vez, não é só interpretação, mas também muita expressão. Nunca estudei a forma como um ator cria o seu personagem, mas tenho certeza que ele coloca expressão na equação. Interpretação sem expressão – se isso existe – é o que faz os maus atores, beira a falsidade também e não toca os espectadores do jeito que se pretende.
    É só a minha opinião, tá? Não estou dizendo que ninguém está errado, só que eu não concordo com tudo.
    Beijinhos.

  2. Adorei o post! Diferencia de uma vez uma coisa da outra e faz cada trabalho ficar mais claro. Acho importante a bailarina ter uma boa expressão! Se ela apenas se foca na técnica, fica inexpressivo e vc não se envolve com a trama da dança. Se a bailarina ou o bailarino forçam demais um sentimento, vc já não sabe mais o que ele quer passar. Acho essencial expressar o personagem sem forçar a barra!!

  3. É tão feio quando vemos uns bailarinos querendo interpretar de forma deplorável. Notei que muitos se focam na técnica e se esquecem de fazer com sentimento. Dança, para mim, é com o corpo e com a alma.
    Adorei o post. Bjo

  4. Muito bom mesmo! Sempre quis entender melhor o processo de composição de um personagem. É bem mais complicado do que eu pensava. Por isso mesmo é que é um universo fascinante. Acho que quando um filme ou peça de teatro arranca algo do público(algo bom,é claro),nada mais é do que a reflexão do bom trabalho executado por toda equipe envolvida. E no ballet acho quase impossível não se envolver ou não passar sentimento para o público,muito difícil conter a emoção nestas horas. Fico imaginando quando um dia tiver a oportunidade de aprender o ballet e dançar num palco. Acho que vou me emocionar tanto que vai até atrapalhar.

  5. Oi Cássia, amei este post, muito valioso e informativo. Os exemplos são bem tranquilos de entender. Gostaria de usar seu texto para meu blog como inspiração dando crédito é claro a você e ao blog. Meu blog fala sobre dança como adoração, destinado ao publico evangélico que dança em suas igrejas, acho interessante que nós também tenhamos essa noção de compor os personagens sendo bíblicos ou não. Gostaria de me basear em seu post e seus exemplos, mas iria direcionar mais ao publico do meu blog. Ficaria feliz se você permitisse. Um grande abraço!!!

    1. Talita Luana, claro, pode usar o texto como inspiração dando os créditos. Quando for assim, você quiser utilizar qualquer informação daqui, basta dar o crédito e nem precisa me pedir, viu?! ;)

      Grande beijo.

  6. Quando eu dancei A Bela – era na parte da picada de agulha -, eu fiquei muito nervosa antes, porque achei que não conseguiria me epressar, já que nos ensaios eu não conseguia.
    Minha surpresa foi que eu realmente senti toda a história, e eu não fiz nenhum esforço (a não ser de não falar nada, nem fazer movimentos bruscos, hihi) para passar o que devia.

    Foi incrível!

    Beijocas, e ótimo post!

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