“Até onde você se sente tocado para mudar uma história?”

A jornalista Eliane Brum entrevistou a psicóloga Débora Noal pouco antes do embarque desta para a sua décima missão na organização Médicos Sem Fronteiras. Ou seja, ela trabalha em regiões de conflito. Vocês conseguem imaginar o que isto significa? E quem for sensível e não tolera ler histórias de violência, pare por aqui.

Em determinado momento, Débora contou a história de Marie. Em resumo, mataram o seu marido e cinco dos seus sete filhos, uma filha foi sequestrada e, além disso, ela sofreu estupro coletivo. E chegou apenas com o seu bebê de colo no acampamento do MSF em busca da psicóloga.

Qual a relação entre essa história e o blog? Leiam este trecho da entrevista.

E como você fez para ajudar uma mulher que tinha vivido isso?
Débora – Eu perguntei a ela o que a fazia feliz antes disso tudo acontecer. Se ela lembrava a última vez em que tinha sido feliz. E ela disse: “Hoje eu não lembro, mas eu vou tentar me lembrar”. E eu falei: então, Marie, você pode voltar amanhã? E ela disse que podia.

E ela voltou?
Débora – Depois disso, eu fui encontrar outras mulheres da comunidade. Contei a história dela. E as mulheres a acolheram dentro de casa. São pessoas que moram em quatro, cinco, num espaço do tamanho do meu banheiro. Não tem divisória, não tem cozinha, é fogo de chão do lado de fora da casa, faz muito calor. E as mulheres encontraram um lugar para ela dentro de casa. Do tipo: “Você é bem recebida dentro da nossa comunidade”. E ela ficou muito surpresa. Ela nunca vira essas pessoas na vida e essas pessoas estavam dispostas a acolhê-la. E no outro dia ela voltou e me agradeceu muito. Ela disse: “Eu me lembrei da última vez em que eu fui feliz”. E quando foi, Marie? Ela falou: “Foi quando eu dancei”.

Nossa…
Débora – E aquilo ficou… dançou, tá bom. Eu fiquei pensando em como montar um grupo terapêutico, porque a Marie foi só a primeira. Como ela, nessa missão, houve mais de 200 mulheres que eu atendi, sozinha, num espaço de um mês e meio, dois meses. Mulheres e meninas violentadas. Meninas de dois anos de idade, de três anos de idade, de 10, 15, que eram violentadas, estupradas, mutiladas. E eu lembro que o grupo terapêutico nessa comunidade foi de dança. Elas dançavam e com a dança elas contavam a sua história. Era muito bonito. Eu não entendia nada da música, mas eu sabia que a música tinha um conteúdo muito triste. Elas dançavam sempre numa roda e junto com a música cada uma contava a sua história. E choravam e se abraçavam e continuavam contando sua história e dançando. Para mim, cada dia era um ensinamento diferente. Ok, o sofrimento existe, a dor é frequente, a dor é permanente, mas quando a gente está no coletivo isso tudo é dividido. E a dança mostrava isso: a gente não pode parar. E velhinhas de 70, 80 anos, dançavam e saltavam indo até o chão e levantando de novo, porque as danças são muito expressivas. Nessa época, eu já tinha uma tradutora. Ela falou: “Vou te contar uma das músicas”. E era assim: “Quando eu cheguei aqui razão nenhuma eu tinha para viver, agora eu tenho não só uma razão, mas tenho uma família de novo. Tudo eu perdi, mas se Deus quis que assim eu tivesse uma comunidade e uma nova família, então eu fui aceita, e assim eu aceito. E assim agora tenho uma nova vida, uma nova razão para viver”.

Se alguém é capaz de afirmar que a dança não é transformadora, não sabe absolutamente nada sobre o assunto. Nada.

*
O título do post é uma frase de Débora Noal dentre tantas outras ditas à Eliane Brum. Aliás, a entrevista  completa não só merece ser lida, como relida e repassada. É extensa, profunda, difícil. E, por isso mesmo, incrível. Para ler, aqui.

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10 comentários sobre ““Até onde você se sente tocado para mudar uma história?”

  1. Cássia, que texto! Acabei de lê-lo e preciso de água!
    Boca seca e olhos encharcados.
    Obrigada por compartilhar conosco!
    Dança é sentido, é vida.
    Bjs

  2. Cássia, maravilhoso o seu post, inclusive encaminhei para as meninas que fazem ballet comigo. Sabe que eu ja ouvi muitos relatos de pessoas que superaram crises através da dança, principalmente porque eu danço dentro de uma Igreja. Eu acredito muito nisso, pq uma das mulheres que dançam comigo (e digo mulher pq ela tem mais de quarenta) se recuperou de uma depressão muito profunda depois que ela se juntou a nós e voltou a dançar. A dança não é apenas uma atividade, não é apenas uma arte, a dança é uma terapia, é algo que cura, algo que toca na alma das pessoas, e leva para longe tudo aquilo que nos aflige, pois através da dança mostramos ao mundo nossos mais profundos sentimentos.
    É isso ai, continue nos trazendo esses posts maravilhosos, que alem de nos informar nos edificam.

    Muito Obrigada,

    Beijooooooooo

  3. Que entrevista maravilhosa…..fiquei muitíssimo tocada pela história dessa psicóloga…vale a pena ler a entrevista na íntegra, é uma lição de vida, de amor ao próximo, de cidadania, de tudo!!! Depois que terminei de ler, fiquei pensando por horas a fio, reavaliando valores, conceitos, paradigmas, etc…
    Quando vejo que existem pessoas como ela, é que tenho noção do quanto ainda sou pequena e alienada!!!
    Parabéns pelo post e pelo blog Cássia!
    Beijos
    Cínthia

  4. A dança é capaz de tocar o mais profundo do ser humano. Sou grato a Deus por ela me comover ainda hoje, mesmo se passando tanto tempo. Quanto a história, me comoveu muito, mas não me surpreendo, pois acredito totalmente no poder da dança para saber que ela faz milagres! Lindo mesmo! Histórias como essa me fazem amar ainda mais o que faço!!!

  5. Mais uma vez obrigada por compartilhar esses textos!
    Sempre que leio algumas coisas aqui fico me perguntando afinal qual a motivação, por que eu amo tanto o ballet?
    O ballet, a dança, tem me ajudado numa tranformação lenta, difícil…numa espécie de crescimento pessoal.
    Pode parecer exagero, mas acho que a dança tem um impacto imenso na minha vida.
    O comentário da Nohara quando menciona a relação das pessoas com a dança, onde ela diz: ” Essa relação merece cuidado e reflexão. Tem que ser uma relação saudável, positiva, justamente pela intensidade da influência que a dança exerce na gente” me emocionou tanto quanto o texto do post.
    bjs

  6. Caramba, Cássia,
    estou no trabalho nesse momento, então terminei de ler o post lutando contra as lágrimas, com a garganta apertada.
    Aqueles que se entregam para a dança sabem a diferença que ela faz na vida de uma pessoa, o poder que ela exerce. Cada um com sua crença, seus ritos e religião, mas para mim é bem clara a ligação da dança com o sagrado.
    O que aponta para aquilo que aparece pelo blog tão frequentemente: a relação das pessoas com a dança, o que ela significa para cada um. Essa relação merece cuidado e reflexão. Tem que ser uma relação saudável, positiva, justamente pela intensidade da influência que a dança exerce na gente. Há quem se reconstrua e quem se destrua através dela.
    Beijos

  7. Nossa, estou profundamente tocada. Eu nunca ouvi uma história parecida e ao mesmo tempo fantástica. Que a dança transforma as pessoas, isso transforma. Nijinsky era esquisofrênico. Eu, por experiência própria já recebi notícias ruins ou mesmo de morte, onde eu me senti melhor indo para a sala de aula do que para casa. Estou arrepiada. Bjs

  8. é um exemplo extremo, mas é a realidade da dança na vida das pessoas… quantas meninas que tinham depressão e outros problemas encontraram a cura, ao menos que momentânea, através da dança? A dança não se explica, VIVE-SE, só quem faz é que sabe o que significa… Por isso que digo que, quando danço, é o momento em que me sinto mais perto de Deus…

  9. Meu Deus! Que lindo…

    A dança realmente transforma… eu sei, por experiência própria, que sim. Dançando eu esqueço tudo o que me deixou e o que me deixa doente. Simplesmente danço!

    Beijocas!

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