Bailarosa

Há uns dias, uma grande amiga perguntou qual era a minha flor preferida. “Rosa branca”, eu respondi. “Depois vem o lírio.” Dias depois, ela publicou este texto no seu blog. A Marina é escritora – o seu primeiro livro será lançado em breve – e tem esse amor pelas palavras e por tudo que a imaginação traz de encantador. Aqui está a história da rosa bailarina. É especialmente doce para quem acha que não é capaz de dançar.

*

Bailarosa

Era uma vez uma rosa branca. Ela nasceu por acaso no meio de lírios, como todos sabem, os lírios são bailarinos.

Por isso que na natureza eles são conhecidos como “bailalírios”. De qualquer forma, a rosa branca sonhava durante o dia, e de noite se maravilhava com o espetáculo dos seus vizinhos. Seu sonho era dançar como eles, mas eles falavam “Rosas não dançam. Principalmente as brancas!”

Devo dizer que esses comentários deixavam a pequena rosa muito triste. Mas ela não se deixou convencer e todas as noites observava com atenção a dança dos lírios e tentava repetir os movimentos. Uma certa noite, um dos lírios viu a pequena rosa se movimentando e falou “Você não pode se dobrar desse jeito, faz assim, como eu.” A pequena rosa era só felicidade, finalmente um lírio resolveu lhe ajudar.

Assim, todas as noites ela se aproximava do lírio que a ajudava, não posso dizer que o lírio era carinhoso com ela, porque não era. E por isso a rosa resolveu perguntar: “Por que você me ajuda se não acredita em mim?”.

“Porque me doía as pétalas ver você dançando daquele jeito. Mas devo admitir que você está pegando o jeito da coisa.”

A pequena rosa ficou em êxtase com esta observação. Elas continuaram treinando todas as noites. Mas a rosa não praticava só a noite, durante o dia ela fazia exercícios e praticava, enquanto os lírios dormiam ou faziam outras coisas.

Certo dia todos os lírios estavam muito agitados, a rosa perguntou o que estava acontecendo. “Em que mundo você vive?”, perguntou um deles, “Daqui uma semana entramos na primavera e temos que fazer o nosso show. Quando começamos o show, os pássaros começam a chegar e dançam com aquele que eles consideram o mais gracioso bailalírio.”

Vendo o olhar perdido e sonhador da pequena rosa, o lírio adicionou uma gota de veneno. “Mas você não precisa se preocupar com isso, afinal, sua dança é só por diversão. Deve ser bom já saber que os pássaros não vão te escolher, assim você nem fica nervosa.”

A rosa branca teve um momento de tristeza, um de raiva, um de pena de si mesma seguido de depressão e depois mais raiva. Sua “professora” a viu em um canto e foi até ela, “O que você está fazendo aqui? Temos que treinar a coreografia.”

“Eu faço parte da coreografia?”, perguntou a rosa quase sem acreditar nas palavras que saiam da sua boca.

“Você acha que eu sou o tipo de lírio que perde tempo com rosinhas inseguras? Nem precisa responder, eu acho que você treinou muito e tem o direito de participar da coreografia, mas você quem sabe.”

O lírio estava indo embora quando a rosa foi atrás dele dizendo que queria muito participar.

A coreografia era mais fácil do que a pequena rosa tinha imaginado, mas é claro que elas tinham que praticar muito até ficar realmente boa. Porém, para a surpresa da nossa amiga, parecia que só ela achava que os ensaios eram importantes. Os lírios ensaiavam uma ou duas horas e depois iam fazer outras coisas, como arrumar as pétalas e falar sobre como seria excitante se os pássaros voassem com um deles.

A rosa foi atrás da sua “professora”, mas essa também parecia não estar preocupada com a coreografia, pois ela estava realmente inquieta com a sua apresentação solo. O motivo pelo qual ela tinha uma apresentação solo era porque na primavera passada os pássaros a escolheram.

Sendo assim, a rosa praticava sozinha, passava horas e horas ensaiando a coreografia do começo ao fim.

Finalmente o grande dia chegou, todos estavam nervosos. Elas começaram a dançar e os pássaros começaram a chegar. A pequena rosa ficou muito surpresa com os erros que os outros bailalírios faziam, mas mesmo assim continuava a sua dança dando o melhor de si. No meio da apresentação elas pararam em pose, era o momento do solo. Pela primeira vez, a rosa não se sentiu inferior a sua “professora”, ou em relação a qualquer lírio. Não que eles não estavam dançando bem, mas estava longe de ser um espetáculo divino.

De qualquer jeito, o solo acabou e elas fizeram a última parte da coreografia, era nessa parte que os pássaros deviam começar a dançar com um deles.

A pequena rosa estava concentrada em não cair, enquanto se equilibrava na ponta de uma de suas folhas, quando viu uma asa perto dela, levantou o olhar e viu os pássaros voando entre elas, mas ela não podia ver em torno de quem. “Deve ser alguém perto de mim”, ela pensou.

Continuou a dança, faltavam só alguns passos para terminar, no seu último movimento percebeu que os pássaros estavam bem perto dela. “Não, não pode ser. Voam perto de mim!” Ela se sentiu tão esplendorosa que continuou a dançar até depois que a coreografia já tinha terminado.

Porém, pouco a pouco, ela foi parando, ao ver as caras feias dos lírios em torno dela e dos pássaros. Quando eles pararam de dançar, um dos lírios se aproximou e disse: “Vocês estão loucos? Ela nem é um bailalírio de verdade!”

“É verdade, ela não é um bailalírio”, disse um dos pássaros. “Ela é uma bailarosa.”

“Não importa o que vocês dizem, ninguém pode nos convencer que essa aí é a que dança melhor.”

“E quem disse que nós escolhemos aquela que dança melhor? Escolhemos aquela que dança com a alma. Pois é isso que faz a diferença. É fácil saber a técnica, é fácil ser naturalmente graciosa, mas só quem dança com alma consegue fazer com que os outros tenham vontade de dançar também.”

Depois dessa afirmação, os pássaros e a pequena rosa branca dançaram e dançaram por muito tempo. E para o desespero dos lírios, depois daquele dia, outras rosas começaram a nascer por ali. Ou melhor, outras bailarosas, pois todas eram delicadamente apresentadas à dança pela pequena rosa branca.

Texto de Marina Sandoval, publicado em Fairy Tale.

Anúncios

6 comentários sobre “Bailarosa

  1. Quando se faz alguma coisa com a alma, todos veem com os mesmos olhos que veem os melhores.
    Que todas sejamos Bailarosas.
    Que todas dancem com a alma…
    Beijos

  2. Uauu, que lindo!
    Me senti a Bailorosa… pelo jeito não há como nao se identificar com ela!
    O texto expressa exatamente o que penso, a tecnica é maravilhosa e pode muito impressionar, mas quando se dançado com a alma, om amor, com expressão tudo se torna diferente!!

    AMEI O TEXTO!

    Um beijo.

  3. LINDO !!!! estou chorando de emoção !!! eu também sou bailarosa, mas os bailalirios que me cercam me ajudam muito !!! CASSIA não sou internauta, mas o único site que me prende por horas são os seus (dos passos… e carambolas…). Você põe sua alma em tudo que faz. DEUS TE ABENÇOE

  4. Que história mais maravilhosa.
    O texto tem um sentimento tão real, tao verdadeiro do que esta acontecendo…
    Que post tão maravilhoso Cássia!
    Beijinhos enormes.!

  5. Lindo texto… Ameii
    Quero ser uma “bailarosa” tbm rsrs
    Um dia os pássaras vão me escolher também…
    Se Deus quiser *–*

  6. Sim, o texto é realmente lindo…
    e estranhamente familiar…
    apesar de ainda estar bastante longe de acontecer que eu seja escolhida por algum pássaro…
    mas vai acontecer.

    Com certeza vai.

    Bjoka

Os comentários refletem a opinião das leitoras e dos leitores e não correspondem, necessariamente, à opinião da editora do blog.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s