Quem é a nossa plateia?

No post anterior, comentei que percebi algo importantíssimo depois da minha apresentação. Espetáculo terminado, coisas arrumadas, lá fui eu cumprimentar meus pais e minhas amigas.

Mal terminei de abraçar a minha mãe e ouvi a frase: “Eu posso saber por que você aluna dançou tão pouco e sua professora dançou quase metade do espetáculo?”. Expliquei que ela fez o papel da protagonista, mas não adiantou absolutamente nada.

Dancei ballet pela primeira vez aos 28 anos. Depois da incredulidade geral, nem eu acreditei no tamanho encantamento da minha família. A apresentação foi assunto em casa por dias.

Na segunda vez, minha mãe se desmanchou em lágrimas assim que pisei no palco, ao me ver totalmente bailarina de tutu romântico cor-de-rosa. Naquele dia, dancei duas coreografias de ballet, uma de jazz e uma de dança do ventre. Nos aplausos finais, encontrei meus pais com o olhar e eles estavam emocionadíssimos.

Na terceira…

Outro dia mesmo eu comentei aqui sobre plateia e entendi que essa discussão passa longe do que acontece conosco. Geralmente, dançamos uma vez por ano. Nesse momento, nossos pais, irmãos, amigos, namorados, maridos vão nos assistir. É um evento familiar! Somos as bailarinas da família, lembram?

Polina Semionova no clipe de Herbert Grönemeyer. Para assistir, clique aqui.

Minha mãe me contou que olhava para o meu rosto e, depois, para os meus pés. “Nossa, tão lindo, fazendo aquele arco…” Ela mal sabia sobre ballet e hoje sabe reconhecer meu colo de pé. Entendi a sua ira e a decepção do meu pai. Dancei uma coreografia de dois minutos com mais 10 bailarinos. Não foi nada. Nem para eles, nem para as minhas amigas. Foi triste ver a reação deles.

Nós não podemos confundir escolas com companhias de ballet. Para a nossa plateia, formada por fãs cativos que acompanham as nossas agruras de perto, nem sempre uma história a ser contada faz diferença. Eles querem é ver a sua filha, a sua irmã, a sua namorada, a sua amiga, a sua sobrinha, a sua neta, a sua prima dançando no palco num espetáculo bem-feito. Talvez a gente nem perceba, mas naquela plateia há centenas de corações emocionados em ver aonde chegamos. Depois de tantas aulas e ensaios, conquistas e dissabores, nós conseguimos.

Ao me dar parabéns naquele dia, eu brinquei com meu pai e disse: “Pode deixar, ano que vem eu dançarei mais”. Ele soltou um desolado: “Tomara”.

Tomara não, eu vou. Porque quem vai me assistir com tanto amor merece.

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13 comentários sobre “Quem é a nossa plateia?

  1. Thays, eu achava a mesma coisa, até gastar uma fortuna para dançar dois minutos e ficar meia hora sentada. :P Se fosse muito mais barato, faria de novo numa boa. Eu comentei por e-mail com uma das bailarinas que comentam sempre aqui: repertório é bacana para quem dança, coreografias na sequência são legais para quem assiste. Bom seria ter as duas coisas, hehehe. E muito legal toda essa agitação da sua família. Ah, mas sabe que eu nunca chamo parente distante? Não devem nem saber que eu faço ballet. Sério mesmo. Não tenho paciência para isso mesmo que você falou, hehehe. Ah, e muito obrigada! :D

    Doce beijo.

  2. Sabe que eu sempre quis participar de um ballet de repertório mesmo que dançasse muito pouco e ficasse de “cenário” o resto do espetáculo?

    Mas lendo o que vc escreveu, realmente para quem acompanha nossa trajetória não seria tão prazeiroso quanto nos ver dançando efetivamente por mais tempo.

    Apresentação de ballet de repertório em escolas dá um ar mais “sofisticado” pra escola só que realmente fica incongruente com as expectativas da maior parte do público.

    Adoro todo o clima pré-apresentação em relação a minha família… tem todo um clima de expectativa e torcida para que tudo dê certo no palco. Sinto uma união maior dentro dessa correria cotidiana que muitas vezes mal paramos pra nos falar. É muito rico.

    Mas ao mesmo tempo não gosto de parente – mais distante – que vai assistir esperando um nível avançado de ballet pra depois ficarem com uma cara de “mas é só isso que vc dança?”

    Enfim…

    Gostei demais do seu post. Principalmente da maneira que você escreve. Acho tão lírico! :)

  3. Vivian, eu posso te mandar por e-mail? Daí explico tudo direitinho. Ele aparece para mim quando as pessoas comentam, posso mandar esse mesmo ou você prefere outro endereço? E eu concordo com você, nos sites é sempre lindo e bacana, hehehe. Também prefiro conversar com quem estuda ou já estudou no local.

    *

    Gabi, talvez eu tenha sim me decepcionado um pouco. Terceira escola já. Por isso mesmo, por ter passado por algumas escolas em pouco tempo, percebi que existe algo além do método, da professora, do local: a gente se encontrar naquele lugar. Às vezes, apenas não é para nós. Fico feliz que você adore o que escrevo, muito obrigada! E não se preocupe com a falta de identificação, acho ruim apenas quando as pessoas utilizam isso para atacar os outros sem se mostrar. Não é o seu caso. ;)

    Beijos.

  4. Oi, Cassia.. Sempre acompanho seu blog, e pelo q percebi, vc se decepcionou um pouco com sua professora nessa apresentação, né? Pois é, é dificil encontrar uma escola de ballet para adultos, em q o professor realmente nos enxergue como alunos e respeite nossas limitações, nossos sonhos.. é complicado…
    Adoro tudo o q vc escreve! Desculpa nao me identificar…
    Bjs

  5. oi cassia !

    estou procurando uma escola de ballet e lendo seu blog vi que voce ja andou por algumas escolas de ballet de sao paulo…
    eu fiz uns 5 anos de ballet quando era menor e depois parei, mas agora adulta queria voltar a esse tipo de dança. voce poderia me falar um pouco das escolas que passou/está e como eh o metodo de ensino ? gostaria de ouvir um pouco da opiniao de quem esteve nos locais, porque nos sites tudo eh muito bonito rsrs

    beijos, adorei seu blog !

  6. Ana, é verdade. Eu fico mais nervosa quando eles estão na plateia, mas não me sinto sozinha.

    *

    Emily, minha família é daquela que mal comenta o assunto ao longo do ano, mas nos espetáculos está lá feliz e contente. É muito bacana mesmo, viu?!

    *

    Carol, seu pai é mais tranquilo que o meu nesse aspecto. Meu pai não gostou muito não, e mãe é mesmo mais chata. Mãe é mãe, não adianta, tampouco importa a idade que a gente tenha. Eu já disse que gosto da sua professora? Já gostei quando ela deixou vocês na sala para criarem uma coreografia. Agora gostei mais ainda. Deixa só o trem-bala ficar pronto, daí vou rapidinho conhecê-la na sua aula. ;)

    *

    Leticia, na primeira escola onde dancei, havia uma coisa muito bacana que nunca vi em outro lugar. O espetáculo corria normalmente com os alunos e a última coreografia era destinada aos professores. A mesma música para todas as modalidades, cada hora um entrava e dançava a sua parte. Parece uma doideira, mas no palco, menina, que coisa mais linda. Era emocionante! Acho bacana quando vemos os professores dançarem, mas gosto disso nos professores, colocando cada coisa no seu lugar. Nossa, você dançou oito minutos, OITO! Eu dancei dois, você tem noção? Eu ainda estou passada com isso, hehehe.

    *

    Brenda, muito obrigada! No fim das contas, é isso mesmo, compartilhar com quem amamos faz toda a diferença.

    *

    Mari, não fiquei brava com o errinho não… ;) Na hora só me deu o “Cássia, você está errando, acorda, sorri e finge que tudo bem!”.

    *

    Simoní, se eles te incentivam e respeitam, já vale muitíssimo! E sua mãe e seu namorado estão sempre na plateia, é lindo isso. :D E fofa a sua professora, hein?!

    Beijos.

  7. Eu sou suspeita para falar sobre família, pois sou super apegada a todos eles, quando o assunto é ballet somente a minha Mãe e meu Namorado quem me acompanham nas apresentações, meu Pai e meus irmãos não ligam muito, mas mesmo sem me acompanhar fielmente, eles nunca deixam de me incentivar, e principalmente de me respeitar. E isso já basta! ^^

    Minha Professora é generosa até demais, muito difícil ela dançar conosco, (mas quando dança é um arraso :) ), as vezes até cobramos dela pra dançar também, mas ela prefere ficar de olhos bem abertos na direção, e na organização, dos ensaios e das coreografias, tudo nos mínimos detalhes.

    Beijos

  8. É Cássia, realmente a nossa platéia são nossos familiares e queridos. E nesse caso eles desejam nos ver mais nas coreografias.
    Parabénss pela sua apresentação, não fique brava com um errinho, todos erram, e na plateia quase nem percebem!
    Beijuus

  9. Aaaai, que post mais lindo! Acredito em tudo na vida a melhor parte mesmo é poder compartilhar (e se for reconhecida, ainda melhor!) com as pessoas que amamos e que se importam conosco!

  10. Acho importante a generosidade das professoras com as alunas (que a Carol comentou). As minhas duas professoras foram super generosas, mesmo sendo obrigadas a dançar com as alunas. Uma delas dançou conosco e mas se colocou no fundo do palco, passando totalmente desapercebida, junto com as alunas. A outra nem dançou a nossa coreografia… eramos 11 bailarinas, ela escolheu dançar o moderno com outras 3 bailarinas.
    Percebi que as pessoas não vão ver bailarinos profissionais, muito menos perfeição. Elas vão ver o resultado da nossa evolução, vão nos prestigiar.
    Eles sabem exatamente a medida do que esperam. E normalmente se emocionam por nos encontrar além do que esperavam!
    Beijos
    lelê

    PS> também dancei duas músicas “enormes”! kkkk! Dancei 8 minutos! rssssss

  11. haha Ontem dancei A Bela e a Fera num shopping e meu pai disse, brincando, “Nossa, que participações enormes, hein, filha!” hahaha Porque danço duas músicas curtas também. Mas ele curtiu mesmo assim… MInha mãe que entende menos essas coisas de papéis… Mãe geralmente é mais chata… haha

    Mas minha professora sempre evita solos e participações longas, pois já sabe o que as mães vão dizer. Ela mesma acha chato e meio feio ficar tirando a atenção das alunas, que são as mais importantes do espetáculo…

    Beijoooo!

  12. Que fofa sua família.
    Acompanhando suas apresentações,querendo realmente ver vc dançar.
    Que amor.
    A nossa família é a platéia mais bela que existe.

    Um grande abraço.

  13. É verdade, quando dançamos é a nossa família e os amigos que estão nos vendo.

    E é muito bom quando as pessoas que amamos estão lá para nos dar apoio.

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