Por que você esquece o nome da capital da Hungria…

mas não desaprende a andar de bicicleta?

Acabei de ler um texto da neurocientista Suzana Herculano-Houzel em que ela explica isso. Ela contou que voltou a jogar vôlei depois de vinte anos. E disse o seguinte:

“Custou entrar para um clube perto de casa e ser arrastada para a quadra por uma amiga dos tempos da escola, mas foi: vinte anos mais tarde, descobri que ainda sei jogar vôlei! Santos núcleos da base e córtex motor, que guardaram os programas necessários bem guardadinhos esses anos todos.

“Felizmente esse tipo de aprendizado e a memória correspondente, chamada de procedimentos, são diferentes dos outros, como informações novas que colocamos em palavras. Para essas, não há muito perdão: quanto menos elas são acessadas, maior a chance das conexões correspondentes irem se enfraquecendo com o tempo, cedendo lugar a outras – e maior a chance de caírem assim no esquecimento.

“Com os procedimentos, não. O que você não sabe colocar em palavras, mas sabe fazer – e sobretudo se aprendeu antes da adolescência – fica guardadinho lá, em circuitos aparentemente bem mais estáveis.

“Bom, quase todos – e é tentando que a gente descobre o que desaprendeu.”

Suzana Herculano-Houzel, trechos de Vinte anos mais tarde… eu ainda sei jogar vôlei! Para ler o texto completo, aqui.

E o que isso tem a ver com o ballet? Tudo. Quantas pessoas fizeram ballet na infância, pararam e voltaram a dançar tempos depois? Ou ainda, aquelas que querem voltar, mas desistem, porque afirmam que esqueceram tudo?

É justamente o contrário. Quem começou bem cedo tem mais facilidade do que quem começou mais tarde, feito eu. Aquelas pessoas que já voltaram a dançar, fiquem tranquilas, há uma porção de informações guardadas aí dentro. Já quem quer voltar, mas reluta, não está na hora de mostrar o que foi aprendido há tanto tempo? Depois de ler esse texto, quisera eu ter começado quando criança. De verdade.

O tempo de cada um

Eu nunca fui aquela aluna que amava Educação Física. Pelo contrário, fugia das aulas com todas as minhas forças. Só era boa em corrida, ganhava de todo mundo. Talvez porque quisesse realmente fugir. Tanto queria que ia a médicos para ser dispensada. E consegui: eu realmente tenho um problema no joelho. A partir da sexta série, nunca mais precisei fazer essas aulas.

O ortopedista só liberou uma coisa: natação. E os meus pais, claro, só me deixavam fazer isso, nadar. E nadei durante um ano.

Eu afundava mesmo usando prancha. Só para aprender a boiar demorou um tempão. Todos eram mais rápidos do que eu. Até que o professor percebeu que, se mantivesse comigo as mesmas séries dos outros alunos, eu não aprenderia a nadar nunca. O que ele fez? Primeiro, ele passava o que eu deveria fazer. Depois, o que os outros deveriam fazer. Eu tinha todo o tempo que quisesse para nadar as séries indicadas por ele.

O que aconteceu? Continuei sendo a mais lenta. Mas aprendi a nadar melhor do que todo mundo. Depois de um tempo, o professor nem me corrigia mais.

Contei tudo isso para dizer que, muitas vezes, culpamos os professores de ballet pela nossa inadequação, dificuldade de aprendizagem ou demora na evolução da dança. Claro que eles têm responsabilidade sobre isso. Mas só eles?

Ao contrário da natação, um professor de ballet não pode passar barras, centros e diagonais diferentes para cada aluno. No máximo, pode notar as dificuldades individuais, dar uma atenção especial a isso, e só.

Cada professor tem um jeito de ensinar. Cada aluno tem um jeito de aprender. A meu ver, o casamento perfeito é quando os jeitos se encontram.

Há pessoas que precisam repetir 30 vezes o mesmo passo em um mesmo dia. Outras, repetir uma vez, todo dia. Há quem aprenda sob pressão, há quem aprenda aos poucos.

Pelo que acabei de contar, deu para notar como é a minha maneira: devagar. Um pouco por dia e vou longe. O meu corpo é inversamente proporcional à minha mente. Ele é lento, demora para aprender. Mas aprendeu uma vez, não esquece mais. Não consigo fazer nada se sou pressionada e em qualquer área da minha vida. Quer me ver correr? Basta me pressionar, seja para o que for.

Sendo assim, é bacana perceber como é o nosso jeito. Se você adora repetir mil vezes um passo e ter um professor ao seu lado dizendo “Vamos lá, mil e uma…”, não terá paciência com aquele que não age dessa forma. Se for da mesma turma que eu, devagar e sempre, precisa de um professor que repete o mesmo passo, com combinações diferentes, de tempos em tempos.

Porque não há um jeito certo de ensinar. Cada pessoa tem o seu tempo de aprender. E enquanto você não descobrir qual é o seu, viverá achando que o problema está no método, no estúdio, no professor, em você. Quando, na verdade, era só uma questão de acertar o relógio.

Quando o “se” tem muita força

Nos comentários do post sobre o processo seletivo do Bolshoi Brasil, surgiu uma discussão (saudável, ninguém brigou com ninguém) sobre as escolas de formação só aceitarem crianças ou adolescentes. Não só, discutiu-se também que, muitas vezes, não temos contato na infância com algumas habilidades que poderiam ter sido desenvolvidas. E que, depois de uma certa idade, parece que estamos “velhos” para tudo, não importa o quê. Ballet, música, outra faculdade, mudar de profissão. Como se todos nós viéssemos ao mundo com um cronograma: “Depois dos 30 anos, sinto muito. Se não descobriu o que queria, aceite a vida como está”.

E não é assim.

Pensei em fazer um post falando sobre o assunto de maneira geral. Mas o blog é sobre ballet clássico. Sendo assim, o meu foco será esse, tudo bem? Mas, acreditem, valerá para qualquer coisa.

Vocês me veem criticar muitas questões acerca do ballet. Muitas. E já levei vários tomates por conta disso. Porém, vocês nunca me viram criticar o fato das escolas de formação aceitarem apenas crianças. No máximo, adolescentes com conhecimento em dança. Não questiono pelo seguinte: ser excelente no ballet é coisa rara e demanda tempo. Muito tempo. Qualquer pessoa que dance não discute isso. Como ter uma primeira-bailarina de 25 anos de idade se ela não começou mais nova? Palpite meu, mas creio que o auge de um profissional da área, quando a técnica e o físico caminham lado a lado, reside entre os 25 e 35 anos. Ou seja, vamos tirar um pouco a ideia do sonho dourado e pensar nas grandes companhias como empresas: elas precisam de grandes bailarinos nessa faixa etária. Engraçado, ninguém discute os sistemas de seleção das multinacionais, mas das companhias…

Sendo assim, o meu foco não passará nem perto dessa questão. Eu quero viver em um mundo onde Sylvie Guillem existe. Amo ver espetáculos com bailarinos de alto nível. Ponto.

Agora, vamos pensar em nós, aquelas bailarinas que não começaram a dançar aos 10 anos de idade. Aquelas que voltaram a dançar depois dos 20 anos, que descobriram o ballet aos 30, que resolveram dançar aos 40.

Vocês acham mesmo que, o simples fato de começar na infância garante uma história brilhante no ballet clássico?

Quantas crianças fazem ballet? Nem falo daquelas que fazem na escola ou apenas duas vezes na semana. Falo daquelas que se dedicam, que crescerão na dança, que sonham com grandes teatros, que trocam as brincadeiras por aulas e ensaios. Quantas, dessas crianças, se tornarão bailarinos profissionais?

Não precisa ir muito longe, podem perguntar nas escolas brasileiras de formação quantos alunos começam o curso, quantos terminam e quantos seguem carreira. Isso não é exclusividade da dança, isso acontece na vida. Os caminhos mudam, as histórias mudam, nós mudamos.

Será que cada uma que sente uma angústia desmedida por não ter começado na infância, seria hoje uma grande bailarina profissional?

Talvez sim. Talvez não. Quem vai saber?

Parece simples, mas sei que não é. Vocês acham que eu nunca me questionei a respeito disso? Claro que sim. Várias vezes. Já chorei por isso. Poucas vezes. Mas não me culpo, ou culpo meus pais, ou culpo as circunstâncias, ou culpo a vida, ou culpo a humanidade. Simplesmente, não aconteceu. Eu me cobro hoje? Nem um pouco. Em quatro anos de ballet, estou bem distante do que muitas outras que começaram na mesma época estão. Estou preocupada com isso? Nada. Eu tenho o meu tempo e não vou correr para alcançar ninguém.

Se os grandes palcos não estão reservados para nós, há muitos outros por aí. Se em alguns teatros nós estamos na plateia, em outros esperamos na coxia.

Tempo passado não volta. E quanto mais achamos que sim, mais ele vai passar…

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Leia também:

Festival de Dança

Neste momento, está acontecendo o Festival de Dança de Joinville. De 21 a 30 de julho, a cidade respirará dança o tempo todo.

Devo ser uma das poucas pessoas da dança que não está lá. Infelizmente. Mas percebi que devo me programar para ir ano que vem.

Quem também não foi, pode acompanhar todos os acontecimentos no portal oficial do evento. Para acessar, clique na imagem.

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Aproveitando o ensejo, há tempos comentaram no blog que não há ballet clássico para adultos em Joinville. Logo na cidade da dança? Pois a Vanessa e a Brighidth disseram que há sim, tanto no Sesc da cidade quanto na Escola Municipal de Ballet. Quem quiser mais informações, acesse a página de escolas de ballet, aqui.

Ballet adulto iniciante é pleonasmo?

Não, mas muitas pessoas acham que sim.

Um adulto no ballet clássico? Só se for bailarino profissional. No máximo, alguém que dançou durante toda a infância e adolescência e resolveu voltar. É o que diz o senso comum. Começou tarde? Ficará eternamente no nível iniciante.

Em primeiro lugar, vamos definir o que significa “ballet adulto”. De maneira geral, a formação de um bailarino começa na infância, entre os 7 e 9 anos, e termina na adolescência, entre 15 e 17 anos. Estou falando em média, mas não vai muito além disso.

Quando alguém começa a fazer ballet a partir dos 18 anos ele é um… adulto. Logo, a primeira função desse termo é designar a faixa etária das turmas. Quando você vê “ballet adulto” sabe, de antemão, que os alunos são mais velhos e maiores de idade.

Outro ponto importante é que as aulas são ministradas de uma outra maneira. Adulto é adulto, adolescente é adolescente e criança é criança. Parece óbvio? Diga isso a uma professora que trata suas alunas de 30 anos como se elas estivessem em fase de crescimento e espera anos para iniciá-las nas pontas. Não sou especialista em anatomia ou biomecânica, mas sei que a banda toca de um outro jeito para quem já cresceu tudo o que tinha de crescer.

Há outra diferença? Nenhuma. A técnica deve ser dada em todas as turmas, não importa a idade. Claro, as exigências serão maiores nos cursos de formação, mas aí o objetivo é outro. Nunca compare formação profissional com prática amadora: serão diferentes em qualquer lugar do mundo.

Mesmo assim, ballet clássico é ballet clássico. Técnica clássica é técnica clássica. Se nas suas aulas você não sai do plié, alguma coisa está errada. E estou falando sério. Ballet adulto iniciante é só uma etapa. Há outras tantas pela frente, e quem fala o contrário, não sabe o que está falando.

Vamos parar com essa história de que adultos no ballet são coitadinhos frustrados? Eu não estou brincando de dançar e aposto que vocês também não.

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ATUALIZAÇÃO: Só deixar claro duas coisas que estão gerando confusões nos comentários.

1. “Ballet adulto” não é uma marca, é um termo que designa especificamente turmas de adultos que fazem ballet clássico, tenham começado depois dos 18 anos ou voltado a dançar depois de muito tempo. Marca é uma representação de um produto ou serviço, mediante registro nos órgãos competentes. Caso alguém registre o termo seguido de algum complemento que o especifique, sim, é marca. Não confundam, uma coisa nada tem a ver com a outra.

2. O tema do post versa especificamente sobre o “iniciante” subsequente a “ballet adulto”. Questiono o fato de adultos serem vistos como incapazes de prosseguirem nos estudos de ballet clássico. Só! Volto a afirmar: ballet clássico é ballet clássico. Qualquer outra coisa que advenha disso, não faz parte do meu texto, tampouco corresponde a minha opinião.