Kitri e Basílio

Carlos Acosta é bailarino convidado do Royal Ballet. Lauren Anderson foi primeira-bailarina do Houston Ballet e hoje dá aulas na companhia. Aliás, ela foi a primeira bailarina negra a chegar ao posto principal de uma grande companhia dos Estados Unidos, em 1990.

Eu assisti a este vídeo diversas vezes e sempre me impressiono com a força dos dois em cena. Infelizmente, não encontrei outros vídeos deles dançando juntos. Outros vídeos da Lauren Anderson então, são poucos. Mas este grand pas de deux é o suficiente para vermos que estamos diante de grandes bailarinos. Ele dispensa apresentações. Ela sempre será uma bailarina incrível.

Grand pas de deux, “Dom Quixote”, Carlos Acosta e Lauren Anderson.

Dance, senão estamos perdidos.

A dança deve ter outra razão além de simples técnica e perícia. A técnica é importante, mas é só um fundamento. Certas coisas se podem dizer com palavras, e outras, com movimentos. Há instantes, porém, que perdemos totalmente a fala, em que ficamos totalmente passados e perplexos, sem saber para onde ir. É aí que tem início a dança, e por razões inteiramente outras, não por razões de vaidade. Não para mostrar que os dançarinos são capazes de algo de que um espectador não é. Há de se encontrar uma linguagem com palavras, com imagens, movimentos, estados de ânimo que faça pressentir algo que está sempre presente.

[...] Essa é a maravilha da dança: que o corpo seja uma realidade pela qual se atravessa. Ele nos dá algo bastante concreto que se pode captar, sentir e que nos move. Os espectadores são sempre uma parte do espetáculo, tal como eu própria sou uma parte do espetáculo, ainda que não esteja no palco. E cada espectador é convidado a confiar em seus próprios sentimentos. Em nossos programas também nunca há uma indicação de como as peças devem ser compreendidas. Temos de fazer nossas próprias experiências, como na vida. Isso ninguém pode nos impedir.

Pina Bausch, trechos do discurso proferido em recebimento do título de doutora “honoris causa” da Universidade de Bolonha (Itália).

Fonte: Folha de S.Paulo, 27 de agosto de 2000, Mais!, p. 11-13.

Para ler o texto completo no acervo da Folha de S.Paulo, aqui.

Um pouco de dança contemporânea

No primeiro post do ano, eu disse que publicarei mais vezes sobre dança contemporânea. Ano passado, foram apenas cinco publicações: Gnawa, Nocturnes, Cinderella, Arenal e Le parc. Não é nada perto dos 140 posts de 2013.

O meu interesse começou mesmo depois das aulas que tive na pós-graduação em dança (curso que abandonei na metade). Assim surgiu o post “Dança contemporânea”, em que falei brevemente sobre o assunto. Dali em diante, eu publicava uma coisa ou outra, mas nada além disso.

Quando pesquisei sobre companhias ao redor do mundo, aí sim me apaixonei de vez. Encontrei trabalhos muito interessantes, obras que fizeram meus olhos brilharem. Sei que o blog é sobre ballet clássico, mas mais do que isso, é o meu espaço para falar sobre dança. Não posso deixar passar tamanho interesse da minha parte.

Sendo assim, publicarei mais obras de dança contemporânea. Não tenho conhecimento para analisá-las, mas contarei por que elas me encantaram e, quando for possível, indicarei um link para vocês assistirem à obra completa.

Hoje será apenas um vídeo para acompanhar o texto. Não assisti ao espetáculo completo porque não o encontrei, mas as breves imagens dão uma amostra da sua beleza. É um ensaio no palco de Lieder eines fahrenden Gesellen, de Jiří Kylián, com a companhia Nederlands Dans Theater II.

Lieder eines fahrenden Gesellen, de Jiří Kylián, Nederlands Dans Theater II.

Os meus dois lados

Em 2014, o blog fará cinco anos. Não só, completarei sete anos de dedicação ao ballet clássico. Parece pouco, mas é tempo suficiente para descobrir qual dança nos move na vida. Não falo de modalidade, mas de outra coisa.

Desde o começo eu bato na mesma tecla, eu acredito em uma dança possível. Gosto de olhar para as bailarinas e me encontrar, me reconhecer, me descobrir. Quando assisto a um ballet e penso: “Eu também sou bailarina”, ou “Eu também danço”, sinto que estou no caminho certo.

O virtuosismo, a hiperextensão, o sobre-humano me jogam para longe dessa identificação. Sinceramente, cansei desse ballet clássico. Ele continuará existindo, ele continuará dominando a cena da dança. Mas, neste lugar, não precisa ser assim.

Vou compartilhar apenas o ballet clássico que eu acredito. Vídeos, informações, os meus estudos, falarei sobre esse ballet clássico tão difícil de encontrar. Preciso, limpo, técnica clássica como meio e não fim, 90 graus, três piruetas em vez de dez. Querem um exemplo? A “Variação da Fada Lilás”, de A Bela Adormecida, montagem da Ópera de Paris. Perfeito! Este é o ballet clássico que quero para mim.

“Variação da Fada Lilás”, A Bela Adormecida, Ópera de Paris, Eve Grinsztajn, 2013.

Além disso, publicarei obras de dança contemporânea pelas quais eu me apaixonei, e explicarei os meus motivos. Dança contemporânea não é “qualquer coisa” e mostrarei isso a vocês.

O blog sempre foi mais abrangente e, muitas vezes, isso demandava uma grande pesquisa da minha parte. Daqui em diante, falarei sobre a dança dos meus dias, aquela a qual eu me dedico. Depois de cinco anos, estava na hora de ser assim.

Bem-vindo, 2014. Que seja um ano de muita dança para nós.

Um balanço de 2013

No primeiro post do ano, sempre defino um objetivo para o blog, um tema que o permeará pelos próximos 12 meses. Em 2013, foi este: “Um ballet clássico sem sofrimento. Quero mostrar por que o ballet faz os meus dias mais felizes. Por que ele faz parte da minha vida. Por que eu me dedico tanto a ele, de várias maneiras, mesmo não ganhando um centavo por isso.”

Foram publicados 140 posts e, ao repassar todos eles, concluí que atingi a minha proposta. Disse para termos olhos generosos com nossos erros e dificuldades, repensei o nosso conceito de perfeição, questionei o tipo físico ideal, falei sobre a limpeza técnica dos movimentos a 90 graus e o quão importante é conhecermos o nosso corpo. Também falei sobre o que nos leva a fazer ballet clássico e como a dança nos faz desabrochar para a vida. Além disso, foram dezenas de lindas coreografias, que nos inspiraram o ano todo, e várias informações para estudo de técnica clássica − aula para iniciantes, aula do Bolshoi Ballet, vídeos de um professor francês −, anatomia e física.

Qual o acontecimento mais importante? Sem dúvida, o Dos passos da bailarina ter virado livro. À primeira vista, parece apenas uma compilação de textos, mas o livro concluiu uma fase do blog. Da minha parte, aquela visão do ballet clássico não existe mais. Foi um período de descobertas e questionamentos que ficou para trás. Daqui em diante, são outras histórias, outra visão e outras descobertas.

E o mais legal? O nosso grupo de discussão. Por enquanto, mais de 350 bailarinas e bailarinos estão compartilhando informações, dúvidas e realizações. Estou bem feliz com o que estamos construindo por lá.

Por fim, obrigada por mais um ano. Desejo que 2014 seja bom para todos nós. Se Deus quiser, estaremos juntos novamente, e dançando.

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