As três obrigações

Dia desses, publiquei no Facebook um post do Bolshoi Brasil com fotos dos alunos do primeiro ano de ballet aprendendo a costurar as próprias sapatilhas. Detalhe: no segundo dia de aula. As meninas também aprendem, na primeira semana, a fazerem seu próprio coque.

Agora eu pergunto: Por que há bailarinas mais velhas que não sabem fazer isso? “Mas eu nem sou profissional, Cássia!” E só por isso vai depender dos outros para fazer aquilo que é sua obrigação?

Sim, obrigação. Talvez vocês achem exagero, mas certas coisas são responsabilidade de cada bailarina. São elas:

1. Costurar elásticos e fitas nas sapatilhas.
Não adianta pedir para a mãe, a avó, a tia, a amiga prendada: perca o medo das linhas e agulhas e costure sozinha. Nas primeiras vezes, as costuras ficam horríveis. Depois, fazemos sem nem pensar a respeito. Além disso, uma de suas sapatilhas pode se descosturar pouco antes de você entrar no palco ou antes de você começar um exame. Imagine só uma bailarina buscando socorro na coxia ou no vestiário para alguém fazer algo que é de sua responsabilidade.
• Para aprender com o post do Bolshoi Brasil, aqui.

2. Se maquiar.
Não importa se você se maquia uma vez por ano quando o espetáculo acontece. Nada de ficar pedindo para maquiarem você. Eu mesma já vi bailarina entrar no palco sem um adereço porque chegou atrasada na coxia. Sabe o que ela estava fazendo? Maquiando outras pessoas. Não era a obrigação dela. Por isso, seja responsável pela sua própria maquiagem. E é importante ressaltar: não é para chegar ao camarim e começar a peregrinação: “Alguém tem base da cor da minha pele? E sombra azul, quem tem?” Use os seus próprios produtos.
• Para quem não sabe nem como começar, aprenda uma maquiagem básica aqui.

3. Fazer o seu próprio coque.
O mais comum, o que fazemos mais vezes, nosso amigo e companheiro. E ainda há bailarinas que não sabem como fazê-lo? Não vale usar rabo de cavalo ou ficar de cabelo solto (sim, eu já vi isso em sala de aula). O coque existe no ballet não pela beleza, é para os cabelos não nos atrapalharem enquanto dançamos. Tente fazer uma diagonal de cabelo solto para ver o que acontece. Eu sei, o coque parece difícil de fazer, mas logo o fazemos sem espelho e em poucos minutos. Sem falar que um coque bem-feito, além de lindo, nos deixa com cara de bailarinas de verdade.
• Para aprender três tipos diferentes de coque, aqui.

E os bailarinos? Eles só estão dispensados, claro!, do item 3. No caso da maquiagem, eles devem saber como tirar o brilho do rosto e ressaltar os olhos, ou fazer uma maquiagem específica de seu personagem. Não podemos confundir: a maquiagem do dia a dia é para ressaltar a beleza; do palco, é parte do personagem tanto quanto o figurino. Por isso, bailarinos não só podem, como devem usá-la. Quem quiser assistir a um vídeo em que duas bailarinas e um bailarino falam sobre a importância da maquiagem, aqui.

Aprenderam? Agora, vamos lá, todo mundo cuidando daquilo que é seu.

A maquiagem da personagem

Talvez, um dos aspectos mais relegados dos espetáculos seja a maquiagem. Eu mesma fiz uma série de posts sobre o assunto ano passado e o tratei como se fosse uma coisa básica, só um pouco mais elaborada do que a maquiagem do dia a dia.

Mas não é assim.

Este vídeo do The Australian Ballet mostra duas bailarinas e um bailarino – Kirsty Martin, Amy Harris e Ben Davis – se maquiando para seus respectivos papéis e falando sobre a importância da maquiagem na caracterização da personagem e outras coisas mais. Está em inglês, mas vale assistir mesmo assim.

Processos de criação

Uma das diferenças cruciais entre o estudo de teatro e de dança reside, justamente, nos processos de criação. Enquanto no primeiro passamos por várias etapas de construção de uma peça, mesmo com toda a supervisão do diretor, na dança, isso não acontece. No máximo, ensaiamos a nossa parte e acatamos o professor/coreógrafo. E fim de papo.

Talvez, por ter feito teatro por cinco anos, sinto uma falta imensa de participar de processos de criação. Às vezes, esqueço o assunto, mas basta assistir a qualquer documentário ou vídeo que essa vontade retorna. Quem sabe seja esse o motivo de “espetáculos de final de ano” nunca me satisfazerem como deveriam. Sou apenas um detalhe: não os vejo sendo construídos.

Claro, sei que na dança é diferente, inclusive profissionalmente. São raras as companhias em que os bailarinos também são criadores.

Mas, confesso, eu queria era participar do processo do começo ao fim.

Assistam ao vídeo sobre AMOVEO, criado por Benjamin Millepied, com Aurélie Dupont e Nicolas Le Riche, da Ópera de Paris.

Como não se apaixonar por algo assim, alguém me diz?

Teatro de Dança

Para quem não conhece, o Teatro de Dança é um espaço em São Paulo específico para dança. Fica no Edifício Itália, onde temos a visão mais ampla e bela da cidade, especialmente à noite. Há espetáculos, cursos, workshops e locação para estúdios de dança. Bacana, certo? Pois o Teatro de Dança está prestes a ser fechado pelo Governo do Estado de São Paulo.

Eu sei, é algo específico desta cidade. Mesmo assim, acredito que um espaço de dança a menos em um lugar afeta a dança no país inteiro.

Quem me contou foi a Tatiana, querida leitora. Ela me mandou o link do abaixo-assinado criado pela Cooperativa Paulista de Dança para tentar salvar o teatro. Vamos assinar?

Quem quiser contribuir, aqui.
Quem quiser conhecer o Teatro de Dança, aqui.